O MST promoveu nesta segunda-feira ações por todo o Brasil em defesa da Reforma Agrária – incluindo o assentamento de quase duzentas mil famílias e a reivindicação de uma reformulação do INCRA – e em lembrança aos 16 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 21 integrantes do movimento foram assassinados e mais de 70 feridos por policiais militares que seguem impunes até hoje.
As manifestações envolveram milhares de trabalhadores. Segundo o site do movimento, “já foram realizados protestos em 17 estados e em Brasília, somando 38 ocupações de terra, nove ocupações de sedes do Incra, cinco protestos em prédios públicos, além de trancamentos de estradas e criação de acampamentos nas cidades”.
Como costuma acontecer, as informações circularam na mídia dominante de forma truncada e vazia. Dentro os três principais telejornais do país, o único que informou sobre o assunto com qualidade – ainda que sem grande aprofundamento – foi o Jornal da Band. Jornal Nacional e Jornal da Record sequer veicularam matérias com um repórter em qualquer um dos locais de mobilização.
O Jornal da Band dedicou um minuto e meio ao tema, com reportagem de Carolina Vilela em Brasília. Na capital federal, o MST ocupou o prédio do Ministério do Desenvolvimento Agrário. A Band oscilou a caracterização das manifestações entre “invasão” e “ocupação”, mas deixou claras as intenções e reivindicações do movimento. Foi a única entre as três emissoras a lembrar que as mobilizações fazem parte do Abril Vermelho. Mas, como Globo e Record, em momento algum citou Eldorado dos Carajás, motivação fundamental dos protestos neste momento.
O Jornal Nacional veiculou uma nota coberta, de 30 segundos, sem citar o massacre de 16 anos atrás, sem citar o Abril Vermelho, mas encontrando espaço para destacar que integrantes do MST que “invadiram” a sede do governo do Ceará “aproveitaram para se banhar no espelho d’água”. É essa a informação que o JN considera relevante. Sobre as reivindicações, só houve espaço para dizer que “exigem mais investimentos em Reforma Agrária”.
No Jornal da Record, mais uma nota coberta de 30 segundos, e ali o descaso jornalístico chegou ao ponto de causar uma distorção grosseira em uma informação básica: enquanto os outros dois telejornais aqui citados se referem a ocupações em 15 Estados e no Distrito Federal, e o MST fala em “protestos em 17 Estados”, o Jornal da Record noticia que integrantes do MST “ocuparam prédios públicos em 7 estados e DF”, sem citar as demais mobilizações, absolutamente indissociáveis da ocupação dos prédios públicos. O mesmo programa, assim como o Jornal Nacional, destaca que, no Ceará, “nem a piscina escapou”. Onde foram parar os critérios de noticiabilidade mais básicos?
Preocupadas em manter a hegemonia do capital como forma de manter seu próprio domínio sobre a mídia e, assim, sobre a informação, as grandes emissoras de televisão não aprofundam as temáticas fundamentais da sociedade brasileira, fazendo do fútil e do cotidiano dos gabinetes a única expressão real da política em seus telejornais. Com notas de 30 segundos que destacam o banho de piscina dos sem-terra, despolitizam as mobilizações e esvaziam até a última gota o debate sobre a Reforma Agrária e sobre os criminosos de ontem – os assassinos de Eldorado dos Carajás da mesma forma que os torturadores e assassinos da Ditadura Militar.
É preciso que esse imenso latifúndio midiático – absolutamente improdutivo socialmente – seja ocupado. Assentemo-nos.
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