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Mobilização nasce na internet e tira garoto Paulo Sérgio da inexistência social

24 mai

A mobilização que nasceu nos últimos dias em torno de um garoto preso desde o fim de março e violentado psicologicamente por uma “repórter” do programa Brasil Urgente Bahia, começa a dar resultado. A Defensoria Pública da Bahia se mobilizou para apurar a situação de Paulo Sérgio Silva Sousa, de 18 anos. Ao mesmo tempo, o Ministério Público Federal entrou com uma representação contra Mirella Cunha, a repórter-torturadora.

“Eu me senti humilhado, porque ela ficou rindo de mim o tempo todo. Eu chorei porque sabia que ali, eu iria pagar por algo que não fiz, e que minha mãe, meus parentes e amigos iriam me ver na TV como estuprador, e eu sou inocente”, foi o que disse o garoto à Defensoria Pública da Bahia.

Não fosse a internet e Paulo Sérgio seria “só mais um Silva que a estrela não brilha”, como diz a música. Seria mais um dos que mofam nas prisões brasileiras sem julgamento formal, na situação de condenados sociais. Mas, no início da semana, o vídeo em que a enviada da Band humilha o garoto – vídeo que já estava no YouTube desde o dia dez de maio – ganhou destaque com a divulgação da história em alguns blogs – o Jornalismo B esteve entre os primeiros a atacar a conduta da “repórter” e da Band.

A partir daí, o caso ganhou grande espaço nas plataformas de redes sociais e nos blogs. Jornalistas baianos se mobilizaram e produziram uma bela Carta Aberta “sobre abusos de programas policialescos na Bahia”. A Carta questiona a “conivência do Estado com repórteres antiéticos, que têm livre acesso a delegacias para violentar os direitos individuais dos presos, quando não transmitem (com truculência e sensacionalismo) as ações policiais em bairros populares da região metropolitana de Salvador”.

Diz ainda, em um bem construído e preciso texto: “Sob a custódia do Estado, acusados de crimes são jogados à sanha de jornalistas ou pseudojornalistas de microfone à mão, em escandalosa parceria com agentes policiais, que permitem interrogatórios ilegais e autoritários, como o de que foi vítima o acusado de estupro Paulo Sérgio, escarnecido por não saber o que é um exame de próstata, o que deveria envergonhar mais profundamente o Estado e a própria mídia, as peças essenciais para a educação do povo brasileiro”.

As repercussões chegaram, por fim, às instituições do Estado. Segundo matéria do iG Bahia, “o delegado-geral da Polícia Civil baiana, Hélio Jorge Paixão (…) vai apurar se houve descumprimento pela 12ª Delegacia Territorial (Itapuã) de portaria que regula a divulgação de ações policiais. (…) Tal portaria assegura o direito à inviolabilidade e a presunção de inocência, e que informações à imprensa devem ser fornecidas pela assessoria de comunicação, pelo diretor do órgão ou por quem esta à frente do inquérito”.

A Defensoria Pública da Bahia também se manifestou. Enviou representantes para conversarem com Paulo Sérgio. E, em matéria publicada no site da Defensoria, explica: “Paulo Sérgio é réu primário, vive nas ruas desde criança, apesar de ter residência em Cajazeiras 11. Tem seis irmãos, é analfabeto e já vendeu doces e balas dentro de ônibus”. O defensor público Rodrigo Assis, foi além: “não é possível conceber a devida justiça neste caso sem uma ação por danos morais. As imagens confirmam o abuso no exercício da informação e da manifestação do pensamento da repórter”, disse. E a matéria completa, referindo-se ao trabalho da “repórter” da Band: de acordo com a defensora pública, a reportagem utilizou a imagem do acusado para humilhá-lo, achincalhá-lo, expô-lo ao ridículo, apenas com o intuito de utilizá-lo em uma tentativa de angariar audiência, de forma sensacionalista, às custas da violação da sua dignidade”.

