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Imprensa de aluguel ataca trabalhadores no Rio Grande do Sul

4 out

Nesta terça-feira chega a uma semana a greve dos bancários do Rio Grande do Sul. Os trabalhadores pedem 12,8% de aumento, o que seriam 5% de aumento real, enquanto os bancos, que lucram cada vez mais, oferecem 0,56% de aumento real. Com a greve, causada pelos banqueiros – e não pelos bancários, as grandes vítimas da lógica trabalhista dos bancos –, os usuários também saem prejudicados. Esse prejuízo é duplo: além das dificuldades óbvias em utilizar os serviços a que têm direito, ainda se vêem afundados em um grande lamaçal midiático. A desinformação é a tônica constante na mídia hegemônica quando se fala em qualquer movimento grevista. Nesse caso não é diferente.

Representante midiático das elites, o jornal Zero Hora começou, no mesmo dia em que iniciava a greve dos bancários, uma campanha difamatória contra o movimento e o Sindicato dos Bancários. A estratégia para jogar a população contra os grevistas vem sendo dupla: mostrar como a greve prejudica o bom andamento da vida do leitor e, imediatamente a seguir, deslegitimar o movimento como instrumento de luta.

Foram, até o momento, quatro matérias falando sobre a greve. Duas delas (27/09 e 04/10) falaram apenas sobre as dificuldades que os consumidores encontram e sobre “como fugir dos transtornos”. Ou seja, a greve é uma prática que atrapalha o bom andamento social e o “consumidor” deve agir em relação a ela apenas buscando formas de contorná-la. Não há porque se interessar em conhecer as motivações dos grevistas, muito menos solidarizar-se a eles. Zero Hora reforça o ideário liberal do indivíduo por si mesmo, desconectado de sua classe – no caso, a classe trabalhadora – ou das demandas sociais impostas de cima e refletidas embaixo.

As outras duas matérias (28/09 e 01/10) “denunciam” o uso de “grevistas de aluguel” que, segundo ZH, “dão volume ao movimento”. A ideia passada é de que o movimento não tem força e busca se legitimar através de artifícios que não são bem aceitos socialmente. Declarações do presidente do SindBancários, Mauro Salles, foram distorcidas para corroborar a tese que visa deslegitimar o movimento perante a população e entre seus próprios militantes. Salles deixa claro que foi contratado pessoal de apoio “para levar lanche, fixar faixas e até dar informações aos clientes”, já que “os funcionários de bancos privados que ficam na frente de suas agências podem ser demitidos”. Sobre mais essa forma de pressão sobre os trabalhadores – o risco iminente de demissão por exercer o direito à greve – Zero Hora preferiu não se aprofundar.

 As reivindicações dos bancários também ficam de fora da cobertura, assim como qualquer reflexão sobre o fato de os lucros astronômicos dos bancos não refletirem em uma melhora efetiva na condição dos trabalhadores.

Na matéria do dia 27/09, são seis parágrafos, totalizando 30 linhas, e apenas as últimas quatro foram destinadas a informar que “Os bancários reivindicam aumento de 12,8%, que corresponde à recomposição do salário de 7,8% mais o aumento de 5%”. Em 28/09, 13 parágrafos, 87 linhas, e apenas as últimas quatro, novamente, falam sobre reivindicações, e de forma incompleta (“Em greve nacional, os bancários reivindicam reajuste salarial de 12,8%. A Federação Nacional dos Bancos oferece por enquanto 8%”). No dia 01/10, cinco parágrafos, 35 linhas, e nenhuma palavra sobre reivindicações, o mesmo acontecendo no dia 04/10, quando o texto principal tem sete parágrafos que totalizam 61 linhas.

A grande mídia, representada, nesse caso específico, pelo jornal Zero Hora, é a tercerização do discurso das elites. É a imprensa de aluguel, alugada pelos banqueiros para defender seus indefensáveis interesses. O ataque às reivindicações dos trabalhadores é diário, e a desintegração social entre os explorados é o objetivo quando se criminaliza e deslegitima, através de um discurso distorcido, movimentos sociais legítimos e com direito à manifestação.

