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O fim de um bom ano, o caminho de uma grande batalha

23 dez

Com este texto o Jornalismo B encerra um grande ano. As mobilizações por democracia real avançaram por todo o planeta, e nossa luta por democracia midiática (condição necessária para que tenhamos democracia em toda a sociedade) também. Em nenhum outro momento nestes mais de quatro anos de blog tivemos mecanismos tão eficientes de divulgação dos nossos textos e de interação com o leitor interessado em construir junto conosco este grande espaço de debates à esquerda.

O blog se aproxima dos 600 mil acessos, sendo cerca de 215 mil apenas em 2011, mesmo com alguns meses abaixo do esperado. Em maio e novembro a média foi de quase mil acessos diários. No Twitter, já são 6 mil os que nos acompanham, e se multiplicam os acessos ao blog via Facebook. Nossos parceiros, que ajudam a divulgar os posts do Jornalismo B, ganham espaço nas redes sociais.

O Jornalismo B Impresso, pedaço fundamental desse projeto, também cresce. Já entregamos 33 edições quinzenais, distribuídas gratuitamente graças ao financiamento de dezenas de assinantes que recebem o jornal em casa e ainda ajudam a manter a distribuição gratuita nas ruas, expandindo e divulgando as vozes de todas as esquerdas.

É nesse espaço, incluindo blog, jornal e redes sociais, que queremos cada vez maior participação e inserção de todos os grupos e indivíduos interessados na luta por democracia real. Assinar o Jornalismo B Impresso é um ato político, assim como indicar nossos posts. Através das redes sociais, dos comentários do blog e do nosso email, também é possível aprofundar o debate, participar de outra forma da construção desses espaços.

Agora o Jornalismo B para em um rápido recesso. Os posts diários voltam no dia 9 de janeiro, e o jornal volta a circular na primeira quinzena de março. Durante os dois meses de verão, como já é tradicional aqui, encheremos o blog de colaborações de pessoas que lutam junto com o Jornalismo B por uma mídia brasileira democrática e por uma mídia independente forte.

Quando voltarmos, voltaremos com novidades, e precisaremos ainda mais do apoio de quem nos acompanhou até aqui e de quem não cansa de batalhar essa difícil batalha do enfrentamento aos barões da mídia e ao monopólio da voz. Que venha 2012. Vamos juntos a ele.

* Para assinar o Jornalismo B Impresso, em qualquer lugar do Brasil, basta entrar em contato pelo bjornalismob@gmail.com. Os valores para assinatura são R$ 30 (3 meses), R$ 50 (6 meses) e R$ 100 (12 meses).

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Encontros de blogueiros se espalham e aprofundam reflexões

11 out

Há dois anos e meio o Jornalismo B promovia, em Porto Alegre, um debate sobre “Bloguismo e jornalismo”. Em abril de 2009 não havia Confecom, não havia Encontro Nacional de Blogueiros e pouco se debatia seriamente sobre as possibilidades jornalísticas de blogs e redes sociais. Mais de 50 pessoas lotaram, naquela noite, a livraria Letras e Cia, e debateram com os convidados Adriano Santos, Marco Weissheimer e Roger Lerina.

O Celeuma, de Adriano, está inativo desde 28 de janeiro de 2011. O Bloger Lerina segue com posts quase diários hospedados no ClicRBS. E o RS Urgente, de Weissheimer, mudou de endereço em maio de 2010 mas segue sendo – cada vez mais – uma referência de jornalismo de qualidade no Rio Grande do Sul. E os debates sobre bloguismo e o jornalismo, para onde foram?

Nesses dois anos e meio os paradigmas já mudaram muito. Os blogs ganharam força, confiança da sociedade e organização interna. As redes sociais ganharam adeptos, o Twitter se transformou em uma grande rede de transmissão de informações e o Facebook vai se firmando no Brasil como o principal espaço de circulação de vídeos, fotos e textos não tão curtos quanto o Twitter e não tão longos quanto os blogs. A expansão dessas redes fortaleceu, por tabela, os blogueiros enquanto comunicadores independentes. Ao mesmo tempo, a crescente popularização da internet e a compreensão de seus mecanismos faz com que a sociedade comece a se acostumar com os blogs como fonte de informação – ao menos complementar à ainda hegemônica televisão.

