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Entrevista exclusiva com Juremir Machado

23 mar

O jornalista Juremir Machado da Silva é colunista do Correio do Povo e professor da faculdade de jornalismo da PUCRS, além de coordenar o Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Juremir trabalhou também nos jornais Zero Hora e Folha de S. Paulo, além da revista Isto É. Em seus estudos na Europa, teve contato próximo com alguns dos grandes intelectuais europeus da atualidade, como Michel Maffesoli, Edgar Morin e Jean Baudrilard.

Na entrevista a seguir, exclusiva ao Jornalismo B, o autor de “Getúlio”, “1930” e “História regional da infâmia”, entre muitos outros, fala sobre liberdade de imprensa, perspectivas do jornalismo brasileiro e o momento da mídia nacional.

Jornalismo B – Qual a tua avaliação do momento atual da mídia alternativa brasileira? E o papel das novas mídias nesse contexto?

Juremir Machado – A mídia brasileira é mediana: há muito compadrismo e provincianismo nos grandes jornais de Rio de Janeiro e São Paulo em se tratando de cultura. As novas mídias podem fazer a diferença, mas para isso será preciso parar de apenas refletir a mídia convencional e bajular suas celebridades.

Jornalismo B – Quais as principais dificuldades ainda enfrentadas pelos blogs e pelas redes sociais como espaço forte de comunicação? E quais os principais avanços que já foram feitos?

Juremir Machado – A dificuldade é encontrar leitores. Os blogs estão cansando quem os escreve, pois o número de leitores é baixo. Eles crescem como contrapoder, ou seja, naquela hora em que falam de coisas importantes ou denunciam informações oficiais.

Jornalismo B – Qual a avaliação do momento atual da mídia dominante?

Juremir Machado – Mediano. Há momentos inspirados, de crítica e denúncia, mas na maior parte do tempo é pura ideologia, puro jogo de interesses menores e puro jogo de cena.

Jornalismo B – De que forma o governo e a sociedade organizada podem atuar na defesa de uma comunicação mais democrática?

Juremir Machado – Participando, criticando, debatendo, cobrando, exigindo…

Jornalismo B – Qual o espaço ainda existente para que jornalistas críticos, contestadores, atuem na grande mídia? Em que medida isso é possível?

Juremir Machado – Sim, em cada jornalão há algum espaço para isso. É um sistema complexo, contraditório, com brechas e até grandes buracos. Tudo depende de muitos fatores, talento, capacidade de negociação, de engolir sapos, de driblar, de conquistar o público, de atrair anunciantes, de cumprir um papel, etc.

Jornalismo B – Existe liberdade de imprensa no Brasil?

Juremir Machado – Sim. No jogo complexo da totalidade, sim. O que não sai num lugar, sai no outro. É assim em todo o mundo. Em cada veículo, porém, pode haver limites políticos, ideológicos, conjunturais e mercadológicos. O anunciante tem peso. O maior anunciante, muitas vezes, é o governo. Joga-se com tudo isso. Mas dificilmente a informação decisiva deixará de ser publicada, pois seria deixar a bola para a concorrência.

Jornalismo B – Qual a tua opinião sobre iniciativas de controle social da mídia?

Juremir Machado – Sou totalmente contrário. O único controle que não faz ainda mais estragos é o da crítica, do público, do debate, da mudança de canal ou de jornal. O resto é censura.

Jornalismo B – Qual é o papel fundamental do jornalismo hoje?

Juremir Machado – O de sempre: informar, formar, entreteter, divertir, denunciar, cobrar, criticar.

Jornalismo B – Quais as perspectivas para o futuro do jornalismo brasileiro?

Juremir Machado – Muito boas. Quanto mais meios, quando todo mundo pode ter o seu meio (twitter, facebook), tudo fica melhor e o jogo mais complexo.

Postado por Alexandre Haubrich

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No Brasil existe censura, sim

16 fev

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Rodrigo Cardia*

Sabe-se que as relações de força nunca se reduzem a relações de força: todo exercício de força é acompanhado por um discurso que visa legitimar a força de quem a exerce; pode-se mesmo dizer que é próprio de toda relação de forças dissimular-se como relação de força e de só ter toda sua força na medida que ela se dissimula como tal. Em suma, para falar simplesmente, o homem político é aquele que diz: “Deus está conosco”. O equivalente de “Deus está conosco” é, hoje em dia, “a opinião pública está conosco”. – Pierre Bourdieu

Quando se fala em qualquer iniciativa que vise à democratização da imprensa no Brasil, a mídia corporativa reage com o velho brado: “querem ressuscitar a censura!”. O mesmo é utilizado quando se fala em regular a programação da televisão, para que os programas sejam adequados aos horários em que são exibidos.

