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Veja e Gilmar Mendes encontram aliados na velha mídia, e ataque a Lula repercute no que antes era silêncio

28 mai

Neste mês de maio prestes a morrer – de tédio, não – a Carta Capital publicou duas capas geniais sobre a relação entre a revista Veja e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, elemento desencadeador de uma CPI por sua influência sobre políticos de diversos Estados e partidos. Nenhuma daquelas capas obteve qualquer repercussão nos maiores jornais do país, com exceção de um editorial do jornal O Globo em defesa da Veja. As relações entre o repórter Policarpo Jr e Cachoeira, e a implicação da Veja e de seus diretores nessas relações, não se transformaram em pauta nos conglomerados de comunicação do país. Por outro lado, uma nova “denúncia” publicada nessa mesma Veja acusada de sustentáculo do império de Cachoeira, foi repercutida à exaustão nesse início de semana.

A acusação foi contra Lula, e a fonte é o ministro do Superior Tribunal Federal Gilmar Mendes, nomeado para o STF por Fernando Henrique Cardoso e o responsável pela concessão de liberdade a Daniel Dantas. Em 2008, o pedido de impeachment do ministro foi cogitado, mas acabou não prosperando. Um dos primeiros a sair em defesa de Gilmar Mendes, na época, foi Demóstenes Torres, senador do DEM e principal nome ligado a Carlinhos Cachoeira.

Pois é esse Gilmar Mendes quem agora acusa o ex presidente Lula de tentar convencê-lo a adiar o julgamento do chamado “mensação” no STF. E a acusação é feita através da Veja, aquela mesma cujo repórter mantinha relações suspeitas com Carlinhos Cachoeira. O encontro entre Mendes e Lula teria acontecido no escritório do ex ministro Nelson Jobim, que confirma o encontro mas, como Lula, nega o teor.

Os mesmos veículos que nada falaram sobre o duo Veja-Cachoeira e têm trabalhado para despolitizar a CPI (Zero Hora chegou a fazer uma matéria sobre “as musas dos escândalos”, tomando como gancho a esposa de Carlinhos Cachoeira) repercutem com exaustão a matéria da revista semanal, atacando Lula de todas as formas possíveis.

Zero Hora, que mantém inclusive uma parceria comercial com a Veja (a venda casada), e que nem uma linha publicou sobre as capas da Carta Capital ou a matéria de 15 minutos que a TV Record veiculou sobre Veja-Cachoeira, foi a primeira a estampar na capa de seu site a “denúncia”, ainda no sábado pela manhã, quando a Veja recém começava a circular. Nesta segunda, Zero Hora ainda entrevistou Gilmar Mendes, e estampou a manchete em seu site: “Lula afirmou que não era adequado julgar o Mensalão este ano, diz Gilmar Mendes”.

Depois, Estadão, O Globo e Folha de S. Paulo também levaram o assunto adiante, sempre com grande destaque. O Estadão traz cinco matérias com chamadas na capa do site. Três são desfavoráveis a Lula, uma é neutra e uma é favorável ao ex presidente. Sobre a neutra, há ainda um problema. “Jobim evita comentar encontro entre Lula e Mendes” é a chamada, enquanto, na verdade, Nelson Jobim deu entrevista ao jornal Zero Hora, publicada na edição impressa dessa segunda-feira.

Na Folha, três matérias chamadas na capa são desfavoráveis a Lula, contra duas favoráveis. Uma dessas favoráveis, a principal (“Lula se diz ‘indignado’ após notícia sobre reunião com Mendes”), traz como linha de apoio uma citação à fala de Gilmar Mendes (“Ministro do STF reafirmou que o ex-presidente pediu o adiamento do julgamento do mensalão”), anulando o efeito da manchete.

O site do jornal O Globo traz duas chamadas, uma favorável a Lula e a outra desfavorável, mas a primeira delas também carregue o efeito de anulação contido na chamada da Folha (“Lula se diz ‘indignado’, mas Gilmar Mendes confirma conversa sobre mensalão”). Além disso, há duas chamadas menores, ambas de ataque frontal à Lula: “Celso de Mello: ação de Lula poderia resultar em impeachment” (a matéria chamada não consta no site no momento em que este post é escrito), e “Para jurista, Lula cometeu crime ao prometer blindar o ministro Gilmar Mendes”.

Também o Jornal Nacional dedicou grande espaço ao assunto. Foram 5 minutos de matéria, sendo que um minuto e meio é dedicado apenas a reproduzir trechos da reportagem publicada pela Veja, e outro minuto e meio para uma entrevista com Gilmar Mendes. Foram 30 segundos para a nota divulgada por Lula, 30 segundos para a posição de Nelson Jobim, e mais um minuto para a repercussão da matéria no Congresso Nacional, onde a política foi novamente pautada pela mídia – e pela mais suja mídia do país.