Além da dinâmica externa à própria ação dos blogueiros, as mudanças que se processaram nesse meio tempo têm muito a ver com a dinâmica interna, de aprendizado empírico e teórico próprio, além da troca de experiências cada vez mais constante. Os encontros se multiplicaram, e, no fim de outubro, teremos em Foz do Iguaçu o Encontro Mundial de Blogueiros, com grande protagonismo dos brasileiros e participação de nomes do quilate de Ignacio Ramonet.

Esses encontros são ótimas oportunidades para se debater presencialmente o que pensamos diariamente. Nossas ideias enquanto blogueiros e comunicadores independentes surgem, em grande parte, justamente do contato diário com o trabalho de outros como nós, e encontros assim são momentos para reorganizar essas ideias e nossas ações. Ainda há muito o que avançar, porém. A distância entre os diversos encontros de blogueiros que têm acontecido no Brasil e os movimentos e organizações sociais ainda é imensa, e dificilmente o Encontro Mundial irá superar essa dificuldade. Essa é uma ponte que necessariamente deve ser feita se queremos ocupar espaço efetivo na disputa hegemônica com a velha mídia. A luta dos povos oprimidos precisa ser a luta da mídia independente, e vice-versa. Essa aproximação é um passo ainda não dado. Mas seguimos caminhando.

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A reinvenção do jornalismo na internet

6 out

Com todas as suas limitações, que vão desde a diluição de informações até a dificuldade de identificar, a curto prazo, quem é quem no enorme mar de veículos, a internet vem facilitando profundamente a ascensão de uma nova mídia.

O acesso à internet ainda não chega a toda a população, mas logo chegará. Blogueiros e twitteiros ainda engatinham na arte de se fazer jornalismo via web, mas, aos poucos, entende-se melhor o terreno e, dessa forma, aprimoramos o conteúdo e as formas de veiculá-lo. A confiança da população no webjornalismo, especialmente nos blogs, ainda não está consolidada, mas caminha para um processo de fortalecimento a partir do momento em que o acesso e produção de conteúdo se tornam corriqueiros.

Se a evolução da internet enquanto possibilidade de difusão de informações é visível, um dos motivos óbvios é o barateamento da mídia independente. Sem qualquer custo veiculamos conteúdo acessível também a custo baixo – pagando-se apenas o serviço de internet.

A grande dificuldade para se fazer webjornalismo de forma independente ainda é encontrar formas de produzir reportagens. Aí sim os custos são altos. No mínimo paga-se o deslocamento, e o tempo dedicado à produção de uma boa matéria é muito maior, por exemplo, do que o tempo que se precisa separar para escrever artigos de opinião – por mais embasados que sejam estes.

Ainda assim, a facilidade para a veiculação desses conteúdos e a demanda por eles que começa a aumentar em uma dinâmica de aprendizado sobre o uso jornalístico da internet, surgem aqui e ali alguns guerreiros do bom jornalismo. Um bom exemplo é a Revista O Viés, que chega, na próxima segunda-feira, a sua edição número 100.

São dez jornalistas, estudantes, que atropelam os empecilhos do tempo e da falta de apoio financeiro e produzem reportagens de alto nível jornalístico, veiculadas em uma “revista digital”. Reportagens e artigos aprofundados, textos com vocação literária, charges de um baita jornalista do traço. Trabalho cooperativo típico, em que as pequenas diferenças são superadas pelos interesses maiores – não só dos integrantes da revista, mas da sociedade. São esses elementos, aliados a um viés comum – o jornalismo de rua, de frente para o povo e de costas para os gabinetes – que fazem da junção de diversos vieses uma expressão gritante do novo bom jornalismo brasileiro, ou do bom novo jornalismo brasileiro.

Muito já se falou da internet como forma de aprisionar os jornalistas na preguiça dos computadores, mas o jornalismo de internet abre as portas para quem quer estar nas ruas, fazendo vídeos, entrevistas, tirando fotos. A portabilidade do próprio veículo se transforma em grande vantagem quando aprendemos a usá-la – e queremos fazê-lo. O bom jornalismo de internet expulsa o repórter de casa, e amplia seus horizontes e os horizontes dos leitores, e abre a brecha necessária para que entrem também, para fazer companhia às grandes reportagens, análises absolutamente independentes, cujo único compromisso é com o leitor, já que é ele, o leitor, o único patrão, que fechará sua janela imediatamente se perder a confiança – e não abrirá novamente.

