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MST realiza ações do Abril Vermelho, telejornais fazem cobertura improdutiva

16 abr

O MST promoveu nesta segunda-feira ações por todo o Brasil em defesa da Reforma Agrária – incluindo o assentamento de quase duzentas mil famílias e a reivindicação de uma reformulação do INCRA – e em lembrança aos 16 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 21 integrantes do movimento foram assassinados e mais de 70 feridos por policiais militares que seguem impunes até hoje.

As manifestações envolveram milhares de trabalhadores. Segundo o site do movimento, “já foram realizados protestos em 17 estados e em Brasília, somando 38 ocupações de terra, nove ocupações de sedes do Incra, cinco protestos em prédios públicos, além de trancamentos de estradas e criação de acampamentos nas cidades”.

Como costuma acontecer, as informações circularam na mídia dominante de forma truncada e vazia. Dentro os três principais telejornais do país, o único que informou sobre o assunto com qualidade – ainda que sem grande aprofundamento – foi o Jornal da Band. Jornal Nacional e Jornal da Record sequer veicularam matérias com um repórter em qualquer um dos locais de mobilização.

O Jornal da Band dedicou um minuto e meio ao tema, com reportagem de Carolina Vilela em Brasília. Na capital federal, o MST ocupou o prédio do Ministério do Desenvolvimento Agrário. A Band oscilou a caracterização das manifestações entre “invasão” e “ocupação”, mas deixou claras as intenções e reivindicações do movimento. Foi a única entre as três emissoras a lembrar que as mobilizações fazem parte do Abril Vermelho. Mas, como Globo e Record, em momento algum citou Eldorado dos Carajás, motivação fundamental dos protestos neste momento.

O Jornal Nacional veiculou uma nota coberta, de 30 segundos, sem citar o massacre de 16 anos atrás, sem citar o Abril Vermelho, mas encontrando espaço para destacar que integrantes do MST que “invadiram” a sede do governo do Ceará “aproveitaram para se banhar no espelho d’água”. É essa a informação que o JN considera relevante. Sobre as reivindicações, só houve espaço para dizer que “exigem mais investimentos em Reforma Agrária”.

 No Jornal da Record, mais uma nota coberta de 30 segundos, e ali o descaso jornalístico chegou ao ponto de causar uma distorção grosseira em uma informação básica: enquanto os outros dois telejornais aqui citados se referem a ocupações em 15 Estados e no Distrito Federal, e o MST fala em “protestos em 17 Estados”, o Jornal da Record noticia que integrantes do MST “ocuparam prédios públicos em 7 estados e DF”, sem citar as demais mobilizações, absolutamente indissociáveis da ocupação dos prédios públicos. O mesmo programa, assim como o Jornal Nacional, destaca que, no Ceará, “nem a piscina escapou”. Onde foram parar os critérios de noticiabilidade mais básicos?

Preocupadas em manter a hegemonia do capital como forma de manter seu próprio domínio sobre a mídia e, assim, sobre a informação, as grandes emissoras de televisão não aprofundam as temáticas fundamentais da sociedade brasileira, fazendo do fútil e do cotidiano dos gabinetes a única expressão real da política em seus telejornais. Com notas de 30 segundos que destacam o banho de piscina dos sem-terra, despolitizam as mobilizações e esvaziam até a última gota o debate sobre a Reforma Agrária e sobre os criminosos de ontem – os assassinos de Eldorado dos Carajás da mesma forma que os torturadores e assassinos da Ditadura Militar.

É preciso que esse imenso latifúndio midiático – absolutamente improdutivo socialmente – seja ocupado. Assentemo-nos.

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Jornal Nacional e Chevron: parceria renovada

15 mar

Mesmo com o óleo escorrendo pelo mar mais uma vez, o caso de amor entre Jornal Nacional e Chevron não foi manchado. Pela segunda vez em menos de seis meses, a petrolífera estadunidense Chevron-Texaco deixou que houvesse um vazamento em um dos campos que explora no Brasil. E pela segunda vez seu release foi divulgado pelo telejornal de maior audiência no país.

Como em novembro de 2011, o vazamento foi na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro. Como em novembro de 2011, o Jornal Nacional narrou o caso apenas pela visão da multinacional. A matéria de Tatiana Nascimento teve um minuto e meio de duração, e usou três vezes expressões que remetem à versão oficial – “segundo a empresa” ou “segundo a Chevron”. Tudo o que foi divulgado pela empresa está na matéria, e o único entrevistado é Rafael Williamson, diretor da Chevron.

