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Folha e Estadão dão mais destaque a Haddad do que a Serra. O que há por trás?

10 abr

Foi por acaso que me deparei nesta terça-feira com um dado curioso: o candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, tem tido muito mais exposição nos dois principais jornais da cidade (e do país) do que seus dois principais adversários nas eleições de outubro, José Serra (PSDB) e Gabriel Chalita (PMDB). Folha de S. Paulo e Estadão, tradicionais redutos do PSDB e aliados de Serra nas brigas internas dos tucanos, dedicaram, em abril, 24 notícias de seus sites à campanha de Haddad, contra apenas 11 em que Serra é o principal personagem. Chalita é destaque em seis matérias.

Na Folha, são 11 matérias que destacam Haddad, três que destacam Serra e duas em que o foco é Chalita. No Estadão, treze para Haddad, oito para Serra e quatro para Chalita. A diferença é gritante, e inexplicável se tomarmos como base o histórico dos dois jornais. A diferença na Folha é ainda maior do que no Estadão, que, nas últimas eleições presidenciais, chamou voto no candidato que agora “esconde” em favorecimento ao petista.

A Folha, se nunca abriu voto no PSDB, sempre esteve ao lado dos tucanos. E, nas acirradas disputas internas entre Serra e Geraldo Alckmin em São Paulo, costuma preferir Serra. De qualquer forma, o que podemos afirmar é que há algo estranho nessa situação. O jogo político nem sempre em muito claro, especialmente quando envolve disputas internas, verbas publicitárias e coligações cujas conformações pouco situam-se no campo ideológico e muito estão inseridas no campo do pragmatismo.

Fica, então, o registro do que aconteceu nestes primeiros dez dias de abril, para quem sabe mais tarde buscarmos explicações mais claras sobre as motivações dessa linha.

Folha

Haddad (11)

Após bronca, Haddad muda o visual na pré-campanha – 10/04/2012

2º turno entre Haddad e Chalita ajudaria a ‘enterrar’ PSDB, diz Tatto – 10/04/2012

Haddad defende renegociação da dívida de SP com a União – 09/04/2012

Discreta, mulher de Haddad ganha espaço na campanha – 08/04/2012

Haddad vai a programas populares para driblar falta de espaço na TV – 06/04/2012

Ministros do PT vão atuar na eleição em São Paulo – 05/04/2012

‘Todos temos que usar a sola de sapato’, disse Carvalho sobre eleição – 04/04/2012

Dirceu articula a montagem da equipe de campanha de Haddad – 04/04/2012

Haddad evita comentar alfinetada de Marta Suplicy – 03/04/2012

Presidente do PT municipal é confirmado coordenador de Haddad – 02/04/2012

Fernando Haddad tenta evitar fuga de aliados em SP – 01/04/2012

Chalita (2)

‘Centro revitalizado vai recuperar autoestima do paulistano’, diz Chalita – 06/04/2012

Por espaço na TV, Chalita será estrela de comercial do PMDB – 02/04/2012

Serra (3)

PSDB quer aproveitar subexposição de Haddad para explorar Serra – 05/04/2012

Serra participa de evento oficial com Alckmin e Kassab – 03/04/2012

Edson Aparecido se licenciará para assumir campanha de Serra – 03/04/2012

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Estadão

Haddad (13)

Deputados do PT sugerem a Haddad agenda metropolitana de transportes – 10/04/2012

Por Haddad, petistas prometem apoio do partido ao PSB em BH – 10/04/2012

PT orienta vereadores em Campinas a votar no PSB – 09/04/2012

Haddad diz que, se eleito, renegociará dívida de São Paulo com a União – 09/04/2012

PT teme isolamento de Haddad e revê exigências do PSB – 09/04/2012

Haddad confirma evento com petista – 06/04/2012

Haddad espera trazer PR para sua aliança em SP – 05/04/2012

Para PT, bloco PR-PTB dificulta pacto eleitoral – 05/04/2012

Todos devem gastar sapatos em campanha, diz Carvalho – 04/04/2012

Ao retornar a Brasília, Haddad é ‘esquecido’ em dia de anticandidato – 04/04/2012

