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Jornal Nacional, Fátima e Patrícia – showrnalismo em horário nobre

6 dez

O espaço de televisão é uma concessão pública. As emissoras que ganham as limitadas concessões devem, portanto, atuar em direção aos interesses públicos. Nos espaços jornalísticos, as emissoras devem primar pela seriedade, e tratar com o máximo de profundidade o máximo de fatos possíveis. Não é o que se costuma ver, e na noite da última segunda-feira tivemos mais um exemplo disso. O principal telejornal da maior emissora de televisão brasileira dedicou 15 minutos à absoluta futilidade e ao auto-elogio.

A troca de apresentadoras (sai Fátima Bernardes, entra Patrícia Poeta) não significa absolutamente nada para o andamento do jornal. O Jornal Nacional continuará sendo rigorosamente o mesmo. Mas a mudança foi objeto de quinze minutos de cobertura, com direito a um animado bate-papo entre as duas e o editor-chefe do jornal, William Bonner. Reportagem de 4 minutos sobre a trajetória de Fátima Bernardes na Globo, o mesmo sobre Patrícia Poeta.

Foram 15 minutos de auto-elogio, de superação absoluta da notícia pelo noticiador. Em 15 minutos poderiam ter sido apresentadas pelo menos cinco matérias, três minutos é muito tempo em telejornalismo. Mas o Jornal Nacional preferiu ignorar o que acontecia no mundo para exaltar seus astros. Os apresentadores deixam de ser jornalistas e tornam-se estrelas de televisão, “artistas”, celebridades. O interesse público é deixado de lado e o entretenimento invade o jornalismo, o show ganha espaço sobre a informação.

É um exemplo típico de showrnalismo, e um absoluto desrespeito com a sociedade brasileira. Usar o horário nobre para o que Marco Aurélio Mello bem descreveu como “começa com um ti-ti-ti, depois vem um blá-blá-blá e termina com um tricô” é vergonhoso, é um acinte. Como o mesmo blogueiro escreveu, “tenho esperança de que um dia as pessoas cairão em si e entenderão o erro que estão cometendo em permitir que as coisas funcionem assim”.

Repensar as concessões de TV e rádio é uma necessidade urgente. A Rede Globo trata o espaço a ela concedido pelo poder público – pretensamente em nome de toda a sociedade – como uma propriedade sua, dando-se o direito de fazer o que bem entender, até mesmo passar quinze minutos do horário nobre exaltando a si mesma e construindo com naturalidade celebridades em seus jornalistas. A mistura de jornalismo com entretenimento vê aí um de seus resultados mais bem acabados. A sociedade como espetáculo, a notícia como show. E o resultado desse resultado é o caminho mais curto da alienação.

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A Rede Globo e o monopólio no futebol brasileiro

3 mar

As transmissões televisivas de futebol, a princípio, são como quaisquer outras transmissões de eventos ao vivo. Se um comício é transmitido pela TV, por exemplo, pressupõe-se que ele aconteça de forma independente em relação às emissoras que querem transmiti-lo, e que a cobertura seja jornalística. Em muitos eventos esportivos também é assim. No Brasil, as partidas de futebol profissional não seguem a óbvia lógica.

No Campeonato Brasileiro de Futebol, por exemplo, o espaço para o jornalismo nas transmissões ao vivo é irrisório. Os repórteres de campo são praticamente a única exceção. O restante é espetáculo, e os próprios transmissores fazem parte relevante do show. Mesmo os horários das partidas são definidos pela emissora que detém os direitos exclusivos sobre os jogos. É por isso que, no meio da semana, o torcedor fiel precisa ir ao estádio às 21h50min, chegando em casa já na madrugada para trabalhar no dia seguinte, enquanto a dita emissora não mexe no sagrado horário de suas novelas. É por isso que, em pleno verão, atletas profissionais são obrigados a jogar sob temperaturas absurdas às 16h, para que a audiência televisiva não seja prejudicada e os milhões de reais da publicidade entrem fácil nos cofres da emissora.

