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Zero Hora manda “presente” às Universidades do Rio Grande do Sul

27 abr

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Bibiano Girard*

A visita para fins de uma palestra a ser dada aos acadêmicos do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Santa Maria causou certo impacto. A Zero Hora, o jornal regional mais criticado e debatido em sala de aula por alunos e docentes do curso de Jornalismo (pelo menos enquanto estive, e permaneço, em sala de aula), em comemoração aos seus 48 anos dará de presente ao curso uma palestra de ninguém menos que Humberto Trezzi.

Ao entrar em contato com a notícia, alguns acadêmicos, entre eles me incluo, ficaram (ficamos) assustados com o tamanho do presente. Em tamanho, ideologicamente o mimo da ZH é proporcional ao presente dos gregos aos troianos. Humberto Trezzi é jornalista e trabalha com obstinação ao defender o interesse de seus comparsas de ideologia: alistar-se contra os mais pobres e tentar ridicularizar os movimentos sociais com unhas e dentes. A Farsul, as empresas de celulose, os latifundiários e os monopólios empresariais que procuram em Zero Hora seus serviços de disseminação de mentiras, verdades distorcidas para privilegiarem entes da burguesia gaúcha e nacional, e repúdio aos movimentos populares, principalmente o MST, têm em Trezzi seu principal aliado.

Por isso o susto. Depois do susto, foi a vez de ouvirmos e lermos o discurso de alguns presenteados, mesmo que sem intenções visíveis favoráveis ao Cavalo de Troia. A onda do cidadão democrático e o discurso de que é necessário ouvir os dois lados da moeda. Mas a questão que fica é: se convidarmos o Diabo para uma conversa podemos esperar palavras doces a favor de Jesus?

Não comparo o repórter a nenhuma figura religiosa, longe disso, apenas uso da metáfora para deixar claro que o lado de Trezzi e seu discurso já estão há muito tempo muito bem escolhidos e mostrados. É infeliz acreditar na frase “vamos ouvir os dois lados”, como se ainda não soubéssemos a que e a quem ele serve. O lado dele é o lado da burguesia, e não do estudante universitário ou da população em geral. Trezzi é o medalhão de xingamentos contra reportagens de ZH. Ele não se cansa de trabalhar pela difusão do preconceito e do medo através de manchetes vulgares e textos tendenciosos que caem no cesto do burlesco e do dispensável ao povo.

O jornal Zero Hora tem sido apontado nos últimos anos, através da campanha popular e jovem pela abertura dos documentos da ditadura, como um dos periódicos dos quais os governos militares recebiam apoio. Aqui mesmo no Jornalismo B podemos encontrar textos que trazem à tona o posicionamento da ZH à favor da ditadura brasileira. Não apenas enquanto ela esteve viva (matando), mas também através de manchetes atuais difundidas, como “A escola dos presidentes faz cem anos de história”. A escola em festa era nada menos que o Colégio Militar de Porto Alegre, passagem de Castelo Branco, Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo. Bom, acho desnecessário apontar o jornalista responsável pela matéria comemorativa. Mas continuemos a ouvir seu lado.

Na bicicletada que ocorreu no final do ano passado na capital gaúcha em protesto que pedia respeito aos usuários de bicicleta e por mais espaço às pedaladas nas ruas da cidade, Zero Hora enviou Trezzi “ao campo de batalha”, como o texto do repórter parece querer desenhar. O início do texto chama a marcha de “caótica, anárquica e de rebelde manifestação”. Trezzi ainda deixa claro: “os ciclistas bloquearam a rua indiferentes aos buzinaços dos carros e ônibus”. Trezzi acredita no pedido cordial do oprimido para que o opressor pare de bater. O repórter ironiza durante todo o percurso seus participantes, e ainda escreve: “nem para entrarem em acordo com a polícia”. Um jornalista do futuro, contrário à rebeldia e ao lado da polícia.