Haddad confirma vereador no comando da campanha – 03/04/2012

PT conta com Lula para conseguir apoio do PCdoB – 03/04/2012

PT usará pane em trens contra PSDB – 01/04/2012

Chalita (4)

Consigo apoio do Estado e da União para São Paulo, diz Chalita – 09/04/2012

Chalita visita cracolândia, mas evita criticar Alckmin – 04/04/2012

‘Meu medo é virar manicômio’, diz Chalita sobre centros contra crack – 04/04/2012

Em evento, Chalita ataca Serra e defende Dilma – 01/04/2012

Serra (8)

Parecer eleva pressão sobre a vice de Serra – 10/04/2012

José Aníbal critica gestão de Kassab – 09/04/2012

PSDB-SP avalia chapa puro sangue nas eleições – 05/04/2012

Serra colará sua agenda na de Alckmin – 04/04/2012

Para ampliar exposição, Serra colará sua agenda na de Alckmin e Kassab – 03/04/2012

Serra participa de evento com Alckmin e Kassab – 03/04/2012

Meirelles diz que não pretende ser vice na chapa de José Serra – 02/04/2012

Vice em chapa de Serra abre disputa entre aliados – 02/04/2012

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Folha e PSDB: uma parceria afinada

13 mar

A parceira do jornal Folha de S. Paulo com a direita brasileira não nasceu com o PSDB. Emprestando carros aos agentes da Ditadura Militar, a Folha consolidou sua boa imagem junto aos setores mais conservadores do país. Mais tarde, o mesmo jornal chamou a mesma Ditadura de “ditabranda”. O velho regime acabou e o PSDB, cuja maioria dos atuais membros atuava na oposição institucionalizada à Ditadura, virou o maior partido de direita do país. Nas últimas eleições, o apoio da Folha aos candidatos do PSDB só não foi mais aberto do que seus ataques aos opositores. Essa amizade ganhou mais um tenro capítulo na última semana, com a estreia da Folha em uma emissora televisão que deveria ser pública, mas foi absolutamente aparelhada pelos governos tucanos em São Paulo.

A TV Cultura, emissora pública, passou a veicular conteúdo produzido por uma empresa privada de comunicação. A Folha agora tem seu programa de TV. É a privatização da programação, e o nascimento de mais um tentáculo da mídia hegemônica. Em 2010 já denunciávamos aqui, ecoando matéria do Blog do Nassif, o sucateamento e o enfraquecimento da TV Cultura de São Paulo durante o governo José Serra (PSDB). Agora, o conteúdo da emissora é privatizado por Geraldo Alckmin, também do PSDB, em uma parceria com a Folha de S. Paulo, retribuindo a este jornal todo o apoio recebido pelo partido nos últimos anos.

O blogueiro Rodrigo Vianna já denunciava o acordo em fevereiro, acrescentando ainda que a revista Veja deverá ter um espaço semelhante, e lembrando que “A Folha já pediu, em editorial, o fechamento da TV Brasil - emissora pública criada pelo governo federal”, e que “a Veja, como se sabe, gosta de escrever Estado com ‘e’ minúsculo, para reafirmar seu ódio ao poder público. Ódio? Coisa nenhuma. A Abril adora vender revistas para o governo. E agora, vejam só, também terá seu quinhãozinho na emissora controlada pelos tucanos paulistas”.

O uso político da TV Cultura pelos governos do PSDB que se sucedem em São Paulo é um retrato preciso da ausência de apropriação da mídia pela sociedade como um direito constitucional à comunicação. Uma emissora pública escancaradamente a serviço de interesses privados, um enorme espaço de propaganda de um jornal privado. Retrato da cultura conformista do brasileiro em relação ao próprio empoderamento. A comunicação ainda é percebida como um privilégio de poucos, a consciência do direito à voz ainda está longe de firmar-se, e a mídia independente precisa ser protagonista nessa mudança de consciência.

