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Para Folha, Dilma “distorce”, “superfatura”, “celebra feitos imaginários” e “engana”

11 ago

Para a Folha de S. Paulo, os destaques do primeiro debate entre os presidenciáveis foram as “distorções” de Dilma Rousseff (PT) e as “críticas moderadas” de José Serra (PSDB). A matéria principal que, no último sábado (7/8), foi publicada na Folha sobre o debate da quinta-feira anterior traz como título “Dilma distorce números e Serra faz críticas periféricas”.

A matéria tem oito parágrafos que falam diretamente sobre Dilma. Deixando o título fora da conta, são cinco referências a mentiras, com as mais diversas palavras ou expressões que possam caracterizar a petista como mentirosa. Cinco referências em oito parágrafos. Além disso, três desses parágrafos são dedicados a, diretamente, criticar números apresentados pela candidata.

A tentativa de apresentar Dilma como uma candidata sem propostas também fica clara. Na linha de apoio, a Folha afirma: “Petista fez projeções sem base para a educação (…)”. Abaixo da linha de apoio e antes do texto, como uma espécie de resumo do que vai ser apresentando, vem “A julgar pelo debate, as ambições de Dilma são a reforma tributária e a regulamentação da emenda sobre a saúde”. O texto, em seguida, diz que “ambas (as propostas) já foram encaminhadas pelo presidente Lula (…)”, antes de explicar que “há ainda a torcida declarada para a erradicação completa da miséria”, como se não passasse da torcida ao trabalho.

Para Serra foram dedicados especialmente quatro parágrafos. Nesse espaço, o jornal reclama da moderação das críticas do peessedebista a Dilma e ao governo Lula e de propostas que se limitaram ao que foi feito em São Paulo quando Serra foi governador. Queria que Serra batesse em aspectos estruturais, não apenas gerenciais.

Depois, em duas matérias pequenas, o jornal primeiro falou sobre o tom e o gestual dos candidatos, destacando Serra, tentando mostrar que Marina e Dilma fracassaram, e ironizando Plínio, ao escrever que ele “falou sozinho”. Na segunda das matérias menores, mais tentativas de minimizar a participação do candidato do PSOL. Ainda que o fim do texto conte que uma enquete feita com 29 cientistas políticos apontou Plínio como vencedor do debate, dá mais destaque a piadas feitas com o candidato e a um cientista que afirma que a “vitória” de Plínio demonstra que a campanha está despolitizada.

Em seguida, mais duas matérias periféricas falaram sobre o tom que Serra e Dilma deverão adotar a partir de agora, com o primeiro devendo, segundo a Folha, intensificar as comparações de sua experiência com a de Dilma, enquanto esta deverá “evitar citar Lula em debates”, com o objetivo de colocar-se ela própria como líder do atual governo. Mesmo que, na reportagem principal, a Folha tenha dito que houve, por parte de Dilma, uma “louvação ao presidente Lula”.

Postado por Alexandre Haubrich

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É preciso estar atento e forte

19 jul

Segundo o blog RS Urgente, “a vice-procuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau, e a Folha de São Paulo parecem decididos a empreender uma verdadeira cruzada para cassar a candidatura de Dilma Rousseff (PT)”. Na edição desta segunda-feira, o Estadão mostrou que não é só a Folha. Teoricamente rivais na busca por leitores, os dois maiores jornais de São Paulo (ou do país?) estão com os discursos afinados na defesa da candidatura de José Serra (PSDB) à presidência da República.

“Comando do PT estuda retaliação contra vice-procuradora eleitoral” é o título da matéria assinada por Marcelo de Moraes. Retaliação? Com isso, o Estadão quer dizer, como a própria matéria diz em seguida, que o PT pode “entrar com representação no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP)”. A matéria em si não tem nada demais. É informativa, traz os motivos pelos quais a procuradora está sendo criticada e os motivos pelos quais ela tem denunciado o PT. Traz também as falas de Lula e Dilma sobre o assunto. O trabalho do repórter é irreparável. O problema está nos editores.