Mas o caso mais exemplar de nosso presente da semana que vem fica pelo seu aferro a revirar latas de lixo atrás daquilo que chamou de “grande reportagem investigativa”. Sua caça era nada mais nada menos que os cadernos do MST jogados em latas de lixo que Trezzi depois estampou no jornal. A motivação do repórter investigativo era achar dados que chamou “de extrema importância sigilosa” (dados sigilosos jogados em latas de lixo de estacionamentos?) contra os 51 dissidentes do MST que deixaram o movimento por serem contrários à aproximação do movimento ao PT. Trezzi ficou com medo e achou melhor avisar o leitor do jornal antecipadamente escrevendo uma chamada um pouco absurda: “Racha do MST ameaça criar grupo radical”. E mais: “uma nova organização que pode se tornar o embrião de uma célula voltada para ações extremas”. A Zero e sua altivez.

Com três rápidos exemplos do que já foi feito pelo nosso futuro palestrante, resta agora receber o presente, acreditar na solidariedade da Zero Hora em enviar um mimo tão bom para dentro do nosso espaço público, deixar o tempo passar e ver o que acontece. A universidade não pode se afastar da realidade, não é mesmo?

Irônico.

* Bibiano é estudante de jornalismo da UFSM e redator da Revista O Viés.

Zero Hora 17 mil edições: uma retrospectiva B

23 abr

Nesta segunda-feira o jornal gaúcho Zero Hora comemorou 17 mil edições. Para marcar a data, o jornal publicou em suas páginas impressas e em seu site as capas de algumas edições que, para eles, marcaram essa trajetória.

Fizemos nossa própria seleção de capas que compõem um bom quadro do tipo de jornalismo feito por esse jornal e pelo conglomerado de comunicação do qual faz parte:

Em 1964, em uma de suas primeiras edições, a bênção do Gen. Mário Poppe de Figueiredo, comandante do III Exército após o Golpe, com direito a bilhete escrito de próprio punho:
“Recebi com muita simpatia o aparecimento de Zero Hora. Com a orientação de propugnar pelos ideais cristãos e democráticos do povo brasileiro, será mais uma voz a conduzir a opinião pública no Rio Grande do Sul nos rumos tradicionais de nossa formação histórica. Auguro a Zero Hora uma longa e próspera existência”.

Em 1968, a afirmação do AI5.

Em 2006, apoio à empresa de celulose Aracruz, amiga do Grupo.

Em 2008, ataque ao novo piso dos professores.

Também em 2008, a criminalização do MST.

Em 2010, empenho em defender privatização do sistema prisional como solução à superlotação dos presídios.

Em 2011, crítica à medida que tentava evitar injustiças e reduzir superlotação das prisões.

Em 2011, incentivo à despolitização e encobrimento da realidade do Estado.

Em novembro de 2011, ataque à greve dos professores.

Ainda em novembro de 2011, nova defesa da privatização do sistema prisional, aprofundando marginalização de adolescentes infratores.

Em 19 de abril de 2012, nova tentativa de criminalização do MST. As especulações sobre prejuízos às pesquisas sobre a vacina contra febre aftosa, levantadas pela matéria, foram descartadas no mesmo dia.

Em 20 de abril de 2012, tentativa de criar clima contrário à presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, como estratégia de deslegitimação dos governos progressistas da América Latina.

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Zero Hora troca jornalismo por especulação para atacar MST

20 abr

A ânsia do jornal Zero Hora por encontrar formas de criminalizar os movimentos sociais parece não conhecer limites. As ações do MST que lembraram o massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido 16 anos atrás, foram cobertas de forma absolutamente vazia pelas emissoras de televisão, e a pauta seguiu rendendo, no jornal Zero Hora, até a última quinta-feira. A partir da sexta, a cobertura começou a ser esvaziada. Mas não sem motivo.

Na quarta, os sem-terra que haviam ocupado um espaço do Laboratório Nacional Agropecuário, em Sarandi (RS), foram retirados de lá pela polícia, sob ordem judicial. A capa da edição de quinta de Zero Hora traz uma grande (no tamanho) fotografia de Diogo Zanatta, e a chamada “Vandalismo em 15 horas”. Na legenda, “(…) técnicos avaliam estragos em pesquisas sobre febre aftosa”.