O futebol profissional foi mundialmente – inclusive no Brasil – transformado em um grande espetáculo televisivo. O torcedor que vai ao estádio tem poucos direitos, pouco conforto, pouca segurança, é muito pouco respeitado, a começar pelos horários das partidas. Enquanto isso, a televisão ganha audiência com o futebol, e publicidade com a audiência.

Ao contrário de um evento comum, o futebol profissional passou a girar em torno da televisão, já que é dali que os clubes, mal administrados e pouco preocupados com seu torcedor, tiram a maior parte de sua receita – que, para tornar o clube competitivo, precisa ser cada vez mais alta.

Dentro desse contexto, já em meados de 2010 tivemos a polêmica eleição para o Clube dos 13, na qual acusações de compra de votos por parte de Kléber Leite, aliado da CBF e de seu presidente, Ricardo Teixeira, não foram repercutidos pela Rede Globo. Kléber era o adversário do atual presidente do Clube dos 13, Fábio Koff, e defendia a manutenção do formato de disputa pelos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Koff, não. E Koff, contra os interesses da Rede Globo e da CBF, venceu.

No início de 2011, o Clube dos 13, seguindo recomendação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), colocou em disputa os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, enquanto a Rede Globo gostaria de manter os critérios anteriores: nenhum. A Globo gostaria de continuar com a exclusividade dos direitos, sem concorrência, já que a Record parece ter condições financeiras de oferecer mais aos clubes do que a Vênus platinada – as transmissões das Olimpíadas de 2012 e de 2016 já estão nas mãos da Record, lá as travessuras políticas da Globo não adiantaram. O que a Globo fez, então? De alguma forma desconhecida convenceu os clubes a se retirarem do Clube dos 13 (totalmente ou apenas na negociação dos direitos de imagem), e a negociarem diretamente com a emissora carioca.

Operando nos bastidores para evitar a justa concorrência, impondo seus horários esdrúxulos às partidas, monopolizando as imagens e transmissões, enfraquecendo as instituições responsáveis por gerir o futebol brasileiro, a Globo presta um enorme desserviço ao esporte, ao torcedor e ao telespectador, além de ignorar e enfraquecer valores democráticos básicos.

*Um post interessante sobre o assunto pode ser encontrado no Escrivinhador.

Postado por Alexandre Haubrich

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Considerações sobre as transmissões de futebol no Brasil

19 jan

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Rodrigo Cardia*

Os clubes do eixo Rio – São Paulo monopolizam as transmissões de futebol por terem maior torcida, ou têm maior torcida por monopolizarem as transmissões de futebol?

No último final de semana, teve início a maior parte dos campeonatos estaduais no Brasil. Em termos de qualidade técnica, eles deixam muito a desejar. Ainda mais se levarmos em conta sua longa duração em Estados com clubes de maior tradição, que disputam as Séries A e B do Campeonato Brasileiro – competição que poderia ter início mais cedo, com menos jogos durante a semana, poupando os atletas de maior desgaste.

O que justifica a manutenção dos campeonatos estaduais atualmente? Podemos citar vários motivos. Mas um dos principais é a possibilidade de se ver os principais clubes dos Estados (que geralmente são das capitais) jogando em cidades do interior – o que dificilmente aconteceria se não existissem os estaduais. Um outro bom motivo, é a maior exposição midiática dos clubes locais. Afinal, só durante o Campeonato Gaúcho (por exemplo) é possível assistir a vários jogos de Grêmio ou Internacional na televisão aberta (pois no Brasileirão a “preferência” da televisão é pelos clubes do eixo Rio-São Paulo), assim como de clubes do interior, que têm nos estaduais a única chance de “aparecerem na TV”.

Porém, engana-se quem pensa que em todo o Brasil o torcedor pode assistir aos jogos do clube de seu Estado pelo menos nos campeonatos estaduais. Basta uma olhada no “mapa dos estaduais” que a Rede Globo disponibiliza em sua página, para perceber que apenas dez das 27 unidades da federação têm seus campeonatos transmitidos pela principal emissora do país.