A repercussão do caso tem todos os elementos de uma ação conjunta para enfraquecer Lula, que recém volta à política após o tratamento de um câncer, e para levar de volta ao “mensalão” o foco de escândalo político que estava sobre a CPI do Cachoeira, que envolve também setores da mídia dominante. Estes veículos, como costuma acontecer, trabalham juntos pela manutenção do monopólio discursivo pela mídia da elite, e a prática jornalística fica abandonada enquanto os interesses político-corporativos se sobressaem.

* Vale a leitura da cobertura do Brasil 247, do Blog da Cidadania e do Blog do Nassif.

* Nesta segunda-feira, durante o programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida, o apresentador Alexandre Fetter fez um comentário absolutamente machista em relação à Marcha das Vadias. Por colaborar com a desinformação e com a reprodução de preconceitos, o programa foi, então, criticado pelo jornalista e diretor da UNE pela oposição, Rodolfo Mohr, e as críticas se espalharam pelas redes sociais, assim como as postagens em defesa de Alexandre Fetter. É importante a leitura do texto que Rodolfo escreveu em seu blog, relatando o que aconteceu e explicando a forma como atua o tipo de discurso propagado pelo Pretinho Básico. Cabe lembrar ainda que, segundo o site Donos da Mídia, a Rádio Atlântida opera com a outorga vencida desde 2005.

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Lula e Paulo Sérgio: pobres, desdentados e estupradores?

21 mai

O ex presidente Lula, nascido pobre, crescido desdentado e com fome, amadurecido analfabeto, já foi acusado de estupro pela mídia dominante no país. Lula passou por cima de tudo isso e tornou-se, ajudado por uma série de eventos e conjunturas, o primeiro presidente operário da História do Brasil. O capitalismo tem dessas, permite que um ou outro indivíduo consiga alçar-se a posições de mando mesmo tendo nascido nas posições mais subalternas possíveis. Mas casos assim são muito raros, se a queda dos regimes institucionalmente aristocráticos passou a permitir algum nível de mobilidade social, esse nível segue ínfimo – e seguirá enquanto estivermos sob esse sistema econômico-político.

Lula acusado de estupro, Lula acusado de ignorância, Lula acusado de pobreza. Paulo Sérgio também. Mas Paulo Sérgio não é presidente. E, mesmo que chegasse a ser, continuaria, como Lula continuou, refém de um passado que não teve a oportunidade de escolher. Paulo Sérgio, além de pobre, desdentado e analfabeto, é negro. Lula, além de pobre, desdentado e analfabeto, era nordestino. A ascensão social deste segundo é um acinte às oligarquias brasileiras, e, reconhecido internacionalmente como um dos grandes líderes mundiais, Lula seguiu – e segue – achincalhado pela velha mídia brasileira.

Paulo Sérgio é um garoto negro que foi preso por tentativa de furto. E acusado de tentativa de estupro. Acusado por quem o prendeu e o espancou e acusado pela repórter da TV Band que se fantasiou de torturadora para o inquirir e de juíza para definir a sentença: culpado. Culpado por estupro, culpado por ignorância, culpado por pobreza. Culpado por não ter dentes e culpado por ter a pele de uma cor que não agrada à classe média conservadora e à mídia suja que a representa. Se o acusado é um Paulo Sérgio, negro, pobre, e desdentado, já nasceu culpado.

Como bem definiu Mino Carta, essa é a “mídia da Casa Grande”, que odeia o povo, odeia os trabalhadores, odeia os negros e odeia o Brasil. A mesma mídia que odeia Lula, odeia Paulo Sérgio. A mesma mídia que tenta humilhar Lula por seu passado pobre – e tudo o que isso acarreta – é a mídia que, de mãos dadas com uma polícia que atua como atuava na Ditadura Militar, põe Paulo Sérgio contra a parede e o violenta psiquicamente com gargalhadas, deboches e acusações sem provas. Lula e Paulo Sérgio são, nesse sentido, o mesmo homem, a mesma vítima da História e da mídia que a esquece e esconde.

Essa mídia precisa ser atacada de frente, sem subterfúgios e sem recuos. A senzala deve gritar mais alto, e a mídia realmente independente e popular tem o papel de ecoar esse grito. Para romper as amarras que mantêm a fome, a ignorância e a violência é preciso romper com esse modelo de jornalismo tão afeito à exclusão como espetáculo à venda.

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Folha e Estadão dão mais destaque a Haddad do que a Serra. O que há por trás?

10 abr

Foi por acaso que me deparei nesta terça-feira com um dado curioso: o candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, tem tido muito mais exposição nos dois principais jornais da cidade (e do país) do que seus dois principais adversários nas eleições de outubro, José Serra (PSDB) e Gabriel Chalita (PMDB). Folha de S. Paulo e Estadão, tradicionais redutos do PSDB e aliados de Serra nas brigas internas dos tucanos, dedicaram, em abril, 24 notícias de seus sites à campanha de Haddad, contra apenas 11 em que Serra é o principal personagem. Chalita é destaque em seis matérias.

