Arquivos de etiquetas: Eleições 2010

A polarização dos meios

4 out

O final do primeiro turno das eleições nacionais é um bom momento para fazer uma pequena retomada, um resumo, do que foi a cobertura até aqui, ainda que o pleito tenha ido para o segundo turno, onde se enfrentarão Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). Pensando de forma retrospectiva e resumindo o que pode ser relembrado, pode-se perceber uma clara polarização na mídia brasileira.

Obviamente generalizando, podemos dizer que a grande imprensa, as grandes empresas de comunicação, defenderam – velada ou abertamente, caso do Estadão – a candidatura de Serra. Esse lado extremo fez da cobertura eleitoral uma campanha agressiva contra Lula e Dilma, trabalhando duro para trazer à tona fatos ou factóides que pudessem ser, de qualquer forma, ligados ao PT para prejudicar sua candidatura.

Não são as denúncias que critico, estas são função da imprensa, e deveriam, inclusive, estenderem-se aos outros candidatos. São as manipulações, as distorções e omissões, os ataques gratuitos, muitos deles demonstrados por A mais B em outros posts aqui no Jornalismo B.

No outro extremo está uma grande parte da pequena mídia, de comunicadores que, antes do início da campanha, trabalhavam com jornalismo crítico, ativista, comprometido apenas com os interesses da população. Durante os últimos meses, porém, tornaram-se pouco mais do que marqueteiros do PT. Misturando denúncias sérias com ataques gratuitos a Serra e aos outros candidatos, abandonaram a função de críticos para transformarem seus veículos em meios publicitários.

Não estou dizendo aqui que não se deva defender seus candidatos, mas é preciso saber diferenciar e deixar clara a diferenciação entre trabalho jornalístico e propaganda. Quando um espaço jornalístico transforma-se, repentinamente, em espaço publicitário, o leitor é enganado, passado para trás, e a totalidade dos veículos alternativos é afetada por esse engano deliberado, pois cada um perde credibilidade na medida em que está obviamente incluído entre os meios de contestação da grande mídia. Alguns desses veículos ainda reproduziram outras lógicas dos grandes meios, como a intolerância ao diverso e a falta de cuidado com algumas análises que em seguida se mostraram precipitadas.

Essa polarização é perigosa e antidemocrática, e esvazia o debate, o restringe a defesas partidárias intransigentes. O que podemos esperar é que, passadas as eleições, voltemos a ter uma mídia alternativa que seja também independente, crítica, marginal e unida no ativismo político, independente da ideologia partidária que cada um defenda.

Postado por Alexandre Haubrich

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O sigilo da filha de Serra e as revistas brasileiras

7 set

Das três principais revistas semanais sérias do Brasil, apenas uma dedicou a capa desta semana ao principal fato do momento: a quebra do sigilo da filha do candidato à presidência da República pelo PSDB, José Serra, e as acusações de Serra a Dilma Rousseff, sua principal adversária.

A Época foi a única que traz o assunto como destaque da edição. E traz de forma equilibrada, ao menos na capa. A manchete é “A Cartada de Serra”, com a linha de apoio “Em queda nas pesquisas, o tucano vai ao ataque e explora o crime cometido contra sua filha para tentar chegar ao segundo turno”. É, precisamente, o que aconteceu e o que vem acontecendo. Não há aí crítica a Serra ou atribuição da culpa da violação do sigilo de sua filha a Dilma, como alguns veículos vêm fazendo sem pudor. Tudo equilibrado.

Enquanto isso, Isto É e Carta Capital deixaram o tema em segundo plano. E não há dúvidas sobre a importância do assunto, o fato mais destacado relacionado às eleições presidenciais no momento.

