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Charge: Veja é abandonada até pelo PSDB

9 mai

Folha e Estadão dão mais destaque a Haddad do que a Serra. O que há por trás?

10 abr

Foi por acaso que me deparei nesta terça-feira com um dado curioso: o candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, tem tido muito mais exposição nos dois principais jornais da cidade (e do país) do que seus dois principais adversários nas eleições de outubro, José Serra (PSDB) e Gabriel Chalita (PMDB). Folha de S. Paulo e Estadão, tradicionais redutos do PSDB e aliados de Serra nas brigas internas dos tucanos, dedicaram, em abril, 24 notícias de seus sites à campanha de Haddad, contra apenas 11 em que Serra é o principal personagem. Chalita é destaque em seis matérias.

Na Folha, são 11 matérias que destacam Haddad, três que destacam Serra e duas em que o foco é Chalita. No Estadão, treze para Haddad, oito para Serra e quatro para Chalita. A diferença é gritante, e inexplicável se tomarmos como base o histórico dos dois jornais. A diferença na Folha é ainda maior do que no Estadão, que, nas últimas eleições presidenciais, chamou voto no candidato que agora “esconde” em favorecimento ao petista.

A Folha, se nunca abriu voto no PSDB, sempre esteve ao lado dos tucanos. E, nas acirradas disputas internas entre Serra e Geraldo Alckmin em São Paulo, costuma preferir Serra. De qualquer forma, o que podemos afirmar é que há algo estranho nessa situação. O jogo político nem sempre em muito claro, especialmente quando envolve disputas internas, verbas publicitárias e coligações cujas conformações pouco situam-se no campo ideológico e muito estão inseridas no campo do pragmatismo.

Fica, então, o registro do que aconteceu nestes primeiros dez dias de abril, para quem sabe mais tarde buscarmos explicações mais claras sobre as motivações dessa linha.

Folha

Haddad (11)

Após bronca, Haddad muda o visual na pré-campanha – 10/04/2012

2º turno entre Haddad e Chalita ajudaria a ‘enterrar’ PSDB, diz Tatto – 10/04/2012

Haddad defende renegociação da dívida de SP com a União – 09/04/2012

Discreta, mulher de Haddad ganha espaço na campanha – 08/04/2012

Haddad vai a programas populares para driblar falta de espaço na TV – 06/04/2012

Ministros do PT vão atuar na eleição em São Paulo – 05/04/2012

‘Todos temos que usar a sola de sapato’, disse Carvalho sobre eleição – 04/04/2012

Dirceu articula a montagem da equipe de campanha de Haddad – 04/04/2012

Haddad evita comentar alfinetada de Marta Suplicy – 03/04/2012

Presidente do PT municipal é confirmado coordenador de Haddad – 02/04/2012

Fernando Haddad tenta evitar fuga de aliados em SP – 01/04/2012

Chalita (2)

‘Centro revitalizado vai recuperar autoestima do paulistano’, diz Chalita – 06/04/2012

Por espaço na TV, Chalita será estrela de comercial do PMDB – 02/04/2012

Serra (3)

PSDB quer aproveitar subexposição de Haddad para explorar Serra – 05/04/2012

Serra participa de evento oficial com Alckmin e Kassab – 03/04/2012

Edson Aparecido se licenciará para assumir campanha de Serra – 03/04/2012

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Estadão

Haddad (13)

Deputados do PT sugerem a Haddad agenda metropolitana de transportes – 10/04/2012

Por Haddad, petistas prometem apoio do partido ao PSB em BH – 10/04/2012

PT orienta vereadores em Campinas a votar no PSB – 09/04/2012

Haddad diz que, se eleito, renegociará dívida de São Paulo com a União – 09/04/2012

PT teme isolamento de Haddad e revê exigências do PSB – 09/04/2012

Haddad confirma evento com petista – 06/04/2012

Haddad espera trazer PR para sua aliança em SP – 05/04/2012

Para PT, bloco PR-PTB dificulta pacto eleitoral – 05/04/2012

Todos devem gastar sapatos em campanha, diz Carvalho – 04/04/2012

Ao retornar a Brasília, Haddad é ‘esquecido’ em dia de anticandidato – 04/04/2012

