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Carta Capital registra trajetória de derrubada dos impérios midiáticos

16 mai

Não é novidade o espaço que a revista Carta Capital tem dedicado ao tema das relações entre a revista Veja e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, agora investigado – juntamente com diversos políticos próximos a ele – em uma Comissão Parlamentar de Inquérito. A Carta entende, como nós, que discutir o modelo de comunicação que temos no Brasil e o jornalismo alimentado por este modelo – e que, por sua vez, o alimenta – é um caminho fundamental para a construção da democracia.

É com esse viés que, por diversas vezes, a publicação de Mino Carta dedicou capas à temática da comunicação em suas diversas esferas, passando pelas potencialidades da internet, pelo monopólio da Rede Globo (e suas possibilidades de ruir), pelos jornalões determinados a esconder a realidade brasileira e, por fim, chegando às relações entre a mais vendida revista do país e o criminoso mais falado nos últimos meses.

Se a mudança social passará pela mudança na mídia e em seu eixo de poder, a Carta, como dezenas de blogs, está registrando a História dessa mudança que se processa com avanços e recuos. Está fazendo jornalismo com um pé no presente e outro no futuro, documentando para a posteridade as lutas que têm sido travadas nesse caminho.

A seguir, relacionamos algumas destas capas, com as quais a Carta Capital presta um gigantesco serviço ao jornalismo e à sociedade brasileira.

Jornal Nacional e Chevron: parceria renovada

15 mar

Mesmo com o óleo escorrendo pelo mar mais uma vez, o caso de amor entre Jornal Nacional e Chevron não foi manchado. Pela segunda vez em menos de seis meses, a petrolífera estadunidense Chevron-Texaco deixou que houvesse um vazamento em um dos campos que explora no Brasil. E pela segunda vez seu release foi divulgado pelo telejornal de maior audiência no país.

Como em novembro de 2011, o vazamento foi na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro. Como em novembro de 2011, o Jornal Nacional narrou o caso apenas pela visão da multinacional. A matéria de Tatiana Nascimento teve um minuto e meio de duração, e usou três vezes expressões que remetem à versão oficial – “segundo a empresa” ou “segundo a Chevron”. Tudo o que foi divulgado pela empresa está na matéria, e o único entrevistado é Rafael Williamson, diretor da Chevron.

A mesma Rede Globo deu espaço no site de seu principal jornal impresso, O Globo, para o que a Agência Nacional de Petróleo falou sobre o assunto. Na matéria em questão há citação da nota divulgada pela ANP e entrevista com o secretário estadual de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Minc. No Jornal Nacional, com mais audiência e repercussão, apenas a versão da Chevron.

O trabalho conjunto entre multinacionais e empresas brasileiras de comunicação é um dos grandes males da mídia brasileira. O interesse econômico desses grupos atropela o interesse público, atropela o direito do povo brasileiro à informação e agride o país de forma covarde.

 

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Globo e Ricardo Teixeira: que morram abraçados

12 mar

A instituição Rede Globo está em prantos. Também choram alguns de seus repórteres esportivos mais “cacifados”. Encabeçam essa lista, na noite de hoje, Renato Ribeiro e Tino Marcos. Foram esses os encarregados do obituário de Ricardo Teixeira na presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). E lamentaram tal qual William Bonner lamentou, alguns anos atrás, a morte de Roberto Marinho. Lamentaram a morte política de um de seus chefes mais queridos: o presidente da CBF.

A ESPN denuncia volta e meia, mas, sem TV aberta, pouco se fala sobre a subserviência de algumas empresas e repórter à CBF e ao seu agora ex presidente. Globo e CBF andam de mãos dadas e rabo preso há anos. Quando Fábio Koff conseguiu se reeleger presidente do Clube dos 13, era nos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro que mirava a Globo ao apoiar seu opositor. Koff queria a revisão dos contratos. A Globo tem preferência mesmo que ofereça menos dinheiro do que oferecem as outras emissoras. A CBF é uma empresa privada, que comanda o futebol brasileiro e é comandada há mais de duas décadas pela mesma pessoa. Ao contrário do que diz sobre Cuba ou Venezuela, a Globo não chama o futebol brasileiro de ditadura. Ricardo Teixeira é “o presidente”.

