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Entregue ao abandono, TVE precisa ser reestruturada e repensada

1 jun

Déficit de 57% no quadro funcional, falta de motoristas, apenas um repórter em dezembro, último concurso ocorrido há mais de dez anos, apenas R$ 425 mil destinados a investimentos neste ano, equipamentos defasados, outros abandonados, 30 das 40 retransmissoras fora do ar. Esse é o quadro da TVE, a TV Pública do Rio Grande do Sul, apontado por relatório elaborado pelo presidente da Fundação Cultural Piratini – que controla a emissora –, Pedro Luiz Osório.

Segundo o relatório, o total de recursos para investimentos não executados entre os anos de 2007 e 2010 foi de R$ 2 milhões. Em 2008 foram investidos apenas 3,99% de um total de R$ 117,9 mil. As informações são do Jornal JÁ. Parte da situação terrível é resultado da falta de aplicação de investimentos programados para a emissora. A totalidade da situação é resultado da ausência completa de Políticas Públicas para a comunicação nos últimos dois governos gaúchos – Yeda Crusius (PSDB) e Germano Rigotto (PMDB).

O sucateamento da TVE não é novidade. Em 2005, na tribuna da Assembléia Legislativa, o deputado petista Fabiano Pereira fez diversas denúncias sobre abandono e ingerência político-partidária na emissora durante o governo Rigotto. Na gestão de Yeda, a situação piorou, conforme comentamos, por exemplo, NESSE post do Jornalismo B. Yeda botou à venda o prédio onde operava a TVE e aprofundou seu aparelhamento político. Uma situação que, nos últimos oito anos, quase levou à extinção tanto a emissora de TV quanto a FM Cultura, rádio também ligada à Fundação Piratini.

Em entrevista ao Jornalismo B, a atual secretária de Comunicação do governo estadual, Vera Spolidoro, afirmou que

A Fundação Piratini deve ser cada vez mais pública e menos estatal. Há um esforço, no país, para que isso aconteça, a partir da criação da EBC-Empresa Brasileira de Comunicação. A TV Piratini e a FM Cultura estão sendo revitalizadas, dentro do espírito que defendemos de pluralidade, tanto na emissão de opiniões por parte dos veículos, como de possibilitar um espaço para que as vozes da sociedade sejam ouvidas.

As dificuldades são enormes, mas a TVE precisa ser repensada e reestruturada para passar a servir aos gaúchos, a servir ao interesse público. As emissoras públicas de televisão são fundamentais para a democracia, para pluralizar o acesso à voz, o direito de se expressar. Mas, como já foi dito AQUI, “as TVs estatais brasileiras têm de rever conceitos”. O abandono da TVE durante os dois últimos governos é sintoma da falta de apresso democrático dos governantes, e precisa ser urgentemente revertido. Mas pensar a qualidade da programação e formas de aproximar a sociedade da emissora é fortalecê-la, fazer com que cumpra seu papel, e blindá-la para que sua sobrevida seja também garantia de continuidade nas Políticas Públicas de comunicação. É importante, nesse sentido, que a sociedade organizada participe dessa reconstrução.

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Tarso ressuscita Orçamento Participativo e Zero Hora diz que OP “perde força”

21 fev

Vamos lá, crianças, sei que vocês são capazes de resolver a seguinte equação: quando algo que não existe passa a existir, dizemos que esse algo “perde força”. Verdadeiro ou falso? Verdade ou mentira? Qualquer criança sabe dizer que isso é mentira. Mesmo assim, é essa a informação que consta no título da página seis da edição de hoje do jornal Zero Hora. Por quê? Fácil descobrir.

Criado pelo PT no Rio Grande do Sul como forma de abrir portas de participação da sociedade nas decisões governamentais, o Orçamento Participativo Estadual foi extinto pelo governo Germano Rigotto (PMDB), e sua extinção foi mantida pela última governadora, Yeda Crusius (PSDB). Agora, com o PT de volta ao governo do Rio Grande do Sul, o governador Tarso Genro decidiu reativar o programa, além de montar no Estado outros espaços participativos. Pela ampliação da estrutura de participação, o OP não terá status de secretaria. Esse é o resumo da notícia, mas não o resumo da matéria publicada em Zero Hora.

