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Veja e Gilmar Mendes encontram aliados na velha mídia, e ataque a Lula repercute no que antes era silêncio

28 mai

Neste mês de maio prestes a morrer – de tédio, não – a Carta Capital publicou duas capas geniais sobre a relação entre a revista Veja e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, elemento desencadeador de uma CPI por sua influência sobre políticos de diversos Estados e partidos. Nenhuma daquelas capas obteve qualquer repercussão nos maiores jornais do país, com exceção de um editorial do jornal O Globo em defesa da Veja. As relações entre o repórter Policarpo Jr e Cachoeira, e a implicação da Veja e de seus diretores nessas relações, não se transformaram em pauta nos conglomerados de comunicação do país. Por outro lado, uma nova “denúncia” publicada nessa mesma Veja acusada de sustentáculo do império de Cachoeira, foi repercutida à exaustão nesse início de semana.

A acusação foi contra Lula, e a fonte é o ministro do Superior Tribunal Federal Gilmar Mendes, nomeado para o STF por Fernando Henrique Cardoso e o responsável pela concessão de liberdade a Daniel Dantas. Em 2008, o pedido de impeachment do ministro foi cogitado, mas acabou não prosperando. Um dos primeiros a sair em defesa de Gilmar Mendes, na época, foi Demóstenes Torres, senador do DEM e principal nome ligado a Carlinhos Cachoeira.

Pois é esse Gilmar Mendes quem agora acusa o ex presidente Lula de tentar convencê-lo a adiar o julgamento do chamado “mensação” no STF. E a acusação é feita através da Veja, aquela mesma cujo repórter mantinha relações suspeitas com Carlinhos Cachoeira. O encontro entre Mendes e Lula teria acontecido no escritório do ex ministro Nelson Jobim, que confirma o encontro mas, como Lula, nega o teor.

Os mesmos veículos que nada falaram sobre o duo Veja-Cachoeira e têm trabalhado para despolitizar a CPI (Zero Hora chegou a fazer uma matéria sobre “as musas dos escândalos”, tomando como gancho a esposa de Carlinhos Cachoeira) repercutem com exaustão a matéria da revista semanal, atacando Lula de todas as formas possíveis.

Zero Hora, que mantém inclusive uma parceria comercial com a Veja (a venda casada), e que nem uma linha publicou sobre as capas da Carta Capital ou a matéria de 15 minutos que a TV Record veiculou sobre Veja-Cachoeira, foi a primeira a estampar na capa de seu site a “denúncia”, ainda no sábado pela manhã, quando a Veja recém começava a circular. Nesta segunda, Zero Hora ainda entrevistou Gilmar Mendes, e estampou a manchete em seu site: “Lula afirmou que não era adequado julgar o Mensalão este ano, diz Gilmar Mendes”.

Depois, Estadão, O Globo e Folha de S. Paulo também levaram o assunto adiante, sempre com grande destaque. O Estadão traz cinco matérias com chamadas na capa do site. Três são desfavoráveis a Lula, uma é neutra e uma é favorável ao ex presidente. Sobre a neutra, há ainda um problema. “Jobim evita comentar encontro entre Lula e Mendes” é a chamada, enquanto, na verdade, Nelson Jobim deu entrevista ao jornal Zero Hora, publicada na edição impressa dessa segunda-feira.

Na Folha, três matérias chamadas na capa são desfavoráveis a Lula, contra duas favoráveis. Uma dessas favoráveis, a principal (“Lula se diz ‘indignado’ após notícia sobre reunião com Mendes”), traz como linha de apoio uma citação à fala de Gilmar Mendes (“Ministro do STF reafirmou que o ex-presidente pediu o adiamento do julgamento do mensalão”), anulando o efeito da manchete.

O site do jornal O Globo traz duas chamadas, uma favorável a Lula e a outra desfavorável, mas a primeira delas também carregue o efeito de anulação contido na chamada da Folha (“Lula se diz ‘indignado’, mas Gilmar Mendes confirma conversa sobre mensalão”). Além disso, há duas chamadas menores, ambas de ataque frontal à Lula: “Celso de Mello: ação de Lula poderia resultar em impeachment” (a matéria chamada não consta no site no momento em que este post é escrito), e “Para jurista, Lula cometeu crime ao prometer blindar o ministro Gilmar Mendes”.