Na noite desta segunda-feira, o Jornal Nacional levou ao ar duas reportagens sobre a renúncia de Ricardo Teixeira. Acossado por denúncias e mais denúncias de corrupção, o ex faraó do futebol brasileiro alegou problemas de saúde e foi de mala e cuia para Miami. Sua carta de renúncia foi lida por seu sucessor e aliado, José Maria Marin.

A primeira matéria é de Renato Ribeiro, mas mais parece um release da CBF. Cita trechos da carta de renúncia e diz que Teixeira “estava licenciado por motivos de saúde”, sem sequer questionar o que é questionado por todos os lados.

Na segunda matéria, de Tino Marcos, há uma lembrança saudosa da posse de Ricardo Teixeira, em 1989, e são enfileirados os títulos da Seleção Brasileira, como se o mérito fosse do cartola. Faz jus à reclamação do ex dono do futebol brasileiro, veiculada por Renato Ribeiro: “Fui subvalorizado nas vitórias”, escreveu em sua carta de renúncia que não teve sequer a coragem de ler. E Tino Marcos chama as medidas tomadas pelo chefão de “benéficas à economia dos clubes”.

Além disso, como comentou um jornalista no Facebook, a matéria “não fala nada sobre as denúncias dos últimos dois meses contra o Teixeira, que são indispensáveis pra que se entenda o motivo dessa renúncia em 23 anos”. E completa: “O que eu achei grave na matéria do Tino Marcos é que se faz um balanço da gestão Teixeira e eles dão uma pincelada sobre ‘polêmicas’ só pra dizer que tá ali, e rezando pra que ninguém preste atenção nisso. Não são ‘polemicas e desafetos’ que o teixeira teve na administração dele. foram acusações de desvio de dinheiro, de escandalos envolvendo a Nike, e não ‘uma distribuidora de artigos esportivos’. É tudo eufemismado”.

O espaço é todo para as posições e justificativas de Ricardo Teixeira. Os repórteres seguem à risca a relação de amizade construída ao longo de todos esses anos entre o ex presidente eterno da CBF e a (quiçá futura ex) presidenta eterna da comunicação brasileira. Globo e Ricardo Teixeira se beneficiaram muito um do outro. Que morram abraçados. Ambos foram e são prejudiciais ao povo brasileiro.

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Delegado do DOPS confirma proximidade de Roberto Marinho e Octávio Frias com Ditadura

10 fev

Vira mês, troca ano, e os assassinos e torturadores da Ditadura Militar brasileira seguem impunes e os arquivos daquele período seguem fechados e a mídia independente continua cobrando do governo ações para reverter esse contexto desolador. Parece que aos poucos, devagar e sempre, as coisas começam a andar, a ministra Maria do Rosário parece verdadeiramente interessada em enfrentar o tema e a Comissão da Verdade dá seus primeiros passos, além da instalação de mini comissões por todo o Brasil.

É nesse contexto, de pequenos avanços, que é publicada uma entrevista da Agência Pública com “um dos poucos delegados do DOPS ainda vivos”, José Paulo Bonchristiano, o Mr. Dops. A Agência tem feito um dos mais importantes trabalhos de jornalismo independente e investigativo no Brasil, tendo publicado com exclusividade, inclusive, alguns documentos referentes ao país liberados pelo Wikileaks.

Na entrevista com o Bonchristiano, além de muitos “casos” contados pelo delegado da Ditadura, fala-se rapidamente sobre as atitudes da mídia naquela época. E aí fica clara uma cumplicidade já denunciada dezenas de vezes, e agora admitida pelo delegado, entre a Ditadura e os barões da mídia. A repórter Marina Amaral escreve: “Roberto Marinho, da Globo, diz [Bonchristiano], ‘passava no DOPS para conversar com a gente quando estava em São Paulo’, e ele podia telefonar a Octávio Frias, da Folha de S. Paulo ‘para pedir o que o DOPS precisasse’”.