Na Folha, são 11 matérias que destacam Haddad, três que destacam Serra e duas em que o foco é Chalita. No Estadão, treze para Haddad, oito para Serra e quatro para Chalita. A diferença é gritante, e inexplicável se tomarmos como base o histórico dos dois jornais. A diferença na Folha é ainda maior do que no Estadão, que, nas últimas eleições presidenciais, chamou voto no candidato que agora “esconde” em favorecimento ao petista.

A Folha, se nunca abriu voto no PSDB, sempre esteve ao lado dos tucanos. E, nas acirradas disputas internas entre Serra e Geraldo Alckmin em São Paulo, costuma preferir Serra. De qualquer forma, o que podemos afirmar é que há algo estranho nessa situação. O jogo político nem sempre em muito claro, especialmente quando envolve disputas internas, verbas publicitárias e coligações cujas conformações pouco situam-se no campo ideológico e muito estão inseridas no campo do pragmatismo.

Fica, então, o registro do que aconteceu nestes primeiros dez dias de abril, para quem sabe mais tarde buscarmos explicações mais claras sobre as motivações dessa linha.

Folha

Haddad (11)

Após bronca, Haddad muda o visual na pré-campanha – 10/04/2012

2º turno entre Haddad e Chalita ajudaria a ‘enterrar’ PSDB, diz Tatto – 10/04/2012

Haddad defende renegociação da dívida de SP com a União – 09/04/2012

Discreta, mulher de Haddad ganha espaço na campanha – 08/04/2012

Haddad vai a programas populares para driblar falta de espaço na TV – 06/04/2012

Ministros do PT vão atuar na eleição em São Paulo – 05/04/2012

‘Todos temos que usar a sola de sapato’, disse Carvalho sobre eleição – 04/04/2012

Dirceu articula a montagem da equipe de campanha de Haddad – 04/04/2012

Haddad evita comentar alfinetada de Marta Suplicy – 03/04/2012

Presidente do PT municipal é confirmado coordenador de Haddad – 02/04/2012

Fernando Haddad tenta evitar fuga de aliados em SP – 01/04/2012

Chalita (2)

‘Centro revitalizado vai recuperar autoestima do paulistano’, diz Chalita – 06/04/2012

Por espaço na TV, Chalita será estrela de comercial do PMDB – 02/04/2012

Serra (3)

PSDB quer aproveitar subexposição de Haddad para explorar Serra – 05/04/2012

Serra participa de evento oficial com Alckmin e Kassab – 03/04/2012

Edson Aparecido se licenciará para assumir campanha de Serra – 03/04/2012

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Estadão

Haddad (13)

Deputados do PT sugerem a Haddad agenda metropolitana de transportes – 10/04/2012

Por Haddad, petistas prometem apoio do partido ao PSB em BH – 10/04/2012

PT orienta vereadores em Campinas a votar no PSB – 09/04/2012

Haddad diz que, se eleito, renegociará dívida de São Paulo com a União – 09/04/2012

PT teme isolamento de Haddad e revê exigências do PSB – 09/04/2012

Haddad confirma evento com petista – 06/04/2012

Haddad espera trazer PR para sua aliança em SP – 05/04/2012

Para PT, bloco PR-PTB dificulta pacto eleitoral – 05/04/2012

Todos devem gastar sapatos em campanha, diz Carvalho – 04/04/2012

Ao retornar a Brasília, Haddad é ‘esquecido’ em dia de anticandidato – 04/04/2012

Haddad confirma vereador no comando da campanha – 03/04/2012

PT conta com Lula para conseguir apoio do PCdoB – 03/04/2012

PT usará pane em trens contra PSDB – 01/04/2012

Chalita (4)

Consigo apoio do Estado e da União para São Paulo, diz Chalita – 09/04/2012

Chalita visita cracolândia, mas evita criticar Alckmin – 04/04/2012

‘Meu medo é virar manicômio’, diz Chalita sobre centros contra crack – 04/04/2012

Em evento, Chalita ataca Serra e defende Dilma – 01/04/2012

Serra (8)

Parecer eleva pressão sobre a vice de Serra – 10/04/2012

José Aníbal critica gestão de Kassab – 09/04/2012

PSDB-SP avalia chapa puro sangue nas eleições – 05/04/2012

Serra colará sua agenda na de Alckmin – 04/04/2012

Para ampliar exposição, Serra colará sua agenda na de Alckmin e Kassab – 03/04/2012

Serra participa de evento com Alckmin e Kassab – 03/04/2012

Meirelles diz que não pretende ser vice na chapa de José Serra – 02/04/2012

Vice em chapa de Serra abre disputa entre aliados – 02/04/2012

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Ano de eleição, responsabilidade dobrada

13 jan

A cada dois anos vive-se um momento em que a desconstrução do discurso da mídia dominante se torna uma tarefa ainda mais importante. Em países com sistemas políticos representativos que praticamente descartam a participação popular nos processos decisórios – caso do Brasil – o embate eleitoral é o ponto culminante da disputa pelo centro do poder político. Ainda que as alternativas nas eleições sejam profundamente limitadas e que a dinâmica política aja para barrar a emergência de novas possibilidades, e considerando-se todas as limitações e distorções do modelo da chamada democracia representativa e, em especial, do sistema político brasileiro, a cada dois anos presenciamos – e influímos sobre ele – o ponto culminante da disputa política.