A Isto É até se entende. Não costuma ser, realmente, uma publicação muito politizada. Volta e meia traz manchetes relacionadas a “qualidade de vida”, ou seja, remédios, estresse, estética e afins. É o caso desta semana. “Sonhos – como usá-lo na vida real” é a manchete, em uma semana na qual a campanha para a presidência está pegando fogo. Que tipo de critério editorial é esse, é difícil de entender, mas pode-se começar pela tentativa de esvaziamento do debate político e do abandono dos grandes temas nacionais pela publicação.

A Carta Capital, porém, não teria justificativa para a omissão, não fosse o fato de ter aderido à campanha do PT. Não é apenas uma questão de anunciar apoio a Dilma, mas de fazer com que o apoio atinja a qualidade jornalística do que é publicado. A chamada “O Império Vacila”, tratando da “saída” dos Estados Unidos do Iraque, é importante, claro, mas vai contra a tradição da Carta de priorizar sempre a cobertura da política nacional. Isso não acontece por acaso.

Postado por Alexandre Haubrich

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O povo não é bobo, ou #dilmafactsbyfolha

6 set

O grito de guerra “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” agora precisa de uma nova rima. Parte da militância política brasileira encontrou no jornal Folha de S. Paulo o alvo preferencial para críticas relacionadas à cobertura eleitoral em 2010. Após seguidas manchetes contrárias a Dilma Rousseff, candidata do PT à presidência da República, a Folha virou protagonista de uma forte mobilização de piadas no Twitter.

Inspirado no “Chuck Norris Facts”, que atribuía grandes feitos ao ator, está circulando no Twitter o “Dilma Facts by Folha”. São manchetes que, segundo os twitteiros, a Folha de S. Paulo faria para atacar Dilma. Coisas do tipo “Quando Dilma mergulhou no Mar Morto ele não estava nem doente”, ou “Adolescente grávida afirma: o pai é Dilma”, ou ainda “Dilma inventou a vuvuzela”. A hashtag (expressão) #dilmafactsbyfolha ficou boa parte do domingo em primeiro lugar no Trending Topics Brasil, que relaciona as expressões mais citadas no Twitter, e nessa segunda-feira continua entre as 10.

A reação da internet à cobertura que a Folha vem fazendo deve servir de alerta aos grandes veículos da imprensa brasileira: eles estão sendo fiscalizados. Ainda que tenham conseguido impedir até agora o avanço de qualquer proposta de controle social da mídia, não estão conseguindo barrar a força da internet, que tende a crescer e chegar às ruas em pouco tempo.

A imagem da Folha está sendo arranhada, isso é fato. Por causa de sua clara tendência a acusar Dilma e proteger o candidato do PSDB, José Serra, o jornal vem sofrendo pesadas críticas. Começa a ser construída na web uma imagem da Folha como pouco mais que um veículo a serviço do PSDB. O jornal tem muitas qualidades, é inegável, e essa imagem traduz apenas uma das facetas da Folha, mas é a que está começando a impregnar o imaginário.

A Folha, como os outros grandes veículos, precisa ficar atenta. Como anos atrás o grito de “abaixo a Rede Globo” ganhou as ruas, a comoção popular contra quem manipular as informações tende a crescer. A internet, aos poucos, vai tomar outros espaços, e tende a transferir seu potencial mobilizador para fora dos computadores. Se o fim dos jornais impressos não é uma realidade, o enfraquecimento dos veículos que não prestarem informações confiáveis parece ser o caminho que se avizinha. Agora, todos somos fiscais da mídia.

Postado por Alexandre Haubrich

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Comparando as entrevistas de Dilma, Serra e Marina ao Jornal da Globo

2 set

O Jornal da Globo apresentou, durante essa semana, entrevistas com os três candidatos que, segundo as pesquisas, estão na frente na disputa presidencial. Na segunda-feira a entrevistada foi Dilma Rousseff (PT). Na terça, José Serra (PSDB). Na quarta, Marina Silva (PV). À primeira vista, as entrevistas podem parecer mais ou menos equilibradas. Uma análise mais apurada das questões, porém, deixa expostos os ataques de William Waack e Cristiane Pelajo ao PT e a Dilma.