Também o Jornal Nacional dedicou grande espaço ao assunto. Foram 5 minutos de matéria, sendo que um minuto e meio é dedicado apenas a reproduzir trechos da reportagem publicada pela Veja, e outro minuto e meio para uma entrevista com Gilmar Mendes. Foram 30 segundos para a nota divulgada por Lula, 30 segundos para a posição de Nelson Jobim, e mais um minuto para a repercussão da matéria no Congresso Nacional, onde a política foi novamente pautada pela mídia – e pela mais suja mídia do país.

A repercussão do caso tem todos os elementos de uma ação conjunta para enfraquecer Lula, que recém volta à política após o tratamento de um câncer, e para levar de volta ao “mensalão” o foco de escândalo político que estava sobre a CPI do Cachoeira, que envolve também setores da mídia dominante. Estes veículos, como costuma acontecer, trabalham juntos pela manutenção do monopólio discursivo pela mídia da elite, e a prática jornalística fica abandonada enquanto os interesses político-corporativos se sobressaem.

* Vale a leitura da cobertura do Brasil 247, do Blog da Cidadania e do Blog do Nassif.

* Nesta segunda-feira, durante o programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida, o apresentador Alexandre Fetter fez um comentário absolutamente machista em relação à Marcha das Vadias. Por colaborar com a desinformação e com a reprodução de preconceitos, o programa foi, então, criticado pelo jornalista e diretor da UNE pela oposição, Rodolfo Mohr, e as críticas se espalharam pelas redes sociais, assim como as postagens em defesa de Alexandre Fetter. É importante a leitura do texto que Rodolfo escreveu em seu blog, relatando o que aconteceu e explicando a forma como atua o tipo de discurso propagado pelo Pretinho Básico. Cabe lembrar ainda que, segundo o site Donos da Mídia, a Rádio Atlântida opera com a outorga vencida desde 2005.

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Carta Capital registra trajetória de derrubada dos impérios midiáticos

16 mai

Não é novidade o espaço que a revista Carta Capital tem dedicado ao tema das relações entre a revista Veja e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, agora investigado – juntamente com diversos políticos próximos a ele – em uma Comissão Parlamentar de Inquérito. A Carta entende, como nós, que discutir o modelo de comunicação que temos no Brasil e o jornalismo alimentado por este modelo – e que, por sua vez, o alimenta – é um caminho fundamental para a construção da democracia.

É com esse viés que, por diversas vezes, a publicação de Mino Carta dedicou capas à temática da comunicação em suas diversas esferas, passando pelas potencialidades da internet, pelo monopólio da Rede Globo (e suas possibilidades de ruir), pelos jornalões determinados a esconder a realidade brasileira e, por fim, chegando às relações entre a mais vendida revista do país e o criminoso mais falado nos últimos meses.

Se a mudança social passará pela mudança na mídia e em seu eixo de poder, a Carta, como dezenas de blogs, está registrando a História dessa mudança que se processa com avanços e recuos. Está fazendo jornalismo com um pé no presente e outro no futuro, documentando para a posteridade as lutas que têm sido travadas nesse caminho.

A seguir, relacionamos algumas destas capas, com as quais a Carta Capital presta um gigantesco serviço ao jornalismo e à sociedade brasileira.

Mino Carta desmascara “os chapa-branca da casa grande”

15 mai

A revista Carta Capital traz nesta semana a segunda capa em sequência tratando das relações da revista Veja com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Os textos são fortes e precisos, como manda a situação, e fazem jus a uma trajetória de bom jornalismo e preocupação com as questões que envolvem a mídia brasileira. Se esse é um tema espinhoso para quem tem o rabo preso, a Carta Capital não se furta a tratá-lo com a intensidade que merece.

