Antonio Luiz M. C. Costa é conhecido por seu trabalho na revista Carta Capital, mas seu trabalho de militância política começou há bastante tempo, nas marchas estudantis a partir da morte de Herzog e nos movimentos das Diretas Já e do Fora Collor. Filiou-se ao PT nos seus inícios, participou durante algum tempo de núcleos e diretórios e esteve no governo de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo, como assessor da Secretaria da Educação – inicialmente com Paulo Freire, depois com Mário Sérgio Cortella. Afastou-se do PT e da militância com o fim dessa administração, porque percebeu “que o sistema de núcleos estava praticamente morto e não havia mais, na prática, como influenciar o partido de baixo para cima. Nem era eu, como quadro técnico secundário, capaz de ter qualquer influência relevante nas políticas do partido – era visto como um mero funcionário, que devia executar o que fosse ordenado. Como não me interessa estar na política sem que possa ouvir minha voz, fui gradualmente para a área de comunicação”.
Sua formação é em engenharia, economia e filosofia e não tinha experiência com jornalismo além de escrever para jornais estudantis, mas “publicava um artigo aqui e ali e tive minha oportunidade quando a empresa de consultoria econômica na qual eu trabalhava depois de sair da prefeitura fez um convênio com a revista CartaCapital (na época, quinzenal), escrevendo artigos sobre conjuntura econômica setorial, nacional e internacional. Meus artigos chamaram a atenção de jornalistas da revista, Carlos Drummond e Mino Carta e acabei saindo da consultoria para trabalhar com jornalismo”. Depois de uma breve passagem de um ano pela IstoÉ – “para a qual fui inicialmente convidado, mas que se mostrou uma péssima experiência” – foi para a CartaCapital, onde estou desde 2001.
Na entrevista a seguir, exclusiva ao Jornalismo B, Antonio defende a intervenção do Estado para a quebra dos monopólios da mídia e critica o momento dos blogs e das redes sociais.
Jornalismo B – Qual a tua avaliação do momento atual da mídia alternativa brasileira? E o papel das novas mídias nesse contexto?
Antonio Luiz Costa – Eu ainda pertenço muito mais à mídia tradicional do que à mídia alternativa. Minha participação no Twitter e em artigos online no site da CartaCapital ainda são complementos do meu trabalho na revista impressa e não um fim em si mesmo, de modo que minha opinião pode ser condicionada por essa visão, mas para mim a mídia alternativa no Brasil ainda está muito no começo, é essencialmente experimental e amadora. É importante para testar e abrir caminhos novos, mas não é realmente uma “alternativa” à mídia tradicional. A esmagadora maioria dos blogueiros limita-se a repercutir ou criticar o que é publicado na grande mídia tradicional – a Folha, o Jornal Nacional, o Estadão, a Veja. Sequer dão atenção ao que sai em órgãos “tradicionais” de menor porte e com posições diferenciadas, como a CartaCapital, o Brasil de Fato, a Caros Amigos, para não falar de blogs “concorrentes” que não sejam da mesma panelinha. Mesmo que se trata de “criticar o PIG”, é uma maneira de se deixar pautar, de deixar aos interesses mais tradicionais decidir que assuntos são importantes e merecem ser discutidos. E depois se queixam de que a presidenta da República vá à grande mídia para se comunicar com o público… Eles mesmos repercutem mais facilmente uma entrevista da Dilma à Ana Maria Braga do que um furo importante dado por um blog.
Jornalismo B – Quais as principais dificuldades ainda enfrentadas pelos blogs e pelas redes sociais como espaço forte de comunicação? E quais os principais avanços que já foram feitos?