A mesma Rede Globo deu espaço no site de seu principal jornal impresso, O Globo, para o que a Agência Nacional de Petróleo falou sobre o assunto. Na matéria em questão há citação da nota divulgada pela ANP e entrevista com o secretário estadual de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Minc. No Jornal Nacional, com mais audiência e repercussão, apenas a versão da Chevron.

O trabalho conjunto entre multinacionais e empresas brasileiras de comunicação é um dos grandes males da mídia brasileira. O interesse econômico desses grupos atropela o interesse público, atropela o direito do povo brasileiro à informação e agride o país de forma covarde.

 

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Globo e Ricardo Teixeira: que morram abraçados

12 mar

A instituição Rede Globo está em prantos. Também choram alguns de seus repórteres esportivos mais “cacifados”. Encabeçam essa lista, na noite de hoje, Renato Ribeiro e Tino Marcos. Foram esses os encarregados do obituário de Ricardo Teixeira na presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). E lamentaram tal qual William Bonner lamentou, alguns anos atrás, a morte de Roberto Marinho. Lamentaram a morte política de um de seus chefes mais queridos: o presidente da CBF.

A ESPN denuncia volta e meia, mas, sem TV aberta, pouco se fala sobre a subserviência de algumas empresas e repórter à CBF e ao seu agora ex presidente. Globo e CBF andam de mãos dadas e rabo preso há anos. Quando Fábio Koff conseguiu se reeleger presidente do Clube dos 13, era nos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro que mirava a Globo ao apoiar seu opositor. Koff queria a revisão dos contratos. A Globo tem preferência mesmo que ofereça menos dinheiro do que oferecem as outras emissoras. A CBF é uma empresa privada, que comanda o futebol brasileiro e é comandada há mais de duas décadas pela mesma pessoa. Ao contrário do que diz sobre Cuba ou Venezuela, a Globo não chama o futebol brasileiro de ditadura. Ricardo Teixeira é “o presidente”.

Na noite desta segunda-feira, o Jornal Nacional levou ao ar duas reportagens sobre a renúncia de Ricardo Teixeira. Acossado por denúncias e mais denúncias de corrupção, o ex faraó do futebol brasileiro alegou problemas de saúde e foi de mala e cuia para Miami. Sua carta de renúncia foi lida por seu sucessor e aliado, José Maria Marin.

A primeira matéria é de Renato Ribeiro, mas mais parece um release da CBF. Cita trechos da carta de renúncia e diz que Teixeira “estava licenciado por motivos de saúde”, sem sequer questionar o que é questionado por todos os lados.

Na segunda matéria, de Tino Marcos, há uma lembrança saudosa da posse de Ricardo Teixeira, em 1989, e são enfileirados os títulos da Seleção Brasileira, como se o mérito fosse do cartola. Faz jus à reclamação do ex dono do futebol brasileiro, veiculada por Renato Ribeiro: “Fui subvalorizado nas vitórias”, escreveu em sua carta de renúncia que não teve sequer a coragem de ler. E Tino Marcos chama as medidas tomadas pelo chefão de “benéficas à economia dos clubes”.

Além disso, como comentou um jornalista no Facebook, a matéria “não fala nada sobre as denúncias dos últimos dois meses contra o Teixeira, que são indispensáveis pra que se entenda o motivo dessa renúncia em 23 anos”. E completa: “O que eu achei grave na matéria do Tino Marcos é que se faz um balanço da gestão Teixeira e eles dão uma pincelada sobre ‘polêmicas’ só pra dizer que tá ali, e rezando pra que ninguém preste atenção nisso. Não são ‘polemicas e desafetos’ que o teixeira teve na administração dele. foram acusações de desvio de dinheiro, de escandalos envolvendo a Nike, e não ‘uma distribuidora de artigos esportivos’. É tudo eufemismado”.

O espaço é todo para as posições e justificativas de Ricardo Teixeira. Os repórteres seguem à risca a relação de amizade construída ao longo de todos esses anos entre o ex presidente eterno da CBF e a (quiçá futura ex) presidenta eterna da comunicação brasileira. Globo e Ricardo Teixeira se beneficiaram muito um do outro. Que morram abraçados. Ambos foram e são prejudiciais ao povo brasileiro.

