Neste mês de maio prestes a morrer – de tédio, não – a Carta Capital publicou duas capas geniais sobre a relação entre a revista Veja e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, elemento desencadeador de uma CPI por sua influência sobre políticos de diversos Estados e partidos. Nenhuma daquelas capas obteve qualquer repercussão nos maiores jornais do país, com exceção de um editorial do jornal O Globo em defesa da Veja. As relações entre o repórter Policarpo Jr e Cachoeira, e a implicação da Veja e de seus diretores nessas relações, não se transformaram em pauta nos conglomerados de comunicação do país. Por outro lado, uma nova “denúncia” publicada nessa mesma Veja acusada de sustentáculo do império de Cachoeira, foi repercutida à exaustão nesse início de semana.
A acusação foi contra Lula, e a fonte é o ministro do Superior Tribunal Federal Gilmar Mendes, nomeado para o STF por Fernando Henrique Cardoso e o responsável pela concessão de liberdade a Daniel Dantas. Em 2008, o pedido de impeachment do ministro foi cogitado, mas acabou não prosperando. Um dos primeiros a sair em defesa de Gilmar Mendes, na época, foi Demóstenes Torres, senador do DEM e principal nome ligado a Carlinhos Cachoeira.
Pois é esse Gilmar Mendes quem agora acusa o ex presidente Lula de tentar convencê-lo a adiar o julgamento do chamado “mensação” no STF. E a acusação é feita através da Veja, aquela mesma cujo repórter mantinha relações suspeitas com Carlinhos Cachoeira. O encontro entre Mendes e Lula teria acontecido no escritório do ex ministro Nelson Jobim, que confirma o encontro mas, como Lula, nega o teor.
Os mesmos veículos que nada falaram sobre o duo Veja-Cachoeira e têm trabalhado para despolitizar a CPI (Zero Hora chegou a fazer uma matéria sobre “as musas dos escândalos”, tomando como gancho a esposa de Carlinhos Cachoeira) repercutem com exaustão a matéria da revista semanal, atacando Lula de todas as formas possíveis.
Zero Hora, que mantém inclusive uma parceria comercial com a Veja (a venda casada), e que nem uma linha publicou sobre as capas da Carta Capital ou a matéria de 15 minutos que a TV Record veiculou sobre Veja-Cachoeira, foi a primeira a estampar na capa de seu site a “denúncia”, ainda no sábado pela manhã, quando a Veja recém começava a circular. Nesta segunda, Zero Hora ainda entrevistou Gilmar Mendes, e estampou a manchete em seu site: “Lula afirmou que não era adequado julgar o Mensalão este ano, diz Gilmar Mendes”.
Depois, Estadão, O Globo e Folha de S. Paulo também levaram o assunto adiante, sempre com grande destaque. O Estadão traz cinco matérias com chamadas na capa do site. Três são desfavoráveis a Lula, uma é neutra e uma é favorável ao ex presidente. Sobre a neutra, há ainda um problema. “Jobim evita comentar encontro entre Lula e Mendes” é a chamada, enquanto, na verdade, Nelson Jobim deu entrevista ao jornal Zero Hora, publicada na edição impressa dessa segunda-feira.
Na Folha, três matérias chamadas na capa são desfavoráveis a Lula, contra duas favoráveis. Uma dessas favoráveis, a principal (“Lula se diz ‘indignado’ após notícia sobre reunião com Mendes”), traz como linha de apoio uma citação à fala de Gilmar Mendes (“Ministro do STF reafirmou que o ex-presidente pediu o adiamento do julgamento do mensalão”), anulando o efeito da manchete.
O site do jornal O Globo traz duas chamadas, uma favorável a Lula e a outra desfavorável, mas a primeira delas também carregue o efeito de anulação contido na chamada da Folha (“Lula se diz ‘indignado’, mas Gilmar Mendes confirma conversa sobre mensalão”). Além disso, há duas chamadas menores, ambas de ataque frontal à Lula: “Celso de Mello: ação de Lula poderia resultar em impeachment” (a matéria chamada não consta no site no momento em que este post é escrito), e “Para jurista, Lula cometeu crime ao prometer blindar o ministro Gilmar Mendes”.
Também o Jornal Nacional dedicou grande espaço ao assunto. Foram 5 minutos de matéria, sendo que um minuto e meio é dedicado apenas a reproduzir trechos da reportagem publicada pela Veja, e outro minuto e meio para uma entrevista com Gilmar Mendes. Foram 30 segundos para a nota divulgada por Lula, 30 segundos para a posição de Nelson Jobim, e mais um minuto para a repercussão da matéria no Congresso Nacional, onde a política foi novamente pautada pela mídia – e pela mais suja mídia do país.
A repercussão do caso tem todos os elementos de uma ação conjunta para enfraquecer Lula, que recém volta à política após o tratamento de um câncer, e para levar de volta ao “mensalão” o foco de escândalo político que estava sobre a CPI do Cachoeira, que envolve também setores da mídia dominante. Estes veículos, como costuma acontecer, trabalham juntos pela manutenção do monopólio discursivo pela mídia da elite, e a prática jornalística fica abandonada enquanto os interesses político-corporativos se sobressaem.
* Vale a leitura da cobertura do Brasil 247, do Blog da Cidadania e do Blog do Nassif.
* Nesta segunda-feira, durante o programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida, o apresentador Alexandre Fetter fez um comentário absolutamente machista em relação à Marcha das Vadias. Por colaborar com a desinformação e com a reprodução de preconceitos, o programa foi, então, criticado pelo jornalista e diretor da UNE pela oposição, Rodolfo Mohr, e as críticas se espalharam pelas redes sociais, assim como as postagens em defesa de Alexandre Fetter. É importante a leitura do texto que Rodolfo escreveu em seu blog, relatando o que aconteceu e explicando a forma como atua o tipo de discurso propagado pelo Pretinho Básico. Cabe lembrar ainda que, segundo o site Donos da Mídia, a Rádio Atlântida opera com a outorga vencida desde 2005.
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