Porém, ela reage assim para esconder o fato de que a censura continua a existir no país. Só que ela é diferente daquela da época da ditadura militar. Naqueles tempos difíceis, a censura era política, pois era fruto do abuso do poder político. Hoje, ela é econômica.

Esse tipo de censura nos atinge muito mais do que pensamos. Jamais veremos, por exemplo, algum dos principais jornais do Brasil publicar matérias que demonstrem o quanto melhor para a cidade – e mesmo para a saúde humana – é trocar o carro pela bicicleta: basta folhear o jornal e contar os anúncios de revendas de automóveis… A mídia corporativa depende dos anunciantes para sobreviver. Logo, não irá divulgar alguma notícia que prejudique os interesses das empresas que a patrocinam. (E quando uma matéria não é ruim para nenhum anunciante, pode o ser para o próprio dono do veículo de mídia.)

O mesmo raciocínio vale para outras editorias, até a de esportes: a prioridade é dada ao futebol não só porque ele é o esporte mais popular do país, mas também porque “dá mais lucro” (então, dê-lhe matérias de pura “perfumaria”). Assim, outras modalidades têm pouco ou nenhum espaço na mídia corporativa, e o Brasil deixa de ser mais forte em outros esportes, que poderiam fazer de nosso país realmente uma “potência olímpica”. E mesmo se falando de futebol, há censura: o texto que escrevi aqui para o Jornalismo B no mês passado dá uma amostra.

Mas essa censura é mais ampla. Pois além de limitar o que é noticiado pela “grande imprensa”, também sufoca a mídia alternativa, que sobrevive (quando consegue sobreviver) com muitas dificuldades, e poucos patrocinadores. Assim, ela não consegue atingir o mesmo número de pessoas que a mídia corporativa.

E, em alguns momentos, ela é um pouco mais perceptível como censura, mas travestida de “ação judicial”. É o que acontece com alguns blogueiros cujas opiniões não agradam a certas pessoas, que tentam calar as vozes divergentes via processo. Usar o poder econômico contra um blogueiro (que geralmente não tem condições de contratar algum dos melhores advogados para sua defesa) ao invés de deixar um comentário discordando é mais sedutor para quem não tem lá muito apreço pela democracia.

Porém, a maioria das pessoas não percebe a existência desse tipo de censura no Brasil. É exatamente por isso que ela é muito mais eficaz: pois usa a máscara da “democracia”. Tem-se a ilusão da liberdade, e a mídia corporativa colabora decisivamente para que isso se mantenha: por sua insistência em apresentar-se como “imparcial” – utilizando-se de uma nebulosa entidade chamada “opinião pública” (que segundo Pierre Bourdieu, “não existe”) para justificar o viés dado a cada notícia –, é vista como “autoridade” por muitas pessoas, logo, detém um poder simbólico sobre elas, que só acreditam que determinados acontecimentos são reais se noticiados em certos jornais ou revistas. Popularmente, isso corresponde à expressão utilizada por muito tempo em Porto Alegre em relação ao jornal Correio do Povo: “se deu no Correio, é verdade”.

Como já disse, a censura era política, pois era fruto do abuso do poder político. Hoje, ela é econômica devido ao abuso do poder econômico. Elegemos parlamentares, prefeitos, governadores e até presidentes, mas a maioria deles se submete à vontade de grandes corporações e organismos como o FMI – e não nos é dado o direito de escolher quem comanda tais entidades.

*Rodrigo Cardia é historiador, autor do blog Cão Uivador.

Folha não é mais o maior jornal do país. E daí?

26 jan

Foi muito comemorada na blogosfera e nas redes sociais a divulgação da notícia de que, depois de 24 anos, a Folha de S. Paulo deixou de ser o jornal de maior circulação do país. A Folha foi ultrapassada pelo jornal Super Notícia, de Minas Gerais, e a maioria dos comentários a respeito atribuiu a mudança de posições aos erros da Folha e aos ataques do jornal paulista à campanha de Dilma Rousseff. Me parecem enganos, tanto a atribuição de causa quanto a comemoração.