O fortalecimento da mídia independente, o desenvolvimento do conteúdo dessa mesma mídia e a pressão organizada sobre os governos podem começar a mudar essa mentalidade. É um conjunto de ações que poderá fazer com que o povo brasileiro tome consciência desse seu direito fundamental e ocupe o espaço que lhe é devido, expulsando do poder os governantes que impedem que isso aconteça e a mídia que insiste em apoiar esses governantes.

*Sobre como foi a estreia da TV Folha, vale ler o texto de Renata Mielli no blog Janela Sobre a Palavra.

*Também pode acrescentar reflexão a esse debate a reportagem do Jornal da Record sobre o acordo entre Folha e TV Cultura.

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Ano de eleição, responsabilidade dobrada

13 jan

A cada dois anos vive-se um momento em que a desconstrução do discurso da mídia dominante se torna uma tarefa ainda mais importante. Em países com sistemas políticos representativos que praticamente descartam a participação popular nos processos decisórios – caso do Brasil – o embate eleitoral é o ponto culminante da disputa pelo centro do poder político. Ainda que as alternativas nas eleições sejam profundamente limitadas e que a dinâmica política aja para barrar a emergência de novas possibilidades, e considerando-se todas as limitações e distorções do modelo da chamada democracia representativa e, em especial, do sistema político brasileiro, a cada dois anos presenciamos – e influímos sobre ele – o ponto culminante da disputa política.

É em um ano eleitoral que acabamos de entrar, e sabemos bem o papel da mídia nesse tipo de disputa. Na última oportunidade, os maiores jornais, revistas e redes de televisão do país atuaram de forma orquestrada em defesa da candidatura do candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra. Até uma bolinha de papel foi usada para tirar as atenções do que realmente importava naquele momento: a distinção entre os projetos de país defendidos pelos quatro candidatos: José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL). A tentativa de transformar a eleição em um embate moral – e não político-ideológico – partiu em primeiro lugar de alguns conglomerados de comunicação.

Por outro lado, vimos uma divisão raivosa entre setores da esquerda, racha esse que, infelizmente, varou o ano de 2011 e dificultou o bom debate sobre temas em que estes setores sempre defenderam interesses comuns – ou ao menos aproximados –, como a punição aos criminosos da Ditadura Militar e a democratização da mídia brasileira. O calor da disputa eleitoral de 2010 criou desavenças pessoais e levou a esquerda mais para a esquerda e a centro-esquerda mais para o centro, abalando as pontes de diálogo. O resultado é que, mesmo com a vitória do PT de Dilma, todos os campos da esquerda midiática perderam com o desgaste causado pelo processo eleitoral. Além disso, o último ano foi nulo em avanços na democratização da mídia a nível nacional. Uma das primeiras aparições públicas da já eleita presidenta Dilma Rousseff foi na celebração do aniversário da Folha de S. Paulo.

Em outros momentos da história brasileira a intervenção da velha mídia sobre as decisões eleitorais foi ainda mais incisiva. Exemplos clássicos são a disputa pelo governo do Estado do Rio de Janeiro em 1982, com o “Escândalo da Proconsult”, no qual a Rede Globo participou de uma tentativa de fraudar as eleições ganhas por Leonel Brizola (PDT), e a campanha presidencial de 1989, com a manipulação do debate final entre Lula (PT) e Collor (PRN). Se nesta última situação a velha mídia e seu candidato acabaram levando a melhor, não foi isso o que aconteceu nas últimas três eleições presidenciais.