É importante destacar, em meio a todo o debate que esse caso gerou, que não é uma situação isolada. Em nenhum sentido. Brasileiros pobres, ignorantes e desdentados, abandonados durante toda a vida pelo Estado, são diariamente tratados por este como causa – e não consequência – da exclusão. São tratados como inapropriados e indesejados, quando, na verdade, quem é inapropriado a eles é o Estado, que age violentamente em parceria com a mídia dominante. Mídia essa afirmada por um modelo de comunicação que o Estado brasileiro em pouco ou nada tem agido para modificar. Nesse círculo vicioso, quem acaba destruído é Paulo Sérgio, enquanto quem deveria ter esse destino é o modelo da exclusão. Não é a culpa ou inocência de Paulo Sérgio que está aqui em questão, mas o simbolismo da atitude da “repórter” como exposição caricata do tipo de jornalismo gerado pelo modelo midiático aristocrático que o Estado brasileiro segue aceitando como natural.

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Charge: Paulo Sérgio, condenado pela mídia

23 mai

Lula e Paulo Sérgio: pobres, desdentados e estupradores?

21 mai

O ex presidente Lula, nascido pobre, crescido desdentado e com fome, amadurecido analfabeto, já foi acusado de estupro pela mídia dominante no país. Lula passou por cima de tudo isso e tornou-se, ajudado por uma série de eventos e conjunturas, o primeiro presidente operário da História do Brasil. O capitalismo tem dessas, permite que um ou outro indivíduo consiga alçar-se a posições de mando mesmo tendo nascido nas posições mais subalternas possíveis. Mas casos assim são muito raros, se a queda dos regimes institucionalmente aristocráticos passou a permitir algum nível de mobilidade social, esse nível segue ínfimo – e seguirá enquanto estivermos sob esse sistema econômico-político.

Lula acusado de estupro, Lula acusado de ignorância, Lula acusado de pobreza. Paulo Sérgio também. Mas Paulo Sérgio não é presidente. E, mesmo que chegasse a ser, continuaria, como Lula continuou, refém de um passado que não teve a oportunidade de escolher. Paulo Sérgio, além de pobre, desdentado e analfabeto, é negro. Lula, além de pobre, desdentado e analfabeto, era nordestino. A ascensão social deste segundo é um acinte às oligarquias brasileiras, e, reconhecido internacionalmente como um dos grandes líderes mundiais, Lula seguiu – e segue – achincalhado pela velha mídia brasileira.

Paulo Sérgio é um garoto negro que foi preso por tentativa de furto. E acusado de tentativa de estupro. Acusado por quem o prendeu e o espancou e acusado pela repórter da TV Band que se fantasiou de torturadora para o inquirir e de juíza para definir a sentença: culpado. Culpado por estupro, culpado por ignorância, culpado por pobreza. Culpado por não ter dentes e culpado por ter a pele de uma cor que não agrada à classe média conservadora e à mídia suja que a representa. Se o acusado é um Paulo Sérgio, negro, pobre, e desdentado, já nasceu culpado.

Como bem definiu Mino Carta, essa é a “mídia da Casa Grande”, que odeia o povo, odeia os trabalhadores, odeia os negros e odeia o Brasil. A mesma mídia que odeia Lula, odeia Paulo Sérgio. A mesma mídia que tenta humilhar Lula por seu passado pobre – e tudo o que isso acarreta – é a mídia que, de mãos dadas com uma polícia que atua como atuava na Ditadura Militar, põe Paulo Sérgio contra a parede e o violenta psiquicamente com gargalhadas, deboches e acusações sem provas. Lula e Paulo Sérgio são, nesse sentido, o mesmo homem, a mesma vítima da História e da mídia que a esquece e esconde.

Essa mídia precisa ser atacada de frente, sem subterfúgios e sem recuos. A senzala deve gritar mais alto, e a mídia realmente independente e popular tem o papel de ecoar esse grito. Para romper as amarras que mantêm a fome, a ignorância e a violência é preciso romper com esse modelo de jornalismo tão afeito à exclusão como espetáculo à venda.