A verdade é que a circulação da Folha em 2010 manteve-se praticamente estável em relação a 2009. Passou – sempre arrendondando – de 295 mil para 294 mil exemplares diários. Queda insignificante. Enquanto isso, O Globo subiu de 257 mil para 262 mil. O Estadão teve grande crescimento: 213 mil para 236 mil. A impressão clara é de que o crescimento que a Folha poderia ter tido migrou para o Estadão. Isso muda muito pouco. Não torna a distribuição mais democrática nem melhora realmente a qualidade da leitura dos brasileiros. Dos três principais jornalões do país, apenas a Folha caiu, e muito pouco ou quase nada.

Apesar de duas alterações de posicionamento (Folha trocou com Super Notícia e Zero Hora ultrapassou Meia Hora), os dez jornais de maior circulação continuam os mesmos, apesar da grande queda do Lance, de 125 mil para 94 mil exemplares diários. No Rio Grande do Sul, crescimento também na circulação da Zero Hora, do Correio do Povo e do Diário Gaúcho (também veículo do Grupo RBS).

Os jornais populares que estão na lista tiveram, em seu conjunto, uma queda grande, de 30 mil exemplares diários, enquanto os jornais tradicionais aumentaram em 27 mil exemplares sua circulação. A grande queda dos jornais Meia Hora e Extra puxaram pra baixo a circulação dos populares, mas o Super Notícia cresceu a ponto de se tornar o maior jornal do país.

O Super Notícia não segue a linha da linguagem agressiva e preconceituosa de boa parte dos chamados “jornais populares”, mas a linha editorial passa longe de ser o que se costuma defender nos espaços que hoje comemoraram a “queda” da Folha de S. Paulo. Não é um jornal de esquerda. Não colabora para a emancipação de seus leitores, não os instrui, não os informa verdadeiramente sobre as questões de seu espaço e seu tempo. Ao mesmo tempo, a Folha não teve uma queda verdadeira. E O Globo cresceu. E o Estadão cresceu. E a Zero Hora cresceu. O cálculo do IVC não mede a situação dos veículos independentes. O que há para ser comemorado nessa pesquisa? Absolutamente nada. Entender ou fazer entender que esses dados mudam alguma coisa é um erro. A democratização da comunicação ainda está muito longe, e os dados do IVC não são passo algum.

Postado por Alexandre Haubrich

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A RBS e a fábula do Pinóquio

23 nov

Os veículos do Grupo RBS têm se aprimorado em copiar fábulas. O personagem Pinóquio é presença recorrente em setores da mídia brasileira, e ali não é diferente. Nesse caso, não apenas pelo nariz que teima em crescer, deixando à mostra, cada vez mais, sua forma de fazer jornalismo.

Mas nos últimos dias o jornal Zero Hora assumiu o papel de autor de fábulas, novas versões do Pinóquio. Além das dificuldades em falar a verdade, esteve presente um elemento digno dos mais criativos escritores – ou nem tanto: objetos inanimados ganhando vida. Da mesma forma encantada pela qual Pinóquio virou um menino, uma pedra virou assassina e um carro teve problemas de labirintite.

A referida pedra é o crack, uma droga poderosíssima, altamente destrutiva e que vem ganhando espaço na sociedade brasileira, especialmente entre as classes mais baixas, entre os marginalizados. Em parceria com outras instituições, o Grupo RBS está criando o Instituto Crack Nem Pensar. Capa especial, capa, reportagem especial e editorial para o assunto (AQUI apenas o texto principal). E dois pontos se destacando em todo o conteúdo: a pedra como a culpada por seu consumo e os consumidores como culpados pela violência. É a criminalização da droga e do drogado, deixando passar incólumes os motivos pelos quais esses dois elementos se encontram.

O foco todo da matéria é mostrar como os crimes de roubos e furtos foram reduzidos e as ações da polícia “contra o crack” foram intensificadas. Um dos dados, o de maior crescimento, diz que a prisão por posse de crack aumentou 16,9% no último ano. O que a reportagem mostra mas não comenta, passa por cima na hora de interpretar, é que, no período em que a campanha institucional do Grupo RBS chamada de “Crack nem pensar” atuou, o que mais cresceu foi a repressão aos usuários e o medo da sociedade frente a cada pessoa em situação de rua que se aproxima.