Dividindo-se as perguntas em “Negativas”, “Medianas” e “Propostas”, sendo estas últimas as que perguntam sobre propostas dos candidatos caso eleitos, a diferença entre as entrevistas é gritante. As dez perguntas feitas a Dilma ficam no bolo das “negativas”, sem qualquer sombra de dúvida. Vão desde questões sobre a aparência da candidata até corrupção, passando por Farc e uso político da Polícia Federal. Como é tradição do Jornal da Globo, entre as perguntas estão afirmações do ideólogo da direita e pancadas nada veladas no governo Lula. Exemplos: “Por que a senhora hesita em chamar as Farc de narcoguerrilha?”; “seu governo é acusado de colocar muitos militantes no governo”; “Muitos petistas envolvidos em escândalos estão na sua campanha”.

A entrevista com Serra é primorosa em questões que se encaixam perfeitamente em “Propostas”. Vamos a alguns exemplos: “o senhor diz que o cambio como está é prejudicial à economia. Como é possível fazer isso sem mexer no câmbio flutuante?”; “o senhor tem acusado alguns países vizinhos de relação com o tráfico. Caso eleito, o senhor vai fazer o quê?”; sobre Serra ter mandado dois discursos para o TSE no lugar do Programa de Governo, a questão é “qual é o seu programa?”.

Mesmo as perguntas feitas a Serra que poderiam ser consideradas “Negativas” não são tão negativas assim, possuem um grau menor de crítica implícita. Exemplos: “o senhor colocou as esperanças na propaganda eleitoral, e sua adversária subiu. O que deu errado?”; “Por que DEM e PSDB hesitaram tanto em fazer oposição?”; “o PSDB hoje tem vergonha das privatizações?”. A que pode ser considerada a mais incisiva não atinge diretamente Serra nem seu partido: “O mensalão do DEM prejudicou sua campanha?”. Apenas uma questão pode entrar sem dúvidas na categoria das “Negativas”, e pergunta sobre o que falhou no combate ao crack em São Paulo.

Por fim, a entrevista com Marina é um espaço onde as intenções tenderiam a ficar menos visíveis, mas estão lá. Entre as 12 perguntas colocadas por William Waack e Cristiane Pelajo, duas se referem a “Propostas”, duas são “Negativas” e duas são “Medianas”. As outras seis são críticas ao governo Lula ou entradas para críticas. “Quem seriam seus parceiros preferenciais na política externa?” é a tal entrada, porque a pergunta seguinte é sobre as relações com o Irã, que vem com um forte ataque ao presidente iraniano.

Algumas das perguntas “críticas ao governo Lula”: “a senhora diz que quer um milagre da educação, mas o governo do qual a senhora participou mudou muito pouco na educação. O que a senhora mudaria?”; “a senhora construiu sua vida política no Acre, e nos últimos 10 anos esteve ligada ao grupo político do PT, que domina a política local. O que pode explicar que nesse tempo todo tão pouco tenha sido feito pelo desenvolvimento do estado?”. Além dessas, mais questões sobre a política externa (Venezuela) e o agronegócio.

Com uma análise simples, fica clara a orquestração na montagem das entrevistas no sentido de prejudicar a candidata do PT, Dilma Rousseff. Mesmo com Marina, menos improvável, os entrevistadores usam o espaço para bater no governo Lula. É só comparar. O olhar comparativo é sempre fundamental.

Postado por Alexandre Haubrich

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Estadão publica cartaz de José Serra

25 ago

A valorização das imagens presentes nas matérias tem sido uma tendência nos principais jornais do país. A qualidade das fotografias e a importância dada a elas pelos editores vêm fazendo com que se tornem mais do que meros penduricalhos, mas sejam também formas de informar o leitor.