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A violência eufemismada de jornalismo: “Paulo Sérgio, estuprador”

21 mai

Em vídeo postado recentemente no YouTube, a repórter Mirella Cunha, do Brasil Urgente Bahia, ataca um garoto negro preso por furto e acusado de estupro. Quando ele diz que não houve estupro, a repórter não pergunta, mas afirma e acusa: “não estuprou, mas queria estuprar”. O garoto, negro e desdentado, machucado por ter sido agredido pelos dois homens que o prenderam – o que a repórter em momento algum chega a questionar – garante que a polícia pode fazer os exames necessários e comprovará que não houve estupro. A partir daí, a repórter passa cerca de dois minutos não fazendo nada mais do que debochar do fato de o acusado não saber o nome do exame a que deveria submeter-se. Debocha, inclusive, quando ele cita “exame de próstata” como o que deveria ser feito. Ela insiste, sorri, dá risada e continua pedindo que ele diga o nome do exame. Enquanto isso, a legenda chama de “chororô” a alegação de inocência.

A análise da conjuntura geral da mídia brasileira, somada aos preceitos constitucionais e aos direitos universais da humanidade é a forma mais completa e complexa de demonstrar a necessidade absoluta de regulação da mídia brasileira, partindo-se de um novo marco para a comunicação no país. Mesmo assim, alguns exemplos tornam mais palpável essa necessidade. Se muitos deles partem de temáticas político-institucionais, alguns surgem da “base”, em notícias relacionadas ao cotidiano de pessoas que a classe média brasileira insiste em não enxergar.

O programa Brasil Urgente é recheado desses exemplos. Ocupando os finais de tarde na Band, esse programa é dedicado, basicamente, à cobertura policial. Afora o fato de que esse tipo de programação reforça e alimenta a violência de que, por sua vez, também sobrevive, a forma pela qual as notícias são abordadas é um deboche à inteligência do povo brasileiro e às instituições democráticas que pretendem defender o respeito a preceitos básicos de qualquer democracia, como a presunção de inocência. Que respeito uma emissora que veicula um programa como esse demonstra ter pela população brasileira?

O que temos ali, além de preconceito, covardia e desumanidade, é tortura. Mirella tortura o acusado durante três minutos. Tortura verbal, não física, mas não menos humilhante. É a espetacularização da notícia, o circo dos horrores em rede nacional. Nada de notícia, nada de informação, nada de prestação de serviços, nada de interesse público.

Criminalização da pobreza, preconceito social – ou racial, como escreveu Cristóvão Feil –, homofobia e desconstrução das políticas públicas de saúde preventiva – nas piadas sobre o “exame de próstata” -, acusação sem provas, ridicularização da imagem privada. De tudo isso pode-se acusar Mirella, e está tudo ali, no vídeo. Tudo isso é motivo mais do que suficiente para que seu registro de jornalista – caso tenha um – seja cassado, assim como é motivo para que o programa da Band seja imediatamente retirado do ar – até porque está longe de ser a primeira vez em que situações desse tipo são provocadas pelo Brasil Urgente em todo o país.

O “mercado” não irá regular esse tipo de barbaridade – no sentido último do termo, de ação de barbárie – e um espaço público, como uma concessão de televisão, não pode ser usado dessa forma. É, portanto, o governo federal e o Poder Legislativo quem têm o dever de impedir que essa bestificação da população brasileira – tanto da audiência quanto dos “personagens” envolvidos nas reportagens – tenha continuidade. Tudo isso foi feito utilizando-se de uma concessão pública, ou seja, o poder público brasileiro assina embaixo de tudo o que a “repórter” colocou, assim como assinam embaixo a Band, seus diretores de jornalismo e todos os patrocinadores do Brasil Urgente. São estes os responsáveis por essa violência eufemismada de jornalismo.

