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Zero Hora, os dissidentes do MST e a cultura do medo como forma de alienação

28 nov

A saída de 51 militantes do MST descontentes com a aproximação do movimento com os governos do PT e com a burocratização e acomodação da luta, motivou duas reportagens do jornal Zero Hora na última semana. A primeira, de quinta-feira, é uma matéria sem grandes controvérsias, mas parece não ter agradado a alguém: no domingo, uma reportagem de duas páginas, assinada por Carlos Wagner e Humberto Trezzi, é um festival de juízos de valor, palavras de ordem em tom editorializado, e até manipulações absurdas do conteúdo da carta divulgada pelos dissidentes.

O título, manchete de capa, dá o tom, e a linha de apoio complementa: “Racha do MST ameaça criar grupo radical” – “Cisão histórica no movimento abre terreno para a formação de célula extremista”. Radical e Extremista são adjetivos que vão permear toda a reportagem, e colocar subjetivamente o posicionamento do jornal, tentando impor medo à população, criar logo no nascedouro uma postura negativa da sociedade em relação a qualquer atividade que possa vir a ser desenvolvida pelos lutadores sociais que acabam de deixar o MST.

A linha de apoio da matéria chama mais uma vez: “Zero Hora reconstitui a história reunião que sacramentou o racha no movimento dos sem-terra e criou uma nova organização que pode se tornar o embrião de uma célula voltada para ações extremas”. Mais uma vez o extremismo. E já a primeira afirmação que não é verdadeira: “criou uma nova organização”. A verdade, admitida no próprio corpo da reportagem, é que ainda não há rumo certo para os dissidentes, tampouco sabe-se se irão atuar juntos.

A segunda afirmação que não se relaciona com a verdade vem mais ou menos pela metade do texto, no 5º parágrafo: “Basta ler a carta escrita por eles para ter essa certeza: lá está redigido que o MST abandonou a luta radical e passou a mobilizar bases apenas para manifestações dentro da lei, o que desagrada aos dissidentes”. É mentira. AQUI você pode ler a íntegra da carta, e verá que não está redigido que o MST abandonou a luta radical – embora essa crítica esteja implícita, há apenas uma vez a palavra “radical” na carta, e não é nesse contexto –, muito menos que as manifestações “dentro da lei” desagradam aos dissidentes. A carta não cita nenhuma vez as expressões “dentro da lei”, “legal” ou similares.

No texto principal da matéria, “radical” ou seus derivados aparece quatro vezes em 12 parágrafos. Há ainda uma vez “extremista”. Além disso, há um parágrafo inteiro dedicado a enumerar o que teria sido “destruído” quando o MLST, uma dissidência do MST surgida em 1994, ocupou (ou “invadiu”, como diz ZH) o Congresso Nacional. O texto diz que “Esse grupo ganhou projeção nacional em 2006, ao invadir o Congresso. Durante a manifestação, cem militantes do MLST destruíram tudo que encontraram pela frente, incluindo (…)”, e aí seguem-se oito linhas listando a “destruição”.

A seguir, mais um grupo é citado, uma espécie de “corrente” do MST, liderada por José Rainha. Sobre ele, Wagner e Trezzi escrevem: “se notabiliza por invasões sistemáticas de terras e algumas depredações, táticas que serão retomadas pelos rebeldes que lançaram o manifesto em Viamão. Basta ler a carta escrita por eles para se ter essa certeza”, e então vem a mentira citada e desmascarada dois parágrafos atrás. São, então, dois grupos citados, cujas ações relatadas são descritas como violentas, e que os funcionários de Zero Hora tentam relacionar com os novos dissidentes.

Os dois parágrafos seguintes da matéria falam em uma “disputa entre organizações de esquerda” pelos dissidentes, mas não há fonte citada nem nominalmente nem omitindo identidade. Soa a especulação ou informação plantada, já que não há qualquer tipo de referência à origem da “informação”.

Há ainda uma entrevista com o agrônomo Zander Navarro, que legitima suas críticas ao MST por ter sido apoiador do movimento 30 anos atrás, mas que rompeu com as lutas pela reforma agrária defendendo a acomodação entre agricultura familiar e agronegócio. Procurando por seu nome em algum site de buscas é fácil encontrar artigos e entrevistas em que faz exatamente as mesmas declarações que fez a Zero Hora, ironizando, desmerecendo e debochando dos integrantes do MST. Nas cinco perguntas, uma vez aparece “extremista”, uma vez aparece “radical” e, na última questão, é sugerido que os dissidentes possam vir a praticar sequestros (“Há espaço para que se transformem em algo, como o EPP paraguaio, que sequestra fazendeiros?”).