E o pior nem é isso. Dos dez estaduais transmitidos, oito são apenas para os Estados aos quais correspondem (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco e Ceará). Os outros dois campeonatos (Campeonatos Paulista e Carioca) são transmitidos não só para São Paulo e Rio de Janeiro, como para vários outros Estados. Ou seja, o torcedor do Paysandu – que costuma lotar o Mangueirão em Belém – não pode ver seu time na Globo, pois tem jogo do Flamengo…

Por que tal absurdo? Vejamos o que diz a própria Globo: Os dez estaduais serão mostrados para seus respectivos estados. Os dois principais – Paulista e Carioca – também terão transmissão para lugares próximos e que tenham torcedores dos respectivos clubes.

A escolha de um clube de futebol para se torcer vai além da mera questão futebolística. Como diz Arlei Sander Damo, “torcer por um clube de futebol é participar ativamente da vida social, construindo identidades que extrapolam o indivíduo, a casa e a família”*. Assim, existem vários motivos pelos quais alguém escolhe um clube para torcer, mas basicamente ligados à questão da coletividade na qual esta pessoa está inserida.

Um deles é a presença de grande número de migrantes de outras regiões – como aconteceu com a “diáspora gaúcha” pelo oeste de Santa Catarina e do Paraná, além da região Centro-Oeste, que não só difundiu os costumes do Rio Grande do Sul por essas regiões, como também ajudou a aumentar o número de torcedores da dupla Gre-Nal fora do Estado.

Mas a mídia também tem forte influência sobre a escolha clubística. O que explica o fato de rio-grandinos como o meu falecido avô paterno terem sido torcedores de clubes cariocas (ele era flamenguista): à noite era fácil sintonizar as rádios do Rio de Janeiro, devido à proximidade com o mar. Afinal, um clube que tinha seus jogos transmitidos pelas rádios da então capital nacional era considerado como mais importante do que aquele que se limita às páginas de um jornal de uma cidade menor.

O papel que antes era exercido pelo rádio hoje cabe à televisão. Aí voltamos ao “mapa dos estaduais” da Globo: os campeonatos paulista e carioca são transmitidos para várias partes do Brasil porque os clubes de São Paulo e Rio têm muitos torcedores fora de seus Estados. Mas, será que o grande número de, por exemplo, flamenguistas no Amazonas, não se deve também ao fato de que os torcedores locais não poderem assistir aos jogos dos clubes amazonenses na televisão? (Vale lembrar que em Manaus será erguido um estádio novo para a Copa do Mundo de 2014… Que obviamente virará um “elefante branco”, já que a maioria dos manauenses torce por clubes de outros Estados.)

Aliás, para sermos honestos, o mesmo raciocínio serve para o interior do Rio Grande do Sul: como a transmissão do Gauchão prioriza os jogos da dupla Gre-Nal, são poucos os clubes de fora de Porto Alegre que têm torcidas significativas – e mesmo na capital, o São José continua a ser um “clube de bairro” depois de quase 100 anos de história, e o Cruzeiro irá se mudar para Cachoeirinha.

E também explica por que muitos esportes não conseguem se desenvolver no Brasil: por não terem maior visibilidade midiática, os praticantes não conseguem patrocínio. E como o futebol (masculino) “dá mais audiência”, os anunciantes optam por ele, emperrando o crescimento de outras modalidades, inclusive nas quais o país tem potencial para ser vitorioso.

*Rodrigo é historiador, autor do blog Cão Uivador.

A Globo adverte: a internet é prejudicial ao sistema

24 nov

No post de segunda-feira falei sobre um nascente e sussurrante movimento da velha mídia contra o crescimento da internet como espaço jornalístico. Tratei de uma entrevista da Folha de S. Paulo com Evgeny Morozov, um dos principais críticos atuais da web como instrumento de democratização. Mas não é apenas em ações direitas como essa que esse movimento começa a acelerar-se. Matérias aparentemente casuais tentam criar uma consciência coletiva de retração no uso da internet.

