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Entrevista exclusiva com Marcos Rolim: “Os movimentos sociais são decisivos para a afirmação dos direitos fundamentais”

19 abr

Jornalista, ex vereador, deputado estadual e deputado federal pelo PT, Marcos Rolim sempre militou tendo a luta dos Direitos Humanos como principal norte. Na entrevista exclusiva que concedeu ao Jornalismo B, falou sobre violência policial, Copa do Mundo e mídia, e avalia os primeiros 15 meses de governo Dilma sob a ótica dos Direitos Humanos. A seguir, os trechos que tratam da influência da mídia na questão dos Direitos Humanos. A íntegra da entrevista está no Jornalismo B Impresso 35, que está circulando gratuitamente em Porto Alegre. Para assinar o jornal, em qualquer lugar do país, faça contato pelo bjornalismob@gmail.com.

Qual a importância da uma mídia democrática e popular na luta por Direitos Humanos?

Enorme.  A mídia constrói a esfera pública moderna, porque pauta a preocupação pública elencando “prioridades” que tendem a ser encampadas pelos governantes sedentos por visibilidade. A mídia também condiciona um tipo de sensibilidade política, sugerindo medidas,demandando investimentos e, sobretudo, não oferecendo espaços para determinadas demandas ou opiniões que contrariam os interesses ou os valores dos donos dos meios de comunicação.  As novas possibilidades inauguradas com as redes sociais e com o papel dos blogueiros abrem espaços importantes, mas não constituem – pelo menos por enquanto – alternativas que possam substituir os canais tradicionais de comunicação, destacadamente a TV. Então, penso que a luta pela democratização dos meios de comunicação e a necessidade do Poder Público incidir sobre emissoras de rádio e TV no sentido de assegurar que as concessões públicas sejam de fato públicas, respeitando o disposto pela Constituição Federal, sejam bandeiras muito atuais.  O Governo Federal tem sido, tanto quanto no passado, absolutamente omisso neste particular e não foi capaz, até hoje, sequer de moralizar as concessões de novos canais. Mais uma vez, os governantes fazem um cálculo e avaliam que não vale a pena contrariar os interesses dos grandes monopólios de comunicação. Uma lástima.

Que papel tem cumprido a mídia brasileira na questão dos Direitos Humanos? É possível que os mesmos grupos que apoiaram a Ditadura Militar tornem mais democrático o discurso que reproduzem?

Quando falamos em mídia e direitos humanos no Brasil é necessário atentar para a enorme complexidade desta relação. A mídia brasileira tem sido nossa aliada para a denúncia de algumas arbitrariedades praticadas pelo Estado; um apoio que foi e segue sendo decisivo. Por outro lado, há muitos programas na TV e no rádio que violam abertamente os direitos humanos e que reproduzem opiniões preconceituosas e intolerantes. Então, qualquer balanço sobre este tema deve evitar generalizações e estar atento para as possibilidades virtuosas de uma mídia comprometida com a missão civilizatória.  Quase toda a mídia brasileira que existia na época da ditadura apoiou os militares. Algumas empresas foram além disto e se prestaram a ajudar materialmente a repressão. Enquanto fizeram este serviço sujo, enriqueceram.  Então, este é um tema difícil para a imprensa brasileira que gosta muito de falar em nome da democracia.  Mas o fato de alguém ter errado no passado não significa que deverá errar sempre. Acredito sim em um processo de amadurecimento democrático da sociedade brasileira; algo que é muito mais lento do que gostaríamos, mas que também repercute na mídia.

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Pelo direito à Memória, à Verdade e à Justiça

13 abr

Prevista para abril, ainda não saiu a composição da Comissão da Verdade. Aprovada para investigar os crimes cometidos durante a Ditadura Militar – porém sem poder de punição – a Comissão segue sem um andamento efetivo. Quando iniciar os trabalhos, não terá o poder de punir torturadores e assassinos, e será composta por pessoas ditas “imparciais”, como se a imparcialidade fosse possível, especialmente em um caso como este.