O entrevistado diz que uma postura “anti-intelectual” sempre marcou o MST, pois o movimento teria nascido de “setores católicos resistentes ao estudo”. Afirma ainda que “o manifesto reflete uma inacreditável leitura da realidade à luz da conjuntura vivida no Brasil. Ou seja, demonstra a miopia e o espantoso estreitamento dos debates internos do MST”. Depois fala na prevalência de “uma profunda ignorância política de militantes do MST”, e em “abissal desconhecimento de setores ligados aos temas rurais, incapazes de perceber que o mundo rural brasileiro cruzou um ‘divisor de águas’ nos anos 90, sendo atualmente uma máquina de produção de riquezas”. Para quem são essas riquezas não é uma questão colocada, assim como a simpatia de Zander Navarro às políticas de Fernando Henrique Cardoso na área da agricultura, expressas em outras entrevistas. Por fim, o especialista de Zero Hora chama o manifesto de “politicamente ridículo, uma manifestação de infantilidade”.

A referência à possibilidade de atuação dos dissidentes em sequestros, citada aqui há dois parágrafos e colocada na última pergunta da entrevista com Navarro, volta a aparecer na retranca (pequeno texto anexo à matéria principal) entitulada “Ex-militantes cogitam formar ‘Tele Protesto’”. Os repórteres citam como fontes quatro dos dissidentes, que não quiseram ser identificados, e diz que “cogitam agir como uma espécie de tropa de choque da esquerda – uma espécie de Tele Protesto: se chamados, vão atuar de forma decisiva em invasão de fazendas, ocupação de edifícios, bloqueio de estradas e impedimento de atividade de servidores”. E completa com um exemplo claro de “não-notícia” que tenta induzir ao medo: “Não é cogitada, até o momento, tomada de reféns”. Se não é cogitada, porque constar na matéria? Apenas para assustar, para plantar na cabeça do leitor a possibilidade, e é para reforçar essa imagem que está ali a expressão “até o momento”.

Durante toda a cobertura de domingo, sete vezes foi usada pelos repórteres e editores a palavra “radical” ou suas derivadas, quatro vezes “extremismo” ou assemelhados, e duas vezes foi sugerida ou afirmada a possibilidade de que os dissidentes venham a praticar sequestros. Tudo isso além de duas passagens do texto que não se alinham à realidade objetiva. Esse é o saldo de uma reportagem que objetiva readequar o tom relativamente sereno da matéria de quinta-feira à real linha editorial e às cotidianas formas de atuação do Grupo RBS e de seu principal jornal.

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Band ataca MST e Tarso Genro e cria novo código judicial

13 out

Na edição desta quinta-feira, o Jornal da Band comentou nota do governo do Rio Grande do Sul que contestava reportagem veiculada na quarta, e reiterou sua posição de ataque ao governador Tarso Genro. Esse posicionamento da Band aparecera pela primeira vez na segunda-feira, com uma nota lida pelos apresentadores do jornal, na qual acusavam o governo de descumprir decisão judicial que determinou a reintegração de posse de uma área pública – da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária –ocupada pelo MST em Vacaria, no interior do Estado.

Para referendar a posição da emissora, foi enviada a Vacaria a repórter Luci Jorge, que construiu uma matéria nos mesmos termos que a editorializada nota da Band se expressara. Em dois minutos de reportagem, são ditas cinco vezes, sempre pela repórter, expressões como “invasores”, “invadiu” ou similares.

Charge de Carlos Latuff

O foco é, do início ao fim, o que a Band chama de “descumprimento da decisão judicial” pelo governo gaúcho. Fala-se apenas de passagem que, na verdade, o mandado de reintegração de posse expedido não tem data para ser cumprido, o que confronta diretamente a tese do “descumprimento”. Como um mandado sem data para cumprimento pode ser descumprido? Só no cursinho Band de Justiça, no qual se aprende que é a mídia quem julga, de acordo com seus próprios interesses imediatos.