É em um ano eleitoral que acabamos de entrar, e sabemos bem o papel da mídia nesse tipo de disputa. Na última oportunidade, os maiores jornais, revistas e redes de televisão do país atuaram de forma orquestrada em defesa da candidatura do candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra. Até uma bolinha de papel foi usada para tirar as atenções do que realmente importava naquele momento: a distinção entre os projetos de país defendidos pelos quatro candidatos: José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL). A tentativa de transformar a eleição em um embate moral – e não político-ideológico – partiu em primeiro lugar de alguns conglomerados de comunicação.

Por outro lado, vimos uma divisão raivosa entre setores da esquerda, racha esse que, infelizmente, varou o ano de 2011 e dificultou o bom debate sobre temas em que estes setores sempre defenderam interesses comuns – ou ao menos aproximados –, como a punição aos criminosos da Ditadura Militar e a democratização da mídia brasileira. O calor da disputa eleitoral de 2010 criou desavenças pessoais e levou a esquerda mais para a esquerda e a centro-esquerda mais para o centro, abalando as pontes de diálogo. O resultado é que, mesmo com a vitória do PT de Dilma, todos os campos da esquerda midiática perderam com o desgaste causado pelo processo eleitoral. Além disso, o último ano foi nulo em avanços na democratização da mídia a nível nacional. Uma das primeiras aparições públicas da já eleita presidenta Dilma Rousseff foi na celebração do aniversário da Folha de S. Paulo.

Em outros momentos da história brasileira a intervenção da velha mídia sobre as decisões eleitorais foi ainda mais incisiva. Exemplos clássicos são a disputa pelo governo do Estado do Rio de Janeiro em 1982, com o “Escândalo da Proconsult”, no qual a Rede Globo participou de uma tentativa de fraudar as eleições ganhas por Leonel Brizola (PDT), e a campanha presidencial de 1989, com a manipulação do debate final entre Lula (PT) e Collor (PRN). Se nesta última situação a velha mídia e seu candidato acabaram levando a melhor, não foi isso o que aconteceu nas últimas três eleições presidenciais.

O fortalecimento dos blogs e das redes sociais, se não é suficiente para democratizar verdadeiramente a comunicação, ao menos serve para desconstruir o discurso da mídia dominante e desmascarar suas manipulações. Outro fator que não pode ser deixado de lado é a queda de audiência da TV Globo e a ascensão da Record, que se mostrou simpática à candidatura de Dilma em 2010.

De qualquer forma, teremos em 2012 mais um momento assim. Desde o fim de 2011 os interesses eleitorais já começaram a fazer valer sua força nas pautas da mídia hegemônica. A prática mais comum é a agressividade nos meses que antecedem a disputa e a sutileza nos momentos de campanha, com a simples incorporação dos discursos dos candidatos preferidos pelos barões da mídia. Por isso, é preciso estarmos atentos desde já.

É verdade que eleição não é sinal de democracia, e que não pode se esgotar ali a possibilidade de participação popular na política nacional. É verdade também que o poderio econômico faz grande diferença em um processo eleitoral, o que o torna terrivelmente menos democrático e justo do que poderia ser. E é verdade que os interesses conservadores tendem, em menor ou maior medida, a se fortalecerem apoiando-se em conchavos e mentiras disseminadas pela velha mídia. Mas também é verdade a mídia independente, capitaneada hoje por blogueiros e pelos ativistas das redes sociais, tem condições de tornar as eleições mais justas e democráticas, informando com qualidade a sociedade e abrindo espaço para um debate rico e realmente politizado e politizante. É uma das nossas missões fundamentais para este 2012 que começa.

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Velha mídia quer governar mesmo perdendo eleição

16 nov

Não foram poucos os posts que, no ano passado, acompanharam a intensa campanha da mídia dominante contra a eleição de Dilma Rousseff à presidência da República. De ficha falsa no DOPS à bolinha de papel arremessada contra José Serra, a velha mídia foi um elemento fundamental na tentativa do PSDB de voltar ao governo federal. Não deu certo.