Enquanto o portal Sul 21 noticia o fato de forma óbvia e clara (“RS volta a ter Orçamento Participativo”) e traz uma entrevista com Cecília Hypólito, que vai comandar o OP, Zero Hora briga com a notícia. O título é “Orçamento Participativo perde força”, e a ideia geral é de que, já que não tem o caráter de secretaria que teve em outros governos do PT e já que não é o único espaço de participação popular, o OP está sendo desvalorizado por Tarso.

A matéria é do repórter Carlos Etchichury, dos melhores do jornal, algumas vezes já elogiado aqui no Jornalismo B, o que traz ainda mais espanto. Fato é que Zero Hora criticou seguidamente o Orçamento Participativo durante seus anos de implantação inicial, e agora publica matéria lamentando seu “enxugamento” no exato momento em que o OP é ressuscitado. Outra: Zero Hora adora cobrar – com razão – dos governos petistas as promessas não cumpridas, mostrando suas próprias matérias nas quais constavam as tais promessas. Nesse caso, porém, esqueceu de comentar textos do próprio jornal (AQUI e AQUI) nos quais Tarso explicava que, eleito, faria exatamente o que está fazendo agora: trazer de volta o OP e montar outras formas de participação popular.

Estrela dos governos petistas, referência no mundo inteiro, bandeira fundamental da esquerda gaúcha, o Orçamento Participativo é relançado. Motivo de comemoração, de palmas? Seria o normal. Exatamente por isso Zero Hora tenta criar um factóide para esvaziar a importância democrática da ação do governo Tarso. A matéria, que ocupa quase uma página inteira, se dedica a mostrar como Tarso está esvaziando o OP, quando na verdade o relança. Invertendo totalmente os fatos, Zero Hora briga a foice com a verdadeira notícia.

Postado por Alexandre Haubrich

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Construindo percepções sobre a segurança pública

15 nov

Em dois dias, domingo e segunda-feira, Zero Hora publicou duas reportagens nas páginas 4 e 5 que são exemplares da forma como o jornal trata a questão da segurança pública no Rio Grande do Sul. Exemplares não apenas pelo posicionamento que o jornal toma, mas pela forma como se complementam e podem ser analisados os dados apresentados nas duas matérias.

A primeira reportagem, publicada no último domingo, traz “10 desafios de Tarso na segurança”, apresentando dados sobre a situação da violência no Estado, dados que mostram uma situação ruim e que deverão ser encarados pelo governador eleitor Tarso Genro (PT). São 10 pontos, e em todos eles os problemas são flagrantes. Destaco os números de quatro áreas específicas, os únicos em que há comparação entre anos anteriores e 2010. A superlotação nas cadeias cresceu muito em relação a 2005. Comparados com índices de 2009, os números de fugas de presídios também cresceram, assim como homicídios e latrocínios.

Nada disso é apresentado como uma herança deixada pela atual governadora, Yeda Crusius (PSDB). Os índices positivos, sim. Ao lado dos dez pontos levantados, há uma “retranca”, com o título “A herança do governo Yeda”. Ali estão as melhorias, como as quedas de roubos e furtos de automóveis e a redução do déficit de efetivos policiais.

E aí entra a reportagem publicada nesta segunda-feira, nas mesmas páginas. Segundo a matéria, uma pesquisa do Instituto Methodus mostrou que a sensação de insegurança dos gaúchos caiu. Além disso, 61,6% dos entrevistados percebeu melhorias na segurança nos últimos meses. As razões para esse resultado vão sendo listadas, mas apenas por um breve momento aparece uma fundamental: o psiquiatra Renato Piltcher afirma que a percepção “pode inclusive ser influenciada pela enxurrada de notícias diárias”.

Esse é, na verdade, o ponto fundamental. Os índices da segurança pública pioram, o ano de 2010 foi o ano da invasão do crack, da proliferação dos roubos a banco… e a percepção no Rio Grande do Sul é de maior segurança. As pessoas criam essa percepção através das informações que chegam a elas, principalmente. E por onde as pessoas se informam, no Rio Grande do Sul, além dos veículos do Grupo RBS?