Foram eles, certamente, que escolheram como título uma frase que distorce o que está escrito na matéria, tentando, como oito anos atrás, pregar o medo do PT, mostrar o “comando do PT” como tendente ao autoritarismo e ao desrespeito à democracia. A imprensa hegemônica brasileira é um exemplo de instituição que tem recorrentemente ignorado preceitos democráticos. Por sorte, cada vez mais leitores se dão conta das mentiras e manipulações a que estamos expostos. Os comentários 166 e 167 na versão web da reportagem vão nesse caminho de consciência:

O TÍTULO CORRETO DESTA MATÉRIA É:
COMANDO DO PT ESTUDA ENTRAR COM REPRESNTAÇÃO CONTRA A VICE-PROCURADORA ELEITORAL.
RETALIAÇÃO, SÓ NA VISÃO DO ESTADÃO

Quem está falando em retaliação é o ESTADÃO, o comando do PT quer fazer uma representação, portanto usar o caminho democrático e institucional.
O ESTADÃO deve ter um pouco mais e cuidado em suas opiniões e ou interpretações.

Como disse no último post, quanto mais as eleições se aproximam mais sutis tendem a ser as manipulações. A Folha de S. Paulo tem demonstrado a cada edição a preferência por José Serra e a defesa da candidatura de Marina Silva (PV), enquanto bate forte em Dilma e ignora Plínio de Arruda (PSOL). O Estadão mostrou novamente, na escolha desse título, de que lado está. Enquanto eles insistem em esconder do leitor as candidaturas que defendem, a atenção precisa ser redobrada.

Postado por Alexandre Haubrich

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Mais de cem mil desconhecidos

22 jun

Quando as chuvas deixaram cerca de 100 mortos no Rio de Janeiro, em abril desse ano, a repercussão foi gigantesca. Todos os grandes jornais e telejornais brasileiros dedicaram capas e mais capas, manchetes e mais manchetes ao que aconteceu. A cobertura foi tão intensa que chegou à espetacularização.

Pois agora algo semelhante acontece no Nordeste. Nos Estados de Alagoas e Pernambuco, as mortes já passam de 40, número que não para de crescer. Zero Hora, o mais poderoso jornal do Estado mais ao Sul do Brasil, não tem dado qualquer importância ao caos que se instalou em Alagoas e Pernambuco.

Na edição de segunda-feira, por exemplo, o jornal gaúcho dedicou apenas uma pequena nota, no cantinho da página 24, ao assunto. Nenhuma foto. Em contrapartida, duas páginas depois, uma nota do mesmo tamanho, mas com foto, mostrava um incêndio ocorrido no Rio de Janeiro. Sem querer desmerecer a importância do problema no Rio, que causou certo dano ambiental, principalmente, lá não houve nenhum ferido – por sorte. No Nordeste, mais de 40 mortos e mais de cem mil desalojados. E o espaço dedicado ao incêndio é maior do que o dedicado às chuvas.

Na edição desta terça-feira, Zero Hora trouxe uma matéria um pouco maior, mas com os olhos totalmente voltados para o Rio Grande do Sul. Sabemos que a linha editorial do jornal é precisamente essa, trazer sempre um olhar “gaúcho” dos fatos brasileiros e mundiais, mas, nesse caso, deu-se mais importância às doações que estão saindo daqui do que aos problemas que estão sendo enfrentados lá. Contradição gritante, e que em nada contribui para estimular doações – doar a quem? por quê? – ou para formar reflexões sobre os problemas de nossas cidades.

Mas Zero Hora não foi o único “jornalão” a ignorar Alagoas e Pernambuco. A Folha de São Paulo também realizou, na segunda e na terça-feira, coberturas minúsculas. Não se dignou sequer a enviar um repórter para os Estados atingidos. O Estadão, porém, tem dado destaque ao assunto, e as principais reportagens publicadas nos portais dos grandes veículos de comunicação têm saído da Agência Estado.