Se o poder público, em qualquer de suas instâncias, não se mostra capaz de cumprir seu papel de protetor da sociedade e de promovedor da democracia, é a sociedade quem se coloca em defesa da verdade e da justiça. Foram nesse sentido as ações do Levante Popular da Juventude que, nas últimas semanas, organizaram manifestações em frente às residências de notórios torturadores que cometeram seus crimes em nome do Estado brasileiro.

A exposição desses criminosos é, também, uma forma de puni-los, mas mostrar aos vizinhos que “ao seu lado mora um torturador” e pichar palavras de ordem em muros e no chão são também formas de não permitir o esquecimento de uma parte da História que algumas forças ainda atuantes na política e na mídia brasileira tentam apagar.

Espera-se que a Comissão da Verdade em algum momento saia da gaveta da presidenta Dilma Rousseff. Espera-se também – e precisamos seguir buscando mecanismos de pressão para que isso aconteça – que, mesmo com suas limitações, possa fazer coro à sociedade organizada e ouvidos moucos aos militares de pijama e aos barões da mídia que seguem defendendo os destroços de uma ditadura que ajudou a implantar e a sustentar.

Não iremos esquecer.

O texto acima é o editorial da 35ª edição do Jornalismo B Impresso. A edição será distribuída em Porto Alegre na próxima semana, e o jornal pode ser assinado em qualquer lugar do Brasil. Os locais de distribuição continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B.

Nessa edição, temos textos sobre a Grécia, os 10 anos do Golpe contra Chávez, a Copa de 2014, além de uma entrevista com o militante dos Direitos Humanos Marcos Rolim.

É importante que todos os amigos do Jornalismo B se mobilizem para assinar e divulgar as assinaturas do Impresso. A assinatura pode ser feita em qualquer lugar do Brasil.

São três as possibilidades de assinatura: 6 edições – R$ 40; 12 edições – R$ 60; 20 edições – R$ 100. As edições são quinzenais. Para assinar, basta entrar em contato pelo email bjornalismob@gmail.com.

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Charge: Um saco de pancada para a mídia burguesa

1 fev

Yoani Sánchez: personagem e arma da guerra midiática contra Cuba

27 jan

Com a viagem da presidenta Dilma Rousseff a Cuba, programada para a próxima semana, a trupe dos jornalões brasileiros não quis perder a oportunidade de pressioná-la. Uma das mais recorrentes críticas da mídia dominante ao governo de Lula se referiu à política externa. Ao contrário de todos os governantes anteriores, o petista manteve, de modo geral, um posicionamento independente, desagradando os setores da sociedade brasileira que sempre lucraram com um país subordinado aos interesses imperialistas (nas últimas décadas isso pode ser lido como EUA, mas não apenas isso) e que buscava estrangular os mais fracos.

A guinada da América Latina como um todo em direção a políticas externas de colaboração em detrimento da competição canibal entre os países historicamente explorados incomodou as elites e, é claro, seus representantes midiáticos. A pressão – e a sutil porém real mudança ideológica – já fizeram com que Dilma assumisse postura muito mais ofensiva do que Lula em relação ao Irã. Agora, estratégia de mídia semelhante é usada para afastar a presidenta do governo cubano. E uma peça vem sendo – e continuará a ser – fundamental nesse jogo: Yoani Sánchez.

A blogueira cubana é, há anos, estrela internacional da luta imperialista contra a Revolução Cubana. Multivencedora de premiações promovidas por jornais e organizações internacionais afinadas com o neoliberalismo, Yoani costuma reclamar muito do que chama de “falta de liberdade de expressão” em Cuba, mas mantém seu blog no ar sem problemas, assim como sua conta na rede social Twitter. Da mesma forma, costuma dar muitas entrevistas, por telefone, email, ou mesmo pessoalmente. Mesmo assim, se diz perseguida. O Generacion Y, blog mantido pela cubana, é traduzido em 18 idiomas, e não se conhece outro site no mundo com esse número de traduções. As fontes dessa força não são conhecidas, assim como não são conhecidas muitas questões em torno de Yoani. As premiações, por exemplo, ajudam a sustentar sua tranquila vida em Havana. Quais interesses representam, é uma questão que a grande mídia internacional não costuma colocar nas centenas de vezes em que cita ou entrevista a blogueira.