Na matéria da página 34, também com foto, o texto cita “prejuízos” e explica: “havia veículos e máquinas danificados e pichados. As casas dos trabalhadores do laboratório foram reviradas. Estavam sujas, com objetos quebrados e portas arrombadas. Houve a destruição de cercas, e várias pichações foram feitas nas paredes (…). (…) três bovinos abatidos e alguns itens subtraídos. (..) Uma contagem será feita até o meio-dia de hoje para verificar se outras das 757 cabeças de gado que havia no local antes da invasão chegaram a ser perdidas. O cálculo será crucial para verificar se o lote atual poderá ser aproveitado. Uma avaliação realizada por veterinários irá apurar se há animais feridos”. Toda essa “destruição”, e Zero Hora publicou duas enormes fotos dos manifestantes cercados pela polícia. Praticamente foto-release da BM. Nada de fotojornalismo, nenhuma imagem da “destruição” dos “vândalos”.

No dia seguinte, sem capa e sem foto sequer na parte interna, o jornal foi obrigado a admitir que toda a sua tese sobre “prejuízos” e “estragos em pesquisas sobre febre aftosa”, acusações que funcionaram anteriormente como carro-chefe dos ataques do jornal à ação do movimento, não passava de especulação. Zero Hora especulou de forma irresponsável sobre as “possíveis consquências” da mobilização, e deu pouco espaço, na sequência, para a admissão de que as pesquisas não sofreram qualquer prejuízo.

A matéria de Leandro Becker é a demonstração de que o texto da quinta-feira fora construído apenas com especulações. É a não-matéria. Logo no primeiro parágrafo, ZH admite que “a invasão (sic) (…) não causou prejuízos à campanha de vacinação contra a febre aftosa no país”. Em seguida, relata declaração do coordenador do laboratório, que afirma que “a contagem dos animais revelou o sumiço de três dos 757 bovinos do rebanho. Mas ele esclarece que o abate não traz problemas (…). (…) nenhum animal foi ferido pelos sem-terra. – A falta de trato aos animais também não interferiu, pois eles se alimentaram de capim e tinham acesso à água”.

O texto do dia 20 serviu apenas para desconstruir as especulações levantadas no dia anterior. Não acrescenta qualquer informação, não traz qualquer fato novo. Apenas desmente o que foi publicado anteriormente. É mais uma demonstração, dessa vez construída pela própria Zero Hora, de que o jornal precipita-se na ânsia de atacar e criminalizar o MST, deixando de lado o compromisso com a apuração séria das notícias e com a publicação de informações devidamente checadas para que o leitor possa formar sua percepção sobre a realidade. Especulação não é informação, e utilizar o espaço do jornal para especular, mesmo que o desmentido venha na sequência, é irresponsabilidade e oportunismo.

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Charge: Velha mídia é criminosa procurada

18 abr

MST realiza ações do Abril Vermelho, telejornais fazem cobertura improdutiva

16 abr

O MST promoveu nesta segunda-feira ações por todo o Brasil em defesa da Reforma Agrária – incluindo o assentamento de quase duzentas mil famílias e a reivindicação de uma reformulação do INCRA – e em lembrança aos 16 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 21 integrantes do movimento foram assassinados e mais de 70 feridos por policiais militares que seguem impunes até hoje.

As manifestações envolveram milhares de trabalhadores. Segundo o site do movimento, “já foram realizados protestos em 17 estados e em Brasília, somando 38 ocupações de terra, nove ocupações de sedes do Incra, cinco protestos em prédios públicos, além de trancamentos de estradas e criação de acampamentos nas cidades”.

Como costuma acontecer, as informações circularam na mídia dominante de forma truncada e vazia. Dentro os três principais telejornais do país, o único que informou sobre o assunto com qualidade – ainda que sem grande aprofundamento – foi o Jornal da Band. Jornal Nacional e Jornal da Record sequer veicularam matérias com um repórter em qualquer um dos locais de mobilização.

O Jornal da Band dedicou um minuto e meio ao tema, com reportagem de Carolina Vilela em Brasília. Na capital federal, o MST ocupou o prédio do Ministério do Desenvolvimento Agrário. A Band oscilou a caracterização das manifestações entre “invasão” e “ocupação”, mas deixou claras as intenções e reivindicações do movimento. Foi a única entre as três emissoras a lembrar que as mobilizações fazem parte do Abril Vermelho. Mas, como Globo e Record, em momento algum citou Eldorado dos Carajás, motivação fundamental dos protestos neste momento.

O Jornal Nacional veiculou uma nota coberta, de 30 segundos, sem citar o massacre de 16 anos atrás, sem citar o Abril Vermelho, mas encontrando espaço para destacar que integrantes do MST que “invadiram” a sede do governo do Ceará “aproveitaram para se banhar no espelho d’água”. É essa a informação que o JN considera relevante. Sobre as reivindicações, só houve espaço para dizer que “exigem mais investimentos em Reforma Agrária”.