O Estado de São Paulo, porém, publicou nesta quarta-feira uma matéria que traz, em sua imagem, ao invés de um exemplar de fotojornalismo, uma peça publicitária. Em reportagem sobre novas estratégias da campanha de José Serra (PSDB) à presidência da República, o Estadão estampou, como imagem, o cartaz de um evento que o PSDB promoverá em São Paulo.

A opção editorial do Estadão foi tão grotesca que não pode ser encarada como apenas um erro. Só pode ser entendida como clara estratégia de propaganda do jornal a favor do candidato tucano, contra a candidata do PT, Dilma Rousseff.

Mais do que incomum, a publicação do cartaz do evento de Serra é antiética e pode ser considerada propaganda eleitoral. Cede o espaço a um anúncio publicitário, e cria confusão entre espaço jornalístico e de propaganda. O Estadão deixa claro, dessa forma, o apoio ao candidato do PSDB. Porém, não informa essa opção à população, apenas defende a candidatura de Serra descaradamente sem admitir.

A preferência da imprensa hegemônica brasileira por José Serra tem ficado clara, como comentamos em outros posts recentes. Porém, a atitude do Estadão chega a extremos, e traz a novidade de, além de carregar a defesa do PSDB nos textos, berrá-la nas imagens, não simplesmente com escolhas fotográficas favoráveis a ele, mas abrindo mão de fotografias, abrindo mão de qualquer coisa que se aproxime de fotojornalismo, para publicar um cartaz de divulgação.

Postado por Alexandre Haubrich

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Folha e UOL promovem novidade e ignoram outra

18 ago

Na manhã desta quarta-feira, Folha Online e UOL inovaram, mas mantiveram velhas práticas da política oligárquica e da imprensa que é sua porta voz. Em parceria, promoveram um debate online entre os candidatos à presidência da República, mas aproveitaram o vácuo legislativo para a internet no Brasil para adotar uma postura antidemocrática. A postura foi mantida e aprofundada nas matérias publicadas após o debate.

Para escolher os debatedores, os organizadores adotaram como critério os resultados das últimas pesquisas. Só participaria quem alcançasse 10% das intenções de voto. Dessa forma, participaram Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV). Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), destaque no primeiro debate televisivo, ficou de fora. As emissoras de televisão são obrigadas pela legislação a convidar o candidato do PSOL, por seu partido ter representação no Congresso. A falta total de regras para a internet possibilitou a decisão. Mas, embora a promoção de um debate seja uma questão jornalística, não é apenas desse fato que este post quer tratar.

Enquanto Folha Online e UOL transmitiam o debate, Plínio usou um recurso de webcam do Twitter, Twitcam, para comentar o que acontecia no encontro entre Dilma, Serra e Marina e, dessa forma, participar indiretamente das discussões, colocar-se, posicionar-se frente aos temas.

Assim como a promoção de um debate exclusivamente para a web, a atitude de intervenção de Plínio e a forma inteligente como ele usou a internet para democratizar a campanha foi inédita, e, no mínimo, digna de nota. Para a Folha e o UOL, não. Ainda que seja um fato importante e interessante dos entornos do debate que esses mesmos veículos promoveram, eles prefiram, de forma antidemocrática, ignorar a ação política do candidato do PSOL.

O Estadão Online foi o único veículo que deu ao fato o espaço devido. Embora o título da matéria distorça o que realmente aconteceu, dizendo que Plínio “hackeou” o debate, o texto mostra com clareza a ação, inclusive com o vídeo, e suas repercussões na web. Segundo o Estadão, “Plínio ficou oscilando entre as duas primeiras posições da lista de assuntos mais comentados do Twitter no Brasil – em maior destaque, inclusive, que a próprio debate. Entre 10h e 15h30, 1.760 tweets mencionaram ‘Plínio de Arruda’”. Foi isso o que Folha e UOL ignoraram solenemente. É o antijornalismo birrento.