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Latuff responde a Iotti: conjugando o verbo vender

28 abr

Após o nosso último post, que comentou algumas charges de Iotti, publicadas em Zero Hora, que se repetiam para criminalizar as instituições brasileiras (no último caso a vítima foi o MST), o chargista Carlos Latuff produziu, especialmente para o Jornalismo B, uma charge sobre a escolinha RBS, e o bom aluno Iotti.

Todos os agradecimentos ao craque Latuff, que presenteia os leitores do Jornalismo B com mais um desenho genial.

Grupo RBS e Instituto Millenium: pode beijar a noiva

4 nov

O Instituto Millenium é uma entidade criada em 2005 com o objetivo de trazer para sua órbita a nata da direita brasileira. Possui como apoiadores instituições como o Instituto Liberal e o Movimento Endireita Brasil. Entre seus conselheiros, estão João Roberto Marinho, Roberto Civita, Jorge Gerdau, Luiz Eduardo Vasconcelos, Gustavo Franco e Pedro Bial. Seus princípios, segundo o site da organização, são “liberdade individual, propriedade privada, meritocracia, estado de direito, economia de mercado, democracia representativa, responsabilidade individual, eficiência e transparência”.

No início do ano, o Instituto Millenium promoveu o que chamou de “1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, com palestrantes como Roberto Civita (dono do Grupo Abril), Marcel Granier (dono da RCTV, rede venezuelana que apoiou a tentativa de golpe em 2002), Arnaldo Jabor e Reinaldo Azevedo. Uma grande reunião da extrema direita brasileira para debater, a partir de um conceito muito particular de “democracia” e “liberdade”, os rumos políticos e da comunicação no país.

O Grupo RBS é o conglomerado de mídia que domina a comunicação nos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Através de CNPJs diferentes, burla a Constituição, que diz que “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”, e o Código Brasileiro de Telecomunicações, que diz que a mesma entidade pode possuir apenas duas emissoras de televisão por Estado.

Segundo seu site, o Grupo RBS possui 18 emissoras de TV aberta, duas emissoras de TV comunitária, uma emissora segmentada, 25 emissoras de rádio, oito jornais diários, quatro portais na internet, além de outras empresas diversas, como gráfica, editora e gravadora. Coloque “RBS” na busca do Jornalismo B para ver de que forma o grupo faz uso desse poder todo.

Agora eles estão definitivamente juntos. O Grupo RBS já tinha uma relação próxima com o Millenium, participando, por exemplo, do tal fórum do início do ano. Agora a aproximação deve ser maior. Querendo se tornar ainda maior, a RBS alia-se definitiva e abertamente aos principais grupos da direita brasileira. O Instituto Millenium tem promovido ações de centralização dos debates e dos grupos de direita. Segue se expandindo e se credenciando através de parcerias como essa.

A nota que anuncia a parceria, publicada no site do Instituto, não deixa claro seu teor. Mas afirma que

A parceria entre a empresa jornalística e o Millenium visa ampliar a difusão da informação que evidencie a defesa dos valores do Instituto: liberdade individual, propriedade privada, meritocracia, estado de direito, economia de mercado, democracia representativa, responsabilidade individual, eficiência e transparência.

O estabelecimento da parceria parte, certamente, de uma constatação de que  a RBS já estava sintonizada com esses valores. Agora, a linha editorial do Grupo tende a, pouco a pouco, dia a dia, sutilmente, aprofundar a defesa desses princípios.

O Grupo RBS assume, assim, seu lado. Depois de tantas vezes cair e ser erguido rapidamente através de discursos falaciosos, o manto da imparcialidade cai novamente. A defesa desses valores implica em muitas outras defesas que vem de carreto. O contrário também é válido: esses princípios são apenas meios. O fim é a expansão de um domínio que quase não cabe mais no território, mas começa a ser ameaçado pela ascensão dos blogs e das redes sociais e de iniciativas da sociedade organizada em busca da democratização da mídia.