É um jornalismo que se reinventa no ritmo em que cresce a internet, e que vai mostrando que há, no horizonte brasileiro, a possibilidade de deixarmos de ter uma das piores mídias do planeta. Temos bons jornalistas por aí, e começamos a atropelar a lógica que os marginaliza e os impede de trabalhar como gostariam.

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Legalização do aborto é debatida na web e silenciada na grande mídia

28 set

O artigo a seguir é uma colaboração de Niara de Oliveira*, especial para o Jornalismo B

O Dia Latino-Americano pela Legalização do Aborto na América Latina e Caribe de 2011 foi marcado no Brasil por uma blogagem coletiva convocada pelas Blogueiras Femenistas e por um tuitaço (esforço concentrado na rede social e microblog Twitter) que manteve a hashtag #legalizaroaborto em 1º lugar nos Trending Topics Brasil – como expressão mais citada no Twitter – durante quase todo o dia.

Se por um lado o esforço virtual das feministas nas redes sociais foi um sucesso, não podemos dizer o mesmo dos demais meios de comunicação que sequer citaram o dia 28 de setembro, e isso vale também para a ampla maioria das chamadas redes da imprensa alternativa. Basta fazer um busca rápida no google para comprovar. Afora o próprio Blogueiras Feministas juntamente com os blogues individuais que atenderam ao chamado da blogagem coletiva, apenas a Revista Fórum – que republicou um texto da jornalista Karol Assunção, da Adital e um texto excelente do Túlio Vianna – e a Rede Brasil Atual – registrando a atividade das feministas em São Paulo – deram atenção ao assunto. Para os demais, passou batido.

O movimento feminista tem apenas três datas durante o ano em que concentra esforços e organiza coletivamente atividades e ações unificadas para terem o mínimo de destaque. São elas o 8 de Março – Dia Internacional da Mulher -, o 28 de setembro e o 25 de novembro – Dia Latino-americano de luta pelo fim da violência contra a mulher -, e até as pedras sabem disso. Não dar destaque vendo toda essa movimentação e barulho que fizemos é uma opção e sabemos disso.

Sabíamos também que a grande imprensa não tocaria no assunto. Afinal, para uma imprensa preconceituosa (vide o mico internacional pago no dia anterior com o título de Doutor Honoris Causa do Instituto Sciences Po, da França, concedido ao ex-presidente Lula) e com recortes claros de classe, não faz sentido divulgar uma luta que se preocupa com a vida de mulheres pobres e negras, as grandes vítimas de abortos mal feitos no país. Além de ser um assunto polêmico pelo seu viés moralista e religioso, sabemos que a grande imprensa só o usa quando lhe é útil, como no caso da campanha eleitoral de 2010 em que a então candidata Dilma Rousseff foi “acusada” de defender a legalização do aborto e criou-se um clima de pânico em torno da questão.

Mesmo sabendo que o assunto só foi explorado por um erro monumental da coordenação da própria candidata, que respondeu oficialmente num dos programas de tevê a um spam (a versão eletrônica dos boatos, algo muito comum em todas as campanhas eleitorais), o resultado para as mulheres e para a luta pela descriminalização do aborto no Brasil foi desastroso. O movimento feminista tem muito a recuperar nessa luta específica do aborto e demonstra estar disposto a isso. Falta apenas conseguirmos colocar o bloco pró-legalização do aborto na rua, tal e qual estamos fazendo com a marcha das vadias (slutwalk) – passeatas pelo fim da violência contra mulher, pelo direito de nos vestirmos como quisermos e pelo direito ao nosso corpo. Quem sabe não esteja aí o viés, o ponto comum, entre essas duas lutas tão necessárias do movimento feminista.

Os links dos principais posts que circularam através da hashtag #legalizaroaborto e #AbortoLegal (hahstag usada pelos demais países latino-americanos) estão no post Blogagem Coletiva Pela Descriminalização e Legalização do Aborto do Blogueiras Feministas. Além deles tivemos dois guest posts no blog Escreva Lola Escreva – “Fiz um aborto e não sofri” e “Fiz um aborto e quero respeito” -, um post excelente da Cynthia Semiramis “pela legalização do aborto” e o excelente texto do Dr. Drauzio Varella sobre “a questão do aborto“:

“Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros.”