Postado por Alexandre Haubrich

Folha lembra da África, mas só acaricia o leitor

25 mai

Enquanto o Brasil possui um índice de 0,6% da população infectada pelo vírus da AIDS, um país não tão distante ostenta 26,1% de HIV’s positivos. Incrivelmente ignorada pela imprensa brasileira – e, certamente, pela esmagadora maioria da imprensa ocidental – a existência da Suazilândia, pequeno reino espremido entre a África do Sul e Moçambique, é um retrato do descaso dos outros continentes com relação à África.

Pois a Folha, sabe-se lá como, mas com muito mérito, descobriu o pequeno país e mandou para lá o repórter Fábio Zanini. Com matérias segunda e terça-feira, Fábio traçou um bom perfil da situação da AIDS por lá. Porém, faltou um tanto de humanidade.

Em ambas as edições, bons textos. Claros, didáticos, limpos. O problema é que são exatamente o oposto da tela que tentam – com razão – pintar. A situação relatada é de trevas, é confusa e é suja. Faltou agressividade. No texto e nas fotos, todas de arquivo, da France Presse.

Outro problema: com exceção de um comentário do repórter ao final da matéria do segundo dia, falta o questionamento fundamental: como essa tragédia foi acontecer? Foi essa a mosca que zumbiu no meu ouvido desde o título da reportagem de segunda-feira, e foi ser abanada apenas nas últimas linhas de terça. De forma um tanto superficial, e só à guisa de comentário, não como esforço de reportagem, mas ao menos existiu a lembrança da questão.

Ainda assim, a reportagem é de extrema importância. Só a ideia da pauta já é fundamental e mostra a qualidade jornalística da Folha – inegável, apesar dos pesares. Os dados apresentados e as entrevistas com uma especialista e com jovens suazes são o recheio humano da primeira reportagem, ainda muito afastada das pessoas, das ruas e, assim, da verdade. Na segunda reportagem a carga de humanidade está muito mais presente, com a demonstração clara de como as tradições culturais – em especial a questão dos curandeiros – freiam e dificultam o combate ao HIV.

Faltou um tanto de profundidade, mas isso não tira os méritos da Folha em trazer para seus leitores uma face desconhecida do planeta, de pessoas tão pessoas quanto nós. Talvez tenha faltado a tentativa de chocar através dos textos e das fotos. Os fatos deveriam chocar por si sós, mas sabemos que não é assim. Vira-se a página e com a enorme propaganda de pacotes turísticos para o Nordeste, a África já não existe mais.

* O Jornalismo B ergue um brinde à volta de um dos blogs jornalísticos mais importantes e críticos que andam por aí. O Ponto de Vista está, enfim, de volta, e com cara nova. Mais palavras voltarão a ser estiletes.

Postado por Alexandre Haubrich

Da convocação da Seleção Brasileira

12 mai

Copa do Mundo é motivo de felicidade, e o que mais importa além da felicidade? A felicidade de todos, claro, mas de quem a Copa do Mundo não é uma felicidade, mesmo que fugaz, mesmo que quase instantânea? A convocação da Seleção Brasileira para a Copa é dos momentos mais democráticos que tomam forma no país: ainda que o cidadão não possa decidir nada, ele tem ao menos o direito de opinar, e costuma fazer isso com seu próprio conceito de futebol.

Pois o técnico da Seleção Brasileira convocou os 23 – mais os “reservas”, 30 – jogadores que irão defender o país na próxima Copa do Mundo, na África do Sul. E a imprensa detestou. Isso porque alguns queridinhos ficaram de fora, como Ronaldinho Gaúcho, Paulo Henrique Ganso e Neymar. Então, perde-se parte da empolgação com as novas (ou nem tão novas) sensações, perde-se parte do encanto, e perde-se também parte da audiência que todas as grandes empresas de comunicação já prepararam para a primeira Copa em continente africano, e última antes do Mundial do Brasil.

Então usou-se – como costuma ser feito em todos os outros setores sociais – a manipulação da opinião pública para criticar as escolhas do técnico Dunga. Foi dito que a população não gostou da convocação, que o povo queria os meninos da Vila e Ronaldinho no elenco, foi dito um monte de coisas. Mas de onde isso tudo foi tirado? De lugar nenhum.