O Jornal da Globo da mesma segunda-feira apresentou uma reportagem sobre pesquisa que afirma que o uso de computador à noite prejudica o sono. A pesquisa, que entrevistou 1400 jovens universitários no interior de SP, traz uns dados estranhos, além dessa amostra nada representativa de qualquer coisa que seja. Por exemplo: diz ela que “58% dos entrevistados que usam computador entre 19h e 21h dormem mal”, e que o índice aumenta para 73% quando os entrevistados usam o computador entre 19h e 0h. Para começar, os dados não são cruzados com pessoas que não usam computador, ou ao menos a reportagem não mostra. Não se sabe, portanto, se os problemas de sono são causados pelo computador. Talvez as pessoas que assistem ao Jornal da Globo tenham mais problemas para dormir depois. Aí está uma boa ideia para pesquisa.

Outra questão: e a possibilidade de essas pessoas ficarem até mais tarde no computador exatamente por terem problemas de sono? De qualquer forma, a hipótese de que o uso excessivo do computador à noite atrapalha o sono não é nenhuma novidade. Há alguns pares de anos pesquisas já relatavam o problema. A novidade é que agora o interesse em trazer novamente à tona quaisquer questionamentos à internet é grande.

Além da pesquisa estranha – ou relatada pela reportagem de forma estranha – o próprio texto da repórter Helen Sacconi faz algumas referências que induzem o telespectador a ver no computador um veneno. “Mais do que a balada, o álcool e o cigarro, é o uso do computador à noite que está prejudicando o sono dos jovens”, diz ela em determinado momento. Para, mais tarde, ameaçar: “As conseqüências de uma noite mal dormida por causa do computador vão muito além do cansaço. Segundo os médicos, dormir pouco aumenta as chances de obesidade e diminui a capacidade de concentração”. Aí vem uma pesquisadora da Unicamp e completa: “O que vai acontecer é que toda noite de sono mal dormida vai ser cobrada em algum momento da sua vida”.

Cigarro, álcool, maconha, cocaína, crack, pular do décimo andar, dar tiro no olho, andar sem colete à prova de balas no Rio de Janeiro: tudo é mais seguro do que ficar em frente ao computador. É o que diz a Globo. Cuidado: realmente, a semente da subversão é plantada a partir do momento em que se tem acesso a informações diferentes das passadas pela velha mídia. E, uma vez plantada, essa semente cresce e acaba em novas sementes. A internet facilita essa semeadura, e é isso o que eles temem. A Globo adverte: a internet é prejudicial ao sistema.

Postado por Alexandre Haubrich

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Jornal Hoje brinca com problema de saúde

19 nov

Um mesmo fato pode ser tratado das mais diferentes formas, às vezes até por veículos pertencente ao mesmo grupo. Isso acontece com fatos grandiosos, mas também em casos bem localizados, específicos, pessoais. É preciso, por isso, trabalhar constantemente com a noção de comparação, para entender melhor o que acontece à nossa volta.

O Jornal Hoje é o telejornal menos sério da TV Globo, isso está claro. Com suas matérias sobre moda, comportamento e outras perfumarias, está muito mais próximo do entretenimento do que do bom jornalismo. Quando o jornal trata de assuntos sérios transformando-os em perfumaria, porém, o problema se agrava. A comparação de uma de suas matérias com uma reportagem sobre o mesmo assunto, em uma afiliada da Rede Globo na Bahia é um bom exemplo.

O caso é que um garoto de 15 anos, chamado Carlos Alves, morador de Coaraci, na Bahia, engoliu um apito, que ficou preso em sua garganta. Com dor e dificuldade para falar e tossir, Carlos foi submetido a um procedimento que necessitou inclusive de anestesia geral para retirar o apito.

A matéria (http://tinyurl.com/26gnkec) do Jornal Hoje foi introduzida por uma cena inusitada: os apresentadores Sandra Annenberg e Evaristo Costa riam sem parar da situação do adolescente. Evaristo destacou, na chamada da matéria, o fato de que Carlos emitia o som do apito ao tossir, e comentou, entre risos, que “a gente já de um pouco de risada sobre isso”. Sandra chamou a história de “curiosíssima”. É isso. Para o Jornal Hoje, se trata apenas de uma história curiosa, uma espécie de circo dos horrores, para que o telespectador desavisado apenas ache graça de uma situação séria e que deve ser prevenida.