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Ataques a Lula são ponta mais visível do neonazismo midiático

27 set

Desde que Dilma Rousseff começou a ser cotada como candidata do PT à sucessão de Lula a mídia hegemônica brasileira começou a deslegitimá-la e diminuí-la pelo fato de ser mulher. Essa ação aconteceu das mais diversas formas, da mais sutil à mais violenta, e já foi diversas vezes tratada, analisada e criticada aqui no Jornalismo B. A crítica a Dilma partir de um elemento social pessoal, e não político ou ideológico, não é, porém, nenhuma novidade. Com Lula já era assim. Nordestino, pobre, metalúrgico, sem diploma universitário. Desde sempre foram esses os elementos fundamentais do veneno destinado a Lula pela mídia oligárquica nacional – e internacional.

Lula saiu da presidência, mas seu status de grande liderança do PT – nacionalmente – e do Brasil – no cenário internacional – continua intacto. Na tarde desta terça-feira, recebeu de Ruchard Descoings, diretor do Sciences Po, da França, o doutorado Honoris Causa, concedido pela primeira vez pelo instituto a um latino-americano.

Foram enviados repórteres de alguns veículos brasileiros. Mas, ao que tudo indica, não foram a Paris para cobrir a entrega da distinção. Foram fazer lá o papel que fazem aqui, ou seja, de oposição raivosa e intransigente, de ataque gratuito justamente a um presidente que pouco ou nada fez para acabar com o monopólio de que usufruem esses mesmos meios de comunicação.

Trechos da matéria de um repórter do jornal argentino Página 12, impressionado com as perguntas feitas pelos brasileiros a Descoings na coletiva do diretor do Sciences Po: “Um dos colegas perguntou se era o caso de se premiar a quem se orgulhava de nunca ter lido um livro”; “‘Por que premiam a um presidente que tolerou a corrupção?’, foi a pergunta seguinte”; “Outro colega perguntou se era bom premiar a alguém que uma vez chamou de ‘irmão’ a Muamar Khadafi”; “Outro colega brasileiro perguntou, com ironia, se o Honoris Causa de Lula era parte da política de ação afirmativa do Sciences Po”. O próprio jornal O Globo publicou entrevista entrevista com Descoings na qual a primeira pergunta da repórter Deborah Berlinck é “Por que Lula e não Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor, para receber uma homenagem da instituição?”.

Os relatos de brasileiros que vão ao exterior – inclusive alguns repórter – falam de países onde o Brasil passou a ser respeitado nos últimos dez anos. Nossa imagem para o resto do mundo inegavelmente foi modificada durante o governo Lula. É contra esse avanço que os lacaios da mídia entreguista neoliberal lutam como baleias agonizantes na areia. Lutam contra um país que já não se ajoelha perante o imperialismo e contra o operário que liderou seu levantar.

Fernando Henrique Cardoso é o presidente ideal da mídia elitista. Paulista, branco, rico, intelectual, cheio de diplomas, homem. Mulher, nordestino, pobre, sem diploma, operário, negro, homossexual, nem pensar. A mídia dominante quer impor seu padrão de gênero, de classe e de etnia às lideranças do país, e não pode, em seus padrões “arianos” de excelência, aceitar o comando de um subalterno, de um sujo. Lula não pertence à “raça perfeita” do neonazismo midiático que, se não mata, semea o ódio. E o ex presidente é apenas a ponta mais alta dos ataques dessa mídia contra os setores sociais oprimidos. Diariamente esses setores são atacados de forma ainda mais violenta, e são muito mais vulneráveis a esses ataques do que Lula.

Vale lembrar, por fim, que em oito anos na presidência Lula pouco ou nada fez para combater o domínio dessa mesma mídia que o ataca de forma tão baixa. Dilma também não sinaliza possibilidades de avanço. Alimentam o monstro. Parafraseando Augusto dos Anjos, o PT afaga quem apedreja sua mão, beija a boca que lhe escarra.