Nesta blogagem coletiva o destaque vai para o texto da jornalista Amanda Vieira, que questionou: “e o desejo de ser mãe, onde fica?“, e chamou a atenção para o fato de que essa mesma sociedade que proibe o aborto e condena milhares de mulheres à morte por abortos mal feitos (as pobres e negras, porque as ricas e brancas o fazem confortavelmente assistidas em clínicas sofisticadas) não dá nenhuma assistência à maternidade. 

No tuitaço, um destaque especial ao Leonardo Sakamoto e ao Drauzio Varella que além de manterem o bom humor, passaram o dia juntos conosco na hashtag respondendo a verdadeiros absurdos e argumentando sem rebaixar o debate ao nível das acusações que nos foram feitas.

*Niara de Oliveira é jornalista – www.pimentacomlimao.wordpress.com

Existem novas mídias no Brasil?

15 set

Nesta semana o jornalista Luiz Carlos Azenha publicou em seu blog, o Viomundo, um texto apresentado em um seminário em São Paulo. A tese de Azenha, que parte da recuperação da história da mídia brasileira, é de que não existem “novas mídias” no Brasil, que os blogs e as redes sociais são apenas “a velha mídia que trocou de roupa”, já que seus espaços têm sido ocupados pelos mesmos grupos que já dominam a comunicação brasileira.

A análise de Azenha é, além de importante em si mesma, ainda mais interessante em um momento em que o otimismo com relação às “novas mídias” é a regra quase obrigatória da esquerda brasileira, e não apenas a esquerda ligada diretamente à mídia. As mudanças no Norte da África e as manifestações em alguns lugares da Europa, como a Espanha e a Grécia, todas elas impulsionadas, em medidas diferentes, pelas redes sociais, trouxeram uma grande carga de otimismo para o que pode ser feito com os mesmos fundamentos no Brasil. Mas não se pode exportar – ou importar – revoluções.

O contexto brasileiro, como bem lembra Azenha, é de domínio completo de uma mídia diretamente ligada ao poder político, que se adaptou às mudanças tecnológicas e conseguiu manter seu controle sobre toda a informação em circulação no Brasil. Porém, se não compartilho do otimismo exacerbado – às vezes fingido, talvez – de quem vê no Brasil a possibilidade de reproduzir, em qualquer medida que seja, as mudanças que vêm acontecendo pelo mundo, também não compartilho do pessimismo do blogueiro do Viomundo.

Concordo com Azenha quando se pergunta, retoricamente: “Quem terá mais “likes” no Facebook, uma emissora de TV que é vista por milhões ou eu? Quem terá mais seguidores no Twitter, a Patrícia Poeta, que aparece na Globo, ou o Leandro Fortes?”. Mas entendo que a questão ultrapassa a disputa entre a Globo e o blogueiro, entre a Patrícia Poeta e o Leandro Fortes. Há, sim, uma forma de disputar esse espaço de forma efetiva. Quem é a Patrícia Poeta contra centenas, talvez milhares de blogueiros, twitteiros e militantes da web? Esse é o ponto fundamental que distingue as possibilidades da internet das possibilidades já abertas por todas as outras formas de comunicação. A possibilidade do trabalho cooperativo como forma de disputa concreta contra os personagens que migram das mídias tradicionais. Ainda é um processo muito experimental, em início de gestação, mas as possibilidades se apresentam, sim.

A essa enorme porta aberta pela comunicação colaborativa soma-se o baixo custo econômico de se produzir conteúdo a ser veiculado na internet. Com esses dois elementos, é possível competir de forma contra-hegemônica real. E, a partir dessa competição nascida na internet, pressionar por uma mudança profunda no paradigma comunicacional brasileiro, com alterações legais que derrubem o monopólio midiático.