Haddad confirma vereador no comando da campanha – 03/04/2012

PT conta com Lula para conseguir apoio do PCdoB – 03/04/2012

PT usará pane em trens contra PSDB – 01/04/2012

Chalita (4)

Consigo apoio do Estado e da União para São Paulo, diz Chalita – 09/04/2012

Chalita visita cracolândia, mas evita criticar Alckmin – 04/04/2012

‘Meu medo é virar manicômio’, diz Chalita sobre centros contra crack – 04/04/2012

Em evento, Chalita ataca Serra e defende Dilma – 01/04/2012

Serra (8)

Parecer eleva pressão sobre a vice de Serra – 10/04/2012

José Aníbal critica gestão de Kassab – 09/04/2012

PSDB-SP avalia chapa puro sangue nas eleições – 05/04/2012

Serra colará sua agenda na de Alckmin – 04/04/2012

Para ampliar exposição, Serra colará sua agenda na de Alckmin e Kassab – 03/04/2012

Serra participa de evento com Alckmin e Kassab – 03/04/2012

Meirelles diz que não pretende ser vice na chapa de José Serra – 02/04/2012

Vice em chapa de Serra abre disputa entre aliados – 02/04/2012

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Carlinhos Cachoeira, Demóstenes e Veja: a rede da máfia brasileira

9 abr

Mais do que mostrar relações promíscuas entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (DEM), as gravações divulgadas recentemente a partir da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, desenham Cachoeira como uma grande liderança da direita brasileira. Sim, é isso. Um contraventor influencia em todas as esferas da direita do país através de seus contatos nos partidos políticos e na mídia. Segundo Luis Nassif, entre as gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal, são mais de duzentas as conversas de Cachoeira com o editor-chefe da revista Veja, Policarpo Jr.

As conversas mais difundidas até o momento são as que incriminam Demóstenes Torres, mas a revista Carta Capital já publicou reportagem na qual demonstra também relações estreitas e a configuração de tráfico de influência envolvendo o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB).

A divulgação da íntegra dessas conversas, por sua profundidade e abrangência, pode ter o poder de um “pequeno Wikileaks” brasileiro. É a revelação contundente e inegável das negociatas envolvendo algumas das principais lideranças dos partidos da direita brasileira, o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o veículo de mídia mais reacionário que temos no país.

A defesa dos acusados de favorecer os interesses de Cachoeira, em uma ampla rede que ligava a contravenção a algumas lideranças políticas e à mídia, tem se baseado no silêncio e na pretensa ilegalidade das escutas. Infelizmente para eles, não há forma melhor de defender-se do que tentando deslegitimar legalmente gravações que já destruíram moralmente os envolvidos.

Tem se falado muito nas “duas caras” de Demóstenes, defensor discursivo da transparência e da moralidade ao mesmo tempo em que trabalhava junto a Carlos Cachoeira recebendo apoio eleitoral em troca de ouvidos moucos para os negócios de jogo ilegal mantidos pelo bicheiro. Mas também vem à tona mais uma vez a face da revista Veja que a publicação do Grupo Abril insiste em ocultar. Bastião da moralidade na política, especialista em acusações de corrupção e ambiente de um jornalismo investigativo capaz de tentar esconder escutas em quartos de hotel, a Veja tem o nome de seu editor-chefe citado em uma gravação como um parceiro constante de Carlos Cachoeira, com quem “trocaria favores”, segundo explica o próprio contraventor. Além disso, as possíveis conversas entre Cachoeira e Policarpo Jr. ainda estão para serem divulgadas.

Não foi por acaso, então, que a Veja afastou de suas capas o caso mais falado na política brasileira nas últimas semanas. Se Cachoeira era manchete quando foi revelado seu envolvimento com Waldomiro Diniz e o PT, não o é quando as denúncias são mais profundas, tão profundas que chegam ao poderio midiático do Grupo Abril e às relações de troca de favores entre o editor-chefe da revista com maior tiragem do país e um homem exposto como líder das mais complexas maracutaias políticas.

Da mesma forma o assunto também não esteve nas capas da Isto É, que preferiu destacar nas últimas duas semanas “A nova fórmula do profissional de sucesso” e “Médico de bolso”. Na revista Época, uma capa, “O senador e o bicheiro”, e, na última edição, o tema foi substituído por “Os bairros mais cobiçados do Brasil”.