* Agradeço a Thiago de Moraes a sugestão do tema.

Postado por Alexandre Haubrich

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TV Com faz boa cobertura no dia das votações

5 out

Depois de cerca de três meses de coberturas chochas e desiguais em relação aos diferentes candidatos, a TV Com deu, no domingo das eleições, um show de transmissão. Comandada, até o meio da tarde, por Jader Rocha, a cobertura trouxe entrevistas com os candidatos, reportagens nas ruas, comentários de especialistas.

Usando um equipamento que facilitou a mobilidade de Rodrigo Lopes, repórter queridinho da RBS, a TV Com pôde entrar ao vivo de vários locais de Porto Alegre em pouco tempo. Tudo bem, obviamente a possibilidade não foi bem aproveitada, e as reportagens pouco passaram de uma ou outra entrevista com perguntas como “já votou?”.

A escolha do repórter que usaria o novo equipamento obedeceu a critérios de estrelismos, não a critérios jornalísticos. De qualquer forma, as entradas davam ao telespectador a possibilidade de sentir o clima e a movimentação de pessoas e carros por Porto Alegre.

O grande mérito da cobertura foi a parte de estúdio. Ali esteve o diferencial, principalmente na primeira metade da tarde. Jader Rocha é um jornalista competente, inteligente, e que comandou esses primeiros momentos com muita tranqüilidade. Foram entrevistados, ali, todos os candidatos ao Piratini, com tempos iguais. As entrevistas, conduzidas por Jader e por André Machado, foram equilibradas, tranquilas, com os candidatos apresentando suas propostas e ideias.

Sem espaço algum durante a campanha, no dia das eleições os candidatos dos partidos menores tiveram, enfim, sua voz escutada. A cobertura da TV Com permitiu aos telespectadores acompanharem durante todo o domingo tudo o que acontecia na cena eleitoral, com o novo equipamento móvel, as entradas de repórter em locais como o TRE e os comitês dos candidatos favoritos, e a condução bem feita de entrevistas e de toda a transmissão a partir do estúdio.

Postado por Alexandre Haubrich

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Boca de Rua, crack e Grupo RBS

31 ago

O Grupo RBS, que detém o monopólio das informações no Rio Grande do Sul, volta e meia lança campanhas institucionais voltadas para o acréscimo de audiência e o fortalecimento de seu poder de agenda. Ainda que o Grupo tenha grande influência política e social no Estado, as tais campanhas dão pouco ou nenhum resultado para a sociedade. Casos, por exemplo, da “Violência no trânsito – isso tem que ter fim” e da mais recente “Crack, nem pensar”.

Essa última, como a outra, tem servido para a promoção de caminhadas, protestos e painéis da RBS. Também vinham sendo veiculadas – o esvaziamento da campanha nos veículos do grupo hoje é quase total – reportagens que esclareciam a classe média sobre os efeitos do crack e as consequências de seu uso, pouco mais do que isso.

Em sua última edição – de julho, agosto e setembro – o jornal Boca de Rua, de Porto Alegre, produzido por moradores de rua da capital gaúcha e coordenado pela jornalista Rosina Duarte, mostrou que a pauta pode ser invertida, e que a abordagem da questão do crack pode trazer informações também a quem diariamente convive com esse drama. Uma reportagem de duas páginas, feita por pessoas em situação de rua, relata as principais dificuldades enfrentadas pelos usuários e comenta as poucas políticas públicas voltadas para o assunto.

A primeira parte da matéria se propõe justamente a “listar algumas dificuldades para se livrar da dependência”. Fala na burocracia do atendimento, na falta de acompanhamento após o tratamento e no preconceito social que se reflete nas políticas públicas, que culminam, muitas vezes, na criminalização do dependente químico.