 No Jornal da Record, mais uma nota coberta de 30 segundos, e ali o descaso jornalístico chegou ao ponto de causar uma distorção grosseira em uma informação básica: enquanto os outros dois telejornais aqui citados se referem a ocupações em 15 Estados e no Distrito Federal, e o MST fala em “protestos em 17 Estados”, o Jornal da Record noticia que integrantes do MST “ocuparam prédios públicos em 7 estados e DF”, sem citar as demais mobilizações, absolutamente indissociáveis da ocupação dos prédios públicos. O mesmo programa, assim como o Jornal Nacional, destaca que, no Ceará, “nem a piscina escapou”. Onde foram parar os critérios de noticiabilidade mais básicos?

Preocupadas em manter a hegemonia do capital como forma de manter seu próprio domínio sobre a mídia e, assim, sobre a informação, as grandes emissoras de televisão não aprofundam as temáticas fundamentais da sociedade brasileira, fazendo do fútil e do cotidiano dos gabinetes a única expressão real da política em seus telejornais. Com notas de 30 segundos que destacam o banho de piscina dos sem-terra, despolitizam as mobilizações e esvaziam até a última gota o debate sobre a Reforma Agrária e sobre os criminosos de ontem – os assassinos de Eldorado dos Carajás da mesma forma que os torturadores e assassinos da Ditadura Militar.

É preciso que esse imenso latifúndio midiático – absolutamente improdutivo socialmente – seja ocupado. Assentemo-nos.

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Elites se unem contra moradores do Pinheirinho. Pra que(m) serve essa terra?

23 jan

Muito se pode escrever sobre o que aconteceu no último fim de semana em Pinheirinho, em São Paulo. Muito já se escreveu, também, e mesmo assim, em nosso conjunto de palavras, é difícil dimensionar o tamanho do problema do despreparo da Polícia Militar por todo o país somado ao neoconservadorismo de uma fatia da sociedade e o autoritarismo elitista dos partidos da direita brasileira. Também é difícil dimensionar as consequências disso tudo, mas elas salpicam sangue em nossos olhos quando menos esperamos.

No último domingo, centenas de famílias foram desalojadas no bairro do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), em uma ação violenta da Polícia Militar, sob ordens do governo estadual de Geraldo Alckmin (PSDB). Foram 2 mil PMs na operação. Há relatos, entre os moradores, de mortos na ação. Diz a polícia que foram vinte feridos, apenas. A ação foi em cumprimento a reintegração de posse, em benefício do empresário Naji Nahas. Segundo o Blog do Miro,

Naji Nahas, que reivindica a “propriedade” do latifúndio, é um especulador condenado (…). Mais: havia uma trégua em curso, acertada por todas as partes, e uma decisão da Justiça Federal mandando suspender a mal-chamada “reintegração de posse”. (…) Cansados de tantas arbitrariedades, alguns membros da ocupação vestiram-se de uniformes de resistência improvisados, numa encenação artística do que pode vir ser o contra-poder popular. O governo de Geraldo Alckmin, ligado ao fundamentalismo cristão de direita, e o Tribunal de Justiça de São Paulo, conhecido por seus laços com o que há de mais feudal e escravocrata na oligarquia paulista, não toleraram a hipótese de diálogo, muito menos a irreverência das imagens.

A PM invadiu durante a madrugada, quando os moradores dormiam. Tática de guerra. Uma polícia militarizada, treinada com foco em combate, e a sociedade como inimiga, os moradores como inimigos a serem expulsos ou eliminados. Agora, seis mil pessoas engrossam a fila de cidadãos ultrajados, desalojados, em condições precárias.

Tudo isso assinado embaixo por alguns setores da mídia, a começar pela Rede Globo. Em matéria de dois minutos no Fantástico, a pauta foi a criminalização dos moradores. A reportagem trabalhou com release da Polícia Militar e da Justiça de São Paulo, que contrariou orientação da Justiça Federal. Como bem escreveu Altamiro Borges, essa mídia “tratou os ocupantes como ‘invasores’ e culpados pelas cenas de violência”. E mais: “Nos momentos de confrontos mais agudos, os barões da mídia se juntam na defesa da “propriedade” e contra os que lutam por direitos humanos mínimos – como o direito à moradia. Nesta “cruzada sagrada”, eles inclusive protegem notórios bandidos, como é o caso do especulador Naji Nahas. De vilão, ele foi tratado como prejudicado no triste episódio do Pinheirinho”.