A Carta Capital comprou a briga, e nas últimas duas semanas destacou as relações entre Carlos Cachoeira e o governador de Goiás, Marconi Perillo. Teve consequências. Em Goiânia, parte da edição anterior despareceu. Como disse matéria da Rede Brasil Atual, “na capital governada pelo tucano houve um operativo para comprar todos os exemplares na manhã de domingo (1º), evitando que a denúncia circulasse. Segundo reportagem de Gabriel Bonis, Joel Luiz Datena, filho do apresentador José Luiz Datena e dono de uma rádio, foi um dos que tentaram adquirir mil exemplares de uma vez”.

É uma configuração de sistema mafioso que perpassa as instituições brasileiras, a começar pela mesma mídia que se pretende guardiã da moral, dos bons costumes e das demais instituições. Caiu mais uma máscara.

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Folha e PSDB: uma parceria afinada

13 mar

A parceira do jornal Folha de S. Paulo com a direita brasileira não nasceu com o PSDB. Emprestando carros aos agentes da Ditadura Militar, a Folha consolidou sua boa imagem junto aos setores mais conservadores do país. Mais tarde, o mesmo jornal chamou a mesma Ditadura de “ditabranda”. O velho regime acabou e o PSDB, cuja maioria dos atuais membros atuava na oposição institucionalizada à Ditadura, virou o maior partido de direita do país. Nas últimas eleições, o apoio da Folha aos candidatos do PSDB só não foi mais aberto do que seus ataques aos opositores. Essa amizade ganhou mais um tenro capítulo na última semana, com a estreia da Folha em uma emissora televisão que deveria ser pública, mas foi absolutamente aparelhada pelos governos tucanos em São Paulo.

A TV Cultura, emissora pública, passou a veicular conteúdo produzido por uma empresa privada de comunicação. A Folha agora tem seu programa de TV. É a privatização da programação, e o nascimento de mais um tentáculo da mídia hegemônica. Em 2010 já denunciávamos aqui, ecoando matéria do Blog do Nassif, o sucateamento e o enfraquecimento da TV Cultura de São Paulo durante o governo José Serra (PSDB). Agora, o conteúdo da emissora é privatizado por Geraldo Alckmin, também do PSDB, em uma parceria com a Folha de S. Paulo, retribuindo a este jornal todo o apoio recebido pelo partido nos últimos anos.

O blogueiro Rodrigo Vianna já denunciava o acordo em fevereiro, acrescentando ainda que a revista Veja deverá ter um espaço semelhante, e lembrando que “A Folha já pediu, em editorial, o fechamento da TV Brasil - emissora pública criada pelo governo federal”, e que “a Veja, como se sabe, gosta de escrever Estado com ‘e’ minúsculo, para reafirmar seu ódio ao poder público. Ódio? Coisa nenhuma. A Abril adora vender revistas para o governo. E agora, vejam só, também terá seu quinhãozinho na emissora controlada pelos tucanos paulistas”.

O uso político da TV Cultura pelos governos do PSDB que se sucedem em São Paulo é um retrato preciso da ausência de apropriação da mídia pela sociedade como um direito constitucional à comunicação. Uma emissora pública escancaradamente a serviço de interesses privados, um enorme espaço de propaganda de um jornal privado. Retrato da cultura conformista do brasileiro em relação ao próprio empoderamento. A comunicação ainda é percebida como um privilégio de poucos, a consciência do direito à voz ainda está longe de firmar-se, e a mídia independente precisa ser protagonista nessa mudança de consciência.

O fortalecimento da mídia independente, o desenvolvimento do conteúdo dessa mesma mídia e a pressão organizada sobre os governos podem começar a mudar essa mentalidade. É um conjunto de ações que poderá fazer com que o povo brasileiro tome consciência desse seu direito fundamental e ocupe o espaço que lhe é devido, expulsando do poder os governantes que impedem que isso aconteça e a mídia que insiste em apoiar esses governantes.

*Sobre como foi a estreia da TV Folha, vale ler o texto de Renata Mielli no blog Janela Sobre a Palavra.

*Também pode acrescentar reflexão a esse debate a reportagem do Jornal da Record sobre o acordo entre Folha e TV Cultura.