O fortalecimento dos blogs e das redes sociais, se não é suficiente para democratizar verdadeiramente a comunicação, ao menos serve para desconstruir o discurso da mídia dominante e desmascarar suas manipulações. Outro fator que não pode ser deixado de lado é a queda de audiência da TV Globo e a ascensão da Record, que se mostrou simpática à candidatura de Dilma em 2010.

De qualquer forma, teremos em 2012 mais um momento assim. Desde o fim de 2011 os interesses eleitorais já começaram a fazer valer sua força nas pautas da mídia hegemônica. A prática mais comum é a agressividade nos meses que antecedem a disputa e a sutileza nos momentos de campanha, com a simples incorporação dos discursos dos candidatos preferidos pelos barões da mídia. Por isso, é preciso estarmos atentos desde já.

É verdade que eleição não é sinal de democracia, e que não pode se esgotar ali a possibilidade de participação popular na política nacional. É verdade também que o poderio econômico faz grande diferença em um processo eleitoral, o que o torna terrivelmente menos democrático e justo do que poderia ser. E é verdade que os interesses conservadores tendem, em menor ou maior medida, a se fortalecerem apoiando-se em conchavos e mentiras disseminadas pela velha mídia. Mas também é verdade a mídia independente, capitaneada hoje por blogueiros e pelos ativistas das redes sociais, tem condições de tornar as eleições mais justas e democráticas, informando com qualidade a sociedade e abrindo espaço para um debate rico e realmente politizado e politizante. É uma das nossas missões fundamentais para este 2012 que começa.

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A Privataria Tucana e o óbvio silêncio da mídia privatista

13 dez

A gritaria em torno da Privataria Tucana está sendo seguida pelo silêncio da Mídia Privatista Tucana. Um dos maiores fenômenos editoriais da história recente do país (toda a primeira tiragem, de 15 mil exemplares, foi vendida em apenas um dia), o livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr, denuncia uma serie de irregularidades e desvios de dinheiro no processo de privatização levado a cabo por Fernando Henrique Cardoso durante sua presidência. José Serra é o personagem central do livro-denúncia, e é em torno do ex governador de São Paulo que se passam todas as irregularidades apontadas, apuradas e documentadas pelo premiado repórter.

Enquanto o livro é um sucesso de público e de crítica, alguns setores da mídia preferem silenciar. O silêncio os denuncia como cúmplices e incentivadores de um processo de desmanche do país com requintes de crueldade contra os cofres públicos. A mesma mídia que esteve ao lado das privatizações de FHC e da campanha do PSDB na disputa presidencial de 2010, agora ignora um livro que vende como água e que traz denúncias extremamente graves contra Serra e contra quem está à sua volta. O blogueiro Eduardo Guimarães lembra em seu blog conversa entre FHC e seu então ministro das Comunicações: Mendonça de Barros – “A imprensa está muito favorável, com editoriais…”; Fernando Henrique Cardoso – “Está demais, né? Estão exagerando, até”.

A Privataria Tucana não foi sequer citada, até hoje, por Globo, Folha de S. Paulo e Grupo RBS. Com exceção de sua coluna Radar Político, o Estadão publicou apenas, na noite desta terça-feira, uma pequena nota, em que não diz absolutamente nada sobre o conteúdo do livro de Amauri. A nota é apenas o relato das manifestações de Serra e Aécio Neves sobre o livro. O ex governador de Minas Gerais apenas classificou a obra como “literatura menor”. O título da matéria do Estadão é um belo exemplo de como inverter uma pauta, brigando com a realidade. Em vez de focar no livro – o fato real – a chamada foca na reação de Serra – simples repercussão: “Serra chama de ‘lixo’ livro sobre privatizações do governo FHC”. A linha de apoio complementa, com a tentativa de deslegitimar o autor: “Amaury Ribeiro Júnior, autor do liivro, foi acusado durante a campanha eleitoral de 2010 de ter encomendado a quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao PSDB”. A “matéria” do Estadão tem três parágrafos. O primeiro fala da reação de Serra, o segundo da reação de Aécio e o terceiro procura desconstruir a credibilidade do multipremiado Amaury Ribeiro Jr.