Postado por Alexandre Haubrich

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Carta Capital escreve matéria ficcional sobre Serra e Yeda

17 ago

Ainda que parte dos jornalistas alternativos / independentes não goste, temos insistido aqui que a crítica, tanto à mídia quanto política, precisa ser feita de forma responsável, e não reproduzir a lógica aplicada pelos meios de comunicação dominantes. A Carta Capital, revista semanal brasileira mais séria, com mais credibilidade e com posturas mais transparentes, às vezes erra a mão na defesa do PT, e comete excessos que acabam por colocar em cheque essa confiabilidade.

Uma matéria de Lucas Azevedo, publicada nessa terça-feira no site da revista, traz três invenções ou distorções sobre o ato promovido na segunda-feira, em Porto Alegre, por um grupo suprapartidário em defesa da candidatura à presidência de José Serra (PSDB). Vamos a elas:

Ficção 1 - a linha de apoio:

Durante ato em Porto Alegre, tucano erra nome de candidata e pede votos a Fogaça.

Em nenhum momento Serra pediu votos ao candidato do PMDB. Disse, sim, que Fogaça ou Yeda, “um dos dois vai governar o Rio Grande”, e deu a entender que, na opinião dele, o Estado estaria em boas mãos com qualquer um dos dois. Em nenhum momento ouve “pedido de votos” a Fogaça.

Ficção 2:

Segundo reservadamente afirmaram participantes do encontro, a presença de Yeda no evento não estava programada. A impressão foi a de que ela chegou sem ser convidada, fez um discurso de improviso, e logo, convidada a se retirar.

A participação de Yeda estava confirmada pelo menos desde o final de semana. Um dos motes centrais do evento foi, inclusive, a entrega de um manifesto das mulheres do PSDB-RS a José Serra. Ou seja, não só a presença da governadora estava programada, como Yeda foi convidada, e não foi convidada a se retirar.

Ficção 3:

Posteriormente, ao pedir votos aos deputados estaduais que o apóiam, aos federais, e aos senadores, “esqueceu” de citar Yeda. Questionado por alguns participantes, disparou: “Ah, a Yeda. Vocês sabem que tem o meu partido com a Yeda que é uma grande candidata, uma grande governadora.

Esse “Ah, a Yeda” não existiu. Não dessa forma, não como lembrança que acaba de surgir. Serra citou o nome de Germano Rigotto, candidato do PMDB ao Senado, então se enrolou um pouco, na dúvida se devia tê-lo feito. Apenas isso, e então prosseguiu, chamando Yeda de “uma grande governadora” e elogiando também Fogaça.

A matéria é um conjunto de problemas, uma série de erros que, embora possa agradar a alguns leitores sedentos por sangue, reproduz as práticas de publicações como a Veja. Faz com que o leitor mais atento ponha um pé atrás em relação a outras reportagens da revista, e prejudica, além dela, quem costuma defendê-la e exaltar suas inegáveis qualidades. Não fechar os olhos para deslizes como esse é obrigação de quem defende uma mídia transparente.

Postado por Alexandre Haubrich

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Colunista política da Folha pensa em votar no Uni, Duni, Tê

16 ago

O esvaziamento do debate político é a mais danosa arma dos poderosos obsessivos. É danosa porque é eficiente, a omissão ilude com mais facilidade que a mentira. Ilude mesmo intelectuais preparados, ilude mesmo os tais “formadores de opinião”, ou sua versão mais moderna, os “multiplicadores”. Uma coluna quinzenal da Folha de S. Paulo que estreou dois domingos atrás se mostrou, nesses dois textos já publicados, um grande engano e um grande desserviço.

Fernanda Torres é atriz, filha de uma das maiores que já nasceram no país, Fernanda Montenegro. Mas Fernanda Torres meteu-se a escrever para a Folha, e sobre política. Sua coluna estreou no dia 1º de agosto em meio a outras novidades que, naquele fim de semana, surgiram na cobertura das eleições pela Folha.