Também é rápida a referência ao fato de que a permanência do grupo no local, por mais 90 dias, está condicionada pelo governo à não-interferência nos trabalhos da Fundação. Sobre as reivindicações das famílias, a situação de concentração de terras no Brasil, a reforma agrária e a diferença do tratamento que Tarso dá aos movimentos sociais em relação à sua antecessora, nenhuma palavra.

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Em editorial, Band ataca direito de greve e ameaça governo federal

10 out

No fim da última semana o Jornal da Band levou ao ar mais um editorial do Grupo Bandeirantes de Comunicação, lido por Joelmir Betting. No texto, o grupo critica a greve dos trabalhadores dos Correios, não a respeita enquanto instrumento de luta, e, mais do que isso, ataca o Governo Federal pela “falta de ação das autoridades diante da greve”.

Segundo a Band, a “falta de ação” mostra “a covardia com que esse governo lida com mobilizações sindicais”. “Nenhuma atitude enérgica em 23 dias de paralisação”, reclama a emissora. O editorial afirma que o governo tem “mais medo dos grevistas do que da justa indignação dos milhões de cidadãos prejudicados”. A tentativa de jogar o governo contra os grevistas e forçar uma atitude extrema, de ataque ao movimento, é acompanhada de uma livre interpretação da sensação da população frente à greve.

Por fim, a ameaça ao governo: “Enganam-se esses farsantes se pensam que poderão afrontar o interesse público por muito mais tempo (…). Podem acender o farol vermelho da paciência nacional. Autoridades: cuidado”. Mais uma demonstração do fato de a mídia dominante se ver como a maior autoridade nacional, com poder para ditar o que os governantes devem fazer e o que o povo deve pensar.

Afirmar diariamente que a população detesta as greves e todas as outras formas de protesto é agir para torná-la acomodada, para enfraquecer os movimentos políticos organizados e para criar objetivamente a realidade que afirma apenas retratar. É justamente isso o que faz a velha mídia brasileira, e a Band não é diferente.

Em tempo: não foi o primeiro editorial em que a Band destilou seu veneno contra o governo do PT e os movimentos sociais através da voz de Joelmir Betting, sempre em tom de ameaça e de alarmismo, sempre em defesa das elites. Alguns exemplos abaixo:

Ataque ao Plano Nacional de Direitos Humanos e ao Plano de Cultura, acusando o governo de tentativa de cercear a “liberdade de expressão”:

 

 Defesa do novo Código Florestal: “produtores do agronegócio são os verdadeiros trabalhadores e defensores da ecologia”:

Ataques a Lula e ao MST, defesa do agronegócio:


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O mundinho particular de Veja

21 set

Analisar de forma comparativa é um caminho básico para compreender as diversas formas pelas quais o jornalismo pode ser usado politicamente, as ideologias que pode propagar e os interesses que pode defender. Comparar um veículo de mídia com outro é um caminho interessante para essa percepção, assim como colocar lado a lado diversas ações do mesmo veículo ou grupo mostra com clareza que nenhuma opção editorial é feita “sem querer”.

Essa é a importância de um material reunido e organizado por Gilberto Maringoni e publicado no site da agência Carta Maior. É uma apresentação em “Flash” onde aparecem 123 capas da revista Veja publicadas entre 1993 e 2010, capas selecionadas entre as 928 edições da revista nesse período.

O material organizado por Maringoni leva numericamente, metodologicamente, a uma conclusão já intuída facilmente: a revista Veja é de extrema-direita e possui critérios editoriais que passam longe do bom jornalismo. As abordagens diferentes para temas semelhantes demonstram isso, assim como a recorrência em ataques semelhantes aos movimentos sociais.

A ideologia do medo é muito presente nas capas apresentadas, pintando recorrentemente Lula, o PT e o MST como espécies de monstros diabólicos que deveriam ser enfrentados e destruídos pela sociedade. Ao mesmo tempo, a adoração por Fernando Henrique Cardoso fica clara em uma grande sequência de capas extremamente simpáticas ao ex presidente e otimistas quanto a suas ações. Mas não é apenas com enfoque partidário que se dá a atuação neofascista de Veja. Os ideários transmitidos em relação a diversos temas da sociedade são sempre baseados em preconceitos ou sensacionalismo, como também está demonstrado no apanhado de Maringoni.