O crack deve ser combatido, sim, mas deve ser combatido o tráfico de drogas e a situação em que vivem as pessoas que o utilizam. O crack não é uma droga leve, não deve ser aceito em hipótese alguma, mas a invasão da “pedra maldita” nas ruas do Brasil tem muito a ver com a exclusão social, apenas aprofundada pela abordagem da RBS, que criminaliza, separa, causa medo e repulsa.

Ao mesmo tempo, outra fábula foi cunhada a partir de um acontecimento real no bairro Cidade Baixa, um dos principais redutos da boemia porto alegrense. O fato verdadeiro é narrado pelo site do Correio do Povo: “Mulher bate caminhonete contra sete veículos em Porto Alegre”. A mulher era uma juíza aposentada. O CP explica o que houve, ainda que não cite o nome da juíza:

Ao ser abordada por um policial que participava de uma barreira de fiscalização na rua José do Patrocínio, nas imediações do Bar Opinião, ela teria arrancado, saído em disparada pela Joaquim Nabuco, atravessando a José do Patrocínio e atingido o primeiro carro, segundo a Brigada Militar.

A Zero Hora, porém, além de também não citar o nome da juíza, dá asas à imaginação e, como no filme da Disney / Pixar, os carros ganham vida. Veja o título da matéria de Zero Hora ponto com: “Carro desgovernado bate em pelo menos sete veículos no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre”. Em seguida, a abertura do texto: “Um automóvel Kia Sorento desgovernado bateu em pelo menos sete veículos”. As informações do site do Correio do Povo simplesmente não existem na matéria da Zero Hora. Motorista conhecida da casa? É possível. Ah, se fosse um analfabeto dirigindo…aí ia ser uma gritaria de Luiz Carlos Prates, David Coimbra e outros defensores da tese de que quem a violência no trânsito é causada pelos pobres…

Nos dois casos tratados neste texto, aconteceu o mesmo tipo de coisa. Como Pinóquio, o nariz da Zero Hora cresceu. Como na fábula, algo inanimado ganhou vida. Resta saber se, na etapa seguinte, o Pinóquio somos nós, leitores, manipulados através de cordinhas de náilon. Ou se seremos meninos de verdade.

Postado por Alexandre Haubrich

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Imprensa gaúcha minimiza a discussão sobre o terreno da Fase

28 abr

A falta de postura crítica da imprensa gaúcha, que se pauta apenas por interesses – privados ou políticos -, continua dando o tom na cobertura do projeto de lei que visa permutar o terreno da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase). Enquanto a Zero Hora divulga um modelo arquitetônico nitidamente amador para justificar a existência de um projeto fantasma de descentralização da instituição (apenas para satisfazer a opinião pública), a população continua sem acesso a todas as informações pelos meios tradicionais para poder melhor formar uma opinião independente.

Não vou comentar a matéria que saiu na Carta Capital semana passada porque fui eu que escrevi, mas simplesmente o fato de ter sido publicada prova a limitação dos veículos gaúchos, a falta de espaço na imprensa local, que obriga os jornalistas a buscarem veículos de outros estados ou nacionais para aprofundar a discussão.

A quantidade de material até aumentou desde meu último post sobre o tema (chega uma hora em que o assunto se impõe, pega mal não abordar, o veículo perde credibilidade), mas qualidade da informação continua bem rala. O objetivo principal dos jornais, especialmente do grupo RBS, seja em qual mídia for, é fugir do assunto.

Conta o que está acontecendo, narra os últimos fatos, faz um hard news (aqui, um exemplo recente). E só. A reflexão sobre todos os aspectos que envolvem a discussão é simplesmente inexistente. Colocar uma fala curta de um deputado, como foi feito no RBS Notícias de ontem (não encontrei o vídeo), dizendo que é contrário ao projeto por causa dos moradores da área não explica qual é a real situação desses moradores.

Atrelar o destino do terreno ao projeto de descentralização cria uma subjetividade perigosa. Os menores da Fase são utilizados como cortina de fumaça, e a imprensa os usa em prol dos objetivos do governo, como um artifício para comover a opinião pública e tentar transformar em vilão quem critica o PL. Mas não explica que uma coisa não tem necessariamente a ver com a outra.

Lendo a Zero Hora, o Correio do Povo, vendo TV, em qualquer veículo, tem-se a impressão de que os menores serão prejudicados caso o terreno não seja permutado. Não há uma explicação de que a reformulação da instituição pode ser feita sem se desfazer do terreno. O leitor também fica sem saber que não há um projeto concreto de descentralização.