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Todos os fogos o fogo (2) – fantasmas assassinados e o silêncio da mídia do apartheid

27 fev

Há fantasmas vagando pelo Brasil. Fantasmas sujos, rotos. Fantasmas de dentes estragados, cabelos endurecidos pela poeira que também encarde sua pele. Sim, os fantasmas brasileiros têm pele, e tem olhos cuja superfície exala dor, mas cujas profundezas são de uma alegria quase infantil. Mas são fantasmas. Alguns ainda tentam tornar-se homens, outros já desistiram, e apenas vagam. Solas dos pés cansadas pelo chão, cabeça muitas vezes cansada pelos refúgios químicos mais diversos, de hora em vez os fantasmas precisam atirar-se em algum canto e respirar. É aí que, em segundos, se transformam em homens, visíveis, indesejáveis, apenas para a seguir serem transformados em cadáveres.

No último sábado mais dois fantasmas viveram essa situação. José Edson Miclos Freitas foi transformado em cadáver. Paulo César Maia escapou por pouco. O crime dos dois, que os levou à punição da fantasmagoria, é a pobreza. É a falta de um teto sob o qual tentar se defender da selvageria do individualismo e do ódio à humanidade típicos do sistema capitalista. José e Paulo moravam na rua. José já não mora em lugar algum. Os dois foram incendiados enquanto dormiam, em Santa Maria, cidade satélite de Brasília.

José, Paulo e muitos outros moradores de rua ou de favelas – o que pouca diferença faz para a mente excludente das elites – são assassinados diariamente. Assassinados pelo sistema que exclui, que oprime, que agride, e assassinados pelo setor da mídia que sustenta este sistema e silencia sobre essa violência. O silêncio sobre a existência é uma forma de assassinato das mais cruéis. Pode não matar o corpo, mas mata o sujeito, mata a mente, mata a cidadania – e como existir sem ao menos algum resquício dela?

Se a fantasmagoria não é um problema sistêmico, então vejamos: segundo informou nesta segunda-feira a Telesur, 6500 seres humanos dormem nas ruas de Washington, nos EUA. 1500 são crianças. Por outro lado, é famosa uma frase de Fidel Castro, apoiada pela UNESCO: “Hoje milhões de crianças dormirão nas ruas. Nenhuma delas é cubana”.

Voltando ao Brasil, mas sem perder de vista que as fronteiras – nacionais e sociais – não fazem uns mais ou menos humanos do que outros, não é fácil encontrar, nos grandes portais do país, notícias sobre o assassinato físico de José e o assassinato moral de Paulo. Na noite desta segunda, apenas no G1 o fato estava na capa – o Jornal Nacional também destacou o caso. Folha Online e Estadão Online, por exemplo, não viram relevância.

Como geralmente acontece em casos assim, há também enorme dificuldade em encontrar os nomes dos agredidos. São “moradores de rua”, “indigentes” ou “mendigos” muito mais do que são José e Paulo. São fantasmas sem nome, sem lenço, sem documento e sem voz. José e Paulo não estão sós. Multiplicam-se os incêndios em favelas de São Paulo, as expulsões de comunidades inteiras de suas casas por causa da Copa do Mundo ou por obra de especuladores financeiros que financiam candidaturas políticas. Multiplicam-se assassinatos, multiplica-se a limpeza social em todas as suas correntes. E, na mesma medida, cresce a nuvem de silêncio. A mídia do apartheid social evita fazer relações entre tudo isso, e, no caso mais recente, lembrou o ataque ao índio Galdino, em 1997, como se desde lá a matança houvesse parado.

Na última semana, foi em Belo Horizonte que um homem sem nome morreu. A Folha o batizou de “andarilho”. Sobre José e Paulo, o Correio Braziliense abriu assim uma matéria: “Dois moradores de rua, provavelmente homens (…)”.

*Será que uma vez por ano terei que escrever um post assim?

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Jornal Nacional, Fátima e Patrícia – showrnalismo em horário nobre

6 dez

O espaço de televisão é uma concessão pública. As emissoras que ganham as limitadas concessões devem, portanto, atuar em direção aos interesses públicos. Nos espaços jornalísticos, as emissoras devem primar pela seriedade, e tratar com o máximo de profundidade o máximo de fatos possíveis. Não é o que se costuma ver, e na noite da última segunda-feira tivemos mais um exemplo disso. O principal telejornal da maior emissora de televisão brasileira dedicou 15 minutos à absoluta futilidade e ao auto-elogio.