A partir desse material muitas outras constatações podem ser feitas. Estudos sobre o panfletismo fascista da Veja podem abordar o pior jornalismo sob diversos aspectos, sempre a partir da comparação com a forma como outros veículos – mesmo de direita – abordam os mesmos temas ou da análise sobre a clara acumulação de repetições simplificadoras nas capas da revista. Ao publicar essa reunião de capas acompanhadas de análises e comentários críticos, a Carta Maior faz bom jornalismo, desvendando algo que dificilmente chega ao grande público, já que trabalhos assim costumam se resumir aos espaços acadêmicos. Para entender cada ação isolada de veículos como a Veja é preciso buscar o contexto, e a história recente da Veja a condena ao lugar mais sujo do jornalismo brasileiro.

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Velha mídia x MST – Rede Globo é oficialmente sócia do agronegócio

24 ago

O Jornal Nacional não noticiou, mas a Rede Globo é listada como associada da Associação Brasileira do Agronegócio. Ao lado da lista de associados, o site da ABAG explica: “Empresas e organizações representativas das cadeias produtivas do agronegócio estão associadas à ABAG”. É isso. A Rede Globo é representativa da cadeia produtiva do agronegócio, afinal, “a propaganda é a alma do negócio”, não? Como uma empresa de comunicação associada a uma organização de defesa do agronegócio irá cobrir com qualquer autonomia jornalística uma manifestação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra? É claro que isso não vai acontecer. Não se trata, pois, de “melhorar” o jornalismo praticado pela Globo, mas de modificar o eixo da comunicação brasileira.

Uma pesquisa divulgada oficialmente na noite desta quarta-feira demonstra, em dados, o que todos já sabíamos: a mídia hegemônica criminaliza o MST. O trabalho foi feito pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, com o apoio da Fundação Friedrich Ebert e da Federação do Trabalhadores em Radiodifusão e Televisão (Fitert), e analisou, entre fevereiro e julho de 2010, reportagens de três jornais (Folha, Estadão e O Globo), três revistas (Veja, Época e Carta Capital) e os dois telejornais de maior audiência no país (Jornal Nacional e Jornal da Record). O resultado geral demonstra que o MST é pauta constante na grande mídia brasileira, mas suas demandas não.

Quase 60% das matérias utilizaram termos negativos para se referir ao movimento, especialmente “invasão” e seus derivados. Em 42,5% dos textos que falam de atos violentos, o MST é citado como autor das ações e em apenas 2% das matérias a organização é classificada como vítima. Vale lembrar que todos esses resultados incluem a Carta Capital, uma publicação mais simpática ao MST. Sem ela, certamente os números seriam ainda mais expressivos dos ataques sofridos pelos sem terra diariamente.

Outros artigos científicos ou não já trataram do mesmo tema em níveis diversos. É fácil encontrar nos mecanismos de busca na internet, a começar pelo Scielo. Aqui mesmo, no Jornalismo B, muitas vezes já denunciamos as mentiras e omissões da grande mídia sobre o MST ou sobre outros movimentos de combate às desigualdades e aos desmandos das elites políticas e econômicas.

Nada disso acontece de graça. As ligações dos grandes conglomerados de mídia com o agronegócio são íntimas. O latifúndio também sustenta financeiramente a mídia que reproduz o seu discurso. Não é à toa nem por licença poética que se fala em “mídia das elites”. Latifúndios, empreiteiras, fábricas de automóveis e outros grupos desse porte são os grandes financiadores desses veículos de comunicação. São, juntamente com as elites políticas, os donos da mídia brasileira.

*A foto deste post é do site do MST.

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Uma das mais importantes reportagens de denúncia dos últimos anos

2 jun

Minhas leituras da Caros Amigos andavam atrasadas. Até que recebi um email da assessoria de imprensa da revista sobre uma reportagem da mais recente edição, que traz na capa a política externa do governo Dilma. Mas a matéria referida não era a da capa, e sim um texto da Lúcia Rodrigues, entitulado “As novas táticas da repressão política”. A linha de apoio diz: “Além de utilizar a polícia para perseguir os lutadores sociais, agora, além da violência direta, os poderes do Estado movem processos jurídicos para intimidar os ativistas”. Não se engane com a linha de apoio repetitiva. Essa talvez seja a mais importante reportagem de denúncia publicada nos últimos anos na imprensa brasileira.

A judicialização da censura vem sendo abordada nas últimas semanas em alguns blogs, inclusive AQUI no Jornalismo B. É tema fundamental nas discussões sobre a democratização da mídia. Um dos entraves básicos para o crescimento das mídias alternativas é exatamente o estrangulamento econômico impetrado pelos grandes conglomerados midiáticos e por políticos – muitos deles com mandato – e referendados pelo Poder Judiciário.