E esses setores da mídia, acostumados às benesses do poder, aos carinhos do imperialismo (vide as relações de jornalistas como William Waack com o governo norte-americano, reveladas pelo Wikileaks), não aceitaram bem a derrota. Dilma tem se esforçado para agradar os grandes conglomerados de mídia. Nos primeiros lances de seu mandato, esteve ao vivo na TV Globo, e em seguida discursou no aniversário da Folha de S. Paulo. Trocou Franklin Martins por Paulo Bernardo e, dessa forma, travou os parcos avanços que a força da militância organizada vinha começando a alcançar no caminho da democratização da comunicação.

Mesmo assim, Dilma segue sendo atacada. Se não diretamente, ao menos de forma indireta. Seu governo vem sendo uma sucessão de concessões aos caprichos da grande mídia, que resolveu mostrar aos leitores e eleitores que ainda tem poder suficiente para mandar e desmandar no país. Derruba um ministro atrás do outro, e sua sede de comando sobre o governo federal é insaciável.

No fim do último mês e no início deste novembro, o alvo foi o ministro da Educação, Fernando Haddad. Ele é o candidato óbvio do PT à prefeitura de São Paulo em 2012, o que direcionou a artilharia de Folha de S. Paulo, Estadão, Globo e Veja. Na aparente impossibilidade de derrubá-lo, trocou-se de alvo. Agora os ataques de todos estes veículos se concentram em Carlos Lupi, ministro do Trabalho. As manchetes dos sites são praticamente as mesmas: EstadãoPDT avalia saída de Carlos Lupi do Ministério do Trabalho; FolhaPresidente do PDT defende que ministro Carlos Lupi deixe cargo; G1PDT diz que avalia se é ‘oportuno’ Lupi continuar no cargo.

A coincidência entre os ministros derrubados é que apenas Antonio Palocci é do PT, e apenas Pedro Novais não esteve no governo Lula. Ou seja, considerando os seis ministros de Dilma já derrubados e Carlos Lupi, que agora alguns setores da mídia tentam derrubar, apenas um é do PT e apenas um não esteve no governo Lula. A velha estratégia do dividir para dominar é clara e óbvia. Sem poder fortalecer seus partidos, a tática é enfraquecer a aliança governista, a começar pelo próprio PT – com suas divergências programáticas e pragmáticas internas –, chegando à coalizão que sustenta a governabilidade. Impedir Dilma de governar, com uma sucessão de crises e com um racha entre os partidos da base é a estratégia eleitoral que já começa a ser aplicada com vistas a 2012 e, especialmente, 2014.

*A lista dos ministros que já saíram do governo Dilma:

Antonio Palocci – PT

Nelson Jobim – PMDB

Alfredo Nascimento – PR

Pedro Novais – PMDB

Wagner Rossi – PMDB

Orlando Silva – PCdoB

* Este post não visa defender ou condenar qualquer um dos ministros citados ou o governo Dilma em sua totalidade. O objetivo é apenas demonstrar a forma como determinados setores da mídia brasileira agem em relação ao poder.

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Os críticos, o poeta e o poema

11 nov

O momento econômico brasileiro tende a acalmar os ânimos de uma parcela significativa da população, mas outros fatores contribuem para que determinadas contradições se acirrem. O crescimento do espaço para diálogo entre governo e sociedade organizada e a manutenção no poder, nos últimos nove anos, de um partido em parte oriundo justamente de uma grande base social, contribuem para que os diversos grupos de militância política, partidarizada ou não, se sintam mais à vontade para reivindicar suas demandas. O avanço nos direitos sociais – ou ao menos no debate a respeito de alguns deles – segue por esse caminho, e a crescente popularização da internet faz com que as vozes individuais se tornem mais audíveis.

A redução do desemprego, a expansão do Bolsa Família e a consequente melhoria no padrão de consumo das classes historicamente oprimidas causa repulsa aos grupos sociais que Mino Carta chamou recentemente de “herdeiros da Casa Grande”. As elites não querem ver os pobres ocupando espaços antes exclusivos, como os shoppings e os aeroportos, e, mais do que isso, as enoja ver um ex metalúrgico ocupando a presidência da República com inédita popularidade e depois sendo reconhecido como um dos grandes líderes políticos do planeta.

É por isso que, em seus espaços midiáticos, essas elites bradam incessantemente contra Lula, e é por isso que têm urrado também desde que o ex presidente anunciou estar com câncer. A “campanha” para que ele se trate no SUS não tem a ver apenas com a crítica às deficiências do sistema de saúde, assim como os deboches sobre os “abusos” de Lula não são uma crítica enviesada ao cigarro e ao álcool.

Os comentários veiculados na velha mídia e em alguns perfis em redes sociais refletem o preconceito de classe e o ódio aos pobres que não é, de forma alguma, ódio à pobreza. Como escreveu Ezra Pound, “podeis reconhecer um mau crítico porque ele começa por falar do poeta e não do poema”. Os poetas são muitos, mas os ataques são a Lula. O poema são milhões de brasileiros sem atendimento de saúde digno, e esses versos só poderão ser refeitos com a ampliação dos serviços públicos. Mas com o poema esses críticos pouco se importam. A métrica os favorece.