A troca de apresentadoras (sai Fátima Bernardes, entra Patrícia Poeta) não significa absolutamente nada para o andamento do jornal. O Jornal Nacional continuará sendo rigorosamente o mesmo. Mas a mudança foi objeto de quinze minutos de cobertura, com direito a um animado bate-papo entre as duas e o editor-chefe do jornal, William Bonner. Reportagem de 4 minutos sobre a trajetória de Fátima Bernardes na Globo, o mesmo sobre Patrícia Poeta.

Foram 15 minutos de auto-elogio, de superação absoluta da notícia pelo noticiador. Em 15 minutos poderiam ter sido apresentadas pelo menos cinco matérias, três minutos é muito tempo em telejornalismo. Mas o Jornal Nacional preferiu ignorar o que acontecia no mundo para exaltar seus astros. Os apresentadores deixam de ser jornalistas e tornam-se estrelas de televisão, “artistas”, celebridades. O interesse público é deixado de lado e o entretenimento invade o jornalismo, o show ganha espaço sobre a informação.

É um exemplo típico de showrnalismo, e um absoluto desrespeito com a sociedade brasileira. Usar o horário nobre para o que Marco Aurélio Mello bem descreveu como “começa com um ti-ti-ti, depois vem um blá-blá-blá e termina com um tricô” é vergonhoso, é um acinte. Como o mesmo blogueiro escreveu, “tenho esperança de que um dia as pessoas cairão em si e entenderão o erro que estão cometendo em permitir que as coisas funcionem assim”.

Repensar as concessões de TV e rádio é uma necessidade urgente. A Rede Globo trata o espaço a ela concedido pelo poder público – pretensamente em nome de toda a sociedade – como uma propriedade sua, dando-se o direito de fazer o que bem entender, até mesmo passar quinze minutos do horário nobre exaltando a si mesma e construindo com naturalidade celebridades em seus jornalistas. A mistura de jornalismo com entretenimento vê aí um de seus resultados mais bem acabados. A sociedade como espetáculo, a notícia como show. E o resultado desse resultado é o caminho mais curto da alienação.

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Chevron-Texaco compra dois minutos no Jornal Nacional

17 nov

Na última quarta-feira, Brizola Neto escreveu em seu blog, a respeito do vazamento de petróleo no poço da Chevron-Texaco na Bacia de Campos, no Rio de Janeiro: “Até agora, e no primeiro dia, só a assessora de imprensa da Chevron-Texaco falou – e besteira – no primeiro dia, dizendo que era um acidente natural. Pode procurar nos jornais e nos sites: nenhum diretor da empresa deu entrevista. A empresa só fala por comunicados, fiel e inquestionadamente reproduzido pelos jornais. (…) Suas informações são repetidas sem qualquer aprofundamento ou dúvida. (…) O vazamento vai ser tampado com press-releases?”.

O que o deputado do PDT identificou se repetiu na edição desta quinta-feira do Jornal Nacional, de forma grosseira e grotesca. Uma reportagem sobre o vazamento teve um minuto e meio, mais 30 segundos com falas dos apresentadores do telejornal, e foi assinada por Tiago Eltz, mas poderia levar a assinatura da presidência da Chevron-Texaco.

A reportagem inteira é feita de cima de um avião que sobrevoa a enorme mancha de óleo. As imagens são inteiramente cobertas por informações da Chevron. Fala-se sobre a extensão da mancha, garante-se que não chegará ao litoral, explica-se o trabalho de recuperação, e jura-se que a quantidade de óleo é “muito pequena”. As expressões que introduzem todas as informações prestadas na matéria são as seguintes: “Segundo a companhia”, “a estimativa da empresa”, “de acordo com os técnicos da empresa”, “de acordo com ele (Flávio Monteiro, gerente de segurança e meio-ambiente da Chevron)”, “a empresa diz que”, “segundo Flávio Monteiro”.

Fora do corpo da matéria, William Bonner e Fátima Bernardes dão as únicas indicações de que talvez a versão da Chevron não seja a única possível. Mas o apresentador tenta deixar claro que é essa a versão mais confiável: “As informações da Chevron são conflitantes com as estimativas de ambientalistas que analisaram imagens de satélite”. No encerramento, Fátima fala rapidamente sobre a posição da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Mas a primeira frase da apresentadora esclarece muito sobre o que havíamos acabado de ver, principalmente se lembrarmos o que escreveu Brizola Neto: “A equipe da TV Globo viajou num avião cedido pela Chevron”.