A opinião pública foi usada e manipulada para se fazer pressão sobre o técnico da Seleção Brasileira no sentido de levar à Copa alguns jogadores que certamente dariam mais audiência, pelo tipo de futebol que jogam. Foram ignoradas pela maioria as questões táticas e as análises realmente claras do que a Seleção e seus jogadores têm feito desde que Dunga assumiu. Sumariamente ignoradas, com exceção à tal “coerência de Dunga”. Até Arnaldo Jabor opinou no Jornal da Globo, criticando o técnico exatamente por seguir o que acredita.

Pois a Folha de S. Paulo foi exceção, e nesta quarta-feira mostrou o oposto do que toda a grande imprensa brasileira procurou defender: a população gostou da convocação de Dunga. Foi o que disse a Datafolha, e realmente não me ocorre nenhum motivo pelo qual essa pesquisa poderia ser manipulada. A Folha foi a única que noticiou a aprovação do povo brasileiro em relação ao que ele mais se interessa: sua seleção de futebol para disputar a Copa.

Sem o sensacionalismo e a busca louca por audiência que pauta boa parte do jornalismo esportivo televisivo brasileiro e sem o regionalismo que costuma delinear as matérias de jornais impressos e de rádios pelo Brasil – muitas consideravelmente influenciadas pelo eixo Rio-SP –, a Folha foi na contramão e, junto com as pesquisas de opinião, mostrou uma realidade bem diferente à que a maioria da imprensa tem buscado impor à uma opinião pública que talvez nem seja realmente existente – esse assunto será tratado especificamente em um post posterior.

Postado por Alexandre Haubrich

Atingindo imagens – Folha x Dilma

15 abr

Após uma grande gritaria pela internet, desmentidos da entrevistada e divulgação de vídeo com a declaração verdadeira, a farsa (ou o “erro”) foi admitida. A edição desta quinta-feira da Folha de S.Paulo traz, no Painel do Leitor, declaração da assessoria de imprensa da pré-candidata à presidência Dilma Rousseff e, na seção Erramos, a admissão da publicação de palavras que Dilma não falou.

Sábado, em um discurso no ABC, a pré-candidata do PT disse: “Eu nunca fugi da luta ou me submeti. E, sobretudo, nunca abandonei o barco”. No dia seguinte, a Folha publicou que Dilma dissera “Eu não fugi da luta e não deixei o Brasil”, como se ela tivesse atacado diretamente o pré-candidato do PSDB, José Serra, e todos os exilados da ditadura militar brasileira.

Não cabe, aqui no Jornalismo B, avaliar ou analisar o que Dilma falou. Cabe analisar, sim, o que o jornal de maior circulação do país atribuiu a ela sem que tenha sido dito. O trecho “não deixei o Brasil” é consideravelmente mais agressivo do que “nunca abandonei o barco”. Além disso, é mais amplo, e atingiria pessoas que não são necessariamente atingidas pela segunda e verdadeira expressão.

Outra: leia novamente as duas falas. Alguém sabe explicar como a Folha pode ter se enganado? Alguma semelhança fonética entre as duas frases? “Nunca abandonei o barco” e “não deixei o Brasil” se parecem? Alguém confundiria assim, sem querer? Parece difícil. A repórter Ana Flor com problemas de audição no principal jornal do país? Parece difícil. Muitos veículos poderiam criar a seção Inventamos, além da Erramos. Em épocas eleitorais essa seção poderia até mesmo ocupar a maior parte de alguns jornais.

Ainda que a Folha tenha se retratado, a diferença de espaço entre a reportagem que veio com a fábula e a correção é abismal. Ainda que fosse o mesmo espaço, a diferença de “audiência” entre uma reportagem na editoria Brasil e uma correção na seção Erramos.

Por fim, ainda que o espaço e a importância fossem iguais, o estrago já estava feito. Nenhuma negativa faz voltar a afirmativa. Apenas remenda. Ninguém pisa duas vezes no mesmo rio, como ninguém fala duas vezes ao mesmo leitor. A imagem de Dilma foi atingida, isso não pode ser mudado. A da Folha também, mais uma vez.