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Beijo gay nas capas de O Caxiense e O Globo é (ainda) subversão

9 mai

No último dia 5 de maio o Superior Tribunal Federal (STF) deu um passo gigantesco na promoção da tolerância e do respeito às diferenças, ao reconhecer a união estável entre homossexuais. Os direitos sociais evoluem necessariamente unindo pressões da sociedade organizada e ações dos representantes institucionais. É nessa dialética que também se encaixam as ações da mídia. Conservador ou não, fica difícil para qualquer veículo ignorar uma pauta como essa, talvez a mais significativa alteração legal desde a Constituição de 1988.

Em meio a muitas coberturas que fizeram o “basicão”, dois jornais se destacaram pela coragem (em maior ou menor grau). Enfrentando o conservadorismo de seu público fiel, o jornal O Globo colocou na capa de sua edição do último sábado (7/5) a imagem – sombreada, é verdade – de dois homens se beijando, abraçados. Enfrentando o conhecido conservadorismo da cidade onde circula (Caxias do Sul – RS), o jornal O Caxiense foi ainda mais longe: estampou em toda a capa uma foto ainda mais explícita de um beijo gay, com a manchete “Um beijo contra o preconceito”.

Sim, capas como essas não deveriam ser dignas de nota aqui no Jornalismo B ou em qualquer outro lugar. Não deveriam chocar. Mas ainda estamos engatinhando no caminho da superação de preconceitos como esse, o que torna capas assim extremamente expressivas e corajosas, além de jornalisticamente perfeitas – afinal, é a grande pauta do momento e, teoricamente, o beijo gay seria uma ilustração óbvia.

No caso dessa grande conquista para a tolerância, a mídia tradicional pouco fez para puxar a mudança. Blogs e redes sociais, sim, têm feito do combate aos mais diversos preconceitos uma de suas pautas principais. A tendência parece ser que, a partir de agora, o caminho seja, enfim, o da naturalização da diversidade sexual, inclusive os setores mais conservadores da mídia. Estes, porém, terão que ter ainda mais coragem se quiserem realmente fazer bom jornalismo nessa área, já que boa parte de seu público é extremamente preconceituoso e avesso às diferenças. É o público bolsonárico que segue sustentando importante parcela da velha mídia, e não vai gostar nada de tomar seu café da manhã com mamão vendo a foto de dois barbados se beijando.

Seguindo o ritmo da sociedade organizada e do STF, O Globo – em menor nível e com menos força, mas não menos mérito – e O Caxiense saíram na frente. Este último, além da maior ousadia na escolha da fotografia, parece ter sido pioneiro. Texto de Paula Sperb, editora do jornal, dá detalhes da produção da capa:

O editor-chefe do jornal O CAXIENSE, Felipe Boff, explica que, na pesquisa prévia feita durante a produção da capa, não encontrou registro de iniciativa semelhante em veículos de imprensa brasileiros. Em outros países, só achou capas com abordagem parecida no jornal Washington Post e na revista Seattle Weekly. “No Brasil, é a primeira capa de jornal com um beijo gay de que temos notícia”, diz Felipe.

Esse é o bom jornalismo: corajoso, subversivo, vanguardista, plural. Bem diferente do “jornalismo” que criminaliza as diferenças que vemos tanto por aí…

* A imagem acima, bem menos ousada que a d’O Caxiense, foi publicada na capa da edição 18 do Jornalismo B Impresso, na segunda quinzena de abril.

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Chargista de ZH repete fórmula para atacar MST, PT, Executivo, Legislativo, Judiciário…

27 abr

Peças iguais, formas iguais, conteúdos apenas superficialmente diferentes. É o que se encontra em uma rápida busca no Google pelas charges de Iotti, funcionário do jornal Zero Hora. Este post não pretende discutir o todo do trabalho do chargista, que tem bons personagens e algumas boas piadas, mas partimos do seu desenho publicado na edição desta quarta-feira de Zero Hora para notar uma falta de criatividade que parece epidêmica nos traços de quem desenha para o Grupo RBS.