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Jornalista faz greve de fome em frente à Rede Globo

30 jan

Desde esta segunda-feira, o jornalista Pedro Rios Leão está algemado e em greve de fome em frente à sede da Rede Globo, no Rio de Janeiro. A ação não é apenas um protesto, mas uma reivindicação. Pedro busca a compreensão de algum jornalista funcionário da Globo da importância de cobrir com qualidade a expulsão de 6 mil pessoas da comunidade de Pinheirinho, no interior de São Paulo. Há indícios, inclusive, de morte de moradores na invasão da Polícia Militar que retirou as centenas de famílias do local para devolver o terreno ao especulador condenado Naji Nahas.

A Globo segue em absoluto silêncio, e é contra esse silêncio que Pedro Leão se rebelou. Da mesma forma com que o sistema político-econômico dominante no planeta parece começar a se esgotar, o sistema midiático brasileiro começa a ser questionado cada vez com mais veemência. Não é mais possível aguentar emissoras de televisão que exploram concessões públicas e nada fazem pelo interesse público, trabalhando exclusivamente em defesa dos interesses das elites, desinformando a população e ignorando as demandas do povo e as agressões sofridas por este.

Cada vez há menos espaço e menos tolerância com uma mídia elitista. O crescente fortalecimento da mídia independente – em especial dos blogs e das redes sociais, com a lenta mas gradual popularização da internet – tende a diminuir a importância das mídias tradicionais e desmascarar muitas de suas mentiras e omissões. É o caso do Pinheirinho, como já demonstramos em outro post aqui mesmo no Jornalismo B.

Pedro Rios Leão é um representante de todos nós. Da mesma forma com que já dissemos que todos nós somos Pinheirinho, estamos também todos algemados em frente à Globo, o pulso de Pedro é cada um de nossos pulsos, sua luta é nossa luta.

Precisamos apoiar este indignado e indignarmo-nos juntos. Todas as formas de ação em defesa da democratização da mídia são legítimas e devem ser encaradas como formas de subversão, mas vemos cada vez mais a necessidade de radicalização dessa luta. Temos visto um acirramento entre as lutas populares e as ações do Estado, especialmente nos locais governados pela direita, com a Polícia Militar à frente de operações violentas, com a retaguarda sempre coberta por uma mídia absolutamente afastada do povo. Nesse contexto, o embate faz-se necessário e inadiável. Pedro Rios Leão é um soldado que precisa de nosso apoio.

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Elites se unem contra moradores do Pinheirinho. Pra que(m) serve essa terra?

23 jan

Muito se pode escrever sobre o que aconteceu no último fim de semana em Pinheirinho, em São Paulo. Muito já se escreveu, também, e mesmo assim, em nosso conjunto de palavras, é difícil dimensionar o tamanho do problema do despreparo da Polícia Militar por todo o país somado ao neoconservadorismo de uma fatia da sociedade e o autoritarismo elitista dos partidos da direita brasileira. Também é difícil dimensionar as consequências disso tudo, mas elas salpicam sangue em nossos olhos quando menos esperamos.

No último domingo, centenas de famílias foram desalojadas no bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), em uma ação violenta da Polícia Militar, sob ordens do governo estadual de Geraldo Alckmin (PSDB). Foram 2 mil PMs na operação. Há relatos, entre os moradores, de mortos na ação. Diz a polícia que foram vinte feridos, apenas. A ação foi em cumprimento a reintegração de posse, em benefício do empresário Naji Nahas. Segundo o Blog do Miro,

Naji Nahas, que reivindica a “propriedade” do latifúndio, é um especulador condenado (…). Mais: havia uma trégua em curso, acertada por todas as partes, e uma decisão da Justiça Federal mandando suspender a mal-chamada “reintegração de posse”. (…) Cansados de tantas arbitrariedades, alguns membros da ocupação vestiram-se de uniformes de resistência improvisados, numa encenação artística do que pode vir ser o contra-poder popular. O governo de Geraldo Alckmin, ligado ao fundamentalismo cristão de direita, e o Tribunal de Justiça de São Paulo, conhecido por seus laços com o que há de mais feudal e escravocrata na oligarquia paulista, não toleraram a hipótese de diálogo, muito menos a irreverência das imagens.

A PM invadiu durante a madrugada, quando os moradores dormiam. Tática de guerra. Uma polícia militarizada, treinada com foco em combate, e a sociedade como inimiga, os moradores como inimigos a serem expulsos ou eliminados. Agora, seis mil pessoas engrossam a fila de cidadãos ultrajados, desalojados, em condições precárias.