O mais provável é que, hora ou outra, os veículos que ainda não falaram sobre o assunto se vejam obrigados, por uma questão de audiência, a citar, mesmo que de forma tangencial, as denúncias. E aí a tendência é que sigam a linha do Estadão, destacando a defesa dos acusados e buscando formas de atacar o autor do livro.

Enquanto isso, a Carta Capital da última semana publicou uma grande reportagem resumindo o livro-denúncia, além de uma entrevista com o autor. A Record, por sua vez, dedicou grande espaço ao assunto em seu principal jornal, e, nesta terça, levou ao ar, na Record News, uma entrevista de Amaury Ribeiro Jr a Paulo Henrique Amorim. Os blogs e as redes sociais também têm repercutido exaustivamente, nos últimos dias, as denúncias de Amaury e o silêncio de alguns setores da mídia.

O mesmo Eduardo Guimarães citado quatro parágrafos acima mostra outras boas razões para o silêncio, ao apresentar os nomes das empresas que compraram os pedaços do país vendidos durante o governo Fernando Henrique. Deputados do PT também criticaram a omissão de parte da mídia.

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A velha mídia contra os estudantes, em 2007 e em 2011, nos traços de Latuff

7 nov

A ocupação da Reitoria da USP por um grupo de estudantes, na última semana, mostrou uma polícia despreparada e com forte herança do período de Ditadura Militar, e mostrou o reacionarismo quase fascista de alguns setores da sociedade. Tudo isso alimentado por uma mídia dominante que nutre verdadeiro ódio por qualquer tipo de manifestação crítica e atua diariamente na criação de estereótipos que visam deslegitimar todos os movimentos de contestação.

Como já havia acontecido na ocupação da mesma USP em 2007, o chargista Carlos Latuff vem observando e registrando com precisão o papel da mídia nesse conflito. A seguir, algumas de suas charges. As duas primeiras feitas na última semana, as seguintes datadas de 2007. Há quatro anos o governador de São Paulo era José Serra, agora é Geraldo Alckmin. Ambos são do PSDB. A mídia continua a mesma. Mesmos atores, mesmo posicionamento. É essa mídia quem nutre as mentes reacionárias e anti-democráticas com seus preconceitos.

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Marilena Chauí na Caros Amigos: dificuldade é desculpa para imobilidade?

14 jan

A manchete de capa da última edição da Caros Amigos não representa satisfatoriamente o que foi a entrevista da revista com a filósofa Marilena Chauí. Mesmo as perguntas incisivas e críticas não conseguiram tirar da petista críticas ao governo Lula ou ao que se avizinha como marcos do governo Dilma. Quando o assunto foi mídia, principalmente, Chauí escapou pela tangente de mil e uma maneiras. A frase “Sem comunicação não há democracia”, que dá título à entrevista e é a manchete da revista, aparece deslocada em meio a uma crítica torta da mídia brasileira.

A lista dos entrevistadores é longa: Bárbara Mengardo, Baby Siqueira Abraão, Cecília Luedermann, Débora Prado, Gabriela Moncau, Hamilton Octavio de Souza, Lúcia Rodrigues, Otávio Nagoya, Renato Pompeu, Tatiana Merlino e Wagner Nabuco. Resolvi citar todos os nomes porque compraram uma briga das boas: fazer Marilena Chauí comentar os desvios pelo caminho do governo Lula. Incansável, a entrevistada refutou um a um, mas, incansáveis, os repórteres insistiram.