A reportagem de Lúcia Rodrigues mostra que essa situação acontece também nas mais diversas áreas de contestação ao status quo. Movimentos sociais, agentes políticos e manifestantes diversos são reprimidos judicialmente, como forma de legalizar os atos ilegais e imorais das forças de repressão violenta, física. MST, movimentos por moradia popular, em defesa do meio ambiente e dos direitos dos povos indígenas, grupos em defesa de transporte público decente e de mudanças nas universidades. Estão todos retratados na matéria.

A forma específica de repressão a esses grupos, com exemplos concretos e chocantes, aparece logo depois de Lúcia explicar as formas mais gerais de agressão às liberdades de expressão e manifestação, além da violência contra os direitos elementares dos cidadãos, como moradia, terra e transporte. Os processos que tentam reduzir o espaço de atuação das lideranças da sociedade organizada são acompanhados por violenta repressão policial. E é claro que os agentes das forças policiais raramente se transformam em réus, são sempre as vítimas, assim como os latifundiários, os especuladores imobiliários e os empresários do transporte.

São cinco páginas com poucas e irrelevantes fotos, e de um texto primoroso. Clara, limpa e atraente, a escrita da repórter prende o leitor até a última linha. Prende e deixa indignado qualquer um que se inclua entre os inconformados, que tenha adota em qualquer momento a luta dos oprimidos. Lúcia apresenta um retrato claro e assustador de como o sistema conecta seus diversos braços para manter em silêncio elementos contestadores. É uma denúncia ampla, clara e de extrema importância. Uma série de denúncias específicas em uma denúncia geral. A reportagem vai na contramão, combate o sistema que denuncia, combate a opressão. Grita alto contra a imposição do silêncio pelo cacetete ou pela caneta.

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Jornal Sem Terra completa 30 anos furando bloqueios

23 mai

Ainda antes de nascer oficialmente um dos principais movimentos sociais do planeta, seu jornal já circulava na forma de boletim. O Jornal Sem Terra, informativo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, circulou pela primeira vez em 1981 para furar o bloqueio da Ditadura Militar sobre o acampamento que originou o MST, em Ronda Alta, no Rio Grande do Sul.

“As famílias ocuparam um trecho da estrada para reivindicar a posse da terra. Exigiam a desapropriação de latifúndios na própria região, e não em projetos de colonização em outros estados”, explica reportagem do Brasil de Fato. Mais famílias foram se agregando ao movimento, e a Ditadura cercou a área. Nasceu, então, um boletim que levava para fora do cerco as informações sobre o que acontecia ali. Esse acampamento foi a principal origem do MST, fundado oficialmente em 1984. Esse boletim virou o Jornal Sem Terra, que hoje fura outros bloqueios.

O bloqueio do silêncio é uma forma torturante de sufocar qualquer movimento social e qualquer setor oprimido. A informação é uma grande arma, e o domínio dessa arma por alguns poucos grupos empresariais é uma realidade. Com o monopólio das armas pelas elites, não há como lutar. A imprensa dominante é aliada do latifúndio, das grandes empreiteiras, das produtoras de automóveis, das produtoras de tabaco. Não há como acreditar que dará voz aos diferentes. A imprensa dominante tem lado, e não é o dos movimentos sociais. Já tratamos muitas vezes aqui no Jornalismo B das formas como o MST, especialmente, é tratado. Coloque “MST” na busca, ali em cima, e confira você mesmo.

Daí a importância da imprensa alternativa, incluindo-se aí os veículos que dão voz diretamente a sindicatos e movimentos sociais, tal qual o Jornal Sem Terra. A atuação desses grupos de mídia, para se tornar eficaz, precisa ser conjunta. É necessário, para furar cada vez mais o bloqueio midiático, que haja diálogo constante. Veículos como o Jornal Sem Terra precisam dos meios independentes para ampliar suas vozes, da mesma forma como estes precisam daqueles para inserirem-se e compreenderem a prática dos movimentos sociais.

A matéria do Brasil de Fato sobre os 30 anos do Jornal Sem Terra é um bom exemplo desse diálogo, retomando momentos importantes da trajetória do MST a partir da história do boletim/jornal. Nessa troca, nesse diálogo, na construção coletiva, sai fortalecida a mídia contra-hegemônica, a sociedade e a democracia.