Com um texto impecável, requintado e redondo, Fernanda Torres capricha nas referências, nas idas e vindas das ideias, unindo-as ao final em uma conclusão bem construída. Isso acontece tanto em “Dom Quixote de Ferrari”, sua estreia, quanto em “Uni, Duni, Tê”, publicado na edição do último domingo (15/8). Não fica claro, mas com poucas indicações qualquer um pode perceber rapidamente para que lado vão os textos. O primeiro texto trata de Cristóvão Buarque e Collor, e diz que quem pensa como o primeiro deve adquirir características do segundo, sob pena de não chegar ao poder. A segunda coluna é sobre a forma como a autora diz pensar em escolher em que candidato votar para a presidência.

Os dois primeiros textos da atriz que agora é comentarista política contribuem apenas para a tentativa de esvaziamento da política, o que, por sua vez, contribui apenas para manter o povo alienado e as elites de sempre no poder. “Uni, Duni, Tê” é um texto, publicado no maior jornal do Brasil, cuja autora afirma e argumenta explicando o porquê pensa em definir seu voto na sorte. Essa é a imprensa que precisamos para fortalecer a democracia, para incluir a todos no debate político, o debate que constrói a cada dia, a cada ação, a sociedade que temos?

A imprensa precisa ajudar a construir a democracia. Falar inadvertidamente em liberdade de imprensa é muito fácil, mas não é apenas disso que se faz uma sociedade verdadeiramente democrática. O estímulo ao debate e à participação política é papel fundamental da imprensa. O “são todos iguais” faz com que as pessoas acreditem que pensar não é preciso, e favorece sempre as piores escolhas. Fernanda Torres pode fazer melhor. A Folha, sempre preocupada com a qualidade de sua cobertura política, também.

Postado por Alexandre Haubrich

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Zero Hora e o debate dos presidenciáveis

10 ago

Depois da conhecida manipulação do debate entre Collor e Lula em 1989, pelo Jornal Nacional, as regras e práticas nas emissoras de TV para edição de debates tornaram-se mais rígidas, os cuidados passaram a ser redobrados. Parece que os veículos impressos não aprenderam a lição. Nos posts de hoje e amanhã o Jornalismo B comentará as coberturas feitas no sábado por Zero Hora e Folha de S. Paulo, referentes ao primeiro debate televisivo entre os presidenciáveis, ocorrido na quinta-feira (5/8), na Band.

A reportagem de Zero Hora é um show de esquizofrenia. O candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, abriu sua participação no debate perguntando: “Ué, não eram três? Agora são quatro?”. Plínio ironizava a grande imprensa, que o tem ignorado solenemente. Pois Zero Hora parece não ter ouvido. Continuou achando que são três. A reportagem é de uma página inteira, mas em nenhum momento cita Plínio, considerado por muitos o grande destaque do debate.

No Twitter, como a própria Zero Hora contou algumas páginas depois, houve um “boom repentino” na popularidade do candidato do PSOL, que passou de 9 mil para 15 mil seguidores, além de ter seu nome no primeiro lugar entre as palavras mais citadas no mundo. E, na matéria principal que ZH dedicou ao debate, não houve sequer uma referência a Plínio.

O texto que encabeça um quadro com promessas que teriam sido feitas pelos candidatos durante o debate é o retrato da esquizofrenia e da crise de identidade, o deslize em meio à deliberada omissão de informações. Os grifos são meus:

No primeiro debate da corrida presidencial, na quinta-feira à noite, os quatro principais candidatos aproveitaram para jogar suas promessas no ar. Abaixo, algumas das pretensões de Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva.

Quem é o quarto candidato Zero Hora não esclarece, e essa é a única pista contida na matéria pela qual o leitor possa imaginar que um quarto candidato participou também. Não passa disso. Esse mesmo quadro diz que Marina Silva (PV) defendeu a necessidade de regulamentação da Emenda 29, mas não explica o que é a tal Emenda.

