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Carta Capital registra trajetória de derrubada dos impérios midiáticos

16 mai

Não é novidade o espaço que a revista Carta Capital tem dedicado ao tema das relações entre a revista Veja e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, agora investigado – juntamente com diversos políticos próximos a ele – em uma Comissão Parlamentar de Inquérito. A Carta entende, como nós, que discutir o modelo de comunicação que temos no Brasil e o jornalismo alimentado por este modelo – e que, por sua vez, o alimenta – é um caminho fundamental para a construção da democracia.

É com esse viés que, por diversas vezes, a publicação de Mino Carta dedicou capas à temática da comunicação em suas diversas esferas, passando pelas potencialidades da internet, pelo monopólio da Rede Globo (e suas possibilidades de ruir), pelos jornalões determinados a esconder a realidade brasileira e, por fim, chegando às relações entre a mais vendida revista do país e o criminoso mais falado nos últimos meses.

Se a mudança social passará pela mudança na mídia e em seu eixo de poder, a Carta, como dezenas de blogs, está registrando a História dessa mudança que se processa com avanços e recuos. Está fazendo jornalismo com um pé no presente e outro no futuro, documentando para a posteridade as lutas que têm sido travadas nesse caminho.

A seguir, relacionamos algumas destas capas, com as quais a Carta Capital presta um gigantesco serviço ao jornalismo e à sociedade brasileira.

Velha mídia alia-se à indústria do entretenimento contra a liberdade

2 fev

O texto a seguir é uma colaboração especial de Bruna Andrade*

Enquanto começamos o ano em meio a polêmicas envolvendo a liberdade de expressão na internet, através dos projetos de lei norte-americanos Stop Online Piracy Act (SOPA) e Protect IP Act (PIPA), que visam controlar o compartilhamento de arquivos protegidos por direitos autorais na web, três das principais revistas semanais do país começam o mês de fevereiro fazendo vista grossa para a pauta e trazendo em suas capas temas superficiais, como é o caso da Veja e da Istoé com: “O melhor professor do mundo” e “A ciência do otimismo”, respectivamente; ou simplesmente deslocados das principais pautas do ano, como traz a revista Época “Anatomia da corrupção”. Apenas a semanal Carta Capital estampou em sua capa o tema controverso, sob o título “A guerra da internet”.

O primeiro mês do ano foi marcado pela guerra envolvendo grupos políticos norte-americanos, que apresentaram os projetos de lei que limitariam a liberdade online, e alguns dos principais sites da internet, além de ativistas do grupo de hackers Anonymous. Em protesto, como resposta ao parlamento, no dia 18 de janeiro, vários sites saíram do ar, como fez o Wikipédia, ou usaram tarjas pretas em suas páginas, como o Google. E depois que os donos do Megaupload foram presos e o site bloqueado, no mundo inteiro, ativistas do Anonymous vêm promovendo a derrubada de sites governamentais, de empresas da indústria fonográfica e cinematográfica e, como aconteceu essa semana no Brasil, bancos.

Os motivos do aparente desinteresse da mídia hegemônica no assunto são claros: os principais interessados na aprovação da lei (indústrias fono e cinematográfica) são, há muito tempo, seus aliados econômicos e políticos. Mais que isso, em 2011 foi evidente o protagonismo da internet nos levantes populares que aconteceram pelo mundo, desde a Ásia até as Américas essa foi a ferramenta usada para organizar e unir os indignados com tudo que a mídia burguesa defende, além de ser cada vez mais forte como fonte alternativa de informação. Se aprovadas, as leis permitiriam o bloqueio de qualquer site que possua de forma não autorizada algum conteúdo protegido por direitos autorais, incluindo os sites hospedados fora da jurisdição dos Estados Unidos. Além disso, o conteúdo que for considerado ilegal não precisará ter sito postado pelo dono do site para que ele seja tirado do ar. Por exemplo, basta que um usuário do WordPress compartilhe um link que infrinja a lei para que todos os usuários tenham seus blogs apagados, sem a necessidade de uma ordem judicial. Assim, os principais sites de compartilhamento de conteúdo e, principalmente, informação correriam o risco de sair do ar já nos primeiros dias de vigência das leis. Elas não beneficiariam apenas a indústria de entretenimento, mas todos os interessados em tolher a liberdade de expressão na internet, e a imprensa dos patrões é, claramente, um deles.