Antonio Luiz Costa – A principal dificuldade é o amadorismo, tanto no sentido financeiro – os blogs não proporcionam renda suficiente para que alguém possa se dedicar inteiramente a eles – quanto no de capacitação, mesmo: a maioria dos seus autores são jovens com pouca experiência política e perspectiva histórica, falta prática ou formação em jornalismo ou comunicação popular, falta a supervisão que mesmo um jornalista iniciante teria, e que ajudaria a evitar erros graves. Os mais comuns incluem o subjetivismo extremado, a adesão acrítica a uma causa em função de redes de simpatias e antipatias (“se fulano é a favor, também sou; se beltrano é a favor, eu sou contra”), fazer alegações e deduções sem base nenhuma, tratar como traidores quem discorde até mesmo em questões secundárias (em particular, questões de terminologia!), aderir a teorias conspiratórias, até mesmo jogar fora o bom-senso e a credibilidade em função de uma causa qualquer que momentaneamente os empolgue. Quanto a avanços, vi poucos desde que comecei a frequentar o Twitter, por volta de 2009: algumas tentativas de organização que não me parecem muito bem-sucedidas e de resto os mesmos problemas. Das redes sociais além do Twitter, pouco sei: tenho alguns anos no Orkut, mas é uma rede em franca decadência, da qual pessoas interessantes e com capacidade de discutir em alto nível já desistiram de participar. Quanto ao Facebook, experimentei poucos meses e detestei.
Jornalismo B – Qual a avaliação do momento atual da mídia dominante?
Antonio Luiz Costa – É um momento de crise e fragilidade econômica para a mídia impressa. Os jornais e revistas tradicionais estão perdendo leitores e anunciantes e não descobriram como migrar para a internet de maneira lucrativa. No Brasil, estão ainda politicamente enfraquecidos, depois de apostar seu futuro e seu prestígio em colocar o tucanato de volta ao poder e fracassarem: só lhes resta, agora, conciliarem-se com o governo e implorar por recursos financeiros. Já a mídia televisiva é outra questão: a Globo, em particular, está enfraquecida pelo esgotamento de suas fórmulas tradicionais e pelo crescimento da concorrência, mas a TV como um todo não está em crise – e como se vê no Oriente Médio, com a Al-Jazeera, ainda tem um enorme potencial para influenciar a política, se souber criar credibilidade.
Jornalismo B – De que forma o governo e a sociedade organizada podem atuar na defesa de uma comunicação mais democrática?
Antonio Luiz Costa – O mais importante é quebrar os monopólios, principalmente na mídia eletrônica. Há centenas de canais disponíveis e centenas de questões e pontos de vista diferentes a se expressar e não se justifica que uns poucos grupos açambarquem todos os meios disponíveis. É preciso abrir canais para grupos como o movimento negro, MST, movimentos sindicais etc. e as verbas de incentivo à cultura e publicidade governamental devem favorecer a diversidade de abordagens e pontos de vista. Pode-se exigir, também, que os pacotes de TV a cabo incluam um mínimo de produção nacional e que a estrangeira seja razoavelmente diversificada – não apenas algumas grandes redes dos EUA.
Jornalismo B – Qual é o papel fundamental da mídia hoje?
Antonio Luiz Costa – É o que sempre foi. Por um lado, informar o público dos acontecimentos reais e integrá-los em narrativas que façam sentido, permitindo que se posicionem como cidadãos. Por outro, proporcionar as experiências da arte e da ficção, estimulando o questionamento e o desenvolvimento intelectual.
Jornalismo B – Quais as perspectivas para o futuro da mídia brasileira?
Antonio Luiz Costa – Vejo o enfraquecimento progressivo dos grandes jornais e revistas impressos, possivelmente o desaparecimento de mais alguns deles, como já se deu com o velho Jornal do Brasil. Parece que há um novo espaço para tabloides criado pela classe C ascendente, que ao menos em São Paulo ainda foi pouco aproveitado, mas não é uma vertente que me interesse. Na mídia televisiva, vê-se um aumento da concorrência e o enfraquecimento progressivo do monopólio da Globo, mas há que se recear o papel crescente e agressivo de grandes redes transnacionais que lutam por um monopólio global da informação, tais como a Fox, a CNN e seus satélites. O Estado vai precisar intervir para evitar que monopolizem o acesso à opinião pública, exigindo que os distribuidores de TV a cabo ofereçam alternativas nacionais e outras como a Al-Jazeera, a TeleSur, a BBC etc.
Postado por Alexandre Haubrich
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