Depois, uma retranca apresenta a situação das políticas públicas que já foram estruturadas, nos níveis federal, estadual e municipal. Mostra com clareza que algumas iniciativas começam a ser tomadas, mas ainda são absurdamente pequenas em relação à demanda. Por fim, uma entrevista com uma assistente social do Centro de Assistência Psicossocial (CAPS).

O foco no cuidado com o dependente e a crítica ao traficante, que aparece em mais de um momento da reportagem, trazem uma face humana e preocupante do crack. Produzida por quem vive a situação para quem vive ela e para quem não a vive, a matéria apresenta em sua abertura o diagnóstico que tenta curar: “A população condena os usuários de crack. Pelas matérias de jornal e os comentários das pessoas, parece que eles não são doentes, mas criminosos”.

Postado por Alexandre Haubrich

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Jornal do Almoço e o transporte coletivo

14 ago

Todos sabemos que o estímulo ao uso do transporte público não costuma ser estimulado pela grande imprensa brasileira, e não chega a ser uma preocupação comum da imprensa alternativa. Dentre os motivos mais óbvios para a omissão da mídia hegemônica frente a essa questão, estão os interesses em anunciantes que precisam da venda de automóveis particulares para sobreviver e o cuidado com não arrumar problema com as empresas que controlam os transportes públicos.

Também são amplamente conhecidas as consequências disso, ainda que nem sempre nos damos conta da ligação entre essas questões, tão normais nos parecem hoje: a absurda poluição do ar e tudo o que decorre disso; o caos no qual se transformaram as ruas de cidades de grande ou médio porte, dado o número excessivo de veículos particulares transitando diariamente; o encarecimento abusivo e incontrolável do transporte público, enquanto a qualidade deste pouco aumenta.

Ainda que faltem reportagens que desnudem as causas e soluções de todos esses problemas, os grandes grupos de mídia não deixam de lembrar de alguns deles, como os congestionamentos e o aquecimento global. É claro que os altos custos das passagens de ônibus são ignorados, já que não afetam diretamente as elites para as quais esses meios falam. Porém, o que é importante deixar claro é que a imprensa não deixa de constatar alguns desses problemas, mas omite constantemente suas causas e possíveis soluções.

Nesta sexta-feira tivemos mais um exemplo de como a questão do transporte tem espaço, mesmo em espaços menos comprometidos com o serviço social que o jornalismo deveria prestar sempre, sem exceções. O Jornal do Almoço veiculou uma reportagem de quase 5 min sobre o aumento das tarifas de táxi. A matéria é de Carla Fachim, e não esclarece absolutamente nada, não passa de perfumaria e espetáculo.

O aumento foi de 4,5%, e não foi explicado pela tal matéria. Não foi explicado que esses aumentos ocorrem, dentre outras coisas, de acordo com os reajustes das passagens de ônibus, por exemplo. A repórter pergunta a um taxista, dois dias depois do reajuste, se “seus passageiros já sentiram o aumento?”. Ao que ele responde: “já mostrei a tabela e ninguém questionou ser tão substancial assim esse aumento”.

Depois, a repórter ficou dentro de um táxi, e abordava os passageiros. Para uma dançarina, perguntou: “Levou um susto quando viu a gente? Por que levou um susto assim?”, Agora se coloque no lugar da tal dançarina. Entras em um táxi e tem uma repórter e um câmera lá dentro. Susto ou não susto?

Depois, a repórter tenta mostrar que o acréscimo não faz diferença. Entrevista três passageiros que dizem que não calcularam o peso no orçamento, e que elogiam a rapidez e a praticidade de se pegar um táxi (e pagar mais de R$ 10 pelo transporte). Depois, faz brincadeirinhas com deixar ou não o troco para o taxista. Não percebe quanta gente precisa daqueles cinquenta centavos para poder comer, para ficar no exemplo mais radical.