O texto acima é o editorial da 31edição do Jornalismo B Impresso, que já começou a ser distribuída em Porto Alegre. Os locais de distribuição continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B.

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A ingerência midiática no Brasil e o exemplo argentino

26 out

A arrogância da mídia hegemônica parece não ter limites. E acaba respaldada a cada situação em que o poder estatal cede ao poder de fato representado pelo aparato da mídia corporativa, cede à pressão dos grupos econômicos que controlam a comunicação brasileira. Esta última semana trouxe dois exemplos que, ao mesmo tempo em que se encaixam com perfeição, se distanciam. A vitória de Cristina Kirchner na eleição presidencial argentina, e a queda do agora ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva (PCdoB).

Cristina se reelegeu com o melhor resultado que o chamado “kirchnerismo” (que inclui as presidências de Nestor Kirchner) já obteve. E isso após criar a Ley de Medios, que tem lutado contra o monopólio do Grupo Clarín na comunicação argentina. Cristina fez toda sua campanha sem falar com os veículos do Grupo. O principal deles, o jornal Clarín, publicou, nos últimos 15 meses, 347 manchetes negativas sobre a presidenta, segundo levantamento de outro jornal, o Tiempo Argentino. Com a vitória do kirchnerismo, o processo de democratização da mídia argentina deve se aprofundar, com a regulamentação e a aplicação dos últimos artigos da Ley de Medios.

É claro que a mídia brasileira tem acompanhado com atenção os acontecimentos logo ao lado. A mídia independente, de modo geral, pede para o Brasil uma lei nos moldes da argentina. Por outro lado, a velha mídia treme, e não perde oportunidades de atacar Cristina. Em sua prepotência, já afirmou mais de uma vez que a derrocada do kirchnerismo e de todos os atuais governos progressistas da América Latina estava próxima.

Em 27 de outubro de 2010, quando da morte de Nestor, a jornalista política Miriam Leitão, uma das estrelas da mídia hegemônica, decretou em seu blog: “Assim, dividida, fragmentada, em delicado momento político, a Argentina perde o ex-presidente que a tirou da última e devastadora crise de 2001/2002. Sem ele, acaba o Kirchnerismo”. Mais de dois anos antes, em 17 de julho de 2008, outro nome forte da direita midiática brasileira, William Waack, escreveu sobre uma derrota do então presidente Nestor no parlamento: “Derrota do governo sinaliza o fim do kirchnerismo na Argentina”.

Para esse setor da imprensa brasileira, o kirchnerismo já deveria ter acabado uma dúzia de vezes. Mas o governo soberano da Argentina, que não faz acordos ou concessões aos grandes meios de comunicação, sobreviveu e segue se fortalecendo a cada eleição. A visão da mídia dominante brasileira sobre si mesma, como dona do passado, do presente e do futuro, não existe sem motivo. Ao contrário do governo argentino, o brasileiro segue legitimando e obedecendo as oito famílias que controlam a comunicação no país.

Esta semana, mais uma vez, o governo federal cedeu às pressões, deixou os conglomerados de mídia definirem os rumos do país, e derrubou mais um ministro, agora Orlando Silva, dos Esportes. É o sexto ministro a sair em menos de onze meses de governo. Cinco deles estiveram também no ministério de Lula. A estratégia é clara: minar Dilma e o PT frente à população, enfraquecer a militância e dividir as forças governistas.

Depois de passar toda sua campanha presidencial sofrendo com ataques da Folha de S. Paulo, Dilma Rousseff discursou no aniversário do jornalão paulista. Depois de ser atacada pela Rede Globo durante toda a campanha, correu ao Jornal Nacional, alavancar a audiência de quem foi o principal partícipe midiático da famosa “farsa da bolinha”. Com um início de governo assim, não se poderia esperar muito. As concessões ao poder da grande mídia se sucedem, e vivemos um momento de avanço midiático sobre o poder estatal, que se curva amedrontado e adoentado. Cristina Kirchner já mostrou que se pode fazer diferente. Trata-se de uma opção política.

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Ataques a Lula são ponta mais visível do neonazismo midiático

27 set

Desde que Dilma Rousseff começou a ser cotada como candidata do PT à sucessão de Lula a mídia hegemônica brasileira começou a deslegitimá-la e diminuí-la pelo fato de ser mulher. Essa ação aconteceu das mais diversas formas, da mais sutil à mais violenta, e já foi diversas vezes tratada, analisada e criticada aqui no Jornalismo B. A crítica a Dilma partir de um elemento social pessoal, e não político ou ideológico, não é, porém, nenhuma novidade. Com Lula já era assim. Nordestino, pobre, metalúrgico, sem diploma universitário. Desde sempre foram esses os elementos fundamentais do veneno destinado a Lula pela mídia oligárquica nacional – e internacional.