* Para ler o site do MST, AQUI. Para seguir o Twitter oficial do MST, AQUI.

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Uma nova editoria para Zero Hora: criminalização

18 out

A Zero Hora poderia perfeitamente ter uma editoria chamada “criminalização”. Ali estariam matérias sobre movimentos sociais, manifestações e protestos de qualquer tipo e outras atividades ligadas à busca por mudanças sociais ou desenvolvidas, sob qualquer forma, pelas classes mais baixas. Nessa editoria, a estrela maior seria o repórter Carlos Wagner.

Carlos Wagner é o enviado pelo jornal sempre que há alguém para ser criminalizado. É sempre assim em reportagens sobre o MST, por exemplo. E dá-lhe expressões como “invasão”, “depredação”, “vandalismo”, “arruaceiros” e afins. Na falta de uma editoria específica, as matérias de Wagner são distribuídas basicamente entre Polícia e Geral. Nesta segunda-feira, a página 37 foi o espaço destinado ao trabalho quase diário de discurso da exclusão social.

A reportagem em questão tem o título “Menos pedintes, mais vendedores”, e a linha de apoio “Com fechamento de vãos que abrigavam sem-teto, esquinas de uma das principais artérias da capital são tomadas por ambulantes”. Por trás de uma falsa aparência de defesa dos vendedores, ambos os grupos são criminalizados. Atente aos dois primeiros parágrafos:

Um problema a mais para os fiscais da Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (Smic) de Porto Alegre, mas um obstáculo a menos para a polícia.
Esse é o resultado da substituição de pedintes, depredadores de veículos e ladrões por vendedores de frutas e flores nas esquinas da Ipiranga – por onde transitam, em média, pelos 10,2 quilômetros da avenida, 60 mil veículos por dia.

Vamos passar por cima do fato de a reportagem ignorar as causas sociais da existência de “depredadores de veículos e ladrões”, tratando-os exclusivamente como um “obstáculo para a polícia”, demonizando-os indiscriminadamente.

E os pedintes, são caso de polícia? Para a Zero Hora, sim. Porque a Zero Hora reproduz o discurso excludente de parte das elites brasileiras, o discurso da repulsa, o discurso dos condomínios fechados e do insulfilm nos carros. A retórica do isolamento da classe média, do cerramento dos portões e dos olhos frente à pobreza, à miséria. A posição do comodismo e do “prefiro não ver” em detrimento do mínimo esforço por ajudar. A estática sobre o sofá em frente à novela como remédio para a loucura, um remédio paliativo que não cura, apenas disfarça os sintomas.

Depois, mais tarde, os próprios vendedores também são marginalizados. A matéria reclama do que chama, no título de uma retranca, de “Carência para fiscalizar comércio irregular”. Antes disso, motoristas são entrevistados, e dizem que os vendedores “não incomodam”. Ponto para eles. Mas, ainda assim, Zero Hora faz questão de cobrar fiscalização, de colocar os ambulantes como caso de polícia. Sim, de polícia, pois, em última instância, os fiscais fazem trabalho de policiamento nesses casos. Mais um trabalho para Carlos Wagner.

Postado por Alexandre Haubrich

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Comentários sobre uma emissora pública de televisão

4 ago

O Blog do Nassif falou nesta quarta-feira em um desmanche na TV Cultura de São Paulo, emissora pública que estaria sendo definitivamente desmontada pelo atual governo do Estado, atualmente encabeçado por Alberto Goldman (PSDB), mas que foi liderado nos últimos anos por José Serra (PSDB).

O desmanche final estaria partindo da nova administração, de João Sayad, e, segundo Nassif, começará com a redução dos programas produzidos pela própria emissora, passará pela redução de pessoal em quase 80%, e terminará com o fim da produção de programas e vídeos para outras instituições e da aceitação de anúncios privados, dois setores que são responsáveis por 110 dos R$ 230 milhões que a TV Cultura tem como orçamento.

A falta de interesse dos governantes brasileiros em fortalecer as emissoras públicas de TV demonstra, em primeiro lugar, o receio destes governantes em enfrentar as grandes corporações de mídia. Além disso, é reflexo de uma sociedade desinteressada sobre sua mídia e desinformada, por essa própria mídia, do que acontece nesse setor que cria visões de mundo, cria o próprio mundo, e molda a cultura brasileira. A sociedade não está interessada em um novo modelo de comunicação por não compreender a importância que esse setor tem em sua própria vida e na vida de todas as pessoas. A própria mídia é a grande responsável por essa cegueira, e os governos, de modo geral, pouco fazem para enfrentar esse problema.