Apenas em 2012, do qual não completamos nem o primeiro mês, os três maiores jornais brasileiros – Estadão, Folha de S. Paulo e O Globo – já fizeram cada um uma entrevista exclusiva com Yoani, além da publicação de incontáveis matérias e notas de agências. É claro que nenhuma delas questionou o financiamento do Generacion Y, a “censura” que a entrevistada alega sofrer, ou qualquer questão mais profunda ou contundente sobre a situação em Cuba. O tema dos cinco cubanos presos nos EUA, trazido novamente à tona pelo recente livro de Fernando Morais, também não foi colocado. Sobre o cerco do governo norte-americano a Cuba, novo silêncio.

Há, sim, nas três entrevistas, pressão combinada entre a entrevistada e os entrevistadores para que, em sua visita a Cuba, Dilma se encontre opositores do governo cubano, mas, curiosamente, quando um presidente brasileiro vai aos EUA não se faz pressão para que reserve espaço para audiências com a oposição do momento. Ao mesmo tempo, há gritos pelo direito de Yoani de vir ao Brasil, mas a legislação cubana para imigração não é explicada com clareza em momento algum.

Apenas o jornal Zero Hora conseguiu superar Estadão, Folha e O Globo. Em menos de um mês, duas entrevistas com Yoani, ambas por telefone. Parece que o acesso da imprensa internacional à blogueira não é tão difícil. Onde está a censura, então? Uma entrevista concedida por Yoani a um jornalista francês, em 2010, dá boas indicações sobre a resposta mais adequada. Mas é claro que essa reportagem, absolutamente crítica e que derruba por terra a credibilidade da blogueira, não foi reproduzida ou comentada na velha mídia brasileira. Não é aquela a face de Yoani que interessa aos grandes grupos midiáticos. Ao francês Salim Lamnarium, ela afirma que seu blog não pode ser acessado em Cuba, ao que ele responde que acabara de acessá-lo. Então ela se enrola um pouco, e reclama que não tem espaço nos maiores veículos de mídia do país. Quantas pessoas têm espaço nos maiores veículos de mídia do Brasil?

Yoani é uma peça interessante no tabuleiro que sedia a luta entre a Revolução Cubana e o imperialismo capitalista. Ela usa a mídia internacional para se promover e ganhar dinheiro – muito dinheiro, como indicam ao menos as premiações que recebe – ao mesmo tempo em que é usada como fonte principal de tudo o que se fala sobre Cuba, sempre com o direcionamento de ataques frontais ao governo cubano. As entrevistas a que a blogueira responde são pouco questionadoras e muito elogiosas à “sua luta por liberdade”, e, nessa dinâmica, é construída uma imagem de Cuba filtrada apenas pelos olhos suspeitos de Yoani Sánchez e por sua conta bancária recheada de dólares e euros.

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Ano de eleição, responsabilidade dobrada

13 jan

A cada dois anos vive-se um momento em que a desconstrução do discurso da mídia dominante se torna uma tarefa ainda mais importante. Em países com sistemas políticos representativos que praticamente descartam a participação popular nos processos decisórios – caso do Brasil – o embate eleitoral é o ponto culminante da disputa pelo centro do poder político. Ainda que as alternativas nas eleições sejam profundamente limitadas e que a dinâmica política aja para barrar a emergência de novas possibilidades, e considerando-se todas as limitações e distorções do modelo da chamada democracia representativa e, em especial, do sistema político brasileiro, a cada dois anos presenciamos – e influímos sobre ele – o ponto culminante da disputa política.

É em um ano eleitoral que acabamos de entrar, e sabemos bem o papel da mídia nesse tipo de disputa. Na última oportunidade, os maiores jornais, revistas e redes de televisão do país atuaram de forma orquestrada em defesa da candidatura do candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra. Até uma bolinha de papel foi usada para tirar as atenções do que realmente importava naquele momento: a distinção entre os projetos de país defendidos pelos quatro candidatos: José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL). A tentativa de transformar a eleição em um embate moral – e não político-ideológico – partiu em primeiro lugar de alguns conglomerados de comunicação.