É ali que se cria essa sensação, com constantes notícias e fotos que mostram o governo Yeda preocupado com a segurança pública, investindo forte na quantidade de policiamento ostensivo. Com reportagens como essa de domingo, cria-se a noção de que as melhorias estão acontecendo às vistas de todos, depois as pesquisas fazem o trabalho de recolher os resultados dessa construção. Em meio ao caos social, a percepção de segurança e de melhorias vindas do governo estadual é quase esquizofrênica, retrato do jornalismo hegemônico gaúcho. Assustar para depois apaziguar é a prática rotineira, diária. Construir o medo para depois mostrar a solução, também.

Postado por Alexandre Haubrich

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Um ciclo virtuoso para alguns, vicioso para muitos

19 ago

O 8º Congresso Brasileiro de Jornais, promovido pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) teve na manhã desta quinta-feira um discurso do candidato à presidência da República pelo PSDB, José Serra. O tucano certamente agradou aos organizadores, reproduzindo o discurso que a grande mídia, fatia da imprensa representada pela ANJ, busca de forma incessante enfiar goela abaixo de seus leitores. De quebra, como também gostam de fazer seus porta vozes – os grandes jornais – Serra bateu forte no governo Lula.

Segundo matéria do site da revista Época, o peessedebista “acusou o governo federal e o PT de tentarem intimidar e censurar a imprensa nos últimos anos”. Também disse que a postura do governo com relação à imprensa é “democrática entre aspas”, pela realização de conferências, como a Confecom. “Quantas pessoas participam dessas conferências? Quinze mil? Vinte mil? Isso não representa o povo brasileiro”, afirmou. Os ataques chegaram também a TV Brasil, emissora pública criada no governo Lula.

Não vou aqui me ater a lembranças de atitudes do governo Serra em São Paulo com relação a TV Cultura, ou a prática comum da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, também do PSDB, de pedir entrevistas a TVE a cada nova crise. O desrespeito absoluto de um candidato à presidência com relação a Confecom precisa ser destacado, e profundamente lamentado.

A Conferência Nacional de Comunicação, realizada em dezembro do ano passado, foi resultado de uma grande mobilização da sociedade civil e dos movimentos sociais em busca de propostas que realmente tornem a comunicação livre e a imprensa democrática. Serra demonstrou ignorância e autoritarismo.

O candidato não reconhece nas Conferências, amplamente divulgadas e com participação popular significativa – ainda que não ideal – na construção de propostas para o Brasil. O debate de ideias, para Serra, é inútil, assim como a participação da sociedade na discussão dos grandes temas. Para ele, apenas seu grupinho deve tomar as decisões, sem consultar a ninguém. O diálogo resume-se a pedido de votos. O ódio à participação popular e aos movimentos sociais é a constante.

É preciso entender que é um ciclo. Vicioso para o Brasil, virtuoso para as elites brasileiras e internacionais. A ANJ, representante da imprensa hegemônica, abre espaço para Serra – como abriu também para Dilma e Marina. Serra, então, defende os interesses dessa imprensa dominante que, por sua vez, defende Serra. A manchete da edição de amanhã do Estadão fecha o ciclo, que não vai parar enquanto os mecanismos da sociedade para democratização da comunicação não forem fortalecidos: “Serra acusa governo de tentar intimidar e manipular imprensa”, é o que destaca o porta voz.

* A arte é do www.quantotempodura.wordpress.com

Postado por Alexandre Haubrich

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Carta Capital escreve matéria ficcional sobre Serra e Yeda

17 ago

Ainda que parte dos jornalistas alternativos / independentes não goste, temos insistido aqui que a crítica, tanto à mídia quanto política, precisa ser feita de forma responsável, e não reproduzir a lógica aplicada pelos meios de comunicação dominantes. A Carta Capital, revista semanal brasileira mais séria, com mais credibilidade e com posturas mais transparentes, às vezes erra a mão na defesa do PT, e comete excessos que acabam por colocar em cheque essa confiabilidade.