O editorial de Mino Carta é cirúrgico ao desconstruir o editorial publicado pelo jornal O Globo, que na última semana saiu em defesa da Veja, como manda o conceito de “pluralidade” e “diversidade” dos grandes grupos de comunicação. Uma mídia corporativa e monopolista, que trabalha objetiva ou subjetivamente unida pela manutenção dos esquemas neoliberais e da política comandada pelas elites.

Contrapondo a acusação de “chapa-branca” feito por O Globo contra a Carta Capital – que não é nominada, mas claramente está incluída em um grande balaio que inclui alguns dos blogs mais combativos do país – Mino Carta lembra que a Rede Globo ganhou corpo – engordou, como dizia Brizola – com a Ditadura Militar, que apoiou do início ao fim, passando pelo apoio aos momentos de aumento da repressão estatal e violenta. Lembra ainda o apoio da empresa à eleição de Collor – incluindo o famoso debate do segundo turno – e a conivência com a “privataria tucana” e a reeleição comprada por Fernando Henrique Cardoso. Relembra, ainda, a expressão que usou em outro editorial recente, chamando a mídia das elites de “mídia da casa grande”. Seu texto é um belo exercício de comparação e, como costumam ser muitos editoriais de Mino Carta, uma aula de jornalismo, ética e História.

Além do texto de Mino, há ainda uma reportagem de Cynara Menezes que, ainda que em alguns momentos caia para o tom editorializado, demonstra com clareza a rede denunciada pelos primeiros depoimentos colhidos pela CPI com delegados da Polícia Federal. E demonstra, acima de tudo, como essa rede atinge a revista Veja – em diversas instâncias da revista –, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e o governador de Goiás, Marconi Perillo.

É importante, em meio ao mar de mesmice que toma conta da mídia hegemônica brasileira e que faz do silêncio a única arma (ou escudo) contra alguns possíveis desmembramentos da CPI do Cachoeira, tenhamos no país uma revista com o alcance da Carta Capital com a possibilidade de dar suporte – e receber suporte – às manifestações e denúncias que têm partido da internet. O debate sobre o modelo de mídia nacional e sobre a forma pela qual esse modelo fundou-se é a questão de fundo das denúncias de envolvimento da Veja no esquema de Cachoeira. A Carta Capital tem é um veículo importante para que esse debate possa trazer ares de mudança.

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Veja e Cachoeira: o debate realmente necessário

7 mai

TV Record e Carta Capital deram destaque, no último fim de semana, às ligações entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira, comandante de um enorme esquema de tráfico de influências, e o jornalista Policarpo Jr., diretor da revista Veja. A capa da Carta e os 15 minutos de reportagem do Domingo Espetacular, porém, não foram suficientes para que as demais emissoras de TV e publicações impressas de grande tiragem abordassem o assunto, sequer de forma passageira. Na internet, por outro lado, o debate se expande, as informações seguem circulando, e é preciso impedir que essa discussão morra na praia.

As duas reportagens citadas não trazem grandes novidades aos setores que se informam prioritariamente pela internet. São citadas as mais de duzentas ligações telefônicas entre Policarpo e Cachoeira, são mostrados alguns trechos de ligações entre Cachoeira e outros comparsas, nas quais Policarpo é citado. Tanto Carta Capital quanto Record vão um pouco além no momento em que entrevistam deputados – inclusive do PSDB – e lideranças políticas – como o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas – e todos estes defendem a inclusão da Veja nas investigações que serão conduzidas pela CPI do Cachoeira, que abriu nesta segunda-feira seus trabalhos.

As relações entre Policarpo e Cachoeira estão já bastante expostas, apesar do silêncio que insistem em manter os grandes conglomerados de comunicação que seguem fiéis à sua parceria política com a Veja – o jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, chega a trabalhar em formato de venda casada com a revista da Abril. Tão importante quanto tornar cada vez mais públicos os detalhes dessa relação é, nesse momento, debater em cima do que já foi revelado. Será travado nos próximos meses uma grande batalha discursiva em torno da questão central ali envolvida: Veja e Cachoeira eram cúmplices ou revista e fonte? Veja era / é braço midiático do império político de Cachoeira ou apenas um veículo fazendo jornalismo investigativo e se aproveitando de fontes criminosas?