A discussão vai muito além da questão dos direitos autorais, é a liberdade de circulação da cultura, da informação e do conhecimento que está em jogo. Há algum tempo a internet vem sendo a pedra no sapato das elites e essa é visivelmente uma tentativa de inibir seu uso como fonte de organização, resistência e contra-informação. 

*Bruna Andrade é estudante de Ciências Sociais.

A reinvenção do jornalismo na internet

6 out

Com todas as suas limitações, que vão desde a diluição de informações até a dificuldade de identificar, a curto prazo, quem é quem no enorme mar de veículos, a internet vem facilitando profundamente a ascensão de uma nova mídia.

O acesso à internet ainda não chega a toda a população, mas logo chegará. Blogueiros e twitteiros ainda engatinham na arte de se fazer jornalismo via web, mas, aos poucos, entende-se melhor o terreno e, dessa forma, aprimoramos o conteúdo e as formas de veiculá-lo. A confiança da população no webjornalismo, especialmente nos blogs, ainda não está consolidada, mas caminha para um processo de fortalecimento a partir do momento em que o acesso e produção de conteúdo se tornam corriqueiros.

Se a evolução da internet enquanto possibilidade de difusão de informações é visível, um dos motivos óbvios é o barateamento da mídia independente. Sem qualquer custo veiculamos conteúdo acessível também a custo baixo – pagando-se apenas o serviço de internet.

A grande dificuldade para se fazer webjornalismo de forma independente ainda é encontrar formas de produzir reportagens. Aí sim os custos são altos. No mínimo paga-se o deslocamento, e o tempo dedicado à produção de uma boa matéria é muito maior, por exemplo, do que o tempo que se precisa separar para escrever artigos de opinião – por mais embasados que sejam estes.

Ainda assim, a facilidade para a veiculação desses conteúdos e a demanda por eles que começa a aumentar em uma dinâmica de aprendizado sobre o uso jornalístico da internet, surgem aqui e ali alguns guerreiros do bom jornalismo. Um bom exemplo é a Revista O Viés, que chega, na próxima segunda-feira, a sua edição número 100.

São dez jornalistas, estudantes, que atropelam os empecilhos do tempo e da falta de apoio financeiro e produzem reportagens de alto nível jornalístico, veiculadas em uma “revista digital”. Reportagens e artigos aprofundados, textos com vocação literária, charges de um baita jornalista do traço. Trabalho cooperativo típico, em que as pequenas diferenças são superadas pelos interesses maiores – não só dos integrantes da revista, mas da sociedade. São esses elementos, aliados a um viés comum – o jornalismo de rua, de frente para o povo e de costas para os gabinetes – que fazem da junção de diversos vieses uma expressão gritante do novo bom jornalismo brasileiro, ou do bom novo jornalismo brasileiro.

Muito já se falou da internet como forma de aprisionar os jornalistas na preguiça dos computadores, mas o jornalismo de internet abre as portas para quem quer estar nas ruas, fazendo vídeos, entrevistas, tirando fotos. A portabilidade do próprio veículo se transforma em grande vantagem quando aprendemos a usá-la – e queremos fazê-lo. O bom jornalismo de internet expulsa o repórter de casa, e amplia seus horizontes e os horizontes dos leitores, e abre a brecha necessária para que entrem também, para fazer companhia às grandes reportagens, análises absolutamente independentes, cujo único compromisso é com o leitor, já que é ele, o leitor, o único patrão, que fechará sua janela imediatamente se perder a confiança – e não abrirá novamente.