Uma matéria de Lucas Azevedo, publicada nessa terça-feira no site da revista, traz três invenções ou distorções sobre o ato promovido na segunda-feira, em Porto Alegre, por um grupo suprapartidário em defesa da candidatura à presidência de José Serra (PSDB). Vamos a elas:

Ficção 1 - a linha de apoio:

Durante ato em Porto Alegre, tucano erra nome de candidata e pede votos a Fogaça.

Em nenhum momento Serra pediu votos ao candidato do PMDB. Disse, sim, que Fogaça ou Yeda, “um dos dois vai governar o Rio Grande”, e deu a entender que, na opinião dele, o Estado estaria em boas mãos com qualquer um dos dois. Em nenhum momento ouve “pedido de votos” a Fogaça.

Ficção 2:

Segundo reservadamente afirmaram participantes do encontro, a presença de Yeda no evento não estava programada. A impressão foi a de que ela chegou sem ser convidada, fez um discurso de improviso, e logo, convidada a se retirar.

A participação de Yeda estava confirmada pelo menos desde o final de semana. Um dos motes centrais do evento foi, inclusive, a entrega de um manifesto das mulheres do PSDB-RS a José Serra. Ou seja, não só a presença da governadora estava programada, como Yeda foi convidada, e não foi convidada a se retirar.

Ficção 3:

Posteriormente, ao pedir votos aos deputados estaduais que o apóiam, aos federais, e aos senadores, “esqueceu” de citar Yeda. Questionado por alguns participantes, disparou: “Ah, a Yeda. Vocês sabem que tem o meu partido com a Yeda que é uma grande candidata, uma grande governadora.

Esse “Ah, a Yeda” não existiu. Não dessa forma, não como lembrança que acaba de surgir. Serra citou o nome de Germano Rigotto, candidato do PMDB ao Senado, então se enrolou um pouco, na dúvida se devia tê-lo feito. Apenas isso, e então prosseguiu, chamando Yeda de “uma grande governadora” e elogiando também Fogaça.

A matéria é um conjunto de problemas, uma série de erros que, embora possa agradar a alguns leitores sedentos por sangue, reproduz as práticas de publicações como a Veja. Faz com que o leitor mais atento ponha um pé atrás em relação a outras reportagens da revista, e prejudica, além dela, quem costuma defendê-la e exaltar suas inegáveis qualidades. Não fechar os olhos para deslizes como esse é obrigação de quem defende uma mídia transparente.

Postado por Alexandre Haubrich

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Zero Hora afina discurso com Yeda e defende escolas de lata

13 jul

A reportagem que ocupa toda a página 26 da edição desta terça-feira de Zero Hora poderia ser assinada pela assessoria de imprensa do governo estadual, mas não há qualquer assinatura ali. Poderia também sair como um encarte publicitário, mas está na editoria Geral.

Zero Hora conseguiu a proeza de defender as escolas de lata da governadora Yeda Crusius. E defendeu abertamente, sem qualquer pudor ou senso crítico. Já na capa está uma chamada, e o título da matéria exalta, aos pulos: “Desafio vencido na Serra”, isto abaixo de “Vitória no Contêiner” e acima do subtítulo “Alunos que estudam em salas improvisadas em Caxias têm 4ª melhor nota no Ideb na rede estadual”.

A reportagem é um grande esforço para mostrar que pouco importa se a escola é de cimento, de lata ou de papelão: o que importa é o empenho de estudantes e professores. Ou seja: o ensino no Brasil é horrível porque professores e alunos não estão nem aí, não há responsabilidade do governo nem necessidade de boa estrutura física.

Se um professor fosse questionado sobre as condições ideais de uma escola para facilitar o aprendizado dos alunos, não diria que um contêiner usado como sala de aula seria um bom ambiente de estudos.
Mas os cerca de 200 alunos das duas turmas de 4ª série de 2009 da Escola Estadual Ismael Chaves Barcellos, do bairro Galópolis, em Caxias do Sul, provaram que quem quer aprender, o faz em qualquer lugar.