A preocupação com “equilibrar” a matéria sobre o debate fez o jornal optar por limitar o texto às visões do PSDB e do PT sobre como os candidatos se saíram. Nada a criticar, houvesse aí algum conteúdo a mais do que simples defesas de Dilma e Serra. O texto não diz absolutamente nada sobre o que foi o debate.

Além da baixa qualidade da matéria como um todo, o desserviço à democracia prestado quando se ignora deliberadamente um candidato que teve muito destaque no debate. Mostra grande prepotência ao querer definir quem deve e quem não deve ser citado, brigando com os fatos, brigando com a notícia.

Amanhã, aqui mesmo, comentários sobre a cobertura da Folha de S. Paulo.

*Por problemas técnicos, ontem não tivemos post no Jornalismo B.

Postado por Alexandre Haubrich

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Os 50 seg mais importantes da campanha diária

2 ago

Começou nesta segunda-feira o horário eleitoral de maior audiência da televisão brasileira: a cobertura do Jornal Nacional, da TV Globo. A partir da edição deste dia 1º, o JN vai dedicar 50 segundos a mostrar o que fez cada um dos três candidatos favoritos, segundo as pesquisas, à presidência da República. Uma matéria da Folha de S. Paulo mostrou, também nesta segunda, a importância desse espaço, e como ele deverá ser aproveitado por cada candidato, além da linha que a Globo deve seguir. No primeiro programa, a Folha acertou todas.

O Jornal Nacional promete, como em 2006, esquivar-se da cobertura das polêmicas e discussões entre candidatos e aliados. Segundo a reportagem da Folha, o foco das matérias do telejornal deve ser sempre que possível nas falas dos candidatos mais diretamente relacionadas aos eventos dos quais participam.

Nesta segunda-feira, apenas a fala de José Serra (PSDB) destoou dessa lógica, mas ele estava em campanha no Bairro da Liberdade, tradicional reduto da comunidade japonesa em São Paulo, então não havia mesmo como tirar daí propostas específicas. Dilma Rousseff (PT) esteve no Comitê Olímpico Brasileiro, e o trecho de seu discurso apresentado foi exatamente sobre a formação de atletas. Marina Silva (PV) visitou o centro de reciclagem de uma fábrica de computadores, e sua fala destacada foi exatamente sobre a reciclagem. Além disso, as falas dos três tiveram os mesmos 19 segundos.

Insossa e esvaziada de realidade, com foco nas promessas feitas agora e não nas já cumpridas, não no que já foi feito mas no que está sendo prometido para os próximos quatro anos, sem mostrar quem foram e quem são os candidatos, mas quem eles dizem pretender ser. Assim deve ser a cobertura do Jornal Nacional até as eleições. A lei eleitoral é extremamente restritiva e complica o trabalho jornalístico e a chegada de informações mais aprofundadas à população, é verdade, e o caminho que o JN escolheu foi esse.

Com exceção da exclusão dos outros candidatos, passando a impressão de que apenas Dilma, Serra e Marina disputam a eleição, a cobertura no primeiro dia foi equilibrada, e deve se manter assim, a partir de agora, sem grandes desvios. É no entorno que devemos prestar mais atenção. Não serão as matérias especialmente dedicadas a Dilma, Serra e Marina que demonstrarão a linha que o Jornal Nacional seguirá ou uma possível defesa de alguma candidatura ou algum projeto político. É nas sutilezas que, a partir de agora, estará o posicionamento, como esteve na escolha da pesquisa que prejudicava Brizola em 1982, ou no comício pelas Diretas que virou “comemoração do aniversário de São Paulo” nas mãos da Globo em 1984, ou na edição do debate entre Lula e Collor em 1989.

Postado por Alexandre Haubrich

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