É um jornalismo que se reinventa no ritmo em que cresce a internet, e que vai mostrando que há, no horizonte brasileiro, a possibilidade de deixarmos de ter uma das piores mídias do planeta. Temos bons jornalistas por aí, e começamos a atropelar a lógica que os marginaliza e os impede de trabalhar como gostariam.

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Jornalismo cidadão, jornalismo profissional e a questão do diploma

28 jun

A longa discussão sobre o papel do jornalismo digital não pode ser pensada de forma desvinculada de outra discussão ainda mais longa: a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Antes de qualquer coisa, aliás, é preciso se perguntar: o que é um jornalista? E qual sua função geral? É por esses caminhos que seguiu uma excelente entrevista com o diretor do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Joel Simon, publicada originalmente na Deutsche Welle e traduzida para o português pelo Outras Palavras.

A primeira pergunta da entrevista foi “qual é a sua definição de jornalista”. Trechos da resposta: “Os jornalistas existem para colher e disseminar informação de relevância para a população. Há jornalistas profissionais que fazem isso, e há pessoas que fazem isso como cidadãos. (…) As novas tecnologias garantiram que nos dias de hoje existam um número nunca visto de jornalistas cidadãos. Na Alemanha, o jornalismo não é profissão para a qual se precise de um diploma. Qualquer um pode ser um jornalista”.

Joel Simon fala também sobre blogs e jornalismo (“Blogueiros podem ser jornalistas. Nem todos os blogs fazem jornalismo. Mas existem vários que são absolutamente jornalísticos, que condizem com o que nós entendemos por jornalismo e cujos autores têm direito de serem defendidos pelo Comitê”), e afirma que hoje as redes sociais já superaram os blogs como forma de jornalismo cidadão. Além disso, conta que em 2010 o Comitê registrou 145 casos de jornalistas presos, sendo 69 deles de mídias online, a maioria blogueiros.

 Dos dois parágrafos acima muita coisa pode ser dita. Os desdobramentos são gigantescos. Mas foquemos em dois pontos: primeiro, a constatação numérica do que já temos visto na prática: o cerco contra os blogs vem aumentando pelo mundo inteiro. A entrevista fala em China e Irã, mas essa prática já chegou ao também ao Brasil (mesmo que, por enquanto, sem prisões), através da judicialização da censura, uma forma de prisão intelectual.

Mas o fundamental da fala de Joel Simon é seu conceito de jornalismo cidadão, e o entendimento de que essa forma de jornalismo – não profissionalizada – está em expansão. Pode-se pensar ainda um pouco além. Por que não a profissionalização do jornalismo cidadão? O crescimento da distribuição de publicidade governamental em blogs é um dos caminhos que podem levar a essa aproximação. A melhora da qualidade desses espaços e o ganho de credibilidade de alguns deles como espaços jornalísticos, também. Aos poucos a sociedade vai entendendo que um novo jornalismo vai se formando na internet, um jornalismo em que cada cidadão pode e deve produzir conteúdo, pode informar e ser informado com qualidade e de forma horizontal.

Nesse contexto, a exigência de diploma para ser admitido como jornalista é retrógrada e fora da realidade, servindo apenas como reserva de mercado nas grandes empresas de comunicação e como forma de exclusão que logo será atropelada pelo grande campo de inclusão que é a internet. A profissionalização do jornalismo cidadão e a cidadanização do jornalismo profissional são práticas fundamentais para que a mídia torne-se verdadeiramente democrática e plural.

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Os desafios para a construção de outra comunicação

13 abr

Nesta semana ocorreram ao mesmo tempo, na mesma cidade (Porto Alegre) e com temas que dialogam irremediavelmente, dois encontros opostos. O Fórum da Liberdade, organizado e participado pela nata da direita brasileira, e o Fórum da Igualdade, que nasceu este ano exatamente como contraponto ao primeiro, sendo organizado pela CUT-RS e pela Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS). Este post não pretende discutir a existência dos dois fóruns, mas posicionar o Jornalismo B nos debates travados em cada um deles: “Liberdade na era digital”, no FL, “Uma outra comunicação é necessária”, no FI.