Entre a bala e a pedra, a velha mídia sempre esteve ao lado da bala. Bons exemplos são os tratamentos dados ao MST e à questão palestina, onde o “confronto” é sempre entre pedras e armas de fogo. Os casos recentes de agressões a estudantes da USP pela mesma PM paulista demonstram também uma preferência pelo porrete em detrimento da palavra, da ação violenta em oposição ao pensamento reflexivo (crítico).

Mas agora essa mídia não é a única voz, ainda que continue sendo dominante, opressora e dona dos principais espaços de circulação de informação (televisão, rádio e jornais). Os blogs vem fazendo uma grande cobertura jornalística do caso, denunciando os abusos da PM, da Justiça de SP, do governo de Alckmin e da mídia aliada às elites. Destaco o excelente trabalho de reportagem de Raphael Tsavkko e Maria Frô, e os artigos precisos e esclarecedores de Altamiro Borges que já citei neste post, mas muito mais pode ser encontrado em uma busca rápida pela rica e diversa blogosfera brasileira.

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Imprensa burguesa apresenta: O Dissidente

30 nov

*O post de hoje do Jornalismo B é uma colaboração especial de Rafael Balbueno, chargista e integrante da Revista O Viés, sobre a postagem da última segunda-feira, que tratou de reportagem do jornal Zero Hora a respeito dos dissidentes do MST.

Zero Hora, os dissidentes do MST e a cultura do medo como forma de alienação

28 nov

A saída de 51 militantes do MST descontentes com a aproximação do movimento com os governos do PT e com a burocratização e acomodação da luta, motivou duas reportagens do jornal Zero Hora na última semana. A primeira, de quinta-feira, é uma matéria sem grandes controvérsias, mas parece não ter agradado a alguém: no domingo, uma reportagem de duas páginas, assinada por Carlos Wagner e Humberto Trezzi, é um festival de juízos de valor, palavras de ordem em tom editorializado, e até manipulações absurdas do conteúdo da carta divulgada pelos dissidentes.

O título, manchete de capa, dá o tom, e a linha de apoio complementa: “Racha do MST ameaça criar grupo radical” – “Cisão histórica no movimento abre terreno para a formação de célula extremista”. Radical e Extremista são adjetivos que vão permear toda a reportagem, e colocar subjetivamente o posicionamento do jornal, tentando impor medo à população, criar logo no nascedouro uma postura negativa da sociedade em relação a qualquer atividade que possa vir a ser desenvolvida pelos lutadores sociais que acabam de deixar o MST.

A linha de apoio da matéria chama mais uma vez: “Zero Hora reconstitui a história reunião que sacramentou o racha no movimento dos sem-terra e criou uma nova organização que pode se tornar o embrião de uma célula voltada para ações extremas”. Mais uma vez o extremismo. E já a primeira afirmação que não é verdadeira: “criou uma nova organização”. A verdade, admitida no próprio corpo da reportagem, é que ainda não há rumo certo para os dissidentes, tampouco sabe-se se irão atuar juntos.

A segunda afirmação que não se relaciona com a verdade vem mais ou menos pela metade do texto, no 5º parágrafo: “Basta ler a carta escrita por eles para ter essa certeza: lá está redigido que o MST abandonou a luta radical e passou a mobilizar bases apenas para manifestações dentro da lei, o que desagrada aos dissidentes”. É mentira. AQUI você pode ler a íntegra da carta, e verá que não está redigido que o MST abandonou a luta radical – embora essa crítica esteja implícita, há apenas uma vez a palavra “radical” na carta, e não é nesse contexto –, muito menos que as manifestações “dentro da lei” desagradam aos dissidentes. A carta não cita nenhuma vez as expressões “dentro da lei”, “legal” ou similares.