A reportagem foi paga por um dos maiores interessados no assunto, pelo causador de todo o problema. É como se fosse produzida uma matéria jornalística sobre um caso de assassinato, e essa matéria fosse paga pelo réu confesso. Essa é a ética do jornalismo praticado pela mídia dominante brasileira, é dessa forma que o telejornal mais assistido do país trata temas como um desastre ambiental. É esse o respeito que diz ter pelo povo brasileiro, é esse o seu jornalismo “isento”, “neutro” e “imparcial”, como afirmou em um documento divulgado no meio do ano sobre seus “princípios editoriais”.

*O Tijolaço, blog do Brizola Neto, tem feito uma grande cobertura do caso do vazamento da Chevron, inclusive com várias outras demonstrações da cumplicidade da mídia corporativa com a multinacional, a começar pela leitura de um release da empresa no Jornal Hoje de quarta-feira.

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Folha e Estadão juntam-se à Globo contra os estudantes

9 nov

Iniciadas na última semana, continuam as manifestações dos estudantes da USP contra a presença de policiamento ostensivo da PM no Campus da Universidade e contra a truculência que essa mesma polícia demonstrou em uma ação na semana passada. Continuam as mobilizações na USP e continua o debate fora dela. As velhas elites, os “herdeiros da Casa-Grande” – como bem chamou Mino Carta –, têm atacado os manifestantes através das mais variadas mentiras e distorções. Os ataques, em sua maioria enraizados nos mais conservadores preconceitos, costumam basear-se em informações distorcidas vindas diretamente de um setor da mídia que historicamente sempre esteve ao lado dos poderosos e contrário a qualquer tipo de ação de protesto.

Aqui no Jornalismo B também seguimos acompanhando os acontecimentos da USP. O post de segunda-feira mostrou charges de Carlos Latuff justamente sobre esse tipo de influência midiática, e o texto de terça desmascarou a reportagem do Jornal Nacional que atacou os estudantes. Os jornalões também estão na trincheira do lado de lá, e a cobertura feita nesta quarta-feira pelo Estadão e pela Folha de S. Paulo demonstram isso.

Três textos se destacam no site do Estadão. O primeiro é obra de José Nêumanne, editorialista do Jornal da Tarde, e tem por título (absolutamente jornalístico, claro) “A revolução dos ‘bichos grilos’ mimados da USP”. O autor chama os estudantes de “vândalos”, “jovens turbulentos e estranhos ao expediente”, “invasores”, “grupelhos esquerdistas”, “filhinhos dos papais” e “bandidos”. Há também no Estadão um artigo de Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo pelo DEM, agora no PSD, mas curiosamente não há nada escrito por algum estudante.

O terceiro texto é uma matéria do repórter Felipe Tau. São oito entrevistados, mas a boa quantidade de fontes não se reflete em pluralidade. Dos seis estudantes ouvidos, um é a favor da greve dos estudantes iniciada nesta quarta. Para a fala dele, duas linhas. Contra a greve são três os entrevistados. Doze linhas para suas falas. Há ainda um mais ou menos em cima do muro. Por fim, há a citação de um aluno francês. O texto que introduz a pequena entrevista o coloca como mais um “em cima do muro”, mas a fala do estudante é totalmente favorável à greve. O Estadão manipula a declaração. Senão, vejamos. Diz a matéria: “Ele disse ser favorável à manutenção de um esquema de segurança no campus, mas criticou a ação da PM. ‘A polícia não deveria fazer uma invasão como a de ontem, ainda mais com uma tropa de elite. Se fosse na França, certamente os alunos se revoltariam e quebrariam tudo’”. Se ele disse ser favorável à presença da PM, o Estadão não mostrou.

No site da Folha de S. Paulo, um artigo tenta justificar judicialmente as ações da PM e deslegitimar da mesma forma os atos dos estudantes. O título é “A invasão do prédio da USP do ponto de vista jurídico”. Há também um vídeo, entitulado “Conflito na USP vira pauta em reunião de socialites de SP”. Sim, a Folha resolveu cobrir uma reunião política de um grupo de socialites, e abriu o microfone para que falassem sobre suas opiniões sobre a corrupção e a USP. Uma chega a dizer que certamente os estudantes têm vinculação com a Venezuela, as Farc e as máfias chinesa, francesa e russa, segundo ela grupos anarquistas.