Uma outra comunicação é absolutamente imprescindível, e passa necessariamente pela liberdade digital. Não essa liberdade defendida há 24 anos pelos participantes do Fórum da Liberdade, essa liberdade seletiva, que só torna livre as elites financeiras. Liberdade para todos, liberdade com igualdade. São setores da própria direita que, através do AI-5 digital do senador Eduardo Azeredo querem destruir a liberdade na internet. São setores dessa mesma direita que patrocina, apóia e cobre o Fórum da Liberdade que, através de processos recorrentes, tenta calar diversos blogueiros críticos ao status quo e às práticas levadas a cabo pela velha mídia. Exemplos não faltam. É preciso uma regulação da internet, mas sobre marcos democráticos. Essa regulação, além de coibir os excessos que sempre acabam acontecendo, impediria que qualquer juizeco determinasse, a seu bel prazer, medidas de censura, como tem ocorrido de forma constante.

Mas a necessidade de uma outra comunicação não passa apenas pela liberdade na internet. Passa também pela verdadeira liberdade em todas as formas de comunicação, que só pode ser alcançada através da democratização radical da mídia:

- Fiscalização independente e séria das leis já existentes para a comunicação;
- Regulamentação dos itens da Constituição que versam sobre comunicação;
- Fim das concessões de rádio e TV para políticos e seus apadrinhados;
- Revisão de todas as concessões de rádio e TV;
- Distribuição equitativa das verbas publicitárias;
- Descriminalização das rádios comunitárias e aceleração dos processos de legalização;
- Criação de mecanismos de controle social sobre o que é veiculado nas concessões públicas;
- Aprofundamento obrigatório da pluralização e diversificação social da programação das concessionárias;
- Proteção aos comunicadores acossados pelos grandes veículos de comunicação;
- Fim imediato da propriedade cruzada (disfarçada ou não).

Esses são apenas alguns dos itens necessários para construirmos a necessária “outra comunicação”. Esse caminho passa também por ações diretas dos próprios comunicadores, através da pressão sobre o governo para que este apóie e também construa essas mudanças, mas também através de um novo entendimento sobre o seu papel como jornalista. A mídia independente ainda precisa se qualificar muito, especialmente na internet. Precisa despartidarizar-se e entender que falar apenas para os próprios ouvidos adianta muito pouco. Precisa entender seu papel de agente social imprescindível para o avanço democrático e, a partir desse entendimento, reduzir, ao menos no exercício jornalístico, seu papel de agente partidário.

Mas essas são apenas decisões a serem tomadas. O grande desafio é o que tenta fugir ao nosso alcance: a produção de conteúdo desvinculada das pautas impostas pela grande mídia. Abordar pautas tradicionalmente ignoradas ou inverter a lógica do que é tratado costumeiramente é a mais pura subversão jornalística. Mas, com as dificuldades financeiras enfrentadas pela quase totalidade da mídia contra-hegemônica, a produção de conteúdo primário informativo torna-se complicada. O trabalho coletivo é, nesse sentido, uma alternativa interessante, mas ainda pouco amadurecida entre esses comunicadores, e, especialmente, entravado por vinculações partidárias. Se queremos outra comunicação, é preciso outra atitude. É preciso repensar esses caminhos e repensar prioridades.

Postado por Alexandre Haubrich

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Portal reúne espaços da esquerda na internet

1 mar

Não é fácil encontrar uma definição precisa do que signifique “esquerda”, politicamente falando. Os conceitos de esquerda e direita variam de acordo com a época e com o contexto local, além de serem apresentados de acordo com focos diversos, a partir do entendimento dos analistas em relação ao que é prioridade na disputa política. Ressaltando a existência dessas variáveis, começo este post dizendo que não concordo com a amplitude da conceituação da “esquerda” aceita pelo Só Esquerda, um site agregador de espaços de esquerda na internet.

