O jornalista e blogueiro Rodrigo Vianna advertiu na última quarta-feira que a mídia dominante brasileira tem se transformado em um espaço de reforço à direita venezuelana em sua luta contra o presidente daquele país, Hugo Chávez. Como demonstrou Rodrigo, a fonte prioritária dos últimos lances midiáticos tem sido o jornalista venezuelano Nelson Bocanera. E o primeiro a repercutir, por exemplo, a “informação” de que Chávez viria tratar-se no Brasil foi Merval Pereira.
É importante, antes de mais nada, refletirmos sobre quem são esses dois personagens.
Nelson Bocanera, citado pelo Wall Street Journal como “leitura obrigatória pra quem vai “investir” na Venezuela”, trabalhou para a RCTV e a Venevizion, duas das maiores televisões privadas da Venezuela, ambas construtoras do Golpe de Estado que, em 2002, roubou a presidência de Chávez por algumas horas. Agora, Bocanera trabalha para o El Universal, um dos maiores jornais antichavista do país. Tuiteiro e blogueiro, o jornalista costuma republicar afirmações de políticos da oposição, como Maria Corina Machado, uma das pessoas que esteve à frente do Golpe de 2002.
Merval Pereira trabalhou a vida inteira na Rede Globo, e notabilizou-se nos últimos anos como uma das principais expressões da direita midiática antilulista. Tanto que virou colunista, entrevistado e orador de encontros do Instituto Millenium.
O Instituto Millenium é uma entidade criada em 2005 com o objetivo de trazer para sua órbita a nata da direita brasileira. Possui como apoiadores instituições como o Instituto Liberal e o Movimento Endireita Brasil. Entre seus conselheiros, estão João Roberto Marinho, Roberto Civita, Jorge Gerdau, Luiz Eduardo Vasconcelos, Gustavo Franco e Pedro Bial. Seus princípios, segundo o site da organização, são “liberdade individual, propriedade privada, meritocracia, estado de direito, economia de mercado, democracia representativa, responsabilidade individual, eficiência e transparência”.
Em uma estranha escolha, Merval tornou-se também membro da Academia Brasileira de Letras, tendo publicado apenas dois livros (um escrito a quatro mãos, há décadas, e outro com uma seleção de artigos contra Lula). Em uma rápida busca, é possível encontrar artigos do “escritor” ou matérias sobre ele com trechos do tipo: “Merval acredita na necessidade em aperfeiçoar o sistema e aprofundar as discussões baseadas no lucro e em questões sociais: “O capitalismo não vai acabar e o socialismo não é uma alternativa. (…)”, ou “O Lulismo é resultado do mensalão e das políticas assistencialistas”.
Merval sempre criticou Chávez, afirmando que a Venezuela, assim como o Equador e outros países governados pela esquerda latino-americana, “se aproxima de um ditadura”. Nos últimos meses, “virou um setorista da doença de Chávez, só que com base em informações distorcidas”, segundo um texto publicado no blog Ficha Corrida.
Pois, obviamente, as intrigas da dupla Bocanera – Merval chegaram ao Rio Grande do Sul, a princípio através de Políbio Braga, uma espécie de Merval Pereira sem grife, e em seguida na editoria de Mundo do jornal Zero Hora, sempre preparada para atacar os governos progressistas que vêm ganhando força na América Latina desde o fim da década de 1990. Zero Hora também entrevistou Bocanera e usou o jornalista como fonte única em uma matéria de sete parágrafos sobre as “revelações” de Bocanera e Merval. Segundo a matéria, o venezuelano agora revela como o Chávez “mudou de ideia” sobre a possibilidade de tratar-se no Brasil. Ao invés de admitir o erro e a precipitação da informação repercutida por Merval, contorna-se a barriga.
A propaganda política em forma de guerrilha midiática, travestida sempre de jornalismo isento, é tática comum do imperialismo estadunidense em todos os locais onde tem interesse em atuar. O Departamento de Estado conta sempre com a colaboração da grande mídia internacional, que trabalha alimentando redes de boatos e de ataques de lado a lado. É similar ao que acontece em Cuba com a blogueira Yoani Sánchez. A “notícia” é dada na Venezuela, mas o povo venezuelano acredita cada vez menos na mídia privada do país. Também desconfia das agências e dos grandes jornais estadunidenses. Então a “informação” é enviada ao Brasil, onde é repercutida ao máximo, em todos os veículos aliados do capital internacional – alguns funcionários desses veículos já foram pegos pelo Wikileaks colaborando diretamente com o governo dos EUA, por exemplo. E fecha-se o círculo fazendo-se com que a matéria publicada por aqui seja devolvida à Venezuela, tornando o veículo brasileiro a nova fonte – aparentemente confiável para o venezuelano médio, que, como escreveu Rodrigo Vianna, não conhece o histórico ou a conjuntura atual da mídia brasileira.
*Em fevereiro já mostrávamos AQUI o posicionamento da velha mídia brasileira em defesa de Henrique Capriles, adversário de Chávez nas eleições que se avizinham.
Siga www.twitter.com/jornalismob e www.twitter.com/alexhaubrich

