Postado por Alexandre Haubrich

Entrevistas de Dilma e Serra mostram posição da Folha de São Paulo

13 abr

Em dois dias seguidos a Folha de São Paulo publicou entrevistas com os dois principais pré-candidatos à presidência da República, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). Feitas no mesmo dia e publicadas em dias subsequentes, na mesma editoria de Brasil, as entrevistas são exemplares do tipo de cobertura que a Folha já tem feito das eleições e deve continuar fazendo. As discrepâncias beiram o non-sense, e perpassam cada aspecto das matérias, começando pelo espaço destinado a cada uma: uma entrevista de “mais de duas horas”, de Dilma, mereceu uma página, enquanto uma entrevista de “mais de uma hora”, de Serra, levou duas páginas.

A disposição escolhida para a publicação das entrevistas já dá o tom. A entrevista de Dilma está disposta em forma de matéria, com tópicos de divisão de assuntos e a forma indireta de discurso. Isso permitiu a Folha interpretar as respostas da petista e comentá-las, direta ou indiretamente (ao usar expressões como “porém” para demonstrar contradições no discurso ou “tom de desafio” para sugerir agressividade na fala de Dilma). Além disso, causa distanciamento maior entre o leitor e a entrevistada. No caso de José Serra, a entrevista foi publicada realmente como entrevista, com perguntas e respostas, com Serra falando diretamente ao leitor e sem que a Folha interferisse (interpretando ou comentando) suas palavras.

Os títulos escolhidos, assim como os “olhos” ou as linhas de apoio ou ainda as fotos, dão o tom que o jornal escolheu para cada entrevista: Dilma fala sobre economia, em termos complexos para o leitor comum, enquanto Serra é apresentado como sério, honesto, afável e, sobretudo, popular. Título para Dilma: “Não se pode reduzir juros ‘feito maluco’, diz Dilma”. Título para Serra: “’A pior coisa é você parecer o que não é; tenho uma cara só’”. Os chamados “olhos” da entrevista de Dilma são todos os dois sobre economia, enquanto os seis de Serra têm como títulos “Infância e Família” e “Exílio”. As linhas de apoio. Dilma: “Pré-candidata diz que manter política econômica é ‘mais do que compromisso”. Serra: “Tucano diz ter ‘conteúdo popular’, mas admite que não é reconhecido pela origem humilde; na segunda candidatura, diz estar mais preparado para presidir o país”.

Sobre as entrevistas em si: as questões colocadas para Dilma foram todas econômicas (com exceção da última, sobre Reforma Tributária, outro assunto nada popular), e tentaram encontrar pontos fracos na pré-candidata, comentando assuntos que aparentemente trouxeram problemas para ela durante o governo Lula, buscando contradições. As perguntas devem ser críticas e tocar também nos pontos fracos, é claro. Mas com Serra isso não aconteceu.

As quatro primeiras perguntas feitas a José Serra foram sobre a “evolução” do tucano desde 2002, quando também se candidatou à presidência. Em seguida, questões sobre o exílio e a busca desenfreada por encontrar origens humildes em Serra. Tão desenfreada, tão desesperada, que o próprio entrevistado obrigou-se a brecá-la. A Folha, na pergunta, comentou: “O sr. é da Mooca, seu pai era feirante, mas essa origem não é associada a sua imagem política”. Serra começou respondendo que “Meu pai não era feirante. Ele tinha uma banca no Mercado Municipal”.

Após muitas perguntas sobre sua trajetória política e sua vida pessoal, apenas no fim da entrevista Serra começa a ser questionado sobre suas ideias para o governo. Algumas questões envolvem economia, mas em aspectos muito mais palpáveis, ou em perguntas que permitem ao ex governador de São Paulo desenvolver explicações ou falar em toma de campanha, como na pergunta “O sr. vai pregar na campanha o Estado ativo. O que significa?”.