Reprodução Folha Online

Por fim, na maior matéria publicada no site sobre o tema, a Folha mostra novamente que não se furta em distorcer e brigar abertamente com as imagens que ela mesma produz. Em uma espécie de cronologia da desocupação da USP, há três fotos. Duas delas com legendas totalmente de acordo com o que é visto. Mas, na primeira foto, um escândalo. A imagem mostra um estudante com as mãos na nuca e um policial que, ao lado de vários outros, aponta um rifle contra o rosto do jovem. O texto da cronologia ligado à foto, que cumpre papel de legenda, diz: “Do lado de fora, estudantes protestam contra a operação e tentam ultrapassar o cerco policial. Um carro da PM tem o vidro danificado”.

Estadão e Folha sempre estiveram a serviço da fatia mais conservadora da sociedade, e têm caminhado lado a lado aos governos do PSDB em São Paulo e às candidaturas dos tucanos ao governo federal. Não seria diferente agora, em um momento em que se enfrentam de um lado um grupo de estudantes que se rebela contra a truculência policial e de outro o reacionarismo das elites e o governo do PSDB de Alckmin.

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Rede Globo com a polícia da Ditadura contra os estudantes

8 nov

Em uma reportagem de seis minutos e meio, a Rede Globo, através de seu principal telejornal, mostrou mais uma vez com clareza de que lado da sociedade está. Nunca esteve nem nunca estará ao lado dos oprimidos, dos contestadores, nunca estará ao lado da mudança. Está ao lado dos opressores, das elites, da alienação e da conservação reacionária. Nesta terça-feira esteve ao lado de uma polícia militarizada, herdada da Ditadura Militar, e esteve contra os estudantes que protestavam contra a truculência dessa polícia.

A reportagem narra o caso em que a USP foi ocupada pela Polícia Militar e estudantes saíram presos de sua universidade. É o mundo ao avesso, que tanto agrada a esse setor da mídia. A narração, obviamente, também foi ao avesso: “A Polícia Militar retirou os estudantes que haviam invadido (…), começou Fátima Bernardes, antes de chamar a reportagem de José Roberto Burnier.

A matéria que foi ao ar é uma típica reportagem de guerra. Não poderia deixar de ser assim, se lembrarmos que a PM, altamente militarizada, treinada pela ditadura brasileira, vê sua ação como o simples confronto com o inimigo. Não há, ali, função efetiva de proteção social, mas de ataque. Burnier, tal qual correspondente de guerra, vai caminhando e falando, escondido atrás dos policiais, como se os estudantes estivessem prontos a abrir fogo. Em nenhum momento ele se põe ao lado dos estudantes, nunca narra a história pela visão deles. Quando a polícia invade a universidade, Burnier e seu cinegrafista ficam para trás, e as imagens veiculadas são, então, as cedidas pela PM. “A polícia diz que” é o mote geral.

“A manifestação começou quando a polícia prendeu três estudantes com maconha no fim do mês passado”, diz o repórter, esvaziando o debate que se deu com tanta intensidade na última semana. O protesto inicial e a ocupação não se deram em defesa do uso de maconha no campus, mas contra a truculência policial. A tese da maconha como motivação fundamental das manifestações é reforçada em mais dois momentos. Primeiro, uma imagem mostra um estudante fumando. Em seguida, já com os estudantes presos e levados em um ônibus para a delegacia, um deles explica a preferência por permanecer no ônibus, e o único trecho veiculado, sem qualquer necessidade, é “aqui a gente conversa com vocês, aqui a gente pode fumar o nosso cigarro”.

Nesse momento já era outro repórter, Alan Severiano, quem conduzia a matéria, direto da delegacia para onde foram levados os “criminosos”. Quando Alan está falando para a câmera, vê-se ao fundo um estudante balançando um livro vermelho. Esse mesmo livro fora retirado da bolsa e exibido por outro rapaz, no momento da prisão. Naquele momento, o texto da matéria dizia: “Na saída (da USP), um último protesto”. E acabava por aí. Em nenhum dos dois casos houve a preocupação em esclarecer que protesto era aquele, que livro era aquele. Depois da mentira sobre as razões do protesto, agora a omissão.

Mas houve ainda tempo para mais silêncios de quem deveria informar. Antes de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, líder do PSDB e integrante da Opus Dei, dar a mais longa declaração de toda a reportagem (20 segundos), o Jornal Nacional editou para dez segundos a leitura de uma nota dos estudantes presos. Também foi de dez segundos o tempo para a vazia resposta do major da PM. A edição mostrou o seguinte trecho da nota: Resistimos e nos obrigaram a entrar em salas escuras, agrediram estudantes. Levaram uma das estudantes para a sala ao lado, que gritou durante trinta minutos.