Por outro lado, vimos uma divisão raivosa entre setores da esquerda, racha esse que, infelizmente, varou o ano de 2011 e dificultou o bom debate sobre temas em que estes setores sempre defenderam interesses comuns – ou ao menos aproximados –, como a punição aos criminosos da Ditadura Militar e a democratização da mídia brasileira. O calor da disputa eleitoral de 2010 criou desavenças pessoais e levou a esquerda mais para a esquerda e a centro-esquerda mais para o centro, abalando as pontes de diálogo. O resultado é que, mesmo com a vitória do PT de Dilma, todos os campos da esquerda midiática perderam com o desgaste causado pelo processo eleitoral. Além disso, o último ano foi nulo em avanços na democratização da mídia a nível nacional. Uma das primeiras aparições públicas da já eleita presidenta Dilma Rousseff foi na celebração do aniversário da Folha de S. Paulo.

Em outros momentos da história brasileira a intervenção da velha mídia sobre as decisões eleitorais foi ainda mais incisiva. Exemplos clássicos são a disputa pelo governo do Estado do Rio de Janeiro em 1982, com o “Escândalo da Proconsult”, no qual a Rede Globo participou de uma tentativa de fraudar as eleições ganhas por Leonel Brizola (PDT), e a campanha presidencial de 1989, com a manipulação do debate final entre Lula (PT) e Collor (PRN). Se nesta última situação a velha mídia e seu candidato acabaram levando a melhor, não foi isso o que aconteceu nas últimas três eleições presidenciais.

O fortalecimento dos blogs e das redes sociais, se não é suficiente para democratizar verdadeiramente a comunicação, ao menos serve para desconstruir o discurso da mídia dominante e desmascarar suas manipulações. Outro fator que não pode ser deixado de lado é a queda de audiência da TV Globo e a ascensão da Record, que se mostrou simpática à candidatura de Dilma em 2010.

De qualquer forma, teremos em 2012 mais um momento assim. Desde o fim de 2011 os interesses eleitorais já começaram a fazer valer sua força nas pautas da mídia hegemônica. A prática mais comum é a agressividade nos meses que antecedem a disputa e a sutileza nos momentos de campanha, com a simples incorporação dos discursos dos candidatos preferidos pelos barões da mídia. Por isso, é preciso estarmos atentos desde já.

É verdade que eleição não é sinal de democracia, e que não pode se esgotar ali a possibilidade de participação popular na política nacional. É verdade também que o poderio econômico faz grande diferença em um processo eleitoral, o que o torna terrivelmente menos democrático e justo do que poderia ser. E é verdade que os interesses conservadores tendem, em menor ou maior medida, a se fortalecerem apoiando-se em conchavos e mentiras disseminadas pela velha mídia. Mas também é verdade a mídia independente, capitaneada hoje por blogueiros e pelos ativistas das redes sociais, tem condições de tornar as eleições mais justas e democráticas, informando com qualidade a sociedade e abrindo espaço para um debate rico e realmente politizado e politizante. É uma das nossas missões fundamentais para este 2012 que começa.

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Velha mídia quer governar mesmo perdendo eleição

16 nov

Não foram poucos os posts que, no ano passado, acompanharam a intensa campanha da mídia dominante contra a eleição de Dilma Rousseff à presidência da República. De ficha falsa no DOPS à bolinha de papel arremessada contra José Serra, a velha mídia foi um elemento fundamental na tentativa do PSDB de voltar ao governo federal. Não deu certo.

E esses setores da mídia, acostumados às benesses do poder, aos carinhos do imperialismo (vide as relações de jornalistas como William Waack com o governo norte-americano, reveladas pelo Wikileaks), não aceitaram bem a derrota. Dilma tem se esforçado para agradar os grandes conglomerados de mídia. Nos primeiros lances de seu mandato, esteve ao vivo na TV Globo, e em seguida discursou no aniversário da Folha de S. Paulo. Trocou Franklin Martins por Paulo Bernardo e, dessa forma, travou os parcos avanços que a força da militância organizada vinha começando a alcançar no caminho da democratização da comunicação.