Há momentos em que o bicheiro claramente demonstra a seus interlocutores que manda e desmanda na revista. “Ah, você tá aí. Manda ele soltar aquela notinha, então. (…) É, pô, manda ele por aí, meter na…no Online, no Radar, vê se ele consegue (…). Pode pôr no Online, já tá bom. Se for na revista, melhor ainda”, diz a um amigo que se encontrará em seguida com Policarpo Jr. Esse é um dos trechos das gravações que colocam Cachoeira como “editor-chefe” da Veja, como disse a reportagem do Domingo Espetacular. Fica clara, aí, uma situação que ultrapassa os limites da relação entre jornalista e fonte. O contraventor está convencido de seu poder de influenciar as pautas e até mesmo de definir em que seção da Veja serão publicadas as informações que fornece.

Destaque-se que não estamos falando de relações antiéticas ou imorais de influência política em uma publicação. Estamos falando no uso de uma revista como braço midiático de um poder criminoso. É esse debate que precisa ser feito a partir de agora. Ao mesmo tempo, é um momento extremamente propício para que nos aprofundemos nas discussões em torno do modelo de mídia que temos no país. Discutir, a partir de uma possível configuração de crime nas ações de Policarpo Jr e da Veja – que, nesses termos, certamente deverão atingir seu dono, Roberto Civita –os limites éticos do jornalismo e o controle que poucas empresas possuem sobre a comunicação brasileira. A Rede Globo, o Grupo Folha, o Grupo Estado, o Grupo Bandeirantes e o Grupo RBS, por exemplo, pouco ou nada têm falado sobre a questão Veja / Cachoeira, demonstrando conivência com um possível crime e prestando o desserviço que o silêncio sujo da omissão tem o mau costume de causar.

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Carta Capital denuncia Civita, um dos Murdoches brasileiros

4 mai

A revista Carta Capital fecha a semana colocando nas bancas uma edição que certamente dará o que falar entre a mídia independente e que provavelmente será, como costuma acontecer, ignorada pela mídia dominante no país. Quem está na capa é Roberto Civita, o “nosso Murdoch”, como bem coloca a manchete da revista.

Por maior importância jornalística que possa ter o trabalho desenvolvido pela Carta Capital, dificilmente as reportagens ali publicadas obtêm qualquer tipo de repercussão nos veículos da grande mídia. Exatamente o contrário do que acontece em casos semelhantes que envolvem apenas os conglomerados de comunicação: Folha, Estado, Abril e Globo alimentam uns aos outros com o jornalismo podre que recolhem sabe-se lá de onde, tal qual um grupo de abutres solidários entre si e despreocupados com o resto.

A Carta Capital, em sua capa, levanta um tema e uma comparação fundamental, já levantada antes em diversos blogs, inclusive AQUI no Jornalismo B: por que na Inglaterra o reino de Murdoch é investigado enquanto aqui no Brasil os desmandos e ilegalidades cometidos pelos grandes conglomerados de comunicação sempre ficam impunes?

Há uma grande conivência e harmonia entre grupos supostamente concorrentes. Cada um ocupa seu espaço, alguns com nichos de público diferenciados, e, sem ataques recíprocos, mantêm seu poderio e sua capacidade de evitar que novas iniciativas ganhem espaço. Mantêm também a coesão, ao menos parcial, entre seus discursos. Sua linha editorial varia pouco, assim como variam pouco seus anunciantes.

É importante – e, felizmente, parece inevitável – que a mídia independente se encarregue de, durante a próxima semana, repercutir ao máximo a capa da Carta Capital. Discutir a ética da atual mídia hegemônica é básico para passarmos a uma discussão a respeito do modelo de comunicação que alimenta esse tipo de jornalismo. Civita é apenas um dos Murdoches brasileiros. Temos uma dezena a desmascarar.