O Só Esquerda entrou no ar há pouco tempo, a partir de uma ideia nascida no Fórum de Mídia Livre, em 2008. A proposta é fantástica e, apesar de discordar do tamanho do espectro da esquerda aceito pelo site, entendo que é válido e democrático o critério usado pelos desenvolvedores do site: a auto-declaração. Independentemente dessa questão polêmica, o desenvolvimento de um espaço assim é fundamental para que as vozes de contestação se amplifiquem na internet.

Há tempos o Jornalismo B tem batido na tecla da necessidade impreterível da união entre os veículos da mídia contra-hegemônica, especialmente na internet. Para enfrentar a ditadura midiática, do discurso único das grandes empresas de comunicação, é preciso trabalhar coletivamente.

Em uma sociedade capitalista, dominada pela direita em suas mais diversas formas, a mídia não poderia ser diferente. Desconstruindo e reconstruindo a comunicação, a partir de uma visão de mundo à esquerda (solidária, independente, emancipatória, popular), ajudamos a reconstruir a sociedade. Ao mesmo tempo, a reconstrução da sociedade é impreterível para que se recrie a comunicação. É na luta pela formação de uma nova sociedade que os veículos de esquerda devem trabalhar. E, por serem contra-hegemônicos, por definição não são capazes de, isolados, alcançar os mesmos espaços da mídia dominante. Porém, por serem muitos, democráticos, não-concentrados em meia dúzia de grandes empresas, a união entre eles pode alçar suas vozes a níveis de real disputa hegemônica, em favor do povo e da democracia.

Além da importância de agregar espaços de esquerda, o próprio Só Esquerda trabalha na prática o conceito de democracia midiática, já que é o leitor quem constrói o site que irá acessar diariamente. Com as abas “blogs”, “jornalismo”, “mídia livre”, “movimento social”, “partidos”, “sindical”, “twitter” e “internacional”, o leitor pode ordenar os veículos ou até eliminá-los de acordo com seus interesses. Dessa forma, cada um tem o poder de construir seu próprio veículo de informação, pode elencar e organizar suas formas de buscar informações sobre suas áreas de interesse, sempre pelo viés da esquerda. Nessa interação e na autonomia que possibilita ao leitor está outro grande mérito do Só Esquerda.

O próprio site se descreve assim: “Só Esquerda é um portal, na verdadeira intenção da palavra: uma porta de entrada para a internet, que reúne os principais sites, blogs e portais da esquerda brasileira. Uma ferramenta de ótima utilidade para ativistas, militantes políticos, jornalistas sindicais e comunicadores populares da mídia alternativa”. Tem tudo para cumprir a função a que se propõe. É uma possibilidade a mais para quem cansou do conservadorismo e das máscaras da mídia dominante, e procura alternativas para se informar com qualidade e da forma que entender como a melhor.

Em tempo: o Jornalismo B está lá, nos blogs.

Postado por Alexandre Haubrich

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O preconceito de classe alimentado

1 dez

* Recebemos neste post o seguinte comentário, de Marielise Ferreira, advogada e colaboradora do Grupo RBS: A reprodução de fotografias que não são de sua autoria, e não tem autorização de publicação, constituem crime. Passível de responsabilização criminal. Tanto quanto os dois casos citados acima.  Entendemos o comentário como uma ameaça de processo por parte da funcionária do Grupo RBS, e entendemos que não há necessidade, neste momento, de publicação das fotos no blog. Por esse motivo, o Jornalismo B optou por retirar do ar as fotos usadas para ilustrar este post. As fotografias citadas podem ser encontradas AQUI e AQUI. É lamentável que em período dito democrático ainda tenhamos pessoas ligadas às grandes empresas de comunicação buscando cercear a liberdade de imprensa e de expressão.