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Cruzamento de dados demonstra: blogs começam a superar jornais

23 ago

Na última semana uma pesquisa da CNT/Sensus sobre a popularidade da presidenta Dilma Rousseff apurou também a força da blogosfera e das redes sociais. Segundo relatou o Blog do Miro, “dos entrevistados, 16% disseram recorrer “sempre” aos blogs de notícias – cerca de 21 milhões de brasileiros; e 12% disseram recorrer “às vezes” – cerca de 16 milhões”.

Os resultados são positivos e expressivos. Mesmo sem o Plano Nacional de Banda Larga posto em prática, a internet avança pelo país e os blogs começam a firmar-se como fonte de informação. Os 21 milhões de brasileiros recorrendo “sempre” aos blogs de notícias são ainda mais relevantes se lembrarmos que a Associação Nacional de Jornais comemorou recentemente o recorde de circulação de jornais no Brasil, com uma média, no primeiro semestre, de pouco menos de 4,5 milhões circulando diariamente. Costuma-se estimar que cada exemplar seja lido por quatro pessoas. Ou seja, são 18 milhões de leitores de jornais diários contra 21 milhões de brasileiros que recorrem sempre aos blogs para se informar. Esse cruzamento de pesquisas não permite inferir que há mais leitores de blogs do que de jornais, o que não o torna menos significativo.

Certamente não há um blog que possa concorrer com os leitores da Folha de S. Paulo, o jornal de maior circulação, e nem é bom que haja. A lógica da blogosfera não é nem deve ser a concorrência entre os espaços, mas sua complementaridade e mútua alimentação. É justamente nas linkagens, nas referências e nas indicações de lado a lado que todos os blogs noticiosos / políticos crescem juntos. É no crescimento de um que crescem todos, e no crescimento de todos que cresce cada um.

Infelizmente a televisão ainda é totalmente dominante. O entretenimento – sempre alienante, na programação das emissoras de televisão com sinal aberto no Brasil – puxa a audiência dos telejornais. A alienação aberta salva a audiência da manipulação disfarçada de informação. Mas, aos poucos, com o aumento do acesso a computadores particulares, há também a tendência à destinar-se menos atenção à televisão, mesmo que ela esteja ligada. A concentração primária pode passar à tela do computador, aos blogs e às redes sociais.

A tarefa, nesse contexto, é aprimorar as formas de integração entre os blogueiros comprometidos com uma nova comunicação, uma comunicação popular e independente. Também é tarefa fundamental desvincularmo-nos das práticas da mídia tradicional. Para construirmos a transição do velho ao novo modelo de comunicação precisamos primar pela horizontalidade, pluralidade e comprometimento com as causas populares e com a absoluta transparência. Há ainda outras dificuldades e outras tarefas, muitas delas já comentadas em outros posts aqui mesmo do Jornalismo B. Estamos avançando. É hora de aprofundar e radicalizar esses avanços.

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Kadafi caindo na Líbia, velha mídia caindo no Brasil

22 ago

É iminente, no momento em que este post é escrito, a queda do presidente da Líbia Muamar Kadafi, graças a ataques promovidos pela OTAN. Ataques que, apenas no último domingo, mataram 1300 pessoas. Os dias que antecedem a queda que parece inevitável vêm derrubando também a imprensa brasileira. A cobertura dos principais veículos de comunicação do país tem sido, além de conservadora e complacente com interesses nada democráticos, de muito má qualidade jornalística.

No sábado e no domingo, TeleSur (televisão multiestatal da América Latina, da qual o Brasil não faz parte) e Al Jazeera realizaram grandes coberturas dos ataques à Líbia, com diferentes abordagens, mas com grande riqueza de informações e análises. A cobertura atravessou os dias inteiros nos dois canais, com contato direto com correspondentes na Líbia e com imagens ao vivo de alguns locais estratégicos do país, além de análises equilibradas do que significa a invasão da OTAN, observada e pensada sob todos os aspectos – do fim da “era Kadafi” ao possível início de uma nova era colonial sob tutela de Estados Unidos, Inglaterra e França.

Enquanto isso, no Brasil, os meios de comunicação privados transmitiam programas de entretenimento e banalidades, sem nenhuma cobertura efetiva, ao vivo, do que acontecia na Líbia. Nem os canais fechados – Band News, Globo News – muito menos os abertos. E, surpresa, nem a TV Brasil. Uma emissora pública que passava um debate sobre futebol enquanto a Líbia explodia. A televisão brasileira não deu qualquer importância à guerra que a OTAN está promovendo na Líbia. Nem as emissoras de televisão nem os jornais ou as revistas, nenhum veículo brasileiro tinha um repórter em Trípoli no momento dos bombardeios. Dezenas de correspondentes internacionais enviavam informações a seus países diretamente do local onde as notícias aconteciam, e o Brasil esteve e está alijado desse tipo de “privilégio”.