Carlinhos Cachoeira, Demóstenes e Veja: a rede da máfia brasileira

9 abr

Mais do que mostrar relações promíscuas entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (DEM), as gravações divulgadas recentemente a partir da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, desenham Cachoeira como uma grande liderança da direita brasileira. Sim, é isso. Um contraventor influencia em todas as esferas da direita do país através de seus contatos nos partidos políticos e na mídia. Segundo Luis Nassif, entre as gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal, são mais de duzentas as conversas de Cachoeira com o editor-chefe da revista Veja, Policarpo Jr.

As conversas mais difundidas até o momento são as que incriminam Demóstenes Torres, mas a revista Carta Capital já publicou reportagem na qual demonstra também relações estreitas e a configuração de tráfico de influência envolvendo o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB).

A divulgação da íntegra dessas conversas, por sua profundidade e abrangência, pode ter o poder de um “pequeno Wikileaks” brasileiro. É a revelação contundente e inegável das negociatas envolvendo algumas das principais lideranças dos partidos da direita brasileira, o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o veículo de mídia mais reacionário que temos no país.

A defesa dos acusados de favorecer os interesses de Cachoeira, em uma ampla rede que ligava a contravenção a algumas lideranças políticas e à mídia, tem se baseado no silêncio e na pretensa ilegalidade das escutas. Infelizmente para eles, não há forma melhor de defender-se do que tentando deslegitimar legalmente gravações que já destruíram moralmente os envolvidos.

Tem se falado muito nas “duas caras” de Demóstenes, defensor discursivo da transparência e da moralidade ao mesmo tempo em que trabalhava junto a Carlos Cachoeira recebendo apoio eleitoral em troca de ouvidos moucos para os negócios de jogo ilegal mantidos pelo bicheiro. Mas também vem à tona mais uma vez a face da revista Veja que a publicação do Grupo Abril insiste em ocultar. Bastião da moralidade na política, especialista em acusações de corrupção e ambiente de um jornalismo investigativo capaz de tentar esconder escutas em quartos de hotel, a Veja tem o nome de seu editor-chefe citado em uma gravação como um parceiro constante de Carlos Cachoeira, com quem “trocaria favores”, segundo explica o próprio contraventor. Além disso, as possíveis conversas entre Cachoeira e Policarpo Jr. ainda estão para serem divulgadas.

Não foi por acaso, então, que a Veja afastou de suas capas o caso mais falado na política brasileira nas últimas semanas. Se Cachoeira era manchete quando foi revelado seu envolvimento com Waldomiro Diniz e o PT, não o é quando as denúncias são mais profundas, tão profundas que chegam ao poderio midiático do Grupo Abril e às relações de troca de favores entre o editor-chefe da revista com maior tiragem do país e um homem exposto como líder das mais complexas maracutaias políticas.

Da mesma forma o assunto também não esteve nas capas da Isto É, que preferiu destacar nas últimas duas semanas “A nova fórmula do profissional de sucesso” e “Médico de bolso”. Na revista Época, uma capa, “O senador e o bicheiro”, e, na última edição, o tema foi substituído por “Os bairros mais cobiçados do Brasil”.

A Carta Capital comprou a briga, e nas últimas duas semanas destacou as relações entre Carlos Cachoeira e o governador de Goiás, Marconi Perillo. Teve consequências. Em Goiânia, parte da edição anterior despareceu. Como disse matéria da Rede Brasil Atual, “na capital governada pelo tucano houve um operativo para comprar todos os exemplares na manhã de domingo (1º), evitando que a denúncia circulasse. Segundo reportagem de Gabriel Bonis, Joel Luiz Datena, filho do apresentador José Luiz Datena e dono de uma rádio, foi um dos que tentaram adquirir mil exemplares de uma vez”.

É uma configuração de sistema mafioso que perpassa as instituições brasileiras, a começar pela mesma mídia que se pretende guardiã da moral, dos bons costumes e das demais instituições. Caiu mais uma máscara.

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As capas de Carta Capital, Veja, Isto É e Época: o bom jornalismo e a perfumaria

24 fev

Semana vai, semana vem, e a comparação entre as capas das quatro principais revistas semanais brasileiras continua sendo sempre um prato cheio para o debate sobre o modelo de jornalismo que queremos para o país. Enquanto a Veja costuma aparecer com capas cheias de agressividade e crítica política – sempre pela extrema-direita – e Isto É e Época não têm pudor em ignorar os grandes temas do momento para dedicar suas manchetes a futilidades, a Carta Capital pratica um jornalismo cada vez mais antenado aos acontecimentos que efetivamente movem o Brasil e o mundo.