Um dos entraves que vêm impedindo maiores avanços do Brasil nessa área, deixando o país para trás em relação aos vizinhos latino-americanos, é o fato de que a abertura dessa verdadeira caixa preta, o aprofundamento no tema da Ditadura Militar, envolverá necessariamente muitos empresários e muitas empresas ainda muito prestigiadas atualmente. E com que cara ficarão essas pessoas ao verem expostas suas promíscuas relações com torturadores e assassinos? Como irão lidar com a proximidade de uma lembrança que deve assombrá-las todas às noites? O que será de sua sanidade quando os gritos das salas do DOPS e do DOI-CODI ultrapassarem a fronteira entre seus pesadelos e a realidade objetiva da opinião pública?

Dentre esses empresários, temos, como mostra a entrevista de Bonchristiano, os velhos barões da velha mídia, que são basicamente os mesmos daqueles tempos e de hoje. São donos de conglomerados de comunicação que, como dizia Brizola, “engordaram com a Ditadura”. São “filhotes da Ditadura”, e usam o poder alcançado nos anos de chumbo para continuarem impedindo a gestação da democracia midiática e, a partir dela, de uma democracia real e transparente no que se refere às ações do presente e do passado do poder.

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Jornalista faz greve de fome em frente à Rede Globo

30 jan

Desde esta segunda-feira, o jornalista Pedro Rios Leão está algemado e em greve de fome em frente à sede da Rede Globo, no Rio de Janeiro. A ação não é apenas um protesto, mas uma reivindicação. Pedro busca a compreensão de algum jornalista funcionário da Globo da importância de cobrir com qualidade a expulsão de 6 mil pessoas da comunidade de Pinheirinho, no interior de São Paulo. Há indícios, inclusive, de morte de moradores na invasão da Polícia Militar que retirou as centenas de famílias do local para devolver o terreno ao especulador condenado Naji Nahas.

A Globo segue em absoluto silêncio, e é contra esse silêncio que Pedro Leão se rebelou. Da mesma forma com que o sistema político-econômico dominante no planeta parece começar a se esgotar, o sistema midiático brasileiro começa a ser questionado cada vez com mais veemência. Não é mais possível aguentar emissoras de televisão que exploram concessões públicas e nada fazem pelo interesse público, trabalhando exclusivamente em defesa dos interesses das elites, desinformando a população e ignorando as demandas do povo e as agressões sofridas por este.

Cada vez há menos espaço e menos tolerância com uma mídia elitista. O crescente fortalecimento da mídia independente – em especial dos blogs e das redes sociais, com a lenta mas gradual popularização da internet – tende a diminuir a importância das mídias tradicionais e desmascarar muitas de suas mentiras e omissões. É o caso do Pinheirinho, como já demonstramos em outro post aqui mesmo no Jornalismo B.

Pedro Rios Leão é um representante de todos nós. Da mesma forma com que já dissemos que todos nós somos Pinheirinho, estamos também todos algemados em frente à Globo, o pulso de Pedro é cada um de nossos pulsos, sua luta é nossa luta.

Precisamos apoiar este indignado e indignarmo-nos juntos. Todas as formas de ação em defesa da democratização da mídia são legítimas e devem ser encaradas como formas de subversão, mas vemos cada vez mais a necessidade de radicalização dessa luta. Temos visto um acirramento entre as lutas populares e as ações do Estado, especialmente nos locais governados pela direita, com a Polícia Militar à frente de operações violentas, com a retaguarda sempre coberta por uma mídia absolutamente afastada do povo. Nesse contexto, o embate faz-se necessário e inadiável. Pedro Rios Leão é um soldado que precisa de nosso apoio.

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Elites se unem contra moradores do Pinheirinho. Pra que(m) serve essa terra?