Tudo isso assinado embaixo por alguns setores da mídia, a começar pela Rede Globo. Em matéria de dois minutos no Fantástico, a pauta foi a criminalização dos moradores. A reportagem trabalhou com release da Polícia Militar e da Justiça de São Paulo, que contrariou orientação da Justiça Federal. Como bem escreveu Altamiro Borges, essa mídia “tratou os ocupantes como ‘invasores’ e culpados pelas cenas de violência”. E mais: “Nos momentos de confrontos mais agudos, os barões da mídia se juntam na defesa da “propriedade” e contra os que lutam por direitos humanos mínimos – como o direito à moradia. Nesta “cruzada sagrada”, eles inclusive protegem notórios bandidos, como é o caso do especulador Naji Nahas. De vilão, ele foi tratado como prejudicado no triste episódio do Pinheirinho”.

Entre a bala e a pedra, a velha mídia sempre esteve ao lado da bala. Bons exemplos são os tratamentos dados ao MST e à questão palestina, onde o “confronto” é sempre entre pedras e armas de fogo. Os casos recentes de agressões a estudantes da USP pela mesma PM paulista demonstram também uma preferência pelo porrete em detrimento da palavra, da ação violenta em oposição ao pensamento reflexivo (crítico).

Mas agora essa mídia não é a única voz, ainda que continue sendo dominante, opressora e dona dos principais espaços de circulação de informação (televisão, rádio e jornais). Os blogs vem fazendo uma grande cobertura jornalística do caso, denunciando os abusos da PM, da Justiça de SP, do governo de Alckmin e da mídia aliada às elites. Destaco o excelente trabalho de reportagem de Raphael Tsavkko e Maria Frô, e os artigos precisos e esclarecedores de Altamiro Borges que já citei neste post, mas muito mais pode ser encontrado em uma busca rápida pela rica e diversa blogosfera brasileira.

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Ano de eleição, responsabilidade dobrada

13 jan

A cada dois anos vive-se um momento em que a desconstrução do discurso da mídia dominante se torna uma tarefa ainda mais importante. Em países com sistemas políticos representativos que praticamente descartam a participação popular nos processos decisórios – caso do Brasil – o embate eleitoral é o ponto culminante da disputa pelo centro do poder político. Ainda que as alternativas nas eleições sejam profundamente limitadas e que a dinâmica política aja para barrar a emergência de novas possibilidades, e considerando-se todas as limitações e distorções do modelo da chamada democracia representativa e, em especial, do sistema político brasileiro, a cada dois anos presenciamos – e influímos sobre ele – o ponto culminante da disputa política.

É em um ano eleitoral que acabamos de entrar, e sabemos bem o papel da mídia nesse tipo de disputa. Na última oportunidade, os maiores jornais, revistas e redes de televisão do país atuaram de forma orquestrada em defesa da candidatura do candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra. Até uma bolinha de papel foi usada para tirar as atenções do que realmente importava naquele momento: a distinção entre os projetos de país defendidos pelos quatro candidatos: José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL). A tentativa de transformar a eleição em um embate moral – e não político-ideológico – partiu em primeiro lugar de alguns conglomerados de comunicação.

Por outro lado, vimos uma divisão raivosa entre setores da esquerda, racha esse que, infelizmente, varou o ano de 2011 e dificultou o bom debate sobre temas em que estes setores sempre defenderam interesses comuns – ou ao menos aproximados –, como a punição aos criminosos da Ditadura Militar e a democratização da mídia brasileira. O calor da disputa eleitoral de 2010 criou desavenças pessoais e levou a esquerda mais para a esquerda e a centro-esquerda mais para o centro, abalando as pontes de diálogo. O resultado é que, mesmo com a vitória do PT de Dilma, todos os campos da esquerda midiática perderam com o desgaste causado pelo processo eleitoral. Além disso, o último ano foi nulo em avanços na democratização da mídia a nível nacional. Uma das primeiras aparições públicas da já eleita presidenta Dilma Rousseff foi na celebração do aniversário da Folha de S. Paulo.