Na última semana tivemos mais um exemplo dessa abismal diferença entre as quatro publicações. A Carta levou à sua capa uma reportagem sobre o fim de uma triste era no esporte brasileiro: a presidência de Ricardo Teixeira na Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Envolvido até o pescoço em acusações de corrupção ao longo de toda a sua (quase) interminável gestão, Teixeira sai agora com o rabo entre as pernas, bem antes do que previa.

Enquanto isso, Veja, Isto É e Época deram suas capas para matérias “de gaveta”, que não trazem qualquer novidade, não possuem relevância social e jornalística, e poderiam ser publicadas em qualquer momento. Na Veja, “Purificação: Por que a luta da medicina contra as toxinas que causam doenças é mais complexa do que parece”. Na Isto É, “Traição Virtual”. E na Época, “A vingança dos tímidos: novos estudos revelam as vantagens de ser introvertido – no trabalho e no relacionamento”.

É no exercício comparativo que se percebe onde está o bom jornalismo e onde está o entretenimento e as perfumarias disfarçadas de informação. Se aquele contribui para a politização da sociedade e o aprofundamento da cidadania, este serve apenas aos interesses de quem trabalha pela alienação do povo como forma de dominação (aparentemente) não-violenta.

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Velha mídia alia-se à indústria do entretenimento contra a liberdade

2 fev

O texto a seguir é uma colaboração especial de Bruna Andrade*

Enquanto começamos o ano em meio a polêmicas envolvendo a liberdade de expressão na internet, através dos projetos de lei norte-americanos Stop Online Piracy Act (SOPA) e Protect IP Act (PIPA), que visam controlar o compartilhamento de arquivos protegidos por direitos autorais na web, três das principais revistas semanais do país começam o mês de fevereiro fazendo vista grossa para a pauta e trazendo em suas capas temas superficiais, como é o caso da Veja e da Istoé com: “O melhor professor do mundo” e “A ciência do otimismo”, respectivamente; ou simplesmente deslocados das principais pautas do ano, como traz a revista Época “Anatomia da corrupção”. Apenas a semanal Carta Capital estampou em sua capa o tema controverso, sob o título “A guerra da internet”.

O primeiro mês do ano foi marcado pela guerra envolvendo grupos políticos norte-americanos, que apresentaram os projetos de lei que limitariam a liberdade online, e alguns dos principais sites da internet, além de ativistas do grupo de hackers Anonymous. Em protesto, como resposta ao parlamento, no dia 18 de janeiro, vários sites saíram do ar, como fez o Wikipédia, ou usaram tarjas pretas em suas páginas, como o Google. E depois que os donos do Megaupload foram presos e o site bloqueado, no mundo inteiro, ativistas do Anonymous vêm promovendo a derrubada de sites governamentais, de empresas da indústria fonográfica e cinematográfica e, como aconteceu essa semana no Brasil, bancos.

Os motivos do aparente desinteresse da mídia hegemônica no assunto são claros: os principais interessados na aprovação da lei (indústrias fono e cinematográfica) são, há muito tempo, seus aliados econômicos e políticos. Mais que isso, em 2011 foi evidente o protagonismo da internet nos levantes populares que aconteceram pelo mundo, desde a Ásia até as Américas essa foi a ferramenta usada para organizar e unir os indignados com tudo que a mídia burguesa defende, além de ser cada vez mais forte como fonte alternativa de informação. Se aprovadas, as leis permitiriam o bloqueio de qualquer site que possua de forma não autorizada algum conteúdo protegido por direitos autorais, incluindo os sites hospedados fora da jurisdição dos Estados Unidos. Além disso, o conteúdo que for considerado ilegal não precisará ter sito postado pelo dono do site para que ele seja tirado do ar. Por exemplo, basta que um usuário do WordPress compartilhe um link que infrinja a lei para que todos os usuários tenham seus blogs apagados, sem a necessidade de uma ordem judicial. Assim, os principais sites de compartilhamento de conteúdo e, principalmente, informação correriam o risco de sair do ar já nos primeiros dias de vigência das leis. Elas não beneficiariam apenas a indústria de entretenimento, mas todos os interessados em tolher a liberdade de expressão na internet, e a imprensa dos patrões é, claramente, um deles.