O trecho completo, ocultado pela Globo, retirado da nota publicada na íntegra no site da revista Caros Amigos: Resistimos e nos obrigaram a entrar em salas escuras, agrediram estudantes, filmaram e fotografaram nossos rostos (homens sem farda nem identificação). Levaram todas as mulheres (24) para uma sala fechada, obrigando-as a sentarem no chão e ficarem rodeadas por policiais homens com cacetetes nas mãos. Levaram uma das estudantes para a sala ao lado, que gritou durante trinta minutos, levando-nos ao desespero ao ouvir gritos como o das torturas que ainda seguem impunes em nosso país. Tudo isso demonstra o verdadeiro caráter e o papel do convênio entre a USP e a polícia militar.

*A reportagem do Jornal Nacional:

*Fotos: www.ocupauspcontrarepressao.blogspot.com

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A ingerência midiática no Brasil e o exemplo argentino

26 out

A arrogância da mídia hegemônica parece não ter limites. E acaba respaldada a cada situação em que o poder estatal cede ao poder de fato representado pelo aparato da mídia corporativa, cede à pressão dos grupos econômicos que controlam a comunicação brasileira. Esta última semana trouxe dois exemplos que, ao mesmo tempo em que se encaixam com perfeição, se distanciam. A vitória de Cristina Kirchner na eleição presidencial argentina, e a queda do agora ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva (PCdoB).

Cristina se reelegeu com o melhor resultado que o chamado “kirchnerismo” (que inclui as presidências de Nestor Kirchner) já obteve. E isso após criar a Ley de Medios, que tem lutado contra o monopólio do Grupo Clarín na comunicação argentina. Cristina fez toda sua campanha sem falar com os veículos do Grupo. O principal deles, o jornal Clarín, publicou, nos últimos 15 meses, 347 manchetes negativas sobre a presidenta, segundo levantamento de outro jornal, o Tiempo Argentino. Com a vitória do kirchnerismo, o processo de democratização da mídia argentina deve se aprofundar, com a regulamentação e a aplicação dos últimos artigos da Ley de Medios.

É claro que a mídia brasileira tem acompanhado com atenção os acontecimentos logo ao lado. A mídia independente, de modo geral, pede para o Brasil uma lei nos moldes da argentina. Por outro lado, a velha mídia treme, e não perde oportunidades de atacar Cristina. Em sua prepotência, já afirmou mais de uma vez que a derrocada do kirchnerismo e de todos os atuais governos progressistas da América Latina estava próxima.

Em 27 de outubro de 2010, quando da morte de Nestor, a jornalista política Miriam Leitão, uma das estrelas da mídia hegemônica, decretou em seu blog: “Assim, dividida, fragmentada, em delicado momento político, a Argentina perde o ex-presidente que a tirou da última e devastadora crise de 2001/2002. Sem ele, acaba o Kirchnerismo”. Mais de dois anos antes, em 17 de julho de 2008, outro nome forte da direita midiática brasileira, William Waack, escreveu sobre uma derrota do então presidente Nestor no parlamento: “Derrota do governo sinaliza o fim do kirchnerismo na Argentina”.

Para esse setor da imprensa brasileira, o kirchnerismo já deveria ter acabado uma dúzia de vezes. Mas o governo soberano da Argentina, que não faz acordos ou concessões aos grandes meios de comunicação, sobreviveu e segue se fortalecendo a cada eleição. A visão da mídia dominante brasileira sobre si mesma, como dona do passado, do presente e do futuro, não existe sem motivo. Ao contrário do governo argentino, o brasileiro segue legitimando e obedecendo as oito famílias que controlam a comunicação no país.

Esta semana, mais uma vez, o governo federal cedeu às pressões, deixou os conglomerados de mídia definirem os rumos do país, e derrubou mais um ministro, agora Orlando Silva, dos Esportes. É o sexto ministro a sair em menos de onze meses de governo. Cinco deles estiveram também no ministério de Lula. A estratégia é clara: minar Dilma e o PT frente à população, enfraquecer a militância e dividir as forças governistas.

Depois de passar toda sua campanha presidencial sofrendo com ataques da Folha de S. Paulo, Dilma Rousseff discursou no aniversário do jornalão paulista. Depois de ser atacada pela Rede Globo durante toda a campanha, correu ao Jornal Nacional, alavancar a audiência de quem foi o principal partícipe midiático da famosa “farsa da bolinha”. Com um início de governo assim, não se poderia esperar muito. As concessões ao poder da grande mídia se sucedem, e vivemos um momento de avanço midiático sobre o poder estatal, que se curva amedrontado e adoentado. Cristina Kirchner já mostrou que se pode fazer diferente. Trata-se de uma opção política.