A reportagem de José Raimundo começa exatamente com o adolescente tossindo, e o som do apito. Em seguida, ele diz que sente dor até para respirar, mas isso passa despercebido. Um médico explica, então, a forma como o apito seria retirado, e o foco já volta para o som, a graça, o curioso. A matéria é encerrada com mais tossidas apitadas do adolescente.

No dia seguinte, o Bahia Meio Dia (http://tinyurl.com/2dfut7t) tratou do mesmo assunto, mas sob uma perspectiva totalmente diferente, uma perspectiva realmente jornalística e de interesse público. Karen Povoas foi a repórter. Ela entrevistou Carlos, que lembrou que correu risco de vida, e disse que não fará mais esse tipo de brincadeira. Depois, o jornal apresentou entrevista com a médica que realizou o procedimento de retirada do apito. Ela falou sobre a importância de os pais terem cuidado com o que os filhos brincam e sobre o risco desse tipo de situação. Enfim, jornalismo.

Postado por Alexandre Haubrich

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Foi a privatização quem popularizou os celulares?

18 nov

A gigantesca expansão do número de telefones celulares no Brasil é um dado muito positivo. Ainda que, sociologicamente, várias questões controversas possam ser colocadas a esse crescimento, fato é que o celular está mais do que popularizado, o que facilita a comunicação e reduz, nesse aspecto, a capitalisticamente intransponível barreira entre as classes.

Como aconteceu com os rádios, as televisões e, aos poucos, vai acontecendo com os computadores, essa popularização tem quase tudo a ver com dois fatores: aumento do poder aquisitivo das classes mais baixas e, especialmente, expansão tecnológica. Porém, no caso da telefonia, parte da mídia brasileira, em defesa de políticas neoliberais, insiste em usar a questão da telefonia como exemplo de como a política de privatizações traria bons resultados para todos.

Esse é o caso de reportagem de dois minutos veiculada nesta quinta-feira no Jornal Nacional. A ode à privatização é a tônica da matéria, que trata originalmente do dado que aponta mais celulares do que pessoas no Brasil. Já são mais de 194 milhões de aparelhos no país.

A repórter Delis Ortiz tenta fazer da popularização do aparelho uma causa ganha pela privatização. Seu texto diz: “Em 90, quando chegou ao Brasil, era privilégio de poucos. Mas isso virou museu, passado. Depois da privatização do setor, em 1998, o número de linhas de telefones móveis saltou (…)”. Ou seja: para ela, a privatização ajudou o povo. O gráfico que a própria matéria apresenta, porém, mostra que o crescimento foi gradual, não foi de uma hora para outra, com a privatização, que o celular ganhou as ruas.

Tem mais: “Um setor totalmente privatizado, e sujeito à concorrência. O consumidor saiu ganhando”, diz a repórter, antes de Evilene Souza, empregada doméstica, complementar: “antes a gente mais simples não podia ter um aparelho telefônico, só quem tinha condição, que era rico. Hoje em dia o pobre pode ter”.

Não posso acreditar que a entrevistada tenha sido perguntada sobre a privatização do setor de telefonias. Foi perguntada, imagino, sobre a melhora no serviço de celular e a popularização dos aparelhos, e deu a resposta óbvia. Mas, com a edição da matéria, parece que a resposta realmente complementa o texto de Delis, corroborando a tese de que é a privatização a responsável pela melhoria inegável.

Apenas com um minuto e meio de uma matéria de dois minutos aparece, rapidamente, uma declaração de Ronaldo Sardenberg, presidente da Anatel, que afirma que o aumento do poder aquisitivo “foi fundamental para a multiplicação dos celulares do país”. Eduardo Levy, diretor-executivo da SinditeleBrasil, é a única fonte especializada entrevista na reportagem, além do presidente da Anatel. E também não fala na privatização como determinante, assim como as pessoas entrevistadas nas ruas. Absolutamente nenhuma fonte cita esse fator. Apenas a repórter o faz, mais uma demonstração de que a pauta já estava direcionada antes mesmo de ser buscada.