Por fim, as fotos. De Dilma, há apenas uma foto, meio de lado, quase como aquelas fotos sem-graça de divulgação. De Serra, são 10 fotos. Sim, 10. A principal é enorme. Nela, o tucano abre um sorriso gigantesco, de orelha a orelha, e olha diretamente nos olhos do leitor. Além dessa, são mais duas fotos maiores que a única de Dilma (uma quando criança e uma com a esposa, no exílio). Também estão na segunda página mais três fotos de quando era criança e mais quatro datadas do início da militância política.

Os dados que apresentei aqui são apenas alguns. A construção inteira das duas entrevistas é uma grande peça de propaganda de José Serra, escancarada quando praticamos o exercício da comparação. A Folha quase assumiu, no editorial de segunda, sua defesa da candidatura do PSDB. Se dissesse explicitamente que o apóia, ainda assim não seria tão claro quanto a comparação das entrevistas.

Postado por Alexandre Haubrich

Folha dá o tom

9 mar

A cobertura que a Folha de São Paulo fez nesta terça-feira em relação às atividades dos dois principais pré-candidatos à presidência do Brasil foi exemplar na distinção que acontecerá a partir de agora entre Dilma Rousseff, do PT, e José Serra, do PSDB. Essa distinção tende a ser feita pela quase totalidade da grande imprensa, defensora semi-declarada de Serra.

A manchete de capa, assim como a matéria principal, foi equilibrada, com críticas aos dois candidatos: “Na reta final, Serra e Dilma lançam até obra inacabada“. Estaria a Folha prestes a abandonar o barco da candidatura de Serra para pressionar o PSDB a encontrar uma saída viável para uma eleição que parece quase perdida? Pode ser. Ou não.

É nas outras matérias relacionadas aos dois candidatos que o tom que deve ser o predominante a partir de agora aparece. São três matérias diretamente relacionadas a Dilma, uma a Serra. As de Dilma são negativas, as três, enquanto a de Serra não pode ser considerada nem negativa nem positiva, apenas está ali. Os títulos não deixam dúvidas sobre esse posicionamento: “Site de apoio a Dilma está em nome de mulher, mas ela diz que é um ‘engano’”; “PT pagará salários para Dilma em campanha”; “Para defender candidata, Lula ataca imprensa” e “Tucano vê ansiedade para oficializar Serra”.

Agora vamos às matérias: o que dizem elas? O que elas não dizem?

A primeira exclusivamente sobre Dilma trata de um site criado por um grupo de mulheres amigas da candidata. É claro que o título é non-sense, simplesmente não se entende qual o problema de o site estar em nome “de mulher”, assim como não se entende quem diz que é um engano, a “mulher” ou Dilma. O que acontece é que o site está registrado no nome de uma funcionária de um ministério, o que fez a Folha pensar que ali estaria mais uma boa oportunidade para arrumar alguma denúncia, ou ao menos uma sombra de denúncia. Não chegou nem a sombra, pois a própria matéria se resolve explicando que a tal “mulher” era funcionária da empresa que fez o site, por isso o registro no nome dela. Uma matéria que não teria sentido algum, não fosse o sentido de denuncismo e o sentido de vincular desmedidamente o nome de Dilma a qualquer manchete negativa.

Na segunda matéria, a manchete é colocada de forma negativa, mas na verdade mais uma vez não há informações muito interessantes. Apenas o fato de que, mais uma vez, um candidato será pago pelo partido. Apesar do teor condenatório, não é nada ilegal, e não me parece imoral. O texto lembra que o próprio Lula também recebeu salário do PT quando foi candidato.

Na última matéria diretamente relacionada a Dilma, mais uma questão instigante: onde Lula defendeu Dilma? As falas citadas pela Folha nas quais o presidente critica a imprensa: “a imprensa brasileira não gosta de falar de obras inauguradas. Ou seja, coisa boa não interessa, o que interessa é desgraça”. A única matéria diretamente relacionada a José Serra é uma nota reproduzindo fala do presidente do PSDB-SP, que afirma que o partido não precisa ter pressa para anunciar a candidatura de Serra, pois ainda se pode recuperar o tempo perdido.