A discussão vai muito além da questão dos direitos autorais, é a liberdade de circulação da cultura, da informação e do conhecimento que está em jogo. Há algum tempo a internet vem sendo a pedra no sapato das elites e essa é visivelmente uma tentativa de inibir seu uso como fonte de organização, resistência e contra-informação. 

*Bruna Andrade é estudante de Ciências Sociais.

Diploma de jornalista é idiotice

2 dez

*O artigo a seguir, de autoria de Giani Carta, foi originalmente publicado na revista Carta Capital.

Como definir o jornalista? “Qualquer um que fizer jornalismo”, responde o escocês Andrew Marr no seu livro My Trade (Pan Books, 2005, 300 págs). Jornalista de mão cheia, ex-editor do diário The Independent e da Economist,  Marr diz quem são as pessoas mais propensas a mergulhar no jornalismo: “bêbados, disléxicos e algumas das pessoas menos confiáveis e mais perversas da Terra”.

Mas há consolo no livro de Marr, consagrado à história do jornalismo britânico. “Tirando o crime organizado, o jornalismo é a mais poderosa e agradável antiprofissão”.

Marr, de 51 anos, causaria um grande alvoroço no Senado brasileiro. Por dois motivos. Primeiro, porque sua ironia seria levada a sério pela maioria dos senadores. Em segundo lugar, Marr formou-se em Letras.

E aí mora o problema.

Marr, iconoclastia à parte, não seria considerado um jornalista pelos senadores brasileiros pelo fato de não ter estudado jornalismo.

O Senado acaba de aprovar uma proposta de emenda constitucional para tornar obrigatório o diploma de nível superior para o exercício do jornalismo. Haverá outra votação no Senado. Se a emenda for aprovada será analisada pelos deputados.

Claro, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubará a medida (se aprovada pelos deputados). Em junho de 2009, vale recapitular, o STF acabou com a exigência do diploma para jornalistas. A norma era incompatível com o princípio de liberdade de expressão.

Mas o senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), autor da proposta, não concorda com o STF. “Todas as profissões têm o seu diploma reconhecido, menos o diploma de jornalista, o que é uma incoerência, uma distorção na legislação brasileira”, declarou.

E senadores, precisam de diploma? Nenhum.

Basta ter nacionalidade brasileira e mais de 35 anos de idade. Na França qualquer deputado graduou-se no mínimo em ciências políticas. E isso fica claro nos discursos na Assembleia Nacional e no Senado. Lá fala-se em ideologia partidária, entre outros temas aqui ignorados.

E aqui aproveito para fazer uma sugestão: já que jornalistas precisam, segundo os senadores, de diploma, por que não aplicar a mesma proposta para os senadores brasileiros? Os debates, quiçá, se tornariam mais fecundos.

Certo é que, de forma geral, os colegas formados por universidades de jornalismo a pipocar Brasil afora, quase todos a trabalhar para a mídia ultraconservadora, não têm contribuído para melhorar o nível da mídia.

Os grandes diários brasileiros, com colegas com canudo de jornalista ou não, são ilegíveis. Por exemplo, um dos destaques da Folha de São Paulo na quinta-feira 1º é que a apresentadora Fátima Bernardes “deve deixar a bancada do ‘Jornal Nacional’”. Ela estaria “cansada”.

Eis a questão: o nível das escolas de jornalismo é baixo, ou seriam os patrões que limitam o trabalho de apuração dos repórteres – e principalmente dos colunistas? Seriam as duas coisas? Como dizia o grande jornalista italiano Enzo Biagi (outro que não tinha diploma de jornalista): “Meus únicos patrões sempre foram meus leitores”.