Postado por Alexandre Haubrich

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Dilma inicia conciliação com imprensa dominante

1 nov

Dilma Rousseff foi eleita nesse domingo a nova presidente brasileira. Contra Serra, contra o PSDB, contra o DEM e, não menos importante, contra a esmagadora maioria da imprensa dominante brasileira, representada especialmente por Globo, Folha, Abril e Estadão. Foi atacada impiedosa e injustamente por todos os lados. Mentiras se multiplicaram.

Durante toda a campanha, especialmente durante o segundo turno, Dilma foi defendida por uma grande rede de blogueiros. Vencida a eleição, a nova presidente foi correndo para os estúdios das grandes empresas de comunicação, de costas para a mídia que a apoiou cega ou criticamente.

As primeiras entrevistas de Dilma foram exclusivas, para as TVs Record e Globo. A Record esteve relativamente ao seu lado, mas não representa nada de muito diferente da Globo. Representa a grande mídia antidemocrática, representa o modelo que a esquerda da comunicação brasileira tanto combate. Foi lá que Dilma começou sua reconciliação com quem a espancou sem dó por três meses, pra dizer o mínimo.

Em seguida, foi no Jornal Nacional que Dilma deu as caras. Em quase meia hora de entrevista, mostrou uma grande amizade com William Bonner e Fátima Bernardes (que participou rapidamente da entrevista). A presidenta eleita esteve com Bonner nos estúdios do JN enquanto o programa mostrava matérias sobre sua trajetória política e uma pequena janela mostrava as reações da petista. Entre uma matéria e outra, algumas perguntas gerais, pouco ou nada políticas, e respostas tranquilas. Uma conversa entre amigos, à beira da piscina, bebendo sem regurgitar os ideais de democratização da comunicação brasileira.

Não é bom se apressar, e é claro que a esperança, desde que combinada com a pressão e o questionamento constante, não pode esmorecer. Mas, mais uma vez, Dilma e o PT não deram qualquer sinalização de que podem modificar a situação desastrosa e ditatorial em que se encontra o campo da mídia brasileira. Dilma chegou a dizer que o controle remoto é o melhor controle sobre a imprensa, além de outras falas típicas do discurso da direita neoliberal aliada dos grandes conglomerados de comunicação.

A comunicação tem quatro âmbitos sobre os quais influi e dos quais pode receber influência: a imprensa dominante, a imprensa alternativa, a sociedade e o Estado. Neste último, não começamos bem a transição para o novo governo. As perspectivas não são boas. Imprensa alternativa e sociedade não podem se acomodar.

Postado por Alexandre Haubrich

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Jornalismo B, Dialógico e Diário Gauche debatem cobertura eleitoral

20 out

Na tarde desta quarta-feira participei de uma mesa redonda sobre a cobertura das eleições, na Semana Acadêmica da Faculdade de Comunicação da UFRGS. Junto comigo, estiveram Claudia Cardoso, do blog Dialógico, e Cristóvão Feil, do Diário Gauche. Cerca de 30 estudantes assistiram ao debate, no auditório da faculdade. Gostaria de explicar aqui o que os outros dois participantes falaram, mas creio que nada melhor do que a leitura de seus blogs para entender como pensam, e o espaço aqui seria curto para tudo o que foi levantado. Por isso, vou resumir aqui rapidamente o que falei, destacando a importância desse tipo de encontro para que aconteça a fundamental troca entre estudantes e palestrantes e entre os próprios debatedores.

 São três os eixos principais da disputa midiática no Brasil: a mídia hegemônica, a mídia contra-hegemônica, e o governo. A questão que se impõe a partir da cobertura eleitoral que está para se encerrar é o que acontecerá daqui pra frente.

