As privatizações costumam contar com grande apoio da mídia hegemônica, aconteçam em que país acontecerem. A grande mídia internacional também se refestela com esse tipo de política e busca criar situações de pânico quando países próximos buscam formas de aumentar o poder do Estado – e da sociedade civil – sobre as riquezas de cada país. Afinal de contas, se as riquezas estiverem nas mãos do povo, com que dinheiro os grandes empresários irão sustentar a mídia que tanto os defende?
A decisão da presidenta argentina Cristina Kirchner de nacionalizar a empresa petrolífera YPF e devolvê-la às mãos do povo argentino foi recebida com revolta por esses setores da mídia. A espanhola Repsol detinha a YPF desde 1999, quatro anos depois de a empresa ser privatizada pelo governo de Carlos Menem em meio à onda neoliberal que varreu a América Latina e entregou as poucas riquezas dos países do continente para exploradores estrangeiros.
A YPF, fundada no início do século passado e cujo modelo estatal inspirou a criação da Yacimientos Petrolíferos Fiscales de Bolívia (YPFB), da Petróleos Mexicanos e da Petrobrás, foi privatizada por um presidente que, em 2001, esteve preso por corrupção, e que durante seu governo perdoou criminosos condenados por suas atuações durante a Ditadura Militar argentina.
A velha mídia da Espanha esperneou. Atacou Cristina de cima de um altar colonialista, como costuma atacar os latino-americanos comprometidos com a própria soberania. O mesmo aconteceu com a mídia (ainda) dominante na Argentina, como o jornal Clarín, opositor de Cristina e entreguista costumaz.
No Brasil, como escreveu Martín Granovsky, do Página 12, a resolução de Cristina “mereceu um tom informativo e neutro, por exemplo, em dois portais ligados ao mundo dos negócios do Brasil, o do jornal Estado de São Paulo e o do Valor Econômico”. A Folha de S. Paulo também deu tom informativo à sua matéria principal sobre o assunto, mas, nas retrancas, grande espaço para as críticas espanholas e até um artigo de Jorge Castro, que, como a própria Folha tem a cara de pau de admitir, é colunista do Clarín e foi secretário de Planejamento de Carlos Menem, o presidente que privatizou a YPF.
O jornal gaúcho Zero Hora mergulhou novamente em sua ânsia de atacar os governos progressistas da América Latina. Distorceu, ao usar como “cartola” a frase “O petróleo é dela”, dando a entender que a presidenta havia tomado para si a petroleira, quando, na verdade, tomou-a para o Estado e o povo argentino. No título, tenta conduzir ao leitor à conclusão de que Cristina “tem gosto” por brigar e arrumar polêmicas, novamente personalizando-a: “Cristina agora briga com a Espanha”. O primeiro parágrafo dá o tom que Zero Hora busca impor a todas as notícias sobre a presidenta argentina, enfileirando críticas que voltam a cada nova matéria, como um recalque intransponível: “Em uma lista de atitudes controversas, que inclui perseguição a jornais, guerra de importações e a busca pela soberania das Ilhas Malvinas, a Argentina anunciou ontem a maior expropriação individual de uma petroleira na América Latina”.
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