A questão da comunicação é chave. Quando perguntada sobre a cobertura das eleições pela mídia, a filósofa desenvolveu longos parágrafos criticando a mídia hegemônica por fazer campanha para o candidato do PSDB, José Serra. Esqueceu-se, porém, de citar a parte dessa mesma mídia dominante que defendeu a candidatura de Dilma Rousseff sem declarar esse apoio. Esqueceu-se também de que a mídia não se resume apenas às grandes corporações, mas também à mídia alternativa, ignorada na resposta. As críticas de Chauí à cobertura da grande imprensa são válidas, corretas e passam perto do que foi muitas vezes escrito aqui neste blog. Porém, o que se viu nessa resposta, a primeira da entrevista, foi apenas uma defesa chorosa do PT e de sua candidatura.

Por outro lado, quando perguntada sobre a outra direção da relação entre governo e mídia, a entrevistada foi renitente e evasiva. Fica tudo no “é, é difícil”. É necessário regular a mídia, mas é difícil. É necessário que se fortaleçam os veículos da esquerda, mas é difícil. E as dificuldades vão virando desculpas para a absoluta imobilidade do governo petista no que diz respeito à comunicação. As Conferências Nacionais são exaltadas (“73 Conferências Nacionais com 70 mil pessoas participando para decidir sobre todos…”), mas a resposta é interrompida para que se coloque a questão: “Mas, no caso da Comunicação, as 672 propostas não saíram do papel até agora”. E novamente a entrevistada escapa pela tangente.

A entrevista foi muito bem conduzida, como costuma ser na Caros Amigos. Crítica, questionadora, abordou temas como reforma agrária, alianças partidárias, capital financeiro, aborto e arquivos da Ditadura (os dois últimos apenas de forma superficial, é verdade). Respostas fugidias foram rebatidas com perguntas mais objetivas, mais incisivas.

Marilena Chauí é uma importante pensadora, e seu pensamento sobre mídia costuma encontrar grande respaldo na esquerda brasileira. Porém, a defesa intransigente e quase publicitária do PT parece a ter desviado da crítica mais abrangente. Uma entrevista que tinha tudo para trazer um grande painel da comunicação e, por que não?, da sociedade brasileira sob o governo Lula, perdeu-se em perguntas sem respostas. Os questionamentos foram feitos, mas o entrevistado também precisa questionar.

Postado por Alexandre Haubrich

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Velha mídia perde a eleição

5 nov

Dilma Rousseff é a nova presidente do Brasil. A petista venceu o candidato do PSDB, José Serra. Menos mal. Com Serra, as dificuldades de diálogo seriam imensas. Os governos de seu partido em Estados como São Paulo e Rio Grande do Sul mostram que a relação com movimentos sociais e manifestantes organizados é na base da agressão institucionalizada. Se a vitória de Dilma pode não representar grandes avanços nem mudanças profundas, ao menos a possibilidade de diálogo é maior. É partindo desse pressuposto que a sociedade precisa atuar a partir de agora.

Os movimentos sociais, os jornalistas alternativos e a sociedade organizada precisa pressionar o governo, puxando-o para a esquerda, defendendo políticas de redistribuição não apenas de renda, mas de terra, de educação, de saúde e de informação.

Há um outro ponto que precisa ser destacado neste momento: como a primeira eleição de Lula, a vitória de Dilma significou uma derrota da imprensa dominante. As poucas famílias que dominam quase toda a comunicação brasileira estiveram ao lado de Serra. Televisão, jornais e revistas apoiaram o PSDB, e foram ignorados pela maioria do eleitorado. A influência da velha mídia ainda é gigantesca, e atua das mais diversas formas, especialmente subjetivas. Mas, lentamente, essa força começa a desvanecer-se.

Frente a progressos sociais e à crescente popularização da internet, a velha mídia começa a perder força, e o coronelismo midiático caminha para a extinção. Mas não vai caminhar sozinho. Os movimentos sociais precisam pressionar governo federal e congresso, e precisa também esclarecer a sociedade e oferecer novas opções, mostrar que existem caminhos alternativos. Dessa forma, construímos aos poucos uma nova história. As circunstâncias estão fazendo sua parte.

