Já ouviu falar no livro Na pior em Paris e Londres? Provavelmente não. Se ouviu, deve ter sido há pouco tempo, depois que a Companhia das Letras resolveu relançá-lo sob o selo de Jornalismo Literário. Por incrível que pareça, esse título quase desconhecido é do mesmo autor de uns outros livros um tanto quanto comentados por aí. Ou tu não conheces 1984 e A Revolução dos Bichos?
No início do século passado, mais especificamente no final dos anos 1920, George Orwell saiu às ruas de Paris e Londres, completamente sem grana, e viveu por lá durante meses, sem nenhuma perspectiva além da busca pela comida e pela cama do dia. Em Paris, viveu em uma pensão barata, dormiu com percevejos, passou fome – inclusive de dias sem comer absolutamente nada – e frio, penhorou suas roupas, trabalhou em lugares esdrúxulos durante 17 horas por dia. Isso quando estava bem de dinheiro.
Em Londres, pulava de abrigo em abrigo, já que a capital inglesa não permitia que se dormisse duas vezes no mesmo abrigo no mesmo mês. Mendigava para conseguir comida. Conheceu tipos interessantes e uma realidade completamente diferente, em que as pessoas perdem sua dignidade e não conseguem mais nem manter uma conversação além das necessidades imediatas. George Orwell se fez passar por pobre para escrever um livro, para denunciar uma realidade. Quer mais jornalismo que isso?
O livro tem 255 páginas, em que o escritor relata o cotidiano de uma vida na miséria. A luta por dinheiro, por comida, por abrigo. Tudo isso, com o estilo de escrita que já começava a se formar no autor que um tempo depois escreveria 1984. Um texto leve, apesar do tema pesado. Um mergulho na realidade, na marginalidade. Uma atitude revolucionária, condizente com as posições que o autor expressaria anos mais tarde.
Muitos anos depois, em 2001, a crítica elogiava o livro Miséria à americana, da jornalista Barbara Ehrenreich, que largou sua vida por alguns meses para viver como pobre nos Estados Unidos e escrever o livro. Mas poucos lembravam do pioneirismo de George Orwell. Merece elogio a iniciativa da Companhia das Letras de buscar obras como essa e publicá-las novamente, trazendo à tona um jornalismo dos melhores, como poucos hoje em dia.
Postado por Cris Rodrigues