23 jan

Muito se pode escrever sobre o que aconteceu no último fim de semana em Pinheirinho, em São Paulo. Muito já se escreveu, também, e mesmo assim, em nosso conjunto de palavras, é difícil dimensionar o tamanho do problema do despreparo da Polícia Militar por todo o país somado ao neoconservadorismo de uma fatia da sociedade e o autoritarismo elitista dos partidos da direita brasileira. Também é difícil dimensionar as consequências disso tudo, mas elas salpicam sangue em nossos olhos quando menos esperamos.

No último domingo, centenas de famílias foram desalojadas no bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), em uma ação violenta da Polícia Militar, sob ordens do governo estadual de Geraldo Alckmin (PSDB). Foram 2 mil PMs na operação. Há relatos, entre os moradores, de mortos na ação. Diz a polícia que foram vinte feridos, apenas. A ação foi em cumprimento a reintegração de posse, em benefício do empresário Naji Nahas. Segundo o Blog do Miro,

Naji Nahas, que reivindica a “propriedade” do latifúndio, é um especulador condenado (…). Mais: havia uma trégua em curso, acertada por todas as partes, e uma decisão da Justiça Federal mandando suspender a mal-chamada “reintegração de posse”. (…) Cansados de tantas arbitrariedades, alguns membros da ocupação vestiram-se de uniformes de resistência improvisados, numa encenação artística do que pode vir ser o contra-poder popular. O governo de Geraldo Alckmin, ligado ao fundamentalismo cristão de direita, e o Tribunal de Justiça de São Paulo, conhecido por seus laços com o que há de mais feudal e escravocrata na oligarquia paulista, não toleraram a hipótese de diálogo, muito menos a irreverência das imagens.

A PM invadiu durante a madrugada, quando os moradores dormiam. Tática de guerra. Uma polícia militarizada, treinada com foco em combate, e a sociedade como inimiga, os moradores como inimigos a serem expulsos ou eliminados. Agora, seis mil pessoas engrossam a fila de cidadãos ultrajados, desalojados, em condições precárias.

Tudo isso assinado embaixo por alguns setores da mídia, a começar pela Rede Globo. Em matéria de dois minutos no Fantástico, a pauta foi a criminalização dos moradores. A reportagem trabalhou com release da Polícia Militar e da Justiça de São Paulo, que contrariou orientação da Justiça Federal. Como bem escreveu Altamiro Borges, essa mídia “tratou os ocupantes como ‘invasores’ e culpados pelas cenas de violência”. E mais: “Nos momentos de confrontos mais agudos, os barões da mídia se juntam na defesa da “propriedade” e contra os que lutam por direitos humanos mínimos – como o direito à moradia. Nesta “cruzada sagrada”, eles inclusive protegem notórios bandidos, como é o caso do especulador Naji Nahas. De vilão, ele foi tratado como prejudicado no triste episódio do Pinheirinho”.

Entre a bala e a pedra, a velha mídia sempre esteve ao lado da bala. Bons exemplos são os tratamentos dados ao MST e à questão palestina, onde o “confronto” é sempre entre pedras e armas de fogo. Os casos recentes de agressões a estudantes da USP pela mesma PM paulista demonstram também uma preferência pelo porrete em detrimento da palavra, da ação violenta em oposição ao pensamento reflexivo (crítico).

Mas agora essa mídia não é a única voz, ainda que continue sendo dominante, opressora e dona dos principais espaços de circulação de informação (televisão, rádio e jornais). Os blogs vem fazendo uma grande cobertura jornalística do caso, denunciando os abusos da PM, da Justiça de SP, do governo de Alckmin e da mídia aliada às elites. Destaco o excelente trabalho de reportagem de Raphael Tsavkko e Maria Frô, e os artigos precisos e esclarecedores de Altamiro Borges que já citei neste post, mas muito mais pode ser encontrado em uma busca rápida pela rica e diversa blogosfera brasileira.

