Nas últimas duas noites tive a oportunidade de participar de dois painéis extremamente interessantes, e não poderia deixar passar aqui algum comentário sobre essa experiência e a importância desses encontros para o debate sobre a democratização da mídia e, em especial, para o Jornalismo B.
A convite do Centro Acadêmico Arlindo Pasqualini, o Centro de Estudantes de Comunicação da PUCRS, estive na segunda-feira em uma mesa sobre mídia alternativa ao lado de Natália Viana (Wikileaks e Agência Pública) e do chargista Carlos Latuff. Natália falou sobre a situação do Wikileaks, que vive um bloqueio econômico por parte das duas grandes empresas de cartão de crédito – Visa e Mastercard –, que impedem que as contribuições populares sigam sustentando o projeto, mas mesmo assim continua em atividade. Há também o bloqueio midiático, com o “esquecimento” do Wikileaks pela grande mídia internacional, que posicionou-se, enfim, ao lado dos desmascarados por Julian Assange. Este, por sinal, cumpre prisão domiciliar. É um preso político, apesar da acusação de estupro usada como subterfúgio para atacar o criador do projeto que denunciou as sujeiras da política internacional.
Latuff, por sua vez, falou de sua experiência de luta com o povo palestino, o uso de suas charges na Primavera Árabe e as práticas cotidianas da mídia dominante brasileira, citando os casos de Boris Casoy e os garis e do Pinheirinho. As histórias que Latuff contou de sua presença no Pinheirinho, pouco antes da invasão da polícia de Naji Nahas e Geraldo Alckmin, mostraram justamente o que a velha mídia nunca mostrou sobre o assunto: pessoas, lares, sentimentos.
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Já na terça-feira, a mesa na Faculdade de Comunicação da UFRGS, organizada pelo DCE, foi composta, além de mim e do Latuff, pelo Marcelo Branco, especialista e ativista da internet e condutor da campanha de web de Dilma Rousseff (PT) em 2010. Marcelo deu uma grande aula sobre a situação da internet no mundo e sobre o que está em disputa (democracia e interesses das grandes corporações de internet x interesses das grandes corporações do Copyright e das telefônicas, basicamente).
Já Latuff fez uma fala mais comedida do que a da noite anterior, mas explicou como a internet facilita seu trabalho de ativista e a propagação de seus desenhos, partindo do exemplo de sua atuação em defesa da luta zapatista para chegar à facilidade em transmitir e difundir conteúdo nos dias atuais.
Entendo que minhas falas foram complementares, na segunda e na terça-feira. No primeiro dia falei de forma mais aprofundada sobre a conjuntura da mídia no Brasil, com o domínio absoluto de grupos de comunicação comprometidos apenas com os interesses de seus anunciantes – basicamente empreiteiras e fabricantes de automóveis – mas também com a existência de uma mídia independente fundamentalmente comprometida com as lutas populares e o interesse público.
Já na terça-feira contextualizei os avanços dos governos progressistas latino-americanos em direção à democratização da comunicação e ao fortalecimento dos espaços populares de mídia, para chegar novamente ao contexto de estagnação do Estado brasileiro nessa área.
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O mais importante de tudo isso, mais importante do que os projetos levados a cabo por cada um dos quatro, é o estímulo em que esse tipo de atividade pode resultar para os estudantes de comunicação. Esse tipo de debate, que une as pontas soltas da comunicação brasileira, pouco acontece nas universidades, e é imprescindível para que os estudantes não saiam da academia com uma visão rasa ou distorcida da realidade social e midiática que os cerca.
O bloqueio midiático à realidade e à informação também se reflete nas faculdades de comunicação, cada vez mais preparadas para despreparar intelectualmente seus pupilos, formando pouco mais do que apertadores de botão conformados ou desentendidos em relação ao modelo de comunicação que irão alimentar. Não há mídia sem lado. Não há vida sem lado. Não existe imparcialidade. Latuff foi preciso: “antes de dormir, olhe no espelho e se pergunte: ‘por que quero fazer comunicação? A quem quero servir’”?
*Fotos: CAAP e DCE.
*No primeiro debate fizemos uma cobertura via Twitter, com Bruna Andrade acompanhando pelo perfil do Jornalismo B.
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