No texto principal da matéria, “radical” ou seus derivados aparece quatro vezes em 12 parágrafos. Há ainda uma vez “extremista”. Além disso, há um parágrafo inteiro dedicado a enumerar o que teria sido “destruído” quando o MLST, uma dissidência do MST surgida em 1994, ocupou (ou “invadiu”, como diz ZH) o Congresso Nacional. O texto diz que “Esse grupo ganhou projeção nacional em 2006, ao invadir o Congresso. Durante a manifestação, cem militantes do MLST destruíram tudo que encontraram pela frente, incluindo (…)”, e aí seguem-se oito linhas listando a “destruição”.

A seguir, mais um grupo é citado, uma espécie de “corrente” do MST, liderada por José Rainha. Sobre ele, Wagner e Trezzi escrevem: “se notabiliza por invasões sistemáticas de terras e algumas depredações, táticas que serão retomadas pelos rebeldes que lançaram o manifesto em Viamão. Basta ler a carta escrita por eles para se ter essa certeza”, e então vem a mentira citada e desmascarada dois parágrafos atrás. São, então, dois grupos citados, cujas ações relatadas são descritas como violentas, e que os funcionários de Zero Hora tentam relacionar com os novos dissidentes.

Os dois parágrafos seguintes da matéria falam em uma “disputa entre organizações de esquerda” pelos dissidentes, mas não há fonte citada nem nominalmente nem omitindo identidade. Soa a especulação ou informação plantada, já que não há qualquer tipo de referência à origem da “informação”.

Há ainda uma entrevista com o agrônomo Zander Navarro, que legitima suas críticas ao MST por ter sido apoiador do movimento 30 anos atrás, mas que rompeu com as lutas pela reforma agrária defendendo a acomodação entre agricultura familiar e agronegócio. Procurando por seu nome em algum site de buscas é fácil encontrar artigos e entrevistas em que faz exatamente as mesmas declarações que fez a Zero Hora, ironizando, desmerecendo e debochando dos integrantes do MST. Nas cinco perguntas, uma vez aparece “extremista”, uma vez aparece “radical” e, na última questão, é sugerido que os dissidentes possam vir a praticar sequestros (“Há espaço para que se transformem em algo, como o EPP paraguaio, que sequestra fazendeiros?”).

O entrevistado diz que uma postura “anti-intelectual” sempre marcou o MST, pois o movimento teria nascido de “setores católicos resistentes ao estudo”. Afirma ainda que “o manifesto reflete uma inacreditável leitura da realidade à luz da conjuntura vivida no Brasil. Ou seja, demonstra a miopia e o espantoso estreitamento dos debates internos do MST”. Depois fala na prevalência de “uma profunda ignorância política de militantes do MST”, e em “abissal desconhecimento de setores ligados aos temas rurais, incapazes de perceber que o mundo rural brasileiro cruzou um ‘divisor de águas’ nos anos 90, sendo atualmente uma máquina de produção de riquezas”. Para quem são essas riquezas não é uma questão colocada, assim como a simpatia de Zander Navarro às políticas de Fernando Henrique Cardoso na área da agricultura, expressas em outras entrevistas. Por fim, o especialista de Zero Hora chama o manifesto de “politicamente ridículo, uma manifestação de infantilidade”.

A referência à possibilidade de atuação dos dissidentes em sequestros, citada aqui há dois parágrafos e colocada na última pergunta da entrevista com Navarro, volta a aparecer na retranca (pequeno texto anexo à matéria principal) entitulada “Ex-militantes cogitam formar ‘Tele Protesto’”. Os repórteres citam como fontes quatro dos dissidentes, que não quiseram ser identificados, e diz que “cogitam agir como uma espécie de tropa de choque da esquerda – uma espécie de Tele Protesto: se chamados, vão atuar de forma decisiva em invasão de fazendas, ocupação de edifícios, bloqueio de estradas e impedimento de atividade de servidores”. E completa com um exemplo claro de “não-notícia” que tenta induzir ao medo: “Não é cogitada, até o momento, tomada de reféns”. Se não é cogitada, porque constar na matéria? Apenas para assustar, para plantar na cabeça do leitor a possibilidade, e é para reforçar essa imagem que está ali a expressão “até o momento”.