Charge do ótimo Carlos Latuff expõe a verdadeira relação do MST com certos setores da sociedade. Faltou apenas a mídia

Na charge que Iotti publicou nesta quarta no mesmo jornal, está, como de costume, a formação de estereótipos acerca do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Como Zero Hora costuma fazer em suas reportagens, os rabiscos de Iotti limitam o MST a um movimento de baderneiros, de “invasores”. A simplificação criando estereótipos, preconceitos, ignorância. A superficialidade como lema no caminho da alienação.

A tal charge é sobre a decisão do governo do Rio Grande do Sul de reativar as escolas itinerantes do MST desativadas pela antiga governadora, Yeda Crusius (PSDB). O posicionamento de Zero Hora sobre o assunto pode ser relembrado em um post do Jornalismo B em março de 2009. Iotti não deixa por menos, e desenha uma criança já com certo ar criminoso. Na parede, ao lado do quadro negro, está o início da conjugação do verbo “invadir”, e o símbolo do MST. No chão, o que parece ser uma cruz arrancada da parede.

Além da óbvia simplificação, do óbvio preconceito e ignorância embutidos ali, essa charge nada mais é do que a repetição de outras tantas já feitas pelo mesmo funcionário do Grupo RBS. Uma para atacar Lula e o Estado (na figura dos impostos), outra para atacar a classe política (na figura do Legislativo), outras duas para atacar o Judiciário e defender a polícia (AQUI e AQUI). Repare: movimentos sociais (MST), partidos políticos (PT), Executivo, Legislativo e Judiciário atacados frontalmente, apenas a polícia resguardada. Esse é o entendimento de Iotti, representado através de cinco charges formalmente iguais (criatividade zero) e de conteúdo apenas superficialmente diferente: a falência de todas as instituições, a repressão como única arma social.

Postado por Alexandre Haubrich

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O massacre em Realengo e os primeiros movimentos da mídia

7 abr

*Texto publicado às 13h (7/4).

Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, entra em uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro, mata 11 crianças, fere muitas outras. Um policial militar entra na escola e acerta um tiro na perna do rapaz, que se mata com um tiro na cabeça. No momento em que este post é escrito, as informações complementares ainda são desencontradas. Mas o início da cobertura jornalística já mostrou muito do que serão os próximos dias.

As primeiras informações falavam em 13 mortos e 22 feridos. No meio da manhã já era feita a correção: 11 mortos (incluindo Wellington) e 17 feridos. Mesmo assim, os portais da Globo (G1), da Record (R7), da Band (E-band), da Folha de S. Paulo e do Estadão continuaram por muito tempo com as informações antigas. Não priorizaram a internet, claramente, deixando a velocidade de seus portais abandonada. E não em favor da qualidade da informação, pelo contrário: números continuaram errados.

*Após o meio-dia números foram atualizados para 11 crianças mortas, além do atirador.

Na televisão, pudemos assistir cenas non sense de mau jornalismo na manhã e no início da tarde desta quinta-feira. Em primeiro lugar, na TV aberta só a Globo seguiu acompanhando ao vivo os desdobramentos do fato. Record e Band seguiam normalmente com suas programações, entrando apenas com flashes. Porém, a própria Globo pouco mais fez do que enrolar para segurar audiência. Jornalismo ao vivo é diferente de enrolação. Não usou o tempo de cobertura para aprofundar os debates necessários em um momento assim.

Na TV a cabo, destaque para a Globo News, que passou cada minuto reforçando preconceitos ao buscar relacionar o ataque a um possível HIV do assassino e a uma possível religião muçulmana. Foi feito de tudo para relacionar a comunidade muçulmana na fronteira brasileira com o massacre. Roupas que teriam sido usadas pelo atirador, carta deixada por ele (e não divulgada aos telespectadores) e entrevista desconexa de sua irmã adotiva foram usadas como argumento para questionar a forma como Wellington conseguiu as armas, dando a entender a todo instante que seriam fornecidas pelos muçulmanos. O islã foi retratado como “elemento ideológico que professa o massacre de infiéis”.