O Estado, em qualquer formato no qual seja desenhado, precisa de algumas instituições que o sustentem. Quanto mais democrático, mais apoiado sobre o conjunto da sociedade é o Estado. Quanto mais democrático, menos opressor, e menos necessitado de mecanismos de opressão. O atual formato de Estado, entre outras coisas, precisa de dois sustentáculos absolutamente fundamentais: a repressão pelas armas e a opressão pelas palavras. HAVIA UMA FOTO AQUI*

Essas duas formas de repressão são representadas pela polícia e pela mídia. Esses dois setores da sociedade, em sua forma dominante – fique claro –, podem ser mecanismos extremamente discriminatórios. Promovem, através das armas e das palavras, uma limpeza social, afastam os pobres do convívio com o restante das cidades, reprimem a pobreza.

Tanto a polícia quanto a mídia dominante faz claras diferenciações entre pobres e ricos. Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? O preconceito de classe nasceu primeiro na mídia e, dali, chegou à cultura social, ou está presente nesta mídia apenas como um reflexo da própria sociedade? No mínimo, a mídia realimenta esse preconceito, essa segregação diária e já tão comum que beira a invisibilidade.

O Clic RBS, portal que congrega os diversos sites do Grupo RBS, em seu Hotsite da cidade de Erechim, no norte gaúcho, deu uma bela mostra do que foi dito nos três primeiros parágrafos deste texto. Aconteceu na última terça-feira. Dois fatos com algumas semelhanças tratados de formas completamente diferentes pelas duas instituições comentadas no começo deste post. A polícia começou a distinção de classe, como costuma acontecer, e a grande imprensa foi pelo mesmo caminho, como costuma acontecer.

Às 17h19min entrou no Clic RBS Erechim uma matéria com o seguinte título: “Polícia apreende armas em bairro nobre de Erechim”. A foto é essa do começo deste post, apenas armas, muitas armas. A referência aos responsáveis se resumem a “o nome dos envolvidos e o bairro não foram divulgados pela polícia”. Não consta sequer a informação sobre se os criminosos foram presos ou não.

*HAVIA UMA FOTO AQUI. Exatos 37min depois, às 17h56min, foi ao ar no mesmo site a matéria “Homem é preso por furto no bairro Três Vendas”. Com ilustração  da imagem que está* ao lado, tirada pela mesma fotógrafa, o texto diz assim:

Um dos homens mais procurados por furtos em residências e lojas de Erechim foi preso em flagrante na tarde desta sexta-feira (30), no bairro Três Vendas. Uilson Pereira, de 33 anos, conhecido como Perdigão, tentava cometer um furto em uma residência na rua José Oscar Salazar. Ele foi encaminhado ao Presídio Estadual de Erechim.

Não é preciso nenhum raciocínio muito aprofundado ou muito genial para perceber-se a diferença. Crime no bairro pobre: foto de corpo inteiro, rosto mostrado com clareza, nome, sobrenome e até apelido. Crime no bairro rico: nada.

Postado por Alexandre Haubrich

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Velha mídia tem medo da internet

26 nov

Com o avanço tecnológico e a aplicação de diversas políticas públicas, aos poucos a internet começa a chegar a uma fatia expressiva da população brasileira. Até por necessidade de um pouco mais de conhecimento técnico, o grau de popularização da internet ainda é superado em muito pela televisão e pelo rádio. Mas esse panorama começa a mudar.

Ao mesmo tempo, os jornalistas e ativistas políticos que fizeram da web seu principal veículo de trabalho e embate político compreendem cada vez com mais clareza e precisão as melhores formas de uso das diversas possibilidades disponíveis ali, em especial espaços como blogs e redes sociais e práticas como a construção coletiva de conhecimento e de força. Mesmo parcelas da população que nunca tiveram a oportunidade de ser agentes sequer de suas próprias vidas começam a perceber na web a possibilidade de deixar de ser apenas objeto e passar a intervir nos processos comunicacionais.

É nesse contexto que a velha mídia – grandes jornais, emissoras de televisão e de rádio – têm sinalizado que já está presente o medo de perder seu domínio absoluto sobre as informações e sobre a mídia de modo geral. O monopólio do discurso começa a se esvair, novos agentes começam a nascer, a mídia começa a ficar mais ampla, plural, horizontal e democrática. Quem perde poder são as poucas famílias que hoje controlam a quase totalidade das informações que circulam no país, construindo relações, ideologias e conceitos, pautando a sociedade e seu campo administrativo, a política.