Em suma, falta aprofundamento. Descrever apenas os últimos acontecimentos desvia do foco, manipula. Superficializa e reduz a discussão. Sem a visão do todo, o leitor acaba decidindo sua posição de forma acrítica.

* Uma boa análise da cobertura da imprensa sobre o caso é feita pelo Diário Gauche.

* Link para a matéria da Carta Capital.

* Para saber mais sobre a polêmica:

- Terreno da Fase é patrimônio ambiental e deve ser preservado
- Terreno da Fase: a pergunta que não quer calar
- A polêmica do terreno da Fase

Postado por Cris Rodrigues

Rogério Mendelski e a guilhotina (ou Breve tratado sobre a intolerância – II)

26 abr

No último post, sexta-feira passada, escrevi aqui sobre o posicionamento elitista-excludente de boa parte da grande imprensa brasileira. Falei de casos relacionados a negros, homossexuais, pobres, moradores de rua e ativistas políticos. Porém, esse proselitismo não se restringe a esses grupos. Muitos outros – mais amplos ou mais específicos – também entram nesse balaio de gatos dos “não-escolhidos”, dos “bárbaros”.

O caso específico tratado neste post é apenas um exemplo (até nem tão recente, mas do dia 11 de abril), mas é modelar do tipo de pensamento que move a nossa sociedade, e de como ele é reproduzido e alimentado pela nossa grande mídia e por boa parcela de suas estrelas, alguns dos chamados “formadores de opinião”.

A coluna de Rogério Mendelski no Correio do Povo do dia que referi acima é quase um pedido de assassinato. E não de apenas um assassinato. Com a mão que diz empunhar a espada da justiça, o colunista solta a corda da guilhotina, que despenca seca sobre o pescoço de milhões de crianças e adolescentes. Parece exagero? Não é.

Ao criticar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) por proteger os “bandidinhos” que, segundo Mendelski, se transformarão em “bandidões”, o jornalista afirma que infratores menores de idade não podem ser recuperados com medidas sócio-educativas. Bom, será que Mendelski, conhecedor de tantos números sobre “bandidinhos” que se transformam em “bandidões” não conhece os números de reincidência de crianças, adolescentes ou adultos trancafiados em prisões? Não acredito. Então só pode se concluir que ele está defendendo que crianças que cometem infrações sejam punidos com prisão perpétua ou pena de morte. Que outra opção há? Se não podem ser reabilitados com medidas sócio-educativas, como fazê-lo? “Guilhotina neles!” quase posso ouvir Mendelski bradando da varanda de seu belo e brilhante lar.

Rogério Mendelski cita alguns exemplos de crianças que infringiram a lei de diversas formas e, após medidas sócio-educativas orientadas pelo ECA, voltaram a infringi-la. Não traz, porém, casos de adolescentes presos que foram recuperados, não apresenta qualquer dado sobre isso. Também se esquece de falar em educação, acompanhamento familiar, falta de estrutura enfrentada pelos agentes encarregados das medidas sócio-educativas.

O colunista do Correio do Povo apenas reproduz uma visão dominante na elite brasileira, da qual a grande mídia é ao mesmo tempo canal de informação e braço de divulgação de ideias. Presos – presos pobres, melhor dizendo – são tratados como animais. Parte da elite adora a solução do bombardeio a uma favela ou da implosão dos presídios com todo mundo dentro. Trata-os como animais pois realmente os enxerga como animais, como anti-pessoas. Direitos humanos? Apenas para quem é humano, o que, segundo essa visão, não inclui negros – com exceções aos ricos que conseguiram inserir-se nessa elite –, pobres, homossexuais, moradores de rua, integrantes de movimentos sociais e infratores – sejam eles adultos, adolescentes ou até crianças. Estes últimos não são pessoas, mas ao menos têm, segundo Mendelski, uma categoria específica da qual fazem parte e ao menos um direito que deve ser assegurado: bandidinhos e bandidões, e têm o direito à guilhotina.

Postado por Alexandre Haubrich

Só os blogs fazem jornalismo no caso Élton Brum

6 nov

O assassinato de Élton Brum, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), está completando dois meses e meio. A cobertura feita pela imprensa gaúcha tem sido nula. Começou como defesa da Brigada Militar, passou a um esvaziamento do assunto, para chegar ao esquecimento final. O Correio do Povo desta sexta-feira voltou ao assunto, mas de forma lamentável.