O texto acima é o editorial da 12ª edição do Jornalismo B Impresso, a edição da primeira quinzena de novembro, que começa a ser distribuída em Porto Alegre na próxima semana . Os locais de distribuição continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B (www.twitter.com/jornalismob).

É importante que todos os amigos do Jornalismo B se mobilizem para assinar e divulgar as assinaturas do Impresso. A assinatura pode ser feita em qualquer lugar do Brasil.

São três as possibilidades de assinatura: 3 meses – R$ 30; 6 meses – R$ 50; 12 meses – R$ 100. Para assinar, basta entrar em contato pelo email bjornalismob@gmail.com.

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Postado por Alexandre Haubrich

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Estadão e O Globo vêem mulher como sombra do homem

2 nov

Independente de méritos ou deméritos políticos e de concordâncias ou discordâncias ideológico-programáticas, é preciso admitir que as vitórias de Lula, duas vezes, e de Dilma Rousseff, no último domingo, são superações de preconceito. Lula, o primeiro presidente operário, Dilma a primeira presidente mulher. Fora as outras diversas características de ambos que levam a intensa discriminação em todos os cantos do país.

Mas nenhuma dessas eleições significou realmente a vitória sobre o preconceito, apenas sua superação ocasional, resultado de uma série de outros fatores. Essa situação já ficou clara no dia imediatamente seguinte à vitória de Dilma. As capas de dois dos mais vendidos jornais do país demonstraram toda a sua raiva machista e tentaram deslegitimar a vitória de Dilma retirando da presidente eleita seus méritos, colocando-a como apenas uma sombra de Lula.

A manchete de O Globo foi “Lula elege Dilma e aliados já articulam sua volta em 2014”. No Estadão, “A vitória de Lula”. Os títulos, além de brigarem com a notícia, a vitória de Dilma, são discriminatórios, arrogantes e machistas. Mostram um ranço não apenas com o PT ou com o governo, mas com a vitória de uma mulher. Estratégia usada por Serra, pelo PSDB e pela imprensa dominante durante toda a campanha, a desvalorização de Dilma como quadro político não vai parar tão cedo. Essa desvalorização não é gratuita. Como ainda acontece com Lula pela falta de estudo formal do presidente, a raiva contra uma líder mulher, separada e ex-guerrilheira não vai passar por passe de mágica. Não vejo todos os ataques ou críticas a Dilma como ataques às mulheres, e percebo oportunismo em quem assim tenta fazer as coisas parecerem. Mas, nesse caso, o posicionamento está claro.

Ainda que a importância de Lula na campanha petista seja inegável, limitar a vitória de Dilma a esse fator é reduzi-la a uma sombra do presidente, como quando se reduz uma mulher à sombra do pai ou do marido. Dizer que Lula venceu é, além de mentira, agressão e despeito contra uma mulher que, eleita, superou os interesses e a mentalidade conservadora de setores da mídia brasileira, superou o conservadorismo e o preconceito que essa própria mídia cria e alimenta na sociedade. Superou. A vitória real e definitivamente contra tudo isso ainda está longe, e passa necessariamente por uma nova mentalidade em relação à comunicação, como um primeiro passo para a criação de uma nova mentalidade social.

Postado por Alexandre Haubrich

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A luta diária

29 out

A 11ª edição do Jornalismo B Impresso já está sendo distribuída em Porto Alegre . Os locais de divulgação continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B (www.twitter.com/jornalismob).

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Abaixo, o editorial da 11ª edição:

 

No último dia da quinzena à qual é dedicada esta edição do Jornalismo B Impresso, os brasileiros irão às urnas votar para definir quem será o novo presidente do país. Chegaremos, no dia 31 de outubro, ao fim de uma campanha dura, brigada, na qual a imprensa teve grande influência. O tamanho dessa influência e para qual lado ela penderá só saberemos ao fim da apuração.