Por tudo isso, os ataques começaram. Afirmam que a internet não democratiza, que é perigosa para os jovens, que promove pedofilia, seqüestros e todos os tipos de violência, que não tem credibilidade, que é espaço de militância política raivosa e parcial. Ao mesmo tempo, mostram a velha mídia como segura, confiável e imparcial. O embate está estabelecido, e os passos da História parecem conspirar pela democracia. Mas é preciso que desde já nos ponhamos todos atentos para impedir que essas novas mentiras sirvam a interesses contrários aos caminhos democráticos.

O texto acima é o editorial da 13ª edição do Jornalismo B Impresso, a edição da segunda quinzena de novembro, que começa a ser distribuída em Porto Alegre na segunda-feira. Os locais de distribuição continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B (www.twitter.com/jornalismob).

É importante que todos os amigos do Jornalismo B se mobilizem para assinar e divulgar as assinaturas do Impresso. A assinatura pode ser feita em qualquer lugar do Brasil.

São três as possibilidades de assinatura: 3 meses – R$ 30; 6 meses – R$ 50; 12 meses – R$ 100. Para assinar, basta entrar em contato pelo email bjornalismob@gmail.com.

Assine o Jornalismo B Impresso e contribua para o crescimento e fortalecimento da imprensa independente.

Postado por Alexandre Haubrich

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A Globo adverte: a internet é prejudicial ao sistema

24 nov

No post de segunda-feira falei sobre um nascente e sussurrante movimento da velha mídia contra o crescimento da internet como espaço jornalístico. Tratei de uma entrevista da Folha de S. Paulo com Evgeny Morozov, um dos principais críticos atuais da web como instrumento de democratização. Mas não é apenas em ações direitas como essa que esse movimento começa a acelerar-se. Matérias aparentemente casuais tentam criar uma consciência coletiva de retração no uso da internet.

O Jornal da Globo da mesma segunda-feira apresentou uma reportagem sobre pesquisa que afirma que o uso de computador à noite prejudica o sono. A pesquisa, que entrevistou 1400 jovens universitários no interior de SP, traz uns dados estranhos, além dessa amostra nada representativa de qualquer coisa que seja. Por exemplo: diz ela que “58% dos entrevistados que usam computador entre 19h e 21h dormem mal”, e que o índice aumenta para 73% quando os entrevistados usam o computador entre 19h e 0h. Para começar, os dados não são cruzados com pessoas que não usam computador, ou ao menos a reportagem não mostra. Não se sabe, portanto, se os problemas de sono são causados pelo computador. Talvez as pessoas que assistem ao Jornal da Globo tenham mais problemas para dormir depois. Aí está uma boa ideia para pesquisa.

Outra questão: e a possibilidade de essas pessoas ficarem até mais tarde no computador exatamente por terem problemas de sono? De qualquer forma, a hipótese de que o uso excessivo do computador à noite atrapalha o sono não é nenhuma novidade. Há alguns pares de anos pesquisas já relatavam o problema. A novidade é que agora o interesse em trazer novamente à tona quaisquer questionamentos à internet é grande.

Além da pesquisa estranha – ou relatada pela reportagem de forma estranha – o próprio texto da repórter Helen Sacconi faz algumas referências que induzem o telespectador a ver no computador um veneno. “Mais do que a balada, o álcool e o cigarro, é o uso do computador à noite que está prejudicando o sono dos jovens”, diz ela em determinado momento. Para, mais tarde, ameaçar: “As conseqüências de uma noite mal dormida por causa do computador vão muito além do cansaço. Segundo os médicos, dormir pouco aumenta as chances de obesidade e diminui a capacidade de concentração”. Aí vem uma pesquisadora da Unicamp e completa: “O que vai acontecer é que toda noite de sono mal dormida vai ser cobrada em algum momento da sua vida”.