Tudo começou na quinta-feira, quando a Rádio Guaíba entrevistou o policial que teria assassinado Élton, Alexandre Curto dos Santos. Então o Correio, em uma pequena matéria (AQUI e AQUI), procurou resumir o que Alexandre dissera na entrevista. Até aí nenhum problema. O caso é que o Correio do Povo limitou-se a isso: reproduzir conteúdo, e ainda de forma parcial. Na verdade, resumir conteúdo de outro veículo, ainda que seja da mesma empresa.

eltombrum21Com essa (falta de) atitude, o jornal prestou um enorme desserviço à população. Não fez qualquer trabalho jornalístico de investigação para checar (ao menos confrontar versões) se a história do policial é real. Algum apressado pode dizer que isso é trabalho para a polícia. Não é. É trabalho do jornalista e do veículo de imprensa checar a veracidade do que dizem suas fontes. É trabalho do jornalista e do veículo de imprensa confrontar versões, informar a população sobre fatos, não apenas sobre o que um policial acusado de homicídio alega.

Enquanto isso e enquanto grande parte da sociedade continua dando mais credibilidade aos grandes jornais do que aos blogs , observadores mais atentos puderam perceber que o blog Alma da Geral postou um verdadeiro trabalho de investigação. Apresentou a matéria do Correio do Povo e em cima dela, trouxe novas informações sobre o assassinato de Élton. O post do Alma da Geral é intitulado “Da série ‘Quem matou Élton Brum’: como se constrói o imaginário coletivo”.

Em meio a “esquecimentos”, manipulações e omissões da grande imprensa, os blogs têm cumprido o papel de fazer o verdadeiro jornalismo no caso desse assassinato, enquanto a grande imprensa se limita a ser Relações Públicas dos assassinos. Está na hora de a sociedade repensar em quem deve confiar.

Postado por Alexandre Haubrich

Correio do Povo, Jornal do Comércio e Zero Hora no arquivamento do impeachment de Yeda

21 out

pizza-2O arquivamento do pedido de impeachment da governadora Yeda Crusius foi assunto de destaque dos principais jornais do Rio Grande do Sul hoje. Confira aqui como três deles apresentaram as informações a respeito do caso.

O Correio do Povo, como de costume, realiza a matéria mais curta das três analisadas. Mesmo assim, o simples espaço dedicado à foto da capa, para padrões de Correio do povo, já demonstra a importância dedicada ao assunto. A única crítica é que a matéria, se não pecou pela parcialidade, também não teve abrangência. Embora não tenha se falado particularmente bem da base aliada, pouquíssimo se mencionou a oposição. Meio parágrafo foi dedicado a questões objetivas básicas (o que aconteceu, quantos votos, quanto tempo) e a partir dali a única voz que soa é a da base aliada do governo- suas estratégias, sua celebração dos resultados, e, por fim, a celebração da governadora.

Muito embora o destaque do assunto na capa do Jornal do Comércio tenha sido menos do que nos outros dois jornais (a manchete principal tem relação com a arrecadação de impostos no mês de Setembro), pertence ao JC a cobertura mais imparcial e abrangente. Embora seja simples, abre com um parágrafo das mesmas informações do início da matéria do Correio do Povo, e segue com praticamente todas as informações divulgadas a respeito.  A matéria é longa e há distribuição igualitária de espaço para aliados e oposição, sem que se note um tratamento particularmente injusto de qualquer uma das partes.

A capa da Zero Hora já chama a atenção pela escolha da foto principal, ilustrando o arquivamento do impeachment não como um evento político (conforme mostram as fotos do JC e do Correio que ilustram esta matéria) mas como uma festa, com um pequeno espaço dedicado a uma foto daquilo que o jornal descreve como “hostilidades” e “tumulto” da parte de manifestantes. A matéria interna segue a mesma lógica da capa- celebração do resultado favorável a Yeda e redução das manifestações contrárias à condição de “conflitos inevitáveis”, com o mínimo de importância. Quanto à oposição dentro da Assembleia, Zero Hora fala de sua “estratégia” de “tentar desqualificar o relatório” e de como ela “não foi suficiente para garantir a continuidade da demanda oposicionista”. Como em ocasiões anteriores, a Zero Hora é a que mais distorce os fatos e briga com a notícia.

Artigo de Luiza Monteiro

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