Em casos de violência extrema, a mídia brasileira costuma clamar por mais repressão policial. Já que não pode pedir mais policiamento dentro das escolas (com exceção de detectores de metais e policiamento nos acessos, já pedidos pela Globo), a mídia desfere ataques contra muçulmanos. E deverá seguir assim.

Minha previsão é que os próximos passos serão no sentido de reforço desesperado desses preconceitos e de aprofundamento do preconceito, do conservadorismo moral e do fundamentalismo religioso anti-islâmico. Além disso, perfis e mais perfis aparecerão: quem foram as vítimas, quem foram os heróis, quem foi o criminoso. A novelização da tragédia, com personagens rasos, retos, sem a profundidade e a complexidade que caracteriza as pessoas reais.

Além disso, os debates fundamentais não serão feitos: de que forma a lógica da Educação brasileira estimula e dá base para que situações assim ocorram? Como se dá e como se pode evitar a violência nas escolas? De que forma a valorização dos professores a o aperfeiçoamento das escolas podem modificar essa lógica? Sim, porque esse não é um caso isolado, é apenas o mais chocante das diárias manifestações nas escolas da violência social como um todo. Mais: por que tantas armas nas mãos das pessoas? Por que fábricas de armas patrocinam campanhas eleitorais? De que forma a própria mídia estimula a resolução violenta e individual dos conflitos sociais?

Postado por Alexandre Haubrich

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Zero Hora e um certo fotógrafo a serviço da homofobia

6 abr

Quem mora ou circula pelo bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, sabe que o cenário das noites de domingo não é o mais tranquilizador. Parte das ruas são ocupadas por grandes grupos de pessoas cujo senso está extremamente alterado pelo uso em grandes quantidades de álcool e outras drogas. A agressividade de alguns desses grupos também não pode passar despercebida para qualquer um que tenha olhos ou ouvidos. Porém, agressiva também é a campanha homofóbica que o jornal Zero Hora buscou desencadear usando esses fatos como argumentos.

Uma reportagem na edição da última segunda-feira trouxe declarações de comerciantes e moradores da região reclamando dos excessos dos jovens que ocupam cerca de duas quadras da Rua Lima e Silva. O problema é detectado com facilidade pela matéria de Gustavo Azevedo e Marcelo Gonzatto. As possíveis soluções, porém, são enxergadas pela reportagem através de “tapas”, aquelas viseiras usadas pelos cavalos. Em uma matéria que ocupa as páginas 4 e 5, as mais “nobres” de Zero Hora, a repressão policial é apontada como única alternativa à agressividade de alguns destes grupos.

Na terça-feira, em nova matéria sobre o assunto, há, enfim, a lembrança de que projetos sociais educativos podem “ajudar” a melhorar a situação. Mas é claro que apenas como uma retranca às cobranças sobre a Guarda Municipal e a Brigada Militar, no corpo do texto. Zero Hora exige que, para garantir os direitos da classe média do bairro, acabe-se com os direitos dos jovens rebeldes.

Mas não é só isso. A principal agressão de Zero Hora aos direitos e à liberdade está nas fotografias. Das seis fotos que complementam o texto publicado segunda-feira, três mostram o que o jornal parece considerar o maior dos crimes: beijos homossexuais. Nas outras imagens aparecem jovens desmaiados no meio da rua, em situações degradantes, animalizantes, e os beijos entre dois homens ou duas mulheres são colocados por Zero Hora na mesma categoria. O texto fala em sexo em público, “despudor” e afins. Zero Hora coloca beijos homossexuais nessas mesmas categorias. Para o discurso do preconceito, tão absurdo quanto um casal heterossexual transando no meio da rua é um simples beijo entre um casal gay.