Quando o Fantástico, da TV Globo, resolveu abordar o assunto, fez o mesmo que o Jornal Nacional faria um dia depois, na edição desta segunda-feira. Os “correspondentes na Líbia” estavam em Israel, em Roma e em Nova York. Nenhum na Líbia ou em qualquer país árabe. A cobertura foi absolutamente pobre de análises. “Uma loucura” foi o mais inteligente que Patrícia Poeta pode falar sobre o assunto. A cobertura, tanto no Fantástico quanto no Jornal Nacional, também foi absolutamente pobre de informações. Não se falou nas implicações que uma invasão da OTAN poderá ter na Líbia e nos países próximos. Sequer se falou em invasão da OTAN. São “os rebeldes”, ignorando o fato claro e dito de que o que deve causar a queda de Kadafi são os bombardeios das potências ocidentais, e de que são essas potências que assumirão o controle do país, como também já foi anunciado.

“Eles (analistas políticos) temem que as tropas leais ao ditador Muamar Kadafi possam resistir a ponto de provocar um enorme banho de sangue”, disse Carlos de Lannoy, de Jerusalém, sem questionar essa análise que ignora os 1300 mortos pelos bombardeios. E fala desses analistas como os únicos, “os analistas políticos”, não “alguns analistas políticos”. Ignora as análises apresentadas na TeleSur e na Al Jazeera, por exemplo. Elaine Bast, correspondente em Nova York, vai na mesma toada: “O secretário-geral da ONU pediu às forças leais a Kadafi que encerrem a luta e permitam uma transição pacífica de poder na Líbia”; e “Obama disse que para diminuir o derramamento de sangue Kadafi deveria renunciar publicamente ao poder”. Informações pobres, análises mais pobres ainda, omissões.

Tanto TeleSur quanto Al Jazeera podem ser acompanhadas pela internet. Além disso, correspondentes de todas as partes do mundo presentes na Líbia passaram os últimos dias abastecendo suas contas no Twitter com grande volume de informações. A comparação com a pequena cobertura de todas as emissoras brasileiras e com a pobre cobertura da TV Globo não deixa dúvidas: a qualidade das informações a que os brasileiros podem ter acesso através da internet é amplamente superior ao que pode ser acompanhado pela televisão. Se dependermos dos nossos maiores meios de comunicação, vivemos de costas para o Brasil e sem sequer saber da existência do restante do mundo.

* Para assistir a TeleSur, AQUI. Para assistir a Al Jazeera em inglês, AQUI. Para acompanhar Twitters sobre o que acontece na Líbia neste momento: TeleSur, Al Jazeera, Rolando Segura (correspondente TeleSur), Matthew Price (correspondente BBC).

* A charge deste post é do sempre preciso Carlos Latuff.

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A democratização da comunicação em 10 pontos e 10 posts

7 jul

Chamada pelo grupo dos Eblog (Blogueiros de Esquerda), teve início “oficial” nesta quinta-feira uma blogagem coletiva em defesa da democratização da comunicação, com a hashtag (marcação) #DemoCom. Neste post, recuperamos algumas postagens desses quase quatro anos de história do Jornalismo que tratam diretamente desse tema. Antes dos dez links, vale trazer novamente dez itens listados aqui no dia 13 de abril deste ano como condições fundamentais para a democracia midiática. São pontos que dependem de ações governamentais, ações que só se realizarão através de pressões da sociedade civil organizada:

- Fiscalização independente e séria das leis já existentes para a comunicação;
- Regulamentação dos itens da Constituição que versam sobre comunicação;
- Fim das concessões de rádio e TV para políticos e seus apadrinhados;
- Revisão de todas as concessões de rádio e TV;
- Distribuição equitativa das verbas publicitárias;
- Descriminalização das rádios comunitárias e aceleração dos processos de legalização;
- Criação de mecanismos de controle social sobre o que é veiculado nas concessões públicas;
- Aprofundamento obrigatório da pluralização e diversificação social da programação das concessionárias;
- Proteção aos comunicadores acossados pelos grandes veículos de comunicação;
- Fim imediato da propriedade cruzada (disfarçada ou não).