Lula saiu da presidência, mas seu status de grande liderança do PT – nacionalmente – e do Brasil – no cenário internacional – continua intacto. Na tarde desta terça-feira, recebeu de Ruchard Descoings, diretor do Sciences Po, da França, o doutorado Honoris Causa, concedido pela primeira vez pelo instituto a um latino-americano.

Foram enviados repórteres de alguns veículos brasileiros. Mas, ao que tudo indica, não foram a Paris para cobrir a entrega da distinção. Foram fazer lá o papel que fazem aqui, ou seja, de oposição raivosa e intransigente, de ataque gratuito justamente a um presidente que pouco ou nada fez para acabar com o monopólio de que usufruem esses mesmos meios de comunicação.

Trechos da matéria de um repórter do jornal argentino Página 12, impressionado com as perguntas feitas pelos brasileiros a Descoings na coletiva do diretor do Sciences Po: “Um dos colegas perguntou se era o caso de se premiar a quem se orgulhava de nunca ter lido um livro”; “‘Por que premiam a um presidente que tolerou a corrupção?’, foi a pergunta seguinte”; “Outro colega perguntou se era bom premiar a alguém que uma vez chamou de ‘irmão’ a Muamar Khadafi”; “Outro colega brasileiro perguntou, com ironia, se o Honoris Causa de Lula era parte da política de ação afirmativa do Sciences Po”. O próprio jornal O Globo publicou entrevista entrevista com Descoings na qual a primeira pergunta da repórter Deborah Berlinck é “Por que Lula e não Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor, para receber uma homenagem da instituição?”.

Os relatos de brasileiros que vão ao exterior – inclusive alguns repórter – falam de países onde o Brasil passou a ser respeitado nos últimos dez anos. Nossa imagem para o resto do mundo inegavelmente foi modificada durante o governo Lula. É contra esse avanço que os lacaios da mídia entreguista neoliberal lutam como baleias agonizantes na areia. Lutam contra um país que já não se ajoelha perante o imperialismo e contra o operário que liderou seu levantar.

Fernando Henrique Cardoso é o presidente ideal da mídia elitista. Paulista, branco, rico, intelectual, cheio de diplomas, homem. Mulher, nordestino, pobre, sem diploma, operário, negro, homossexual, nem pensar. A mídia dominante quer impor seu padrão de gênero, de classe e de etnia às lideranças do país, e não pode, em seus padrões “arianos” de excelência, aceitar o comando de um subalterno, de um sujo. Lula não pertence à “raça perfeita” do neonazismo midiático que, se não mata, semea o ódio. E o ex presidente é apenas a ponta mais alta dos ataques dessa mídia contra os setores sociais oprimidos. Diariamente esses setores são atacados de forma ainda mais violenta, e são muito mais vulneráveis a esses ataques do que Lula.

Vale lembrar, por fim, que em oito anos na presidência Lula pouco ou nada fez para combater o domínio dessa mesma mídia que o ataca de forma tão baixa. Dilma também não sinaliza possibilidades de avanço. Alimentam o monstro. Parafraseando Augusto dos Anjos, o PT afaga quem apedreja sua mão, beija a boca que lhe escarra.

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O mundinho particular de Veja

21 set

Analisar de forma comparativa é um caminho básico para compreender as diversas formas pelas quais o jornalismo pode ser usado politicamente, as ideologias que pode propagar e os interesses que pode defender. Comparar um veículo de mídia com outro é um caminho interessante para essa percepção, assim como colocar lado a lado diversas ações do mesmo veículo ou grupo mostra com clareza que nenhuma opção editorial é feita “sem querer”.

Essa é a importância de um material reunido e organizado por Gilberto Maringoni e publicado no site da agência Carta Maior. É uma apresentação em “Flash” onde aparecem 123 capas da revista Veja publicadas entre 1993 e 2010, capas selecionadas entre as 928 edições da revista nesse período.

O material organizado por Maringoni leva numericamente, metodologicamente, a uma conclusão já intuída facilmente: a revista Veja é de extrema-direita e possui critérios editoriais que passam longe do bom jornalismo. As abordagens diferentes para temas semelhantes demonstram isso, assim como a recorrência em ataques semelhantes aos movimentos sociais.

A ideologia do medo é muito presente nas capas apresentadas, pintando recorrentemente Lula, o PT e o MST como espécies de monstros diabólicos que deveriam ser enfrentados e destruídos pela sociedade. Ao mesmo tempo, a adoração por Fernando Henrique Cardoso fica clara em uma grande sequência de capas extremamente simpáticas ao ex presidente e otimistas quanto a suas ações. Mas não é apenas com enfoque partidário que se dá a atuação neofascista de Veja. Os ideários transmitidos em relação a diversos temas da sociedade são sempre baseados em preconceitos ou sensacionalismo, como também está demonstrado no apanhado de Maringoni.