Nos Estados Unidos e na Europa o canudo de jornalista não é necessário para exercer a profissão. Basta um diploma, isto é, uma especialização. Lá é comum estudantes com ambições jornalísticas trabalharem nos jornais das universidades enquanto se formam em história, ciências políticas, economia, etc. Na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, por exemplo, alunos de diferentes departamentos trabalham no excelente diário Daily Bruin, distribuído gratuitamente no campus e nos bairros em torno de Westwood, onde fica a UCLA.

Na França e no Reino Unido ninguém precisa de diploma de jornalista para trabalhar na mídia. Marr, que especializou-se em literatura inglesa em Cambridge, oferece: “Tudo que o jornalista precisa é ser curioso e saber farejar uma boa história. E mesmo dominando a gramática, só se aprende a escrever escrevendo”.

Vale acrescentar: o jornalismo se aprende indo à rua. “É preciso tirar a bunda da cadeira”, martelava Reali Jr.

O repórter tem de continuar a praticar esse método inclusive para entender o que escreve. Precisa usar os fatos com honestidade, mas ao mesmo tempo tem de entender que o jornalismo tem seus limites, não é uma ciência. Ah, e sempre que possível o senso de humor ajuda. O diploma de jornalista só serve para enfeitar parede.

Velha mídia x MST – Rede Globo é oficialmente sócia do agronegócio

24 ago

O Jornal Nacional não noticiou, mas a Rede Globo é listada como associada da Associação Brasileira do Agronegócio. Ao lado da lista de associados, o site da ABAG explica: “Empresas e organizações representativas das cadeias produtivas do agronegócio estão associadas à ABAG”. É isso. A Rede Globo é representativa da cadeia produtiva do agronegócio, afinal, “a propaganda é a alma do negócio”, não? Como uma empresa de comunicação associada a uma organização de defesa do agronegócio irá cobrir com qualquer autonomia jornalística uma manifestação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra? É claro que isso não vai acontecer. Não se trata, pois, de “melhorar” o jornalismo praticado pela Globo, mas de modificar o eixo da comunicação brasileira.

Uma pesquisa divulgada oficialmente na noite desta quarta-feira demonstra, em dados, o que todos já sabíamos: a mídia hegemônica criminaliza o MST. O trabalho foi feito pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, com o apoio da Fundação Friedrich Ebert e da Federação do Trabalhadores em Radiodifusão e Televisão (Fitert), e analisou, entre fevereiro e julho de 2010, reportagens de três jornais (Folha, Estadão e O Globo), três revistas (Veja, Época e Carta Capital) e os dois telejornais de maior audiência no país (Jornal Nacional e Jornal da Record). O resultado geral demonstra que o MST é pauta constante na grande mídia brasileira, mas suas demandas não.

Quase 60% das matérias utilizaram termos negativos para se referir ao movimento, especialmente “invasão” e seus derivados. Em 42,5% dos textos que falam de atos violentos, o MST é citado como autor das ações e em apenas 2% das matérias a organização é classificada como vítima. Vale lembrar que todos esses resultados incluem a Carta Capital, uma publicação mais simpática ao MST. Sem ela, certamente os números seriam ainda mais expressivos dos ataques sofridos pelos sem terra diariamente.

Outros artigos científicos ou não já trataram do mesmo tema em níveis diversos. É fácil encontrar nos mecanismos de busca na internet, a começar pelo Scielo. Aqui mesmo, no Jornalismo B, muitas vezes já denunciamos as mentiras e omissões da grande mídia sobre o MST ou sobre outros movimentos de combate às desigualdades e aos desmandos das elites políticas e econômicas.

Nada disso acontece de graça. As ligações dos grandes conglomerados de mídia com o agronegócio são íntimas. O latifúndio também sustenta financeiramente a mídia que reproduz o seu discurso. Não é à toa nem por licença poética que se fala em “mídia das elites”. Latifúndios, empreiteiras, fábricas de automóveis e outros grupos desse porte são os grandes financiadores desses veículos de comunicação. São, juntamente com as elites políticas, os donos da mídia brasileira.

*A foto deste post é do site do MST.

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