Nesta campanha, vimos a imprensa dominante organizar-se contra o governo Lula e a candidatura de Dilma Rousseff (PT) principalmente a partir de três dos seus jornais (Folha de S. Paulo, Estadão e O Globo), de duas de suas revistas (Veja e Época) e de uma emissora de TV aberta (TV Globo). Através de acusações constantes em reportagens e ataques diretos em editoriais, os jornais cumpriram um papel forte na despolitização da campanha, pautando o que se coloca em debate com temas que pouco ou nada tem a ver com projetos amplos para o país.

A TV Globo atuou mais na pré-campanha, mas suas entrevistas com os candidatos no primeiro turno, em especial no Jornal da Globo, mostraram jornalistas preocupados em atacar Lula e Dilma e defender José Serra (PSDB). Outros exemplos também podem ser encontrados em posts anteriores do Jornalismo B.

Em relação às revistas, vimos Veja e Época com atuações de baixo nível contra o PT, enquanto Carta Capital e Isto É alinharam-se aos petistas, sinalização de que o Partido dos Trabalhadores vem deixando de ser contra-hegemônico para transformar-se definitivamente em mais uma elite.

 Outro eixo é a mídia alternativa, representadas especialmente pelos blogs. Muitos blogueiros tiveram uma atitude de alinhamento automático à campanha de Dilma, calando perante qualquer possibilidade de crítica ao PT, mas, ainda assim, tivemos uma boa quantidade de comunicadores que se mantiveram independentes, questionadores, mesmo que defendendo candidaturas específicas, como a da própria Dilma. É saudável e natural que assumamos posições, mesmo partidárias, mas não se pode perder de vista que a militância política precisa se dar também fora da esfera partidária, e que, se a imprensa alternativa perde a preocupação com o questionamento, transforma-se em mídia oficial.

O terceiro eixo é o governo. O que se pode esperar de Serra, caso vença? Nada, a não ser a piora das relações com os movimentos sociais e o fim inequívoco de qualquer possibilidade de diálogo. Como vimos em outros governos do PSDB, a lógica é a da repressão, mobilizações são sempre caso de polícia, nada mais. A mídia entra nesse mesmo saco, e qualquer avanço torna-se muito mais difícil. Com Dilma na presidência a perspectiva não é muito melhor. Foram oito anos de governo do PT sem qualquer tentativa de modificar os marcos de mídia no Brasil, como acertada e democraticamente vem sendo feito em outros países da América Latina. A democratização da comunicação é uma necessidade, mas Lula não quis, e Dilma tende a não querer, enfrentar os donos da mídia brasileira para buscá-la. Ainda assim, é claro que a possibilidade de diálogo é maior do que com Serra, e as pressões de movimentos organizados têm mais chances (ainda que remotas) de surtir algum efeito.

Dentro desse cenário, o futuro que espreita é duvidoso. É preciso, em primeiro lugar, que, passadas as eleições, os comunicadores contra-hegemônicas voltem a ser predominantemente independentes, críticos a qualquer governo que assuma. A pressão sobre as entidades governamentais é uma das duas funções essenciais que devemos assumir. A segunda é o enfrentamento à mídia dominante, unido à busca por mobilizar e esclarecer a sociedade sobre a necessidade de repensar a comunicação brasileira.

Postado por Alexandre Haubrich

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Dilma e Serra no Jornal Nacional

19 out

Em dois tempos de onze minutos, o Jornal Nacional fez duas entrevistas com os candidatos à presidência que ainda estão na disputa. As entrevistas com Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) foram equilibradas, o que não quer dizer que foram boas entrevistas.