Mesmo assim, Dilma segue sendo atacada. Se não diretamente, ao menos de forma indireta. Seu governo vem sendo uma sucessão de concessões aos caprichos da grande mídia, que resolveu mostrar aos leitores e eleitores que ainda tem poder suficiente para mandar e desmandar no país. Derruba um ministro atrás do outro, e sua sede de comando sobre o governo federal é insaciável.

No fim do último mês e no início deste novembro, o alvo foi o ministro da Educação, Fernando Haddad. Ele é o candidato óbvio do PT à prefeitura de São Paulo em 2012, o que direcionou a artilharia de Folha de S. Paulo, Estadão, Globo e Veja. Na aparente impossibilidade de derrubá-lo, trocou-se de alvo. Agora os ataques de todos estes veículos se concentram em Carlos Lupi, ministro do Trabalho. As manchetes dos sites são praticamente as mesmas: EstadãoPDT avalia saída de Carlos Lupi do Ministério do Trabalho; FolhaPresidente do PDT defende que ministro Carlos Lupi deixe cargo; G1PDT diz que avalia se é ‘oportuno’ Lupi continuar no cargo.

A coincidência entre os ministros derrubados é que apenas Antonio Palocci é do PT, e apenas Pedro Novais não esteve no governo Lula. Ou seja, considerando os seis ministros de Dilma já derrubados e Carlos Lupi, que agora alguns setores da mídia tentam derrubar, apenas um é do PT e apenas um não esteve no governo Lula. A velha estratégia do dividir para dominar é clara e óbvia. Sem poder fortalecer seus partidos, a tática é enfraquecer a aliança governista, a começar pelo próprio PT – com suas divergências programáticas e pragmáticas internas –, chegando à coalizão que sustenta a governabilidade. Impedir Dilma de governar, com uma sucessão de crises e com um racha entre os partidos da base é a estratégia eleitoral que já começa a ser aplicada com vistas a 2012 e, especialmente, 2014.

*A lista dos ministros que já saíram do governo Dilma:

Antonio Palocci – PT

Nelson Jobim – PMDB

Alfredo Nascimento – PR

Pedro Novais – PMDB

Wagner Rossi – PMDB

Orlando Silva – PCdoB

* Este post não visa defender ou condenar qualquer um dos ministros citados ou o governo Dilma em sua totalidade. O objetivo é apenas demonstrar a forma como determinados setores da mídia brasileira agem em relação ao poder.

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A ingerência midiática no Brasil e o exemplo argentino

26 out

A arrogância da mídia hegemônica parece não ter limites. E acaba respaldada a cada situação em que o poder estatal cede ao poder de fato representado pelo aparato da mídia corporativa, cede à pressão dos grupos econômicos que controlam a comunicação brasileira. Esta última semana trouxe dois exemplos que, ao mesmo tempo em que se encaixam com perfeição, se distanciam. A vitória de Cristina Kirchner na eleição presidencial argentina, e a queda do agora ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva (PCdoB).

Cristina se reelegeu com o melhor resultado que o chamado “kirchnerismo” (que inclui as presidências de Nestor Kirchner) já obteve. E isso após criar a Ley de Medios, que tem lutado contra o monopólio do Grupo Clarín na comunicação argentina. Cristina fez toda sua campanha sem falar com os veículos do Grupo. O principal deles, o jornal Clarín, publicou, nos últimos 15 meses, 347 manchetes negativas sobre a presidenta, segundo levantamento de outro jornal, o Tiempo Argentino. Com a vitória do kirchnerismo, o processo de democratização da mídia argentina deve se aprofundar, com a regulamentação e a aplicação dos últimos artigos da Ley de Medios.

É claro que a mídia brasileira tem acompanhado com atenção os acontecimentos logo ao lado. A mídia independente, de modo geral, pede para o Brasil uma lei nos moldes da argentina. Por outro lado, a velha mídia treme, e não perde oportunidades de atacar Cristina. Em sua prepotência, já afirmou mais de uma vez que a derrocada do kirchnerismo e de todos os atuais governos progressistas da América Latina estava próxima.