Os grifos são meus, mas o texto felizmente não é. O texto é a abertura (lide) da matéria de Zero Hora. Primeiro, ZH afirma indiretamente que um contêiner usado como sala de aula é – ou ao menos pode ser – um bom ambiente de estudos. Depois, traz uma nova verdade universal: “quem quer aprender, o faz em qualquer lugar”. A prova disso, para o jornal, é o 4º lugar dessa escola de Caxias do Sul no Ideb.

No final do texto principal da matéria está lá perdida uma frase: “Segundo a professora, no verão as salas ficam muito abafadas, e no inverno é muito frio”. Mas, em seguida, a ideia expressa nessa frase é fortemente esvaziada: “- Não é nada agradável ter aula em contêiner, mas a concentração não sai prejudicada. O lugar não interfere na aprendizagem, se o aluno tem interesse e a escola está empenhada, isso é o que importa – diz”.

Em uma pequena retranca, nova justificativa rápida para um aparente problema levantado: “Embora reforce que contêineres não sejam ambientes adequados para o ensino, ela acredita que há outros aspectos decisivos num aprendizado de qualidade”. Por fim, uma entrevista com o secretário estadual da Educação, Ervino Deon. No texto que introduz a entrevista, ZH diz que Deon usa o mesmo argumento que o próprio jornal usara anteriormente: “O secretário estadual da Educação, Ervino Deon, avalia que a colocação da escola no Ideb é uma prova de que um bom projeto pedagógico pode superar problemas estruturais”.

Como se vê, o discurso do Grupo RBS está fortemente afinado com o do governo Yeda Crusius, chegando ao ponto de dar uma chamada na capa para uma matéria de página inteira que tenta desesperadamente justificar e defender as escolas de lata, questão que certamente será levantada pela oposição na campanha para as eleições que se avizinham.

Postado por Alexandre Haubrich

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Pra que (m) serve a tua imprensa?

25 jun

Em algumas reportagens, o jornal Zero Hora insere um quadro chamado “Para seu filho ler”. Teoricamente, esse quadro serve para explicar com palavras mais simples e conceitos mais gerais o que está contado na notícia, justamente para crianças entenderem. Por essa busca de simplicidade, muitas vezes ali ficam claros alguns conceitos político-culturais defendidos pelo Grupo RBS.

Na edição desta sexta-feira, um “Para seu filho ler” serviu à uma clara tentativa de fazer o leitor assimilar de forma diferente uma matéria publicada muitas páginas depois, além de uma chamada de capa.

Sob a cartola “Reforço à tropa”, a chamada na capa é “Yeda confirma novo concurso para a Brigada”. Abaixo, a “explicação”: “Governadora autorizou 3,7 mil vagas para PMs, sendo 1,8 mil delas para banco de reserva”. Na página 7, aparentemente desconectada desse assunto, uma matéria assinada por Aline Mendes fala sobre os candidatos a vice governador nas eleições desse ano. Desconectada apenas aparentemente. O quadro “Para seu filho ler” remonta a conexão.

Está , em meio a alguns pontos sobre as funções do vice: “O governador é a pessoa que cuida do Rio Grande do Sul e de coisas importantes, como contratar policiais para dar mais segurança aos gaúchos e fazer estradas”. Em primeiro lugar, aí está o que, para Zero Hora, são os melhores exemplos de coisas importantes: policiamento e estradas. Mas o foco aqui não é esse. O mais relevante aqui é a clara e óbvia referência à chamada de capa e à matéria que ocupa a página 50 inteira, além de ter uma retranca na 51.

Com “reportagem” – já explico as aspas – de Adriano Duarte e Diego Adami, toda a página 50 trata de concurso para a BM anunciado em Caxias por Yeda, além da entrega de equipamentos, incluindo um helicóptero. No fim do texto, depois de toda a festa, depois de todos os confetes jogados sobre a governadora, depois de todas as vuvuzelas sopradas, os repórteres lembram-se de contar que antes de 2011 esses policiais não poderão estar nas ruas.