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Jornal Nacional, Fátima e Patrícia – showrnalismo em horário nobre

6 dez

O espaço de televisão é uma concessão pública. As emissoras que ganham as limitadas concessões devem, portanto, atuar em direção aos interesses públicos. Nos espaços jornalísticos, as emissoras devem primar pela seriedade, e tratar com o máximo de profundidade o máximo de fatos possíveis. Não é o que se costuma ver, e na noite da última segunda-feira tivemos mais um exemplo disso. O principal telejornal da maior emissora de televisão brasileira dedicou 15 minutos à absoluta futilidade e ao auto-elogio.

A troca de apresentadoras (sai Fátima Bernardes, entra Patrícia Poeta) não significa absolutamente nada para o andamento do jornal. O Jornal Nacional continuará sendo rigorosamente o mesmo. Mas a mudança foi objeto de quinze minutos de cobertura, com direito a um animado bate-papo entre as duas e o editor-chefe do jornal, William Bonner. Reportagem de 4 minutos sobre a trajetória de Fátima Bernardes na Globo, o mesmo sobre Patrícia Poeta.

Foram 15 minutos de auto-elogio, de superação absoluta da notícia pelo noticiador. Em 15 minutos poderiam ter sido apresentadas pelo menos cinco matérias, três minutos é muito tempo em telejornalismo. Mas o Jornal Nacional preferiu ignorar o que acontecia no mundo para exaltar seus astros. Os apresentadores deixam de ser jornalistas e tornam-se estrelas de televisão, “artistas”, celebridades. O interesse público é deixado de lado e o entretenimento invade o jornalismo, o show ganha espaço sobre a informação.

É um exemplo típico de showrnalismo, e um absoluto desrespeito com a sociedade brasileira. Usar o horário nobre para o que Marco Aurélio Mello bem descreveu como “começa com um ti-ti-ti, depois vem um blá-blá-blá e termina com um tricô” é vergonhoso, é um acinte. Como o mesmo blogueiro escreveu, “tenho esperança de que um dia as pessoas cairão em si e entenderão o erro que estão cometendo em permitir que as coisas funcionem assim”.

Repensar as concessões de TV e rádio é uma necessidade urgente. A Rede Globo trata o espaço a ela concedido pelo poder público – pretensamente em nome de toda a sociedade – como uma propriedade sua, dando-se o direito de fazer o que bem entender, até mesmo passar quinze minutos do horário nobre exaltando a si mesma e construindo com naturalidade celebridades em seus jornalistas. A mistura de jornalismo com entretenimento vê aí um de seus resultados mais bem acabados. A sociedade como espetáculo, a notícia como show. E o resultado desse resultado é o caminho mais curto da alienação.

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A Globo e o sumiço do Pan

19 out

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Rodrigo Cardia*

Uma antiga vinheta da Rede Globo, veiculada em 1994, dizia que a emissora era “mais Brasil”. Há quem acredite nisso. Porém, uma análise crítica demonstra que antes de qualquer “patriotismo” o que vale mais para a Globo é o aspecto comercial. Prova disso são as coberturas totalmente opostas de duas edições do mesmo evento (Jogos Pan-Americanos).

Em 2007, os Jogos Pan-Americanos foram realizados no Rio de Janeiro. Durante praticamente os dias inteiros, a Rede Globo transmitia as competições e exibia boletins sobre o evento. Foi uma cobertura digna de Olimpíada, que a emissora não fizera no Pan de 2003, realizado em Santo Domingo (República Dominicana).

Quatro anos depois, uma nova edição dos Jogos Pan-Americanos acontece, desta vez em Guadalajara, no México. Nos primeiros dias de competições os atletas brasileiros já haviam obtido vários bons resultados. Mas não apareceram na Rede Globo. E não é porque o Pan é realizado fora do Brasil: como já foi dito, em edições anteriores à do Rio a emissora não deixava de falar sobre o evento, mesmo sem fazer uma cobertura como a de 2007.