Em 27 de outubro de 2010, quando da morte de Nestor, a jornalista política Miriam Leitão, uma das estrelas da mídia hegemônica, decretou em seu blog: “Assim, dividida, fragmentada, em delicado momento político, a Argentina perde o ex-presidente que a tirou da última e devastadora crise de 2001/2002. Sem ele, acaba o Kirchnerismo”. Mais de dois anos antes, em 17 de julho de 2008, outro nome forte da direita midiática brasileira, William Waack, escreveu sobre uma derrota do então presidente Nestor no parlamento: “Derrota do governo sinaliza o fim do kirchnerismo na Argentina”.

Para esse setor da imprensa brasileira, o kirchnerismo já deveria ter acabado uma dúzia de vezes. Mas o governo soberano da Argentina, que não faz acordos ou concessões aos grandes meios de comunicação, sobreviveu e segue se fortalecendo a cada eleição. A visão da mídia dominante brasileira sobre si mesma, como dona do passado, do presente e do futuro, não existe sem motivo. Ao contrário do governo argentino, o brasileiro segue legitimando e obedecendo as oito famílias que controlam a comunicação no país.

Esta semana, mais uma vez, o governo federal cedeu às pressões, deixou os conglomerados de mídia definirem os rumos do país, e derrubou mais um ministro, agora Orlando Silva, dos Esportes. É o sexto ministro a sair em menos de onze meses de governo. Cinco deles estiveram também no ministério de Lula. A estratégia é clara: minar Dilma e o PT frente à população, enfraquecer a militância e dividir as forças governistas.

Depois de passar toda sua campanha presidencial sofrendo com ataques da Folha de S. Paulo, Dilma Rousseff discursou no aniversário do jornalão paulista. Depois de ser atacada pela Rede Globo durante toda a campanha, correu ao Jornal Nacional, alavancar a audiência de quem foi o principal partícipe midiático da famosa “farsa da bolinha”. Com um início de governo assim, não se poderia esperar muito. As concessões ao poder da grande mídia se sucedem, e vivemos um momento de avanço midiático sobre o poder estatal, que se curva amedrontado e adoentado. Cristina Kirchner já mostrou que se pode fazer diferente. Trata-se de uma opção política.

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A comunicação como direito

21 out

Existem alguns direitos inalienáveis a qualquer ser humano. São os elementos da vida social indispensáveis a uma existência plena enquanto indivíduo e cidadão. São necessidades que devem ser atendidas pelo Estado, cuja existência deve servir justamente a esse propósito. Quando esses direitos fundamentais começam a ser privatizados as conquistas sociais são ignoradas, e os direitos se transformam em mercadorias para consumo de uma parte mínima da população, excluindo todos os demais.

Na sociedade brasileira, em sua inserção descontrolada no mundo capitalista, essa mercantilização dos direitos fundamentais acontece na Saúde, na Educação, na moradia, e acontece também na mídia. A comunicação é um direito de todos os seres humanos, e vem sendo transformada em privilégio de poucos através do abuso de poder econômico e político.

Nesse contexto, o papel do Estado é justamente coibir esses abusos, e garantir à população o direito à voz, o direito a não apenas receber informações, mas a produzi-las. O direito inalienável a se comunicar. É nesse sentido que vêm atuando alguns dos novos governos progressistas da América Latina. Em níveis diferentes e com suas particularidades nacionais, Argentina, Venezuela, Equador e Bolívia têm trabalhado para a democratização da mídia. O governo brasileiro, em alguns setores alinhado a esse progressismo, prefere manter-se afastado do debate sobre a comunicação, evitando enfrentar os poderosos interesses da mídia corporativa.

É preciso pressionar para que, da mesma forma como a velha mídia derruba ministros com suas denúncias, o governo brasileiro passe a escutar também os comunicadores independentes, e nossa pressão faça com que avance, enfim, a garantia do direito de todo o povo brasileiro a se comunicar.

O texto acima é o editorial da 30ª edição do Jornalismo B Impresso, que começa a ser distribuída em Porto Alegre na próxima semana. Os locais de distribuição continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B.