Não há qualquer esforço por demonstrar algum trabalho que importe à sociedade como um todo. A matéria, como costuma ser o Jornal do Almoço em sua totalidade, é um convite à futilidade e ao individualismo. Nada há de busca pelo bem comum, pelos interesses sociais. Nada há de preocupação com o transporte coletivo ou com as necessidades coletivas. Então, seguimos com a fumaça saindo dos carros quase vazios, com as ruas estáticas, com as classes mais baixas sem o direito de ir e vir. Seguimos sem informação.

Postado por Alexandre Haubrich

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Manifestações em SC não atravessam rio Uruguai

3 jun

 

Quando algo tido como jornalisticamente importante acontece em Santa Catarina, o jornal Zero Hora costuma noticiar com destaque. Quando algo tido como jornalisticamente importante acontece no Rio Grande do Sul, o jornal Diário Catarinense costuma noticiar com destaque. Isso tudo porque os dois jornais têm o mesmo dono, o Grupo RBS, que controla as comunicações e as informações nos dois Estados mais ao sul do Brasil. Mas não é sempre que isso acontece. Zero Hora, por exemplo, tem fechado os olhos para algo muito sério que está acontecendo desde o início de maio em Florianópolis.

Em 7 de maio, foi anunciado pelo prefeito da capital catarinense, Dário Berger (PMDB), o aumento de 7,3% (na média) das tarifas de ônibus. A passagem agora custa absurdos e abusivos R$ 2,95, para quem pagar em dinheiro. Os estudantes universitários de Florianópolis se mobilizaram para defender os direitos da sociedade, e têm promovido diversas manifestações desde que o aumento foi anunciado. No dia 31 de maio, a Polícia Militar invadiu a Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) e agrediu os estudantes. Estes desarmados, aqueles munidos de cassetetes, armas taser, gás pimenta e cães policiais (mais informações e imagens AQUI e AQUI).

Pergunte, no Rio Grande do Sul, quem sabe disso. Quase ninguém. E aconteceu aqui ao lado. Quem sabe é porque leu em blogs ou encontrou alguma nota perdida nos grandes portais do Sudeste. Na Zero Hora não chegou. Da mesma forma que a pancadaria sobre Hugo Chávez e as esquerdas latino-americanas é estridente na imprensa hegemônica brasileira como forma de desestimular qualquer ideia parecida no Brasil, o silêncio sobre Santa Catarina não é de graça.

As passagens de ônibus em Porto Alegre também são caras demais, inacessíveis ou extremamente sofridas ao bolso do povo, o prefeito eleito de Porto Alegre – agora candidato a governador – também é do PMDB, os estudantes gaúchos também possuem potencial de mobilização – ainda que ele não seja costumeiramente despertado. Então, o Grupo RBS faz-se de desintegrado e não divulga aqui o que está acontecendo ali. Segundo alguns blogs, Florianópolis está “tremendo”. E o Grupo, de relações tão próximas com empreiteiras, faz o papel de amortecedor e de muro ao mesmo tempo. As informações não chegariam não fosse a internet.

Registre-se: Correio do Povo e O Sul, os outros dois maiores jornais de Porto Alegre, também não noticiaram absolutamente nada. A crítica mais forte é em relação a Zero Hora e ao Grupo RBS por seu fácil acesso e trânsito constante de informações entre os dois Estados em questão.

Faz-se silêncio. É hora de gritar.

Postado por Alexandre Haubrich

Zero Hora afunda informação e afoga leitor

20 mai

O assunto mais importante do dia ou um fato merecedor de uma matéria de variedades? É nessa dúvida que a edição desta quinta-feira do jornal Zero Hora mergulha o leitor, até afogá-lo na ignorância. A reportagem é sobre as enchentes ocorridas na madrugada de terça para quarta em Tramandaí e Imbé, no litoral norte do Rio Grande do Sul.