Em outros momentos da história brasileira a intervenção da velha mídia sobre as decisões eleitorais foi ainda mais incisiva. Exemplos clássicos são a disputa pelo governo do Estado do Rio de Janeiro em 1982, com o “Escândalo da Proconsult”, no qual a Rede Globo participou de uma tentativa de fraudar as eleições ganhas por Leonel Brizola (PDT), e a campanha presidencial de 1989, com a manipulação do debate final entre Lula (PT) e Collor (PRN). Se nesta última situação a velha mídia e seu candidato acabaram levando a melhor, não foi isso o que aconteceu nas últimas três eleições presidenciais.

O fortalecimento dos blogs e das redes sociais, se não é suficiente para democratizar verdadeiramente a comunicação, ao menos serve para desconstruir o discurso da mídia dominante e desmascarar suas manipulações. Outro fator que não pode ser deixado de lado é a queda de audiência da TV Globo e a ascensão da Record, que se mostrou simpática à candidatura de Dilma em 2010.

De qualquer forma, teremos em 2012 mais um momento assim. Desde o fim de 2011 os interesses eleitorais já começaram a fazer valer sua força nas pautas da mídia hegemônica. A prática mais comum é a agressividade nos meses que antecedem a disputa e a sutileza nos momentos de campanha, com a simples incorporação dos discursos dos candidatos preferidos pelos barões da mídia. Por isso, é preciso estarmos atentos desde já.

É verdade que eleição não é sinal de democracia, e que não pode se esgotar ali a possibilidade de participação popular na política nacional. É verdade também que o poderio econômico faz grande diferença em um processo eleitoral, o que o torna terrivelmente menos democrático e justo do que poderia ser. E é verdade que os interesses conservadores tendem, em menor ou maior medida, a se fortalecerem apoiando-se em conchavos e mentiras disseminadas pela velha mídia. Mas também é verdade a mídia independente, capitaneada hoje por blogueiros e pelos ativistas das redes sociais, tem condições de tornar as eleições mais justas e democráticas, informando com qualidade a sociedade e abrindo espaço para um debate rico e realmente politizado e politizante. É uma das nossas missões fundamentais para este 2012 que começa.

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A Privataria Tucana e o óbvio silêncio da mídia privatista

13 dez

A gritaria em torno da Privataria Tucana está sendo seguida pelo silêncio da Mídia Privatista Tucana. Um dos maiores fenômenos editoriais da história recente do país (toda a primeira tiragem, de 15 mil exemplares, foi vendida em apenas um dia), o livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr, denuncia uma serie de irregularidades e desvios de dinheiro no processo de privatização levado a cabo por Fernando Henrique Cardoso durante sua presidência. José Serra é o personagem central do livro-denúncia, e é em torno do ex governador de São Paulo que se passam todas as irregularidades apontadas, apuradas e documentadas pelo premiado repórter.

Enquanto o livro é um sucesso de público e de crítica, alguns setores da mídia preferem silenciar. O silêncio os denuncia como cúmplices e incentivadores de um processo de desmanche do país com requintes de crueldade contra os cofres públicos. A mesma mídia que esteve ao lado das privatizações de FHC e da campanha do PSDB na disputa presidencial de 2010, agora ignora um livro que vende como água e que traz denúncias extremamente graves contra Serra e contra quem está à sua volta. O blogueiro Eduardo Guimarães lembra em seu blog conversa entre FHC e seu então ministro das Comunicações: Mendonça de Barros – “A imprensa está muito favorável, com editoriais…”; Fernando Henrique Cardoso – “Está demais, né? Estão exagerando, até”.

A Privataria Tucana não foi sequer citada, até hoje, por Globo, Folha de S. Paulo e Grupo RBS. Com exceção de sua coluna Radar Político, o Estadão publicou apenas, na noite desta terça-feira, uma pequena nota, em que não diz absolutamente nada sobre o conteúdo do livro de Amauri. A nota é apenas o relato das manifestações de Serra e Aécio Neves sobre o livro. O ex governador de Minas Gerais apenas classificou a obra como “literatura menor”. O título da matéria do Estadão é um belo exemplo de como inverter uma pauta, brigando com a realidade. Em vez de focar no livro – o fato real – a chamada foca na reação de Serra – simples repercussão: “Serra chama de ‘lixo’ livro sobre privatizações do governo FHC”. A linha de apoio complementa, com a tentativa de deslegitimar o autor: “Amaury Ribeiro Júnior, autor do liivro, foi acusado durante a campanha eleitoral de 2010 de ter encomendado a quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao PSDB”. A “matéria” do Estadão tem três parágrafos. O primeiro fala da reação de Serra, o segundo da reação de Aécio e o terceiro procura desconstruir a credibilidade do multipremiado Amaury Ribeiro Jr.