O Jornalismo B está completando quatro anos. Já são mais de quinhentos mil acessos ao blog, quase 6 mil followers no Twitter e chegamos agora a 30 edições do Jornalismo B Impresso. Tudo isso já é muito, mas ainda é pouco. O fortalecimento da mídia independente é o objetivo fundamental, e o espaço para uma mídia democrática no Brasil ainda é muito pequeno para acharmos que vamos bem.

O Jornalismo B é um desses espaços, construído diariamente por todos que lêem e comentam no blog, divulgam os posts, acompanham e assinam o Jornalismo B Impresso e colaboram das mais diversas formas na construção do conteúdo. O Jornalismo B Impresso, com quase um ano e meio circulando, vem ocupando terreno importante. Enquanto o blog visa desconstruir o discurso da grande mídia, das elites, o jornal reconstrói esse discurso a partir de uma perspectiva à esquerda, democrática, popular.

Para quem pensa o mundo a partir dessa linha, assinar o Jornalismo B Impresso é uma forma de ver suas ideias difundidas, divulgadas, expandidas. Assinar o Jornalismo B Impresso é participar dessa luta e ajudar a fortalecer a mídia independente. Com esse entendimento e como forma de reconhecimento da importância dos assinantes para o Jornalismo B, o mês de aniversário do blog será mês de promoção.

Todas as pessoas que assinarem o jornal no mês de outubro concorrerão ao livro João do Rio: um dândi na Cafelândia, uma seleção de textos de um dos grandes jornalistas e escritores brasileiros. Para quem já assina, não há problema: renovar a assinatura em outubro também dá direito a concorrer. Dessa forma, reforçamos o trabalho conjunto com os leitores que nos acompanham e apoiam. A promoção é mais um resultado da parceria com a livraria Letras e Cia, parceira do Jornalismo B já há bastante tempo.

São três as possibilidades de assinatura: 3 meses – R$ 30; 6 meses – R$ 50; 12 meses – R$ 100. Para assinar, basta entrar em contato pelo email bjornalismob@gmail.com.

Em editorial, Band ataca direito de greve e ameaça governo federal

10 out

No fim da última semana o Jornal da Band levou ao ar mais um editorial do Grupo Bandeirantes de Comunicação, lido por Joelmir Betting. No texto, o grupo critica a greve dos trabalhadores dos Correios, não a respeita enquanto instrumento de luta, e, mais do que isso, ataca o Governo Federal pela “falta de ação das autoridades diante da greve”.

Segundo a Band, a “falta de ação” mostra “a covardia com que esse governo lida com mobilizações sindicais”. “Nenhuma atitude enérgica em 23 dias de paralisação”, reclama a emissora. O editorial afirma que o governo tem “mais medo dos grevistas do que da justa indignação dos milhões de cidadãos prejudicados”. A tentativa de jogar o governo contra os grevistas e forçar uma atitude extrema, de ataque ao movimento, é acompanhada de uma livre interpretação da sensação da população frente à greve.

Por fim, a ameaça ao governo: “Enganam-se esses farsantes se pensam que poderão afrontar o interesse público por muito mais tempo (…). Podem acender o farol vermelho da paciência nacional. Autoridades: cuidado”. Mais uma demonstração do fato de a mídia dominante se ver como a maior autoridade nacional, com poder para ditar o que os governantes devem fazer e o que o povo deve pensar.

Afirmar diariamente que a população detesta as greves e todas as outras formas de protesto é agir para torná-la acomodada, para enfraquecer os movimentos políticos organizados e para criar objetivamente a realidade que afirma apenas retratar. É justamente isso o que faz a velha mídia brasileira, e a Band não é diferente.