A redução dos programas produzidos pela TV Cultura pode até ser positiva, caso abra-se espaço para produções independentes e de qualidade, mas arrisca-se a tornar-se um canal feito todo por terceiros, ou seja, privatizado. A própria emissora deveria investir em bons profissionais que produzam conteúdo de qualidade, não desfazer-se deles. A redução ou o fim da publicidade privada é um grande acerto, não há como negar. Seria um indício de fortalecimento da noção da emissora como pública, não fossem as outras medidas que devem ser anunciadas.

Basicamente, as ações que, segundo o Blog do Nassif, serão tomadas com relação a TV Cultura, são o esvaziamento e enfraquecimento completo da emissora, política, econômica e socialmente. Vai na contramão do que os ativistas de uma comunicação democrática pedem, ou seja, o fortalecimento da comunicação pública, ainda que a TV Cultura tenha primado por ser uma emissora estatal, apenas.

Postado por Alexandre Haubrich

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Folha segue condenando a Confecom

5 jul

A Folha de S. Paulo do último sábado traz uma pequena matéria, em um canto de página, sobre a decisão do governo Lula de discutir o que foi sugerido pela Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), realizada no final de 2009. A primeira parte da matéria é esclarecedora, informativa. A segunda, porém…

Primeiro, a repórter Andreza Matais explica que foram 633 sugestões da Confecom, que será formado um grupo de trabalho para definir quais propostas serão enviadas ao Congresso, e que são cinco os eixos principais: “marco regulatório da internet; direitos autorais; legislação geral para a comunicação pública; regulamentação do artigo 221 da Constituição pelo qual as TVs devem priorizar conteúdo nacional e o marco regulatório para o setor de comunicação”.

Depois dessa boa base de informação, começam as pancadas na Confecom. Vale lembrar que a Folha de S. Paulo, juntamente com a maioria dos grandes conglomerados de mídia e das entidades que os representam, boicotou a Conferência, conquista alcançada pela sociedade após muitos esforços.

A Folha afirma, na referida matéria, que “a Confecom contou com a participação do governo e da sociedade civil. As principais entidades representativas das empresas de mídia no Brasil não participaram por considerar que muitas das teses defendidas pelas entidades sociais, em maioria no evento, eram restritivas à liberdade de expressão e de livre associação empresarial”. É nesse parágrafo que quero focar a análise a partir daqui.

Pra começar, pergunte a qualquer jornalista de uma pequena empresa de mídia se as tais “principais entidades representativas das empresas de mídia” o representam. A resposta será negativa. Essas entidades representam apenas os interesses das grandes empresas de mídia, que, por sua vez, não representam os interesses da sociedade. Aí está o confronto entre “a participação do governo e da sociedade civil” e “as principais entidades representativas das empresas de mídia”.

Esse boicote, chamado eufemisticamente pela Folha  de “não participação”, foi uma tentativa clara de tirar, perante a própria sociedade civil ali representada, a legitimidade da Confecom. Uma tentativa baixa. Em vez de discutir, de debater, os representantes da maior parte da grande imprensa brasileira fugiram e preferiram ignorar que a sociedade organizada pede e a sociedade toda precisa de mudanças no modelo de mídia que temos. Colocam-se na posição de deuses da comunicação, inatingíveis por críticas ou mesmo por simples discordâncias. Para ignorar o contraditório, tampam os ouvidos e gritam lálálá de olhos fechados.

Por fim, liberdade de expressão e livre associação empresarial são coisas bem diferentes, o que a Folha esquece de questionar. Liberdade de imprensa é diferente de liberdade de empresa. A liberdade de empresa, sem qualquer controle social, oprime a liberdade de imprensa e de expressão, ao deixar nas mãos dos grandes empresários o controle total da informação.

Ainda que a grande imprensa tente confundir, é importante que o governo federal não se confunda, que a sociedade não se deixe confundir, e que as resoluções mais importantes da Confecom sejam atendidas, pois são as reivindicações legítimas da sociedade, da qual o governo deve ser funcionário.

Postado por Alexandre Haubrich

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