A partir desse material muitas outras constatações podem ser feitas. Estudos sobre o panfletismo fascista da Veja podem abordar o pior jornalismo sob diversos aspectos, sempre a partir da comparação com a forma como outros veículos – mesmo de direita – abordam os mesmos temas ou da análise sobre a clara acumulação de repetições simplificadoras nas capas da revista. Ao publicar essa reunião de capas acompanhadas de análises e comentários críticos, a Carta Maior faz bom jornalismo, desvendando algo que dificilmente chega ao grande público, já que trabalhos assim costumam se resumir aos espaços acadêmicos. Para entender cada ação isolada de veículos como a Veja é preciso buscar o contexto, e a história recente da Veja a condena ao lugar mais sujo do jornalismo brasileiro.

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A importância de um marco regulatório para as comunicações – parte I de II

6 set

Com a moção aprovada no 4º Congresso do Partido dos Trabalhadores em apoio a um novo Marco Regulatório para as comunicações foram retomados os ataques mentirosos da mídia hegemônica às propostas de regulação. Falar em “censura” é o mais comum, e assusta com facilidade o leitor médio, obviamente desconectado da discussão sobre a mídia, já que setores da própria mídia se encarregam de esvaziá-la ou mentir sobre ela. Este post e o post de amanhã pretendem, então, prestar alguns esclarecimentos sobre o que é o tal Marco Regulatório. Não necessariamente o proposto pelo PT, mas as diversas possibilidades que se apresentam, em especial a partir de experiências em outros países latino-americanos. Hoje, um panorama geral sobre a situação da mídia no Brasil. Amanhã, em novo post, uma proposta para um novo Marco Regulatório.

O espectro de rádio e televisão possui duas características fundamentais: em primeiro lugar, é limitado, ou seja, há um determinado número de emissoras que podem ser instaladas para transmitirem em cada área. Em segundo lugar, é de propriedade do Estado, ou seja, do povo brasileiro. O Estado, portanto, dispõe desse espectro para conceder a empresas que o utilizam para transmitir, devendo, para isso, seguir algumas regras. O primeiro problema é que essas regras – ligadas, por exemplo, à pluralidade de conteúdo e ênfase em conteúdo regional – não são cumpridas, e nada é feito para coibir esse tipo de infração. O segundo problema é que as concessões são distribuídas sem regras claras, de acordo com os interesses políticos do momento, e suas renovações são praticamente automáticas, sem qualquer debate ou divulgação à sociedade de que a outorga expirou.

Isso quer dizer que todo o espectro de rádio e televisão é, na verdade, público, e o Estado, como representante legítimo dos interesses públicos, tem todo o direito de revogar concessões de emissoras que não cumprem as regras ou de simplesmente não renovar as outorgas quando seus direitos se encerram.

Ao mesmo tempo, milhares de pedidos para operação de rádios comunitárias – que ocupam apenas localmente o espectro radiofônico – seguem travados pela burocracia ou por interesses políticos. As rádios comunitárias brasileiras são poucas e possuem, de modo geral, infra-estrutura precária, já que não há incentivo governamental – ao contrário das grandes emissoras de televisão, por exemplo, que, além da outorga e de suas renovações automáticas, recebem grandes fatias publicitárias. Apesar disso, é importante destacar que, durante o governo Lula, houve uma importante e inegável descentralização das verbas publicitárias oficiais. Em 2002 essa verba era distribuída entre quatrocentas empresas, hoje chega a cerca de 6 mil.

A EBC (Empresa Brasil de Comunicação), e sua emissora de televisão, a TV Brasil, são iniciativas importantes, mas sua qualidade ainda é muito precária, e as verbas destinadas à sua operação insuficientes. As emissoras públicas estaduais também sofrem, de modo geral, com o sucateamento e o uso político-partidário de suas grades de programação.

A propriedade cruzada é, por fim, um dos principais entraves a qualquer avanço na democratização da comunicação. A possibilidade de que um mesmo grupo empresarial possua emissoras de TV abertas e fechadas, emissoras de rádio e jornais faz com que o poderia econômico enterre de vez a liberdade de imprensa e de expressão. Cria-se um ciclo no qual a superioridade financeira possibilita o crescimento no número de veículos de determinado grupo, crescimento que, por sua vez, faz crescer também o poder político, a abrangência, o domínio e, finalmente, o poder econômico, e o ciclo fecha-se.

A propriedade cruzada é o maior crime cometido contra a liberdade de expressão e contra a pluralidade na mídia. Cria, invariavelmente, a figura do monopólio ou do oligopólio, ainda que de forma velada. Impede a concorrência e a difusão de informações, resulta no controle de uma ou de poucas empresas sobre quase todo o conteúdo informacional em circulação no país.

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