Em tempo: não foi o primeiro editorial em que a Band destilou seu veneno contra o governo do PT e os movimentos sociais através da voz de Joelmir Betting, sempre em tom de ameaça e de alarmismo, sempre em defesa das elites. Alguns exemplos abaixo:

Ataque ao Plano Nacional de Direitos Humanos e ao Plano de Cultura, acusando o governo de tentativa de cercear a “liberdade de expressão”:

 

 Defesa do novo Código Florestal: “produtores do agronegócio são os verdadeiros trabalhadores e defensores da ecologia”:

Ataques a Lula e ao MST, defesa do agronegócio:


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Ataques a Lula são ponta mais visível do neonazismo midiático

27 set

Desde que Dilma Rousseff começou a ser cotada como candidata do PT à sucessão de Lula a mídia hegemônica brasileira começou a deslegitimá-la e diminuí-la pelo fato de ser mulher. Essa ação aconteceu das mais diversas formas, da mais sutil à mais violenta, e já foi diversas vezes tratada, analisada e criticada aqui no Jornalismo B. A crítica a Dilma partir de um elemento social pessoal, e não político ou ideológico, não é, porém, nenhuma novidade. Com Lula já era assim. Nordestino, pobre, metalúrgico, sem diploma universitário. Desde sempre foram esses os elementos fundamentais do veneno destinado a Lula pela mídia oligárquica nacional – e internacional.

Lula saiu da presidência, mas seu status de grande liderança do PT – nacionalmente – e do Brasil – no cenário internacional – continua intacto. Na tarde desta terça-feira, recebeu de Ruchard Descoings, diretor do Sciences Po, da França, o doutorado Honoris Causa, concedido pela primeira vez pelo instituto a um latino-americano.

Foram enviados repórteres de alguns veículos brasileiros. Mas, ao que tudo indica, não foram a Paris para cobrir a entrega da distinção. Foram fazer lá o papel que fazem aqui, ou seja, de oposição raivosa e intransigente, de ataque gratuito justamente a um presidente que pouco ou nada fez para acabar com o monopólio de que usufruem esses mesmos meios de comunicação.

Trechos da matéria de um repórter do jornal argentino Página 12, impressionado com as perguntas feitas pelos brasileiros a Descoings na coletiva do diretor do Sciences Po: “Um dos colegas perguntou se era o caso de se premiar a quem se orgulhava de nunca ter lido um livro”; “‘Por que premiam a um presidente que tolerou a corrupção?’, foi a pergunta seguinte”; “Outro colega perguntou se era bom premiar a alguém que uma vez chamou de ‘irmão’ a Muamar Khadafi”; “Outro colega brasileiro perguntou, com ironia, se o Honoris Causa de Lula era parte da política de ação afirmativa do Sciences Po”. O próprio jornal O Globo publicou entrevista entrevista com Descoings na qual a primeira pergunta da repórter Deborah Berlinck é “Por que Lula e não Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor, para receber uma homenagem da instituição?”.

Os relatos de brasileiros que vão ao exterior – inclusive alguns repórter – falam de países onde o Brasil passou a ser respeitado nos últimos dez anos. Nossa imagem para o resto do mundo inegavelmente foi modificada durante o governo Lula. É contra esse avanço que os lacaios da mídia entreguista neoliberal lutam como baleias agonizantes na areia. Lutam contra um país que já não se ajoelha perante o imperialismo e contra o operário que liderou seu levantar.

Fernando Henrique Cardoso é o presidente ideal da mídia elitista. Paulista, branco, rico, intelectual, cheio de diplomas, homem. Mulher, nordestino, pobre, sem diploma, operário, negro, homossexual, nem pensar. A mídia dominante quer impor seu padrão de gênero, de classe e de etnia às lideranças do país, e não pode, em seus padrões “arianos” de excelência, aceitar o comando de um subalterno, de um sujo. Lula não pertence à “raça perfeita” do neonazismo midiático que, se não mata, semea o ódio. E o ex presidente é apenas a ponta mais alta dos ataques dessa mídia contra os setores sociais oprimidos. Diariamente esses setores são atacados de forma ainda mais violenta, e são muito mais vulneráveis a esses ataques do que Lula.

Vale lembrar, por fim, que em oito anos na presidência Lula pouco ou nada fez para combater o domínio dessa mesma mídia que o ataca de forma tão baixa. Dilma também não sinaliza possibilidades de avanço. Alimentam o monstro. Parafraseando Augusto dos Anjos, o PT afaga quem apedreja sua mão, beija a boca que lhe escarra.

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