Ou seja: em ano eleitoral, Yeda Crusius anuncia programas atrás de programas, investimentos (para 2011) atrás de investimentos, e Zero Hora apenas comemora junto. E junto mesmo, na mesma voz, no mesmo tom, até com as mesmas palavras. Agora explico, então, as aspas quando chamei de “reportagem” o que foi feito por Adriano Duarte e Diego Adami. O texto é uma cópia descara de um release publicado no site do PSDB. Algumas palavras inseridas no meio, outras retiradas, orações invertidas, uma ou outra informação mudada de lugar. Leia os dois textos, compare, AQUI e AQUI.

Para isso, para legitimar como reportagem a cópia de um release, de uma propaganda, Zero Hora enviou a Caxias do Sul dois repórteres. A dita matéria foi feita para legitimar uma governadora que vai de mal a pior nas pesquisas e que tenta a reeleição, assim como a ideia de que o governador cuida de “coisas importantes como contratar policiais para dar mais segurança aos gaúchos”.

Postado por Alexandre Haubrich

Yeda desiste de privatização do terreno da Fase. Zero Hora não

23 jun

Uma área de cerca de 73 hectares com grande biodiversidade e onde moram 4 mil famílias, um governo estadual despreocupado com o patrimônio público, uma empresa de comunicação que é também uma assessoria de imprensa de uma empreiteira. Esses são os personagens do post de hoje.

Exigida pela Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a descentralização da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase) vinha sendo conduzida pelo governo estadual de forma “estranha”. O Grupo RBS, dono do monopólio da informação no Rio Grande do Sul, vinha ignorando ou buscando esvaziar o debate sobre o polêmico projeto de reestruturação da Fase, que previa a privatização do tal terreno. Talvez – só uma possibilidade – porque uma das empreiteiras interessadas em construir grandes prédios na área fosse a Maiojama, construtora da família Sirotsky, os donos da RBS.

Enfim, tudo isso já foi abordado em outros posts aqui do Jornalismo B, mas agora a novidade é que nesta quarta-feira a governadora Yeda Crusius decidiu, após grande pressão popular, retirar o projeto de pauta. E, mais uma vez, o jornal Zero Hora, do Grupo, distorceu o verdadeiro mote do debate.

Na matéria “Piratini discute estratégia para descentralizar Fase”, não assinada, o jornal foca nas ações políticas “bem intencionadas” de Yeda na busca por uma melhoria na situação dos adolescentes lá internados. Quase todo o texto principal é uma tentativa de mostrar que, como não é turrão e cedeu, o governo já está buscando novas alternativas.

Em seguida, uma retranca (subtítulo), entitulada “Recuo do governo deixa apoiadores preocupados” traz declaração da OAB que fala da importância da descentralização da Fase.

Apenas no final, no penúltimo parágrafo, a matéria lembra, assim, por cima, que as críticas dos moradores e das diversas entidades que gritaram contra o projeto não eram por causa da ideia de descentralização – reconhecida como necessária. As críticas e mobilizações se deviam, sim, à privatização desse enorme patrimônio dos gaúchos e à possível expulsão das 4 mil famílias que moram no local. É apenas um parágrafo, e que fala, furtivamente, em “áreas de preservação ambiental”, “destino de famílias que vivem no local” e “falta de informações”. O último parágrafo, para fechar com chave de ouro, é uma declaração do presidente da Fase, que cede a voz para a Zero Hora afirmar que o projeto “não foi bem compreendido por desinformação”.

Por fim, a matéria não fala, em momento algum, da questão eleitoral aí envolvida. Esquece ou ignora qualquer possibilidade de o governo ter retirado o projeto de pauta pela proximidade com as eleições, para evitar repercussões ruins eleitoralmente falando. Dá a entender – ou afirma – que a retirada foi para tornar a decisão mais democrática, e “resolver essas questões”, como afirma o presidente da Fase. Pode ser. Mas nem questionar a respeito da proximidade eleitoral é, no mínimo – no mínimo, destaque-se – inocência.

Vale ressaltar que a editora de política do jornal, Rosane de Oliveira, falou, em sua coluna desta quarta, da importância eleitoral do assunto. Estranhamente, a reportagem silenciou, novamente.

Postado por Alexandre Haubrich

Discrepância

7 jan

Um fenômeno interessante pode ser observado no portal da Zero Hora.