Com foto no cabeçalho da capa e duas páginas de matéria – as páginas mais nobres da reportagem de ZH, 4 e 5 – começa a tentativa de dar relevância ao assunto, realmente fundamental, realmente muito serio e de grande interesse público. O começo do texto principal dá tom dramático a um fato realmente dramático, mostra a gravidade do que aconteceu. Após o primeiro parágrafo, que explica que as duas cidades localizam-se entre um rio e o mar, o que vem é:

Ontem, em uma madrugada apavorante, o que era terra submergiu também, quase emendando o oceano às águas internas. As ruas se converteram em rios, transformando cada casa ou prédio em uma ilha.
A inundação de proporções raras vezes vista foi provocada por uma enxurrada descomunal.

O texto, muito bem escrito, segue por esse caminho, e tenta demonstrar o tamanho do problema. O problema é que o tamanho do texto não ajuda. E mais: o resto todo não ajuda. Deixando de lado a velha – e cada vez mais verdadeira – questão de que a imprensa nega-se a dar a verdadeira importância, em casos de enchente, à forma como o ser humano apropria-se de um espaço no qual não deveria estar, ainda há muito o que pensar sobre a cobertura de Zero Hora.

Pra começar, uma retranca que beira o bizarro, sobre uma mulher que pescou tainhas perto de sua casa, no asfalto. Interesse jornalístico? Nenhum. Pura curiosidade, puro circo de horrores. Trata-se como variedade um assunto sério, que deixou as pessoas sem casa e a cidade sem estrutura. Por sorte não morreu ninguém. E a Zero Hora acha divertido a mulher que pescou tainhas no asfalto. A foto da pescadora sorrindo entra em total contradição com o tamanho do estrago explicitado no texto inicial.

As fotos, na verdade, são o ponto principal. A pescadora sorridente é a ÚNICA pessoa que aparece em uma fotografia da matéria. Separa-se o problema das pessoas, retira-se o caráter humano da questão. Caráter esse que é fundamental nos dois lados da história: nas causas e nas consequências. Uma rua cheia d’água diz muito pouco. As duas únicas fotos grandes são assim, ambas batidas de baixo para cima. Além delas, mais duas fotos nas quais mal se pode identificar qualquer coisa.

Ainda há a Cartola escolhida, “Serviço ZH”. Como interrupções de tráfego ou avisos de falta de luz, é assim que Zero Hora trata a “inundação de proporções raras vezes vista” que aconteceu em Tramandaí e Imbé.  O bom trabalho de quem escreveu o texto não foi reconhecido nem em sua assinatura, que não está lá, nem no tratamento dado pelo editor à matéria. Também não foi reconhecida a gravidade do problema.

Postado por Alexandre Haubrich

Interesses privados por trás do silêncio da RBS

23 mar

Hoje não vou falar sobre nada que eu tenha lido, ouvido ou visto nos jornais por aí. Vou falar sobre o que eu não vejo, não ouço, não leio. Não lembrava de ter visto na Zero Hora, por exemplo, mas, para não ser injusta, fui ao canal de busca do site. Mas minhas impressões se confirmaram: a informação mais recente que encontrei sobre a possível alienação ou permuta do terreno da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase), que pertence ao estado do Rio Grande do Sul, é datada do dia 11 de março. E tem míseros dois parágrafos. Antes dessa, uma notinha de iguais dois parágrafos do dia 23 de fevereiro, louvando a iniciativa do governo Yeda.

O projeto de lei 388, que autoriza a alienação ou permuta de um terreno de 74 hectares localizado na avenida Padre Cacique, quase em frente ao estádio Beira-Rio – ou seja, extremamente bem localizado, principalmente se considerarmos a iminência de uma Copa do Mundo -, com um vasto patrimônio ambiental e histórico, seria votado hoje, caso tivesse havido quórum, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do RS.

Além do patrimônio riquíssimo que o governo quer entregar para a iniciativa privada, o terreno tem também pelo menos 10 mil pessoas que moram ali e não estão sendo ouvidas. A ideia é trocar o terreno por outros menores, com o suposto objetivo de descentralizar a Fase, mas não há planejamento para isso, e a imprensa se cala. Mais informações sobre o caso no Somos andando (também aqui e aqui), no RS Urgente e no Jornal do Comércio.