O que acontece é que os direitos de transmissão para o Brasil do Pan de Guadalajara pertencem à Rede Record, e não à Globo, como ocorrera nas edições anteriores. E por conta disso, a emissora da família Marinho decidiu simplesmente “boicotar” o Pan 2011. Os Jogos são quase ignorados pelos programas esportivos da Globo.

Com isso, a Rede Globo demonstra não dar tanta importância ao esporte brasileiro como costuma dizer. O mais importante é não violar os interesses comerciais. Tanto no caso do Pan 2011 (a Record acusa a Globo de ter veiculado imagens dos Jogos sem dar os devidos créditos à emissora concorrente, conforme prevê o contrato de direitos de imagem) como em outras ocasiões: lembram de quando o antigo Sport Club Ulbra era chamado de “Canoas” em 2009, só porque a universidade, em crise, não era mais anunciante?

Ou seja: não se trata de uma novidade quando se fala de Globo, mas sim, de uma prática já “antiga”. Aí vemos alguns jornalistas esportivos dizerem que as empresas deveriam investir mais em esporte – só que quando elas o fazem, suas logomarcas são “escondidas” pela emissora de maior audiência no país. A não ser, claro, que decidam anunciar nela…

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A Record também comprou os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos – assim, a Olimpíada de Londres será também televisionada pela emissora de Edir Macedo. Teremos assim um novo “boicote” por parte da Globo?

* Rodrigo Cardia é historiador, diagramador do Jornalismo B Impresso e autor do blog Cão Uivador.

A Rede Globo e a criminalização internacional da pobreza

26 set

Há cerca de dois meses aconteceram na Inglaterra diversos protestos violentos de jovens retaliados pela sociedade inglesa. As manifestações aconteciam em um momento no qual boa parte da Europa começava a sentir a rebeldia popular contra as reduções nos gastos sociais levadas a cabo por governos que viam seus países prestes a quebrar. A retirada de direitos sociais foi determinada pelo FMI e, ao começar a ser implantada em países como a Grécia, a Espanha e a Inglaterra, foi motivo de amplas mobilizações. No caso específico inglês, a mídia brasileira usou a violência dos protestos para imediatamente criminalizar e tentar deslegitimar os manifestantes – chegando alguns jornalistas a discutir com entrevistados -, seguindo a política de boa parte da grande mídia internacional.

Já é fim de setembro e a poeira baixou, mas tremores cuja percepção é mais sutil continuam afetando a sociedade inglesa. O silêncio da mídia hegemônica brasileira, comprometida com o ideário neoliberal, apoiadora da retirada de direitos sociais, só é quebrado ocasionalmente, sempre com o propósito de mais criminalização, desembocando, irremediavelmente, em mau jornalismo.

Nesta segunda-feira o Jornal Hoje, da Rede Globo, veiculou uma reportagem de quase 3 minutos, feita por Cecília Malan, sobre o aumento, em Londres, das ocupações de mansões por jovens sem-teto. A matéria é uma repetição de preconceitos, desinformação e omissões. Já na “cabeça” (chamada do âncora para a matéria), há um lamento pelo “detalhe na legislação britânica que dificulta a expulsão de quem ocupa um imóvel ilegalmente” – entrar em um imóvel vazio, desde que não haja arrombamento, não é crime por lá.

Quando a voz da repórter entra em cena, é para alertar: “Casa vazia, desocupada? Cuidado, proprietário, tem gente de olho. São jovens sem-teto e pra lá de abusados”. E vem mais: “Não invadem qualquer casa, não. Escolhem a dedo mansões milionárias”. E mais: “E não é só chamar a polícia e botar todo mundo pra correr. Antes fosse possível”, lamenta Cecília Malan. As entrevistas são com o dono de uma propriedade invadida, com um agenciador de imóveis e com uma inquilina “com a única responsabilidade de evitar a entrada dos invasores, pagando aluguéis baixos”.