A recuperação dos posts a seguir traz um bom panorama sobre a forma como o Jornalismo B, desde suas primeiras postagens, trata o tema da mídia brasileira. Dia a dia denunciamos neste espaço a lógica com que trabalha a mídia dominante, e temos tentando ajudar a construir uma mídia diferente, democrática, plural, popular, e propor caminhos para isso. O debate sobre essa necessidade vem ganhando corpo, vem amadurendo. Somos construídos por ele e não nos omitimos de participar da construção desse processo. Nos links a seguir, um resumo dos textos que tratam diretamente da democratização da comunicação.

O Twitter e a democratização da comunicação – 20 de janeiro de 2010

Grande imprensa tem medo da sociedade – 26 de outubro de 2010

O Governo Dilma Rousseff e a democratização da comunicação – 27 de janeiro de 2011

Editorial de Zero Hora defende propriedade cruzada na mídia. Por quê? – 31 de janeiro de 2011

No Brasil existe censura, sim – 16 de fevereiro de 2011

Levante sua voz – 18 de fevereiro de 2011

Folha denuncia o que já sabíamos: concessões de rádio e TV são uma farra – 28 de março de 2011

Os desafios para a construção de outra comunicação – 13 de abril de 2011

Frentecom faz debate sobre mídia chegar enfim ao Congresso – 20 de abril de 2011

Eblog e BlogProg: união pela democratização da mídia – 6 de julho de 2011

Jornalismo cidadão, jornalismo profissional e a questão do diploma

28 jun

A longa discussão sobre o papel do jornalismo digital não pode ser pensada de forma desvinculada de outra discussão ainda mais longa: a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Antes de qualquer coisa, aliás, é preciso se perguntar: o que é um jornalista? E qual sua função geral? É por esses caminhos que seguiu uma excelente entrevista com o diretor do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Joel Simon, publicada originalmente na Deutsche Welle e traduzida para o português pelo Outras Palavras.

A primeira pergunta da entrevista foi “qual é a sua definição de jornalista”. Trechos da resposta: “Os jornalistas existem para colher e disseminar informação de relevância para a população. Há jornalistas profissionais que fazem isso, e há pessoas que fazem isso como cidadãos. (…) As novas tecnologias garantiram que nos dias de hoje existam um número nunca visto de jornalistas cidadãos. Na Alemanha, o jornalismo não é profissão para a qual se precise de um diploma. Qualquer um pode ser um jornalista”.

Joel Simon fala também sobre blogs e jornalismo (“Blogueiros podem ser jornalistas. Nem todos os blogs fazem jornalismo. Mas existem vários que são absolutamente jornalísticos, que condizem com o que nós entendemos por jornalismo e cujos autores têm direito de serem defendidos pelo Comitê”), e afirma que hoje as redes sociais já superaram os blogs como forma de jornalismo cidadão. Além disso, conta que em 2010 o Comitê registrou 145 casos de jornalistas presos, sendo 69 deles de mídias online, a maioria blogueiros.

 Dos dois parágrafos acima muita coisa pode ser dita. Os desdobramentos são gigantescos. Mas foquemos em dois pontos: primeiro, a constatação numérica do que já temos visto na prática: o cerco contra os blogs vem aumentando pelo mundo inteiro. A entrevista fala em China e Irã, mas essa prática já chegou ao também ao Brasil (mesmo que, por enquanto, sem prisões), através da judicialização da censura, uma forma de prisão intelectual.

Mas o fundamental da fala de Joel Simon é seu conceito de jornalismo cidadão, e o entendimento de que essa forma de jornalismo – não profissionalizada – está em expansão. Pode-se pensar ainda um pouco além. Por que não a profissionalização do jornalismo cidadão? O crescimento da distribuição de publicidade governamental em blogs é um dos caminhos que podem levar a essa aproximação. A melhora da qualidade desses espaços e o ganho de credibilidade de alguns deles como espaços jornalísticos, também. Aos poucos a sociedade vai entendendo que um novo jornalismo vai se formando na internet, um jornalismo em que cada cidadão pode e deve produzir conteúdo, pode informar e ser informado com qualidade e de forma horizontal.