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O dia em que a grande mídia não repercutiu a Veja

29 ago

Na última semana o ex ministro da Casa Civil José Dirceu denunciou, em seu blog e em um Boletim de Ocorrência, a tentativa de invasão de seu quarto em um hotel de Brasília por Gustavo Nogueira Ribeiro, “repórter” da “revista” Veja. A invasão teria sido tentada por duas vezes: alegando a uma camareira ter perdido as chaves – a camareira chamou a direção do hotel e Gustavo fugiu sem fazer check-out; e fazendo-se passar por assessor político e insistindo em deixar documentos no quarto de Dirceu.

A reportagem publicada por Veja sobre Dirceu circulou no mesmo dia da denúncia no blog do político petista, com o teor costumeiro dos textos da revista: editorializados, com adjetivação excessiva, ataques pessoais, linguagem agressiva. A apuração da reportagem usou a campana como artifício básico, e o sentido de toda a apuração foi simplesmente comprovar a tese decidida anteriormente pela direção da empresa. Mas não é o texto de Veja o foco deste post.

Também não é o foco o fato de que foram usadas por Veja filmagens de dentro do hotel, realizadas com uma câmera sobre o corredor do quarto de Dirceu. O texto da revista não cita a origem das imagens, mas, como escreveu Ricardo Kotscho em um brilhante artigo, “se o próprio hotel denunciou o repórter à polícia, segundo “O Globo” de domingo, quem foi que lhe teria cedido estas imagens sem autorização da direção do Naoum? Se foi o próprio repórter quem instalou as câmeras, isto não é um crime que lembra os métodos empregados pela Gestapo e pelo império midiático dos Murdoch?”.

A acusação de José Dirceu é muito grave. É a imprensa extrapolando todos os limites éticos – coisa que já sabemos que acontece corriqueiramente, mas no caso esse tipo de prática fica absolutamente exposta. Como já foi dito no Jornalismo B em muitas oportunidades, a mídia dominante acredita estar acima da lei – e realmente está. Não existem, no Brasil, mecanismos efetivos de regulação da atividade das empresas de comunicação. Além do crime comum configurado na ação do cidadão Gustavo Nogueira Ribeiro, o repórter Gustavo Ribeiro e a organização para a qual trabalha deveriam ser responsabilizados imediatamente.

Tanto o texto de Veja quanto a gravidade e as implicações da ação de seu empregado têm sido profundamente debatidos e, obviamente, criticados em diversos blogs. Um tema do qual pouco se falou foi a (falta) de cobertura do restante da mídia hegemônica a respeito do caso. Globo, Folha de S. Paulo e Estadão, que adoram repercutir exaustivamente “denúncias” da Veja, não reportaram absolutamente nada a respeito da tentativa de invasão e da espionagem ao hotel onde se hospeda José Dirceu. O jornal O Globo foi a exceção, mas Globo.com, G1, Folha Online e Estadão Online mantiveram absoluto silêncio até esta segunda, quando a Folha publicou duas pequenas matérias sobre o assunto, nenhuma com foco na grave acusação de Dirceu à Veja. Os demais seguiram sem abordar a questão. A denúncia de Dirceu foi publicada em seu blog no dia 26. Enquanto a blogosfera e as redes sociais já repercutiam fortemente o caso, os portais silenciavam. Fantástico e Jornal Nacional também não abriram a boca.

As grandes empresas de comunicação concorrem entre si apenas até certo limite. Como integrantes de um mesmo grupo político-social, protegem-se mutuamente. Representam os mesmos interesses. Cabe, nesse sentido, à mídia alternativa discutir exaustivamente os limites da atuação da imprensa e formas de coibir seus excessos. Cabe também aos comunicadores independentes pressionarem, das mais diversas formas, para que o governo cumpra seu papel, pois só o Estado pode criar mecanismos para tornar esse controle possível. A velha mídia, com suas velhas práticas antidemocráticas, invasivas e abusivas, quer e buscará sempre manter seu controle, seu poder, através justamente do exercício desse poder e da intimidação, muitas vezes de forma ilegal. Não há qualquer escrúpulo, e nenhum limite será colocado internamente nesse tipo de empresa. É preciso que esse limite venha de fora.

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