Foram quatro questões para Dilma e cinco para Serra, a maior parte delas com pequenos desmembramentos. As questões foram equilibradas, semelhantes no teor, na forma de serem colocadas pelos entrevistadores e até na ordem em que apareceram. A agressividade de William Bonner e Fátima Bernardes nas entrevistas do primeiro turno não apareceram agora.

or Para Dilma e Serra, a primeira pergunta foi sobre o resultado do primeiro turno, e ambas trazendo aspectos negativos das votações: para Serra, o fato de ter tido menos votos que Geraldo Alckmin na última campanha; para Dilma a “não-vitória” já em primeiro turno. Depois, para ambos, perguntas sobre o tema do momento: o aborto. Nos dois casos, mesmo tom, sem acusações, apenas perguntas. Em seguida, a corrupção foi abordada, de lado a lado. Erenice Guerra para Dilma, Paulo Preto para Serra. Por fim, perguntas sobre alianças: para Serra, suas posições ambíguas sobre Marina Silva (PV). Para Dilma, o vai e volta de Ciro Gomes (PSB).

Por fim em termos. Para Serra, não foi o fim, e aí está a grande diferença entre as duas entrevistas. A pergunta final para o tucano é a única programática. Para Dilma faltou tempo. Se foi planejado? Não pareceu. A petista falou mais, se alongou mais nas respostas. De qualquer forma, a pergunta sobre programa político, muito mais importante que outras sobre aborto, primeiro turno, Ciro e Marina, não poderia ter ficado para o final, correndo o risco de ser cortada.

A falta de discussão sobre os programas é a grande falha. Apenas uma pergunta para Serra, e bem genérica, nada para Dilma. A campanha eleitoral está muito pouco politizada, e é óbvio que ela pauta a mídia. Mas o contrário também acontece, a própria mídia influencia muito na definição das agendas da campanha. E, a partir de entrevistas como essas, o Jornal Nacional contribui muito pouco para o eleitor conhecer os candidatos e votar com clareza do que está fazendo. Ajuda a despolitizar o processo eleitoral, esvaziar o debate programático.

Postado por Alexandre Haubrich

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TV que não consegue dialogar com internet fica pra trás

9 set

Cheia de idas e vindas, a promessa do pastor norte-americano Terry Jones de queimar, no dia 11 de setembro, 200 exemplares do Alcorão, o livro sagrado muçulmano, foi objeto nesta quinta-feira de um caso exemplar de como a internet está ultrapassando a televisão na precisão das informações, a partir de sua velocidade.

O pastor teria, inicialmente, desistido da queima dos livros. Porém, pouco depois, disse que poderia reconsiderar a decisão, e realmente realizar o ato, que vem preocupando autoridades dos EUA e deixando ainda mais complicada a relação entre norte-americanos e muçulmanos.

Às 22h09, o site G1 ainda noticiava a suspensão da queima do Alcorão. Exatamente no mesmo horário, no mesmo minuto, a Folha de S. Paulo deu na capa de seu site: “Pastor ameaça reconsiderar decisão de não queimar Alcorão após acordo ser desmentido”. Ou seja, agora a queima poderia novamente acontecer. O site do Estadão deu a mesma notícia: “Decisão de queimar o Alcorão está suspensa, e não cancelada, diz pastor”, chamou às 22h15. São 00h25, e o G1 continua defasado.

A matéria do G1, atualizada às 22h09, contém informações sobre a última informação, mas é apenas um parágrafo colocado ao final da primeira parte do texto original, publicado às 18h08, que começa assim: “O pastor evangélico norte-americano Terry Jones anunciou nesta quinta-feira (9) que desistiu do ato público em que cerca de 200 exemplares do Alcorão, livro sagrado do Islã, seriam queimados”. A chamada na capa do G1 e o título da reportagem ainda remetem à informação antiga: “Pastor diz que desistiu de queimar exemplares do Alcorão nos EUA”.

Enquanto isso, a televisão ainda patinava em sua lentidão e sua incapacidade de dialogar com a internet. Enquanto os grandes portais de notícia traziam as novas, TV Com (Porto Alegre) e TV Globo ainda estavam no capítulo anterior. Na primeira, o programa Conversas Cruzadas debatia o assunto, e o apresentador Lasier Martins insistia, mais de uma hora depois da mudança, na desistência do pastor. Na segunda, a chamada de William Wack para o Jornal da Globo, já depois da meia noite, continuava na informação antiga. Corrigiram a tempo para quando o programa foi ao ar, ao menos.

Postado por Alexandre Haubrich

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