Nesse contexto, a exigência de diploma para ser admitido como jornalista é retrógrada e fora da realidade, servindo apenas como reserva de mercado nas grandes empresas de comunicação e como forma de exclusão que logo será atropelada pelo grande campo de inclusão que é a internet. A profissionalização do jornalismo cidadão e a cidadanização do jornalismo profissional são práticas fundamentais para que a mídia torne-se verdadeiramente democrática e plural.

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O Egito de Mubarak, o Egito pós-Mubarak e a mídia brasileira

11 fev

Depois de 18 dias de manifestações por todo o Egito, Hosni Mubarak, ditador no poder há 30 anos, renunciou nesta sexta-feira. Pelo tamanho da rebelião, pela relevância histórica do país e pela sequência de revoltas populares no Norte da África, a mídia mundial foi dominada nesses dias pela cobertura da crise egípcia. A brasileira não ficou de fora. Encerrada a primeira parte da crise, encerra-se também a primeira parte da cobertura, e cabem alguns comentários gerais sobre o que foi feito.

As condições de cobertura no Egito foram terríveis. Ameaças, agressões, sequestros. A imprensa, que mesmo nas guerras costuma ter seu espaço respeitado, ficou acuada, tida pelos governistas como uma das vozes responsáveis pelos protestos. Ainda assim, auxiliada pelas pautas das agências internacionais e, em especial, pela comemorada cobertura da TV Al-Jazeera, a mídia brasileira se virou para mostrar com a maior proximidade possível o que acontecia especialmente no Cairo, capital do país.

Tanto as televisões quanto os jornais estiveram próximos dos acontecimentos populares, constantemente cobrindo os protestos na Praça Tahir, que concentrou os manifestantes – que chegaram a dois milhões. As imagens de televisão e as fotografias retrataram de forma honesta e extremamente competente as movimentações nas ruas. O dia a dia do país, alterado pela rebelião, foi muito bem e corajosamente abordado, de modo geral.

As dificuldades e falhas da cobertura ficaram na parte da política institucional. Poucas explicações sobre as origens da revolta e sobre como as altas esferas da política local e internacional trabalharam para sua continuidade e seu desenvolvimento. Uma “revolta popular” apoiada e comemorada pelos EUA e pelos setores mais fortes do capitalismo internacional não soou estranho a ninguém? Os investimentos dos norte-americanos no Egito foram comentados de passagem, e sua continuidade e aprofundamento também, mas de que forma isso vai refletir na formação do novo governo, de que forma os bilhões de financiamento estado-unidense ao exército egípcio pautaram a atitude da instituição, entre outras questões, passaram despercebidas.

A mídia independente, fortemente articulada com os blogs e as redes sociais – que, especialmente no início da revolta, foram a principal fonte de informações sobre a crise e, principalmente, de mobilização – também não tem dado conta da demanda de cobertura da política internacional ligada aos desdobramentos egípcios. Por limitações óbvias – estruturais – ou nem tão óbvias – grande distância física e cultural, desconhecimento sobre a história recente do Egito, etc – a imprensa alternativa viu-se limitada a conjecturas e análises pouco aprofundadas, com algumas exceções.

É preciso que a mídia internacional – incluindo, obviamente, a brasileira – fique atenta aos desdobramentos da política egípcia. Os fatos servem sempre como exemplos para outras iniciativas, e os erros que podem ter sido cometidos pelo caminho da revolta egípcia só ficaram claros com o início do novo governo. Por isso, por esse direito do povo à informação completa, a situação do Egito precisa continuar sendo acompanhada de perto.

Ao mesmo tempo, a relevância inegável dos blogs e das redes socias na derrubada do governo de Hosni Mubarak contraria a opinião dos mais céticos quanto à força da internet. A capacidade de mobilização política via web está empiricamente demonstrada. Se este lastro vai se espalhar dependerá dos rumos que dermos à rede. Mas o caso do Egito provou o potencial mobilizador, que precisa ser ativado para que a pressão “física” transforme a latente sede de mudança em realização popular.

Postado por Alexandre Haubrich

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