Suas manchetes de maior destaque no momento envolvem a situação de Agudo e da queda da ponte do Rio Jacuí. Manchetes que incluem mortes, drama de sobreviventes, rodovias interditadas, 18 municípios em estado de emergência, órgãos públicos avaliando que outras pontes do Estado estão sujeitas a queda. Uma imagem de caos no Estado é o que a sobreposição dessas chamadas sugere, pelo menos pra mim – e ouso dizer que também para boa parte dos leitores.

E no meio de toda essa situação, encontramos este depoimento da governadora Yeda Crusius. Em uma linguagem circular, de pouca desenvoltura e conteúdo – já velha conhecida do público que acompanha as declarações públicas da governadora -, Yeda faz uma explicação simplificante (estilo “para o seu filho ler”) da situação da ponte e ressalta que apesar de esta em especial ter desabado catastroficamente, “as pontes são muito firmes”.

O problema aqui não é a declaração da governadora em si. Yeda pode declarar o que bem entender, e, afinal, o que se espera dela é algo mais ou menos nesses moldes. O que chama a atenção é como Zero Hora parece transformar o tão alardeado (talvez até dramatizado em excesso) caos do Estado em algo que se dissocie de suas forças governantes. Ao que parece, a princípio o governo não teria nenhuma responsabilidade sobre a tragédia ocorrida: foi algo que surgiu do nada.

Zero Hora tem fama de brigar com a notícia, e nesse caso sem dúvida o fez. Mas parece ter se esquecido de manter ao menos uma homogeneidade na negação dos problemas do Rio Grande do Sul, e tentou disfarçar em uma matéria o que alardeou em outras. Discrepância.

Artigo de Luiza Monteiro

Zero Hora ponto com esconde e justifica nova denúncia do PSOL

8 dez

Enquanto o PSOL fazia na tarde desta terça-feira novas denúncias contra o governo estadual do PSDB, liderado por Yeda Crusius, ficou claro mais uma vez quem anda fazendo bom jornalismo e quem anda fazendo politicagem na imprensa gaúcha. As denúncias se referiam à compra de uma casa de R$ 310 mil por Tarsila Crusius, filha de Yeda. Segundo o PSOL, Tarsila não teria renda suficiente para a aquisição. O partido pediu a abertura de investigações sobre o assunto.

O RS Urgente, blog do jornalista Marco Weissheimer, fez uma cobertura minuto a minuto da entrevista coletiva do PSOL através do Twitter. O blog Caras Pintadas, ligado ao novo movimento estudantil gaúcho, apresentou logo em seguida uma boa matéria resumindo as denúncias, matéria esta logo reproduzida em outros blogs, como o Dialógico. E o jornal mais vendido do Rio Grande do Sul, enquanto isso, o que fazia? Praticamente nada.

No site da Zero Hora, a única cobertura das denúncias pode ser encontrada no blog da Rosane de Oliveira, e essa cobertura pouco faz além de buscar justificativas. A primeira notícia – ou o primeiro comentário – foi feito por Rosane às 14h12min e, após apresentar as denúncias do PSOL, afirma, quase aconselhando ou quase torcendo, escolha você mesmo: “Tarsila pode ter uma boa explicação para a origem dos recursos e deve apresentá-la antes que cresça a bola de neve (…)”.

A segunda postagem de Rosane (e segunda “matéria” da Zero Hora ponto com sobre o tema) foi para o ar às 16h59min, com a justificativa de Tarsila, que não é posta em dúvida em qualquer momento do texto. Segundo o advogado da filha de Yeda, ela tomou empréstimo para comprar a casa.

A única chamada sobre o assunto na capa de Zero Hora ponto com é uma chamada secundária na cartola “Política”, sendo que esta já não está muito destacada, e diz “Filha de Yeda fez empréstimo para comprar casa”. Não há contestação, não há dúvida. Zero Hora, através de seu site, assume a posição de Tarsila como verdade absoluta. Ao menos temos os blogs (os que ainda não foram censurados) para mostrar que o que ZH diz não tem nada de absoluto, e costuma ter pouco de verdade.

Postado por Alexandre Haubrich

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