Opção editorial? Sim, claro. Essa é a linha que o Grupo RBS – e os outros conglomerados de mídia que representam o discurso das elites conservadoras – segue diariamente, construindo e alimentando preconceitos, ignorância e intolerância. Mas, nesse caso, fica claro que a escolha das imagens não passa apenas por decisão editorial. Isso porque o fotógrafo é um velho conhecido dos jornalistas independentes gaúchos: Ronaldo Bernardi, o mesmo que está processando o professor e jornalista Wladymir Ungaretti, tentando impedi-lo de exercer, em seu blog, o direito à crítica da atividade profissional de Bernardi. Em posts que foram censurados pela Justiça a partir do processo movido pelo empregado de Zero Hora, Ungaretti denunciou por diversas vezes o “showrnalismo”, as “fotocampanas” e as “fotocascatas” produzidas por Bernardi e publicadas naquele jornal.

Ao mesmo tempo, a escolha justamente desse funcionário para fotografar a noite de domingo na Rua Lima e Silva não acontece por acaso. Não foi por sorteio. Exatamente pelo histórico comentado no parágrafo anterior, Ronaldo Bernardi tem destacada atuação em coberturas criminalizantes, seja de movimentos sociais (especialmente o MST) ou grupos costumeiramente atacados pela mídia dominante, como usuários de drogas ou, no último caso, homossexuais.

*As fotos referidas podem ser vistas AQUI, onde há também um bom artigo sobre o assunto. Outro texto interessante está no Megafonadores.

Postado por Alexandre Haubrich

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Para o Jornal da Globo a culpa é do oprimido

10 mar

“As mulheres reclamam muito dos salários baixos, mas pesquisa revela: muitas delas têm medo de pedir aumento”. Essa foi a chamada para uma matéria do Jornal da Globo desta quinta-feira. Na escalada do jornal, o texto perguntou: “Medo de quê? Por que as mulheres tem mais dificuldade em pedir aumento?”.

Essa é a explicação encontrada pela Globo para os salários mais baixos recebidos por mulheres em cargos iguais aos dos homens. A mesma matéria já aproveita para explicar as maiores dificuldades das mulheres em ascender na carreira: apenas 28% delas pensam em promoção, contra 39% dos homens.

Após algumas entrevistas nas ruas, nas quais todas as falas que foram ao ar são de mulheres dizendo que nunca pediram aumento – referendando a tal pesquisa –, o repórter, em off, acusa: “Quase metade delas diz que ganha mal, mas também não faz nada para mudar essa situação”. No fim da matéria, a entrevistada é uma alta executiva. A partir de sua posição privilegiada, ela faz uma análise sociológica: “Não vejo limitações. Quem coloca limitações é a própria pessoa, o mercado está aberto”, afirma.

Entre tantas aspas destacando frases absurdas, um comentário do Mirgon Kayser, no Twitter, resumiu a situação com precisão: “Padrão Globo sim… Em geral a Globo valoriza as explicações mercadológicas que diluam e mascarem machismo / racismo / homofobia, etc”.  É isso. No caso específico das mulheres, é a reprodução e o fortalecimento do pensamento segundo o qual a mulher estuprada é a responsável pelo estupro.

A culpa por ser pobre é do próprio pobre, a culpa do desemprego é do desempregado que não gosta de trabalhar, a culpa de todas as formas de exploração e/ou opressão é sempre do explorado e oprimido. É assim que a Rede Globo quer fazer as pessoas pensarem, alimentando, dessa forma, a segregação, o preconceito e a exclusão por parte das elites, ao mesmo tempo em que tira dos oprimidos a percepção da necessidade de luta coletiva para se alcançar uma verdadeira mudança social. Individualiza a percepção e a luta, colaborando, através da construção desse discurso, com a manutenção das mais diversas formas de opressão.

Postado por Alexandre Haubrich

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