É possível que o governo entregue a última área que ainda conserva vegetação típica de Porto Alegre para construtoras, mas a mídia não diz. Sei que a Band cobriu alguma coisa na rádio. Sei que o Marcelo Noah está se esforçando na Ipanema para fazer alguma divulgação. Fora isso, silêncio (peço perdão se faltou citar alguém, mas não dou conta de rastrear toda a cobertura da imprensa, sei apenas que foram pouquíssimos os que noticiaram).

A explicação óbvia seria por si só bem plausível diante do que estamos acostumados a ver na imprensa: interessa mais valorizar a iniciativa privada nos meios de comunicação. Não interessa o que pode ser bom para a população. Ainda mais se quem tiver proposto o projeto for um governo amigo. É sempre bom preservar esse tipo de amizade. Amizades poderosas.

Mas a coisa vai mais longe: os Sirotsky, a quem pertence o maior, quase único, grupo de comunicação do Rio Grande do Sul, a RBS (conhecido por alguns como PRBS, por conta de suas características de partido político nas atitudes que toma), são também donos de uma empresa chamada Maiojama (uma mistura breguíssima dos nomes MAurício; IOne, mulher de Maurício; JAyme; e MArlene, mulher de Jayme). A Maiojama é uma construtora, ou melhor, como diz em seu site, “atua no planejamento e desenvolvimento de edificações residenciais, comerciais, flats e shopping centers”.

Agora peço um esforço mínimo de dedução lógica dos leitores: o governo do estado quer entregar um terreno por um valor muito abaixo do de mercado; o terreno é gigante, muito bem localizado, num dos pontos atualmente mais disputados de Porto Alegre; seria perfeito, do ponto de vista empresarial, para construir um grande complexo, que poderia envolver dúzias de torres de apartamentos, comércio, shopping, mil coisas; quem faria isso seria uma construtora; os Sirotsky têm uma construtora; os Sirotsky têm um grupo de comunicação; o grupo de comunicação se cala diante de um empreendimento que pode prejudicar a população. Logo, há um grande interesse por trás que orienta o silêncio absolutamente antiético da empresa de comunicação.

A ética jornalística manda colocar o cidadão em primeiro lugar e não se deixar corromper. Os interesses privados não podem transpor os coletivos. Ou seja, a RBS adota uma postura nitidamente, escancaradamente, maldosamente antiética.

* Peço aos blogueiros que ajudem a divulgar o roubo que está sendo tramado ao patrimônio público. Diante do silêncio da grande imprensa, nós temos a obrigação de nos unir e lutar pelos interesses da cidade.

Postado por Cris Rodrigues

Carta aberta aos irmãos bastardos

22 jan

- Trabalhar na RBS é o sonho de qualquer um da área da comunicação.

Ela disse à entrevistadora e a outros sete candidatos a uma vaga de estágio. Me espantou menos a afirmação do que a sinceridade com que foi dita. Parecia realmente feliz – e um pouco nervosa – por estar ali.

Somos quem podemos ser. Sonhos que podemos ter.

A mal afamada crise econômica, grande vedete desta primeira década de milênio, era apenas um espectro distante, mais uma perolazinha negra que entrava uma vez ou outra no papo oracular de marxistas velhos e homens de meia-idade pós-modernos. Mais uma historinha curiosa para impressionar jovens ignorantes como eu e você.

Mas ela veio com tudo e com razão. E, tal como o show dos Menudos, deixou um rastro de devastação. Hoje, até mesmo para quem se seduzia com o canto da sereia, é um sonho estúpido trabalhar na RBS, casa que foi até mesmo enquadrada por trabalho escravo neste ano que passou.

Deixando de lado o que os Sirotskys fazem ou deixam de fazer, agora estou mesmo ocupado em saber o que os marxistas velhos e homens de meia-idade pós-modernos donos do oráculo estiveram fazendo para se preparar para a crise que tem fragilizado as grandes empresas de comunicação. O que mais eles faziam além de tentar te levar pra cama?