O que é certo é que, vença quem vencer, a perspectiva de mudança para a área da comunicação é pequena. Nenhum dos dois candidatos que chegou ao segundo turno deu qualquer sinalização séria de que pretende lutar pela democratização da comunicação. Isso não quer dizer que os dois projetos sejam iguais. Não são.

De qualquer forma, a mobilização dos movimentos sociais e dos jornalistas independentes em busca de conquistas nesse sentido precisa continuar, e precisa ser aprofundada. Independente de quem vença o pleito, o jornalismo alternativo deve manter-se crítico, ou perde sua função.

É preciso que, após as comemorações ou lamentações, a esquerda midiática volte a estar unida em torno da luta por ideais democráticos, por mudanças sociais profundas, por um jornalismo inclusivo e por um novo paradigma para a comunicação brasileira.

O processo eleitoral, altamente injusto sob quase todos os ângulos, é apenas uma pequena parte da disputa política. Ela deve ser travada diariamente, por todos, de forma incansável e das mais diversas formas. O embate com a imprensa hegemônica e com o sistema que oprime e segrega precisa estar acima de opções partidárias ou puramente eleitorais. Enquanto a dominação for regra, a luta contra ela não pode ser exceção.

Postado por Alexandre Haubrich

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Jornal Nacional força interpretação de pesquisa eleitoral

28 out

Bem atrás nas pesquisas, o candidato do PSDB à presidência conta com um de seus grandes aliados para, nos últimos dias de campanha, tentar virar o jogo: a grande mídia. Nesta quinta-feira o Jornal Nacional mostrou que continua com Serra, e que não mede esforços para demonstrar que ainda confia em seu candidato.

Foi divulgada uma nova pesquisa Ibope, que apontou crescimento de Dilma Rousseff (PT), e queda de Serra. As oscilações foram de um por cento em cada caso, considerando-se todas as intenções de votos ou apenas as de votos válidos. Dilma crescendo e Serra caindo, e a Globo obrigada a dar a notícia, não havia como fugir, não havia como chamar peritos ou médicos que dissessem que bolinha de papel é rolo de fita.

Sem poder omitir a pesquisa, o Jornal Nacional decidiu mexer aqui e ali e achar uma forma mais “leve” de noticiar os resultados. Sem aparentar uma mentira, distorceu, tirou o foco do principal. Bonner deu a notícia da seguinte forma:

Dilma Rousseff, do PT, mantém a vantagem sobre José Serra, do PSDB. Em relação à pesquisa da semana passada, os dois candidatos oscilaram apenas um ponto percentual.

Dilma manteve-se à frente, manteve a liderança, até se pode dizer que manteve vantagem, mas não manteve a vantagem. A vantagem aumentou, de onze para treze pontos percentuais. Dentro da margem de erro, sim, mas aumentou. Possivelmente a margem de erro seja um dos pretextos para que tanto o JN quanto, mais tarde, o Jornal da Globo, usem a expressão “mantém a vantagem”. Mas não se justifica. Dentro ou fora da margem de erro, a vantagem diminuiu. Dentro da margem de erro, na pesquisa anterior, Dilma teria entre 49% e 53%. Agora, tem entre 50% e 54%. A vantagem aumentou, não foi mantida.

A divulgação de pesquisas influencia, sim, o processo eleitoral, isso é amplamente conhecido e reconhecido. Mais no primeiro turno, pois inclui, aí, um fator que não tem a mesma força no segundo: o voto útil. Ainda assim, influencia, sob diversos aspectos nos quais não iremos nos ater.

São duas as principais preocupações do momento, na campanha oficial de Serra e em sua campanha extra-oficial, a de boa parte da imprensa dominante: primeiro, mostrar ao eleitor indeciso que Serra ainda tem chance, evitando assim que se vote na Dilma “já que ela vai ganhar”. A segunda preocupação é estimular o eleitor de Serra a seguir acreditando na vitória, para que, assim, não viaje no feriado antes de votar, e busque mais votos para o tucano.

Postado por Alexandre Haubrich

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