Cigarro, álcool, maconha, cocaína, crack, pular do décimo andar, dar tiro no olho, andar sem colete à prova de balas no Rio de Janeiro: tudo é mais seguro do que ficar em frente ao computador. É o que diz a Globo. Cuidado: realmente, a semente da subversão é plantada a partir do momento em que se tem acesso a informações diferentes das passadas pela velha mídia. E, uma vez plantada, essa semente cresce e acaba em novas sementes. A internet facilita essa semeadura, e é isso o que eles temem. A Globo adverte: a internet é prejudicial ao sistema.

Postado por Alexandre Haubrich

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Na ponta dos pés, velha mídia começa a atacar internet

22 nov

Nas últimas semanas o foco principal dos ataques da velha mídia mudou. Coincidência ou não, começaram a pipocar reportagens nos mais diversos veículos sobre a internet, todas elas desfavoráveis às novas mídias. A expansão e gradual democratização da internet é um elemento fundamental para a democratização da mídia como um todo e, assim, do próprio conhecimento e da difusão de informações. Quebra o eixo de poder da fatia da imprensa que sempre deteve o controle total. Por isso o medo e o início de campanha anti-internet.

Nesse contexto de início silencioso de embate, a Folha de S. Paulo publicou nesta segunda-feira uma entrevista com Evgeny Morozov, um blogueiro nascido em Belarus que é um crítico ferrenho da internet como forma de disputa política e de fortalecimento da democracia. Tão crítico, tão pessimista ou puxando contra com tanta força, Evgeny parece um entusiasta da web em comparação com as perguntas formuladas pela Folha através da repórter Luciana Coelho.

São 12 perguntas, e nenhuma delas faz qualquer questionamento crítico às teorias de Evgeny. Uma atrás da outra, enfileiram concordâncias com o blogueiro e adesões claras às suas ideias. Não listarei as perguntas porque algumas delas precisam das respostas anteriores para serem compreendidas, mas desafio algum leitor a encontrar uma questão minimamente incisiva, que traga uma só vírgula de dúvida sobre as posições do entrevistado.

Isso acontece porque as posições defendidas pela Folha são exacerbações das de Evgeny: a internet não democratiza nada, serve a governos totalitários, é vulnerável a pressões, não inclui, não tem credibilidade, não há privacidade. É essa a web que a Folha tenta enfiar na cabeça de seus leitores.

Não foi por acaso que a escolha do título chegou a “Tecnologia pode reforçar cenários de desigualdade”. Também não é por acaso que o texto que introduz a entrevista força a barra até das declarações de Morozov. “(…) blogs e redes sociais são mais suscetíveis à manipulação do que a mídia tradicional, diz”, é o que escreve a repórter. Na verdade, ele não diz exatamente isso. A fala de Morozov é “as plataformas descentralizadas são vulneráveis à manipulação. É muito mais fácil subornar cem blogueiros do que o conselho editorial de um jornal”.

Não me aterei tanto às ideias defendidas por ele, que deixam de levar em conta diversos fatores sociais, políticos e econômicos. O foco aqui é outro. O texto introdutório traz mais exemplos do que a Folha pensa. Destaca a posição de Morozov de que a internet favorece governos autoritários, e aí não está, para a Folha, apenas referência a Ahmadinejad, citado pelo pesquisador. Sem citar nominalmente, a Folha começa a preparar o terreno para a disputa contra a grande quantidade de blogueiros simpáticos ao governo do PT.

Outro momento fundamental para compreender a posição do jornal é o primeiro parágrafo. Usa a palavra “ladainha” para caracterizar a ideia de que “as novas tecnologias de comunicação fortalecem a democracia”. E diz isso por sua conta e risco, sem citar o entrevistado. Em passos miúdos, na ponta dos pés, já começou a guerra da velha mídia contra a força da internet e a possibilidade de descentralização do poder da comunicação.

Postado por Alexandre Haubrich

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