É preciso ficar de olhos bem abertos. Se durante períodos mais afastados da corrida eleitoral a manipulação de informações, a criação de informações e as distorções ficam mais claras, quanto mais aproximam-se as eleições mais esses recursos tendem a esconder-se. Mas eles continuam ali, sussurrando aos berros.

Postado por Alexandre Haubrich

O programa de governo de Dilma Rousseff é notícia?

22 fev

Um jornalista dos mais tarimbados que andam por aí costuma falar na prática de alguns jornais de “brigar com a notícia”. Mais uma vez isso aconteceu, mais uma vez no jornal Zero Hora.

O Congresso do PT encerrou-se com a aclamação de Dilma Rousseff como candidata à presidência, mas antes foi montado um esboço do programa de governo que Dilma defenderá. O programa aprofunda as mudanças à esquerda que tem realizado o governo Lula nos últimos tempos. Digo tudo isso para mostrar a importância do assunto. Pois então, é claro que esse foi o tema das capas dos principais jornais do Brasil no sábado. E é claro que não foi a capa da Zero Hora. Pelo contrário, mereceu apenas uma notinha espremida em um canto de página.

Ou também há outra hipótese: a manifestação da Concepa (concessionário que cuida da freeway) de que pensa em, de repente, quem sabe, pedir, em algum momento, o aumento do limite de velocidade da rodovia para 120 km/h pode ser mais importante e mais urgente do que o lançamento do programa de governo de um dos dois candidatos com chances na disputa pela presidência da república. Bom, aí Zero Hora acertou e Folha de São Paulo, O Globo e Estadão erraram feio.

Manchete da Folha de São Paulo: “PT apresenta programa mais radical para Dilma”. Manchete do Estado de São Paulo: “Petistas decidem radicalizar projeto de governo de Dilma”. Manchete do jornal O Globo: “PT aprova programa radical para a campanha de Dilma”. Manchete de Zero Hora: “Concepa pede que o limite da freeway suba para 120 km/h”.

Não pretendo, com este post, afirmar que a cobertura do fato pelos três jornais citados foi primorosa. Não vou entrar no mérito dos juízos de valor colocados nesses títulos ou fazer qualquer análise mais aprofundada sobre, por exemplo, o uso da palavra “radical” para classificar o programa. As eleições vêm aí e teremos muito o que discutir aqui sobre a cobertura que será feita – e já está sendo há muito tempo.

O foco deste post – e tentarei voltar a ele – é demonstrar que, mais uma vez, a Zero Hora brigou com a notícia. Ignorou – sim, dar uma nota para um assunto sobre o qual os outros deram a manchete é ignorar – o programa, e a chamada que está na capa relacionada às eleições é uma tentativa de colocar o candidato do PT ao governo do Estado, Tarso Genro, em colisão com a direção nacional do partido – na edição de segunda-feira uma notinha na página 10 registrou que Tarso criticou a abordagem feita pelo jornal, que teria distorcido as falas do candidato.

Aí algum entendido pode dizer: “Ah, mas é que tem que ver o horário de fechamento, a Zero Hora fecha antes e blá blá blá”. A edição de sábado de Zero Hora fechou precisamente às 22h30, enquanto a Folha, por exemplo, fechou às 21h. Um argumento a menos. Alguém pode achar que a matéria sobre a ideia da Concepa merecia mais destaque. Bom, aí é critério editorial, cada um com o seu cada qual, é possível que Folha, O Globo e Estadão tenham errado, e o anúncio do programa da Dilma mereça apenas uma nota.

Agora, se concordarmos que a matéria sobre a Concepa poderia ter esperado mais um dia ou saído em algum lugar secundário da capa, se concordarmos que o programa de governo de um dos candidatos favoritos à presidência do país é importante e se concordarmos que 21h é antes de 22h30, a constatação óbvia é de que Zero Hora brigou com a notícia. O que tem importado no jogo eleitoral para o jornal são as picuinhas, as intrigas, as fofocas. Programa de governo? Só merece uma notinha. É o reforço da má política, é o reforço da política como circo do qual a sociedade deve manter distância.

Postado por Alexandre Haubrich

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