Durante toda a cobertura de domingo, sete vezes foi usada pelos repórteres e editores a palavra “radical” ou suas derivadas, quatro vezes “extremismo” ou assemelhados, e duas vezes foi sugerida ou afirmada a possibilidade de que os dissidentes venham a praticar sequestros. Tudo isso além de duas passagens do texto que não se alinham à realidade objetiva. Esse é o saldo de uma reportagem que objetiva readequar o tom relativamente sereno da matéria de quinta-feira à real linha editorial e às cotidianas formas de atuação do Grupo RBS e de seu principal jornal.

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Band ataca MST e Tarso Genro e cria novo código judicial

13 out

Na edição desta quinta-feira, o Jornal da Band comentou nota do governo do Rio Grande do Sul que contestava reportagem veiculada na quarta, e reiterou sua posição de ataque ao governador Tarso Genro. Esse posicionamento da Band aparecera pela primeira vez na segunda-feira, com uma nota lida pelos apresentadores do jornal, na qual acusavam o governo de descumprir decisão judicial que determinou a reintegração de posse de uma área pública – da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária –ocupada pelo MST em Vacaria, no interior do Estado.

Para referendar a posição da emissora, foi enviada a Vacaria a repórter Luci Jorge, que construiu uma matéria nos mesmos termos que a editorializada nota da Band se expressara. Em dois minutos de reportagem, são ditas cinco vezes, sempre pela repórter, expressões como “invasores”, “invadiu” ou similares.

Charge de Carlos Latuff

O foco é, do início ao fim, o que a Band chama de “descumprimento da decisão judicial” pelo governo gaúcho. Fala-se apenas de passagem que, na verdade, o mandado de reintegração de posse expedido não tem data para ser cumprido, o que confronta diretamente a tese do “descumprimento”. Como um mandado sem data para cumprimento pode ser descumprido? Só no cursinho Band de Justiça, no qual se aprende que é a mídia quem julga, de acordo com seus próprios interesses imediatos.

Também é rápida a referência ao fato de que a permanência do grupo no local, por mais 90 dias, está condicionada pelo governo à não-interferência nos trabalhos da Fundação. Sobre as reivindicações das famílias, a situação de concentração de terras no Brasil, a reforma agrária e a diferença do tratamento que Tarso dá aos movimentos sociais em relação à sua antecessora, nenhuma palavra.

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Em editorial, Band ataca direito de greve e ameaça governo federal

10 out

No fim da última semana o Jornal da Band levou ao ar mais um editorial do Grupo Bandeirantes de Comunicação, lido por Joelmir Betting. No texto, o grupo critica a greve dos trabalhadores dos Correios, não a respeita enquanto instrumento de luta, e, mais do que isso, ataca o Governo Federal pela “falta de ação das autoridades diante da greve”.

Segundo a Band, a “falta de ação” mostra “a covardia com que esse governo lida com mobilizações sindicais”. “Nenhuma atitude enérgica em 23 dias de paralisação”, reclama a emissora. O editorial afirma que o governo tem “mais medo dos grevistas do que da justa indignação dos milhões de cidadãos prejudicados”. A tentativa de jogar o governo contra os grevistas e forçar uma atitude extrema, de ataque ao movimento, é acompanhada de uma livre interpretação da sensação da população frente à greve.

Por fim, a ameaça ao governo: “Enganam-se esses farsantes se pensam que poderão afrontar o interesse público por muito mais tempo (…). Podem acender o farol vermelho da paciência nacional. Autoridades: cuidado”. Mais uma demonstração do fato de a mídia dominante se ver como a maior autoridade nacional, com poder para ditar o que os governantes devem fazer e o que o povo deve pensar.

Afirmar diariamente que a população detesta as greves e todas as outras formas de protesto é agir para torná-la acomodada, para enfraquecer os movimentos políticos organizados e para criar objetivamente a realidade que afirma apenas retratar. É justamente isso o que faz a velha mídia brasileira, e a Band não é diferente.

Em tempo: não foi o primeiro editorial em que a Band destilou seu veneno contra o governo do PT e os movimentos sociais através da voz de Joelmir Betting, sempre em tom de ameaça e de alarmismo, sempre em defesa das elites. Alguns exemplos abaixo:

Ataque ao Plano Nacional de Direitos Humanos e ao Plano de Cultura, acusando o governo de tentativa de cercear a “liberdade de expressão”:

 

 Defesa do novo Código Florestal: “produtores do agronegócio são os verdadeiros trabalhadores e defensores da ecologia”:

Ataques a Lula e ao MST, defesa do agronegócio:


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