O mais provável é que, hora ou outra, os veículos que ainda não falaram sobre o assunto se vejam obrigados, por uma questão de audiência, a citar, mesmo que de forma tangencial, as denúncias. E aí a tendência é que sigam a linha do Estadão, destacando a defesa dos acusados e buscando formas de atacar o autor do livro.

Enquanto isso, a Carta Capital da última semana publicou uma grande reportagem resumindo o livro-denúncia, além de uma entrevista com o autor. A Record, por sua vez, dedicou grande espaço ao assunto em seu principal jornal, e, nesta terça, levou ao ar, na Record News, uma entrevista de Amaury Ribeiro Jr a Paulo Henrique Amorim. Os blogs e as redes sociais também têm repercutido exaustivamente, nos últimos dias, as denúncias de Amaury e o silêncio de alguns setores da mídia.

O mesmo Eduardo Guimarães citado quatro parágrafos acima mostra outras boas razões para o silêncio, ao apresentar os nomes das empresas que compraram os pedaços do país vendidos durante o governo Fernando Henrique. Deputados do PT também criticaram a omissão de parte da mídia.

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Folha e Estadão juntam-se à Globo contra os estudantes

9 nov

Iniciadas na última semana, continuam as manifestações dos estudantes da USP contra a presença de policiamento ostensivo da PM no Campus da Universidade e contra a truculência que essa mesma polícia demonstrou em uma ação na semana passada. Continuam as mobilizações na USP e continua o debate fora dela. As velhas elites, os “herdeiros da Casa-Grande” – como bem chamou Mino Carta –, têm atacado os manifestantes através das mais variadas mentiras e distorções. Os ataques, em sua maioria enraizados nos mais conservadores preconceitos, costumam basear-se em informações distorcidas vindas diretamente de um setor da mídia que historicamente sempre esteve ao lado dos poderosos e contrário a qualquer tipo de ação de protesto.

Aqui no Jornalismo B também seguimos acompanhando os acontecimentos da USP. O post de segunda-feira mostrou charges de Carlos Latuff justamente sobre esse tipo de influência midiática, e o texto de terça desmascarou a reportagem do Jornal Nacional que atacou os estudantes. Os jornalões também estão na trincheira do lado de lá, e a cobertura feita nesta quarta-feira pelo Estadão e pela Folha de S. Paulo demonstram isso.

Três textos se destacam no site do Estadão. O primeiro é obra de José Nêumanne, editorialista do Jornal da Tarde, e tem por título (absolutamente jornalístico, claro) “A revolução dos ‘bichos grilos’ mimados da USP”. O autor chama os estudantes de “vândalos”, “jovens turbulentos e estranhos ao expediente”, “invasores”, “grupelhos esquerdistas”, “filhinhos dos papais” e “bandidos”. Há também no Estadão um artigo de Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo pelo DEM, agora no PSD, mas curiosamente não há nada escrito por algum estudante.

O terceiro texto é uma matéria do repórter Felipe Tau. São oito entrevistados, mas a boa quantidade de fontes não se reflete em pluralidade. Dos seis estudantes ouvidos, um é a favor da greve dos estudantes iniciada nesta quarta. Para a fala dele, duas linhas. Contra a greve são três os entrevistados. Doze linhas para suas falas. Há ainda um mais ou menos em cima do muro. Por fim, há a citação de um aluno francês. O texto que introduz a pequena entrevista o coloca como mais um “em cima do muro”, mas a fala do estudante é totalmente favorável à greve. O Estadão manipula a declaração. Senão, vejamos. Diz a matéria: “Ele disse ser favorável à manutenção de um esquema de segurança no campus, mas criticou a ação da PM. ‘A polícia não deveria fazer uma invasão como a de ontem, ainda mais com uma tropa de elite. Se fosse na França, certamente os alunos se revoltariam e quebrariam tudo’”. Se ele disse ser favorável à presença da PM, o Estadão não mostrou.