Nenhum “invasor” foi entrevistado. Em nenhum momento a repórter questiona o porquê do aumento das ocupações – e ela mesma se espanta: “Não é um fenômeno novo, mas está saindo do controle das autoridades britânicas” –, ou mesmo se pergunta quem são esses jovens.

Certamente a correspondente global não leu um texto do jornal A Verdade, ou qualquer texto entre tantos publicados em blogs ou veículos da mídia independente que trataram da situação sócio-econômica da Inglaterra. São 2,5 milhões de desempregados, 25% dos jovens ingleses está sem ter onde trabalhar há pelo menos 12 meses, 46% das pessoas com mais de 50 anos está na mesma situação. Até os suicídios tiveram considerável aumento no país, porque as ocupações de mansões desocupadas não iriam se multiplicar?

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Allende vive – Twitter fura bloqueio midiático à História

12 set

Em 11 de setembro de 1973 se encerrava um governo popular, socialista e democrático que trazia belas perspectivas ao Chile e à América Latina. No mesmo dia, no mesmo lugar, tinha início a mais sangrenta ditadura que o continente americano já viveu. O Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, era bombardeado pelos golpistas aliados ao governo norte-americano, morria Salvador Allende e chegava ao poder o general Augusto Pinochet. Na ditadura instaurada a partir daí, e que durou até 1990, calcula-se que tenham sido assassinadas mais de 50 mil pessoas, além de a tortura ter sido prática comum.

No último domingo completaram-se 38 anos da morte de Allende e da ascensão de Pinochet, e um silêncio doído tomou conta da mídia hegemônica brasileira. No Fantástico, da Rede Globo, e no Domingo Espetacular, da Rede Record, nenhuma palavra, nenhuma lembrança sobre a morte de Allende ou sobre as tantas violências que daí decorreram. A morte de Allende foi uma pequena morte para o povo chileno.

Enquanto sua revista semanal silenciava sobre o Chile, a Rede Globo fez, durante toda a semana, uma enorme cobertura do “outro” 11 de setembro, o mais recente, no qual morreram quase 3 mil pessoas nos Estados Unidos.

É inegável a importância histórica do 11 de setembro norte-americano. Um ataque diferente do usual, em um país que nunca fora atacado nessa escala, e que deu início a mudanças profundas pelo mundo, começando pelo avanço da xenofobia contra os povos árabes e muçulmanos e chegando, é claro, aos centenas de milhares de civis assassinados pelos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque. Além disso, a data redonda (dez anos), ao contrário dos 38 da morte de Allende e do Golpe no Chile, justificam efetivamente uma cobertura maior.

Porém, 25 minutos tratando dos acontecimentos em torno do World Trade Center e nenhum instante para falar de Allende e Pinochet é uma distorção histórica grave. Como disse acima, o bombardeio ao La Moneda deu início a uma forma de terror ainda mais grave do que o terrorismo da Al Qaeda: a situação em que o Estado, representação institucional da sociedade, aterroriza a própria população que deveria proteger. Foi parte de uma estratégia internacional, com particularidades locais, de combate aos governos progressistas – muitos nem tanto – que se espalhavam pelo mundo. Quase toda a América Latina foi, no mesmo período, violentada por Ditaduras Militares apoiadas pelos Estados Unidos, e o Chile foi a expressão máxima da repressão e da violência de Estado, além de ver morrer uma das lideranças mundiais mais importantes daquele contexto de avanço democrático popular.

Tudo isso foi ignorado pela grande mídia brasileira, mas não pelas redes sociais. Durante uma boa parte do dia a hashtag (etiqueta, ou marcador) #AllendeVive esteve entre a segunda e a terceira colocação entre as expressões mais citadas no Twitter. Algumas pessoas relatavam não saber bem o que significava ou quem fora Allende, e acabaram se informando por ali. O bloqueio midiático à História foi furado mais uma vez.

* O último discurso de Salvador Allende:

* Documentário do cineasta Ken Loach, traçando um paralelo entre os dois 11 de setembro, 1973 e 2001.

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