Ah sim! Alguns estavam ocupados com processos judiciais milionários contra antigos patrões. Parece que não pretendem investir nenhum desses ricos tostões em jornalismo aqui na província. Seria um risco desnecessário. Com muito custo, deixaram de ser irresponsáveis e aprenderam a ser bons empresários, a exemplo dos donos dos grandes conglomerados de mídia que costumam criticar.

Outros estiveram preocupados em conseguir uma vaga na universidade. Não porque alguma vez tenham sonhado ocupar as salas de aula, nem porque se seduzam pelas carnes rijas e ímpeto transformador dos jovens que ali desfilam. É que é mesmo mais fácil pleitear o claustro de uma sala de pesquisa do que se aventurar pelas perigosas – porém ensolaradas – alamedas do contato com o público.

Também teve quem ficasse disparando seus comentários em solitários blogs, negando-se a aparecer publicamente ou promover qualquer ação individual ou coletiva que ultrapassasse a sua centena de leitores. Importa menos estar na linha de frente da batalha do que ter um espaço virtual só seu que suscita elogios de três ou quatro leitores.

Há  ainda os que estavam disputando o honorável título de polemista de plantão. Estes cultivam um senso de humor calculadamente nefasto e estão sempre prontos para apresentar conferências e mediar debates, desde que os encontros não passem de mera encenação.

E vamos também acrescentar na lista os que não podem perder tempo com tais questões, pois se dedicam integralmente ao estudo para os mais diversos concursos em busca de um emprego. Pouco importa se o cargo é para bancário ou delegado, se esforçam para acreditar que a estabilidade e o tédio sepultarão de uma vez por todas o miasma jornalístico que sonharam um dia estar vivendo.

“Isso aqui está uma merda”, me dizem todos antes de me aconselherem ir para São Paulo. A verdadeira Bahia é o Rio Grande do Sul – o poeta sempre soube enxergar: nossa terra é uma terra de retirantes. Você pode amá-la ou não, tanto faz, o certo é que não há espaço pra você aqui.

Agora, se tudo está tão caído, talvez seja a hora de perguntar quem nos deixou ir para essa vala. Certamente não foi o grande conglomerado de mídia, o papel deste, todos sabem, é centralizar a informação, não se esperaria outra coisa. O que queremos mesmo saber é qual foi a reação dos corajosos jornalistas quando viram que qualquer pluralidade de imprensa ia direto para o buraco para ser coberta de terra. Pois eles viraram as costas: ou pediram asilo na universidade ou então deram no pé. Nada contra ir para a universidade ou dar no pé – às vezes (nem sempre) a melhor maneira de se comprometer é dar o fora, já disse o sociólogo Joaquin Sabina. O problema mesmo reside em virar as costas.

O fato é que agora não dá pra sonhar com vinho, odaliscas e pão de queijo onde só tem areia e mutuca. Cabe a nós enxergar onde pisamos e saber construir qualquer base sólida sobre esse deserto. Se virá depois uma cabana de palha ou um mausoléu sobre essa fundação, pouco importa. O que importa é que haja uma sombra onde quem estiver chegando possa descansar, trabalhar e sonhar.

Somos todos filhos de mãe solteira que morreu no parto, mas seria ingênuo pensar que não temos família nem razão de existir. Nós, jornalistas, herdamos sim uma tocha acesa desde muito antes do cataclisma que tentou nos transformar todos em zumbis. Apesar de diminuta, a chama conseguiu atravessar viva essa geração que lhe virou as costas com desdém. E agora nada a faz crescer com mais força do que ver seu brilho refletido na arrogância sedutora do nosso olhar de filhos bastardos.
Alexandre Lucchese, ex-editor do Jornalismo B, é jornalista free-lancer, participa do programa Chimia Geral (Ipanema FM), e em breve poderá voltar a ser lido no blog osestrangeiros.com.

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