No site da Folha de S. Paulo, um artigo tenta justificar judicialmente as ações da PM e deslegitimar da mesma forma os atos dos estudantes. O título é “A invasão do prédio da USP do ponto de vista jurídico”. Há também um vídeo, entitulado “Conflito na USP vira pauta em reunião de socialites de SP”. Sim, a Folha resolveu cobrir uma reunião política de um grupo de socialites, e abriu o microfone para que falassem sobre suas opiniões sobre a corrupção e a USP. Uma chega a dizer que certamente os estudantes têm vinculação com a Venezuela, as Farc e as máfias chinesa, francesa e russa, segundo ela grupos anarquistas.

Reprodução Folha Online

Por fim, na maior matéria publicada no site sobre o tema, a Folha mostra novamente que não se furta em distorcer e brigar abertamente com as imagens que ela mesma produz. Em uma espécie de cronologia da desocupação da USP, há três fotos. Duas delas com legendas totalmente de acordo com o que é visto. Mas, na primeira foto, um escândalo. A imagem mostra um estudante com as mãos na nuca e um policial que, ao lado de vários outros, aponta um rifle contra o rosto do jovem. O texto da cronologia ligado à foto, que cumpre papel de legenda, diz: “Do lado de fora, estudantes protestam contra a operação e tentam ultrapassar o cerco policial. Um carro da PM tem o vidro danificado”.

Estadão e Folha sempre estiveram a serviço da fatia mais conservadora da sociedade, e têm caminhado lado a lado aos governos do PSDB em São Paulo e às candidaturas dos tucanos ao governo federal. Não seria diferente agora, em um momento em que se enfrentam de um lado um grupo de estudantes que se rebela contra a truculência policial e de outro o reacionarismo das elites e o governo do PSDB de Alckmin.

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O mundinho particular de Veja

21 set

Analisar de forma comparativa é um caminho básico para compreender as diversas formas pelas quais o jornalismo pode ser usado politicamente, as ideologias que pode propagar e os interesses que pode defender. Comparar um veículo de mídia com outro é um caminho interessante para essa percepção, assim como colocar lado a lado diversas ações do mesmo veículo ou grupo mostra com clareza que nenhuma opção editorial é feita “sem querer”.

Essa é a importância de um material reunido e organizado por Gilberto Maringoni e publicado no site da agência Carta Maior. É uma apresentação em “Flash” onde aparecem 123 capas da revista Veja publicadas entre 1993 e 2010, capas selecionadas entre as 928 edições da revista nesse período.

O material organizado por Maringoni leva numericamente, metodologicamente, a uma conclusão já intuída facilmente: a revista Veja é de extrema-direita e possui critérios editoriais que passam longe do bom jornalismo. As abordagens diferentes para temas semelhantes demonstram isso, assim como a recorrência em ataques semelhantes aos movimentos sociais.

A ideologia do medo é muito presente nas capas apresentadas, pintando recorrentemente Lula, o PT e o MST como espécies de monstros diabólicos que deveriam ser enfrentados e destruídos pela sociedade. Ao mesmo tempo, a adoração por Fernando Henrique Cardoso fica clara em uma grande sequência de capas extremamente simpáticas ao ex presidente e otimistas quanto a suas ações. Mas não é apenas com enfoque partidário que se dá a atuação neofascista de Veja. Os ideários transmitidos em relação a diversos temas da sociedade são sempre baseados em preconceitos ou sensacionalismo, como também está demonstrado no apanhado de Maringoni.

A partir desse material muitas outras constatações podem ser feitas. Estudos sobre o panfletismo fascista da Veja podem abordar o pior jornalismo sob diversos aspectos, sempre a partir da comparação com a forma como outros veículos – mesmo de direita – abordam os mesmos temas ou da análise sobre a clara acumulação de repetições simplificadoras nas capas da revista. Ao publicar essa reunião de capas acompanhadas de análises e comentários críticos, a Carta Maior faz bom jornalismo, desvendando algo que dificilmente chega ao grande público, já que trabalhos assim costumam se resumir aos espaços acadêmicos. Para entender cada ação isolada de veículos como a Veja é preciso buscar o contexto, e a história recente da Veja a condena ao lugar mais sujo do jornalismo brasileiro.

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