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Legalização do aborto é debatida na web e silenciada na grande mídia

28 set

O artigo a seguir é uma colaboração de Niara de Oliveira*, especial para o Jornalismo B

O Dia Latino-Americano pela Legalização do Aborto na América Latina e Caribe de 2011 foi marcado no Brasil por uma blogagem coletiva convocada pelas Blogueiras Femenistas e por um tuitaço (esforço concentrado na rede social e microblog Twitter) que manteve a hashtag #legalizaroaborto em 1º lugar nos Trending Topics Brasil – como expressão mais citada no Twitter – durante quase todo o dia.

Se por um lado o esforço virtual das feministas nas redes sociais foi um sucesso, não podemos dizer o mesmo dos demais meios de comunicação que sequer citaram o dia 28 de setembro, e isso vale também para a ampla maioria das chamadas redes da imprensa alternativa. Basta fazer um busca rápida no google para comprovar. Afora o próprio Blogueiras Feministas juntamente com os blogues individuais que atenderam ao chamado da blogagem coletiva, apenas a Revista Fórum – que republicou um texto da jornalista Karol Assunção, da Adital e um texto excelente do Túlio Vianna – e a Rede Brasil Atual – registrando a atividade das feministas em São Paulo – deram atenção ao assunto. Para os demais, passou batido.

O movimento feminista tem apenas três datas durante o ano em que concentra esforços e organiza coletivamente atividades e ações unificadas para terem o mínimo de destaque. São elas o 8 de Março – Dia Internacional da Mulher -, o 28 de setembro e o 25 de novembro – Dia Latino-americano de luta pelo fim da violência contra a mulher -, e até as pedras sabem disso. Não dar destaque vendo toda essa movimentação e barulho que fizemos é uma opção e sabemos disso.

Sabíamos também que a grande imprensa não tocaria no assunto. Afinal, para uma imprensa preconceituosa (vide o mico internacional pago no dia anterior com o título de Doutor Honoris Causa do Instituto Sciences Po, da França, concedido ao ex-presidente Lula) e com recortes claros de classe, não faz sentido divulgar uma luta que se preocupa com a vida de mulheres pobres e negras, as grandes vítimas de abortos mal feitos no país. Além de ser um assunto polêmico pelo seu viés moralista e religioso, sabemos que a grande imprensa só o usa quando lhe é útil, como no caso da campanha eleitoral de 2010 em que a então candidata Dilma Rousseff foi “acusada” de defender a legalização do aborto e criou-se um clima de pânico em torno da questão.

Mesmo sabendo que o assunto só foi explorado por um erro monumental da coordenação da própria candidata, que respondeu oficialmente num dos programas de tevê a um spam (a versão eletrônica dos boatos, algo muito comum em todas as campanhas eleitorais), o resultado para as mulheres e para a luta pela descriminalização do aborto no Brasil foi desastroso. O movimento feminista tem muito a recuperar nessa luta específica do aborto e demonstra estar disposto a isso. Falta apenas conseguirmos colocar o bloco pró-legalização do aborto na rua, tal e qual estamos fazendo com a marcha das vadias (slutwalk) – passeatas pelo fim da violência contra mulher, pelo direito de nos vestirmos como quisermos e pelo direito ao nosso corpo. Quem sabe não esteja aí o viés, o ponto comum, entre essas duas lutas tão necessárias do movimento feminista.

Os links dos principais posts que circularam através da hashtag #legalizaroaborto e #AbortoLegal (hahstag usada pelos demais países latino-americanos) estão no post Blogagem Coletiva Pela Descriminalização e Legalização do Aborto do Blogueiras Feministas. Além deles tivemos dois guest posts no blog Escreva Lola Escreva – “Fiz um aborto e não sofri” e “Fiz um aborto e quero respeito” -, um post excelente da Cynthia Semiramis “pela legalização do aborto” e o excelente texto do Dr. Drauzio Varella sobre “a questão do aborto“:

“Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros.”

Nesta blogagem coletiva o destaque vai para o texto da jornalista Amanda Vieira, que questionou: “e o desejo de ser mãe, onde fica?“, e chamou a atenção para o fato de que essa mesma sociedade que proibe o aborto e condena milhares de mulheres à morte por abortos mal feitos (as pobres e negras, porque as ricas e brancas o fazem confortavelmente assistidas em clínicas sofisticadas) não dá nenhuma assistência à maternidade. 

No tuitaço, um destaque especial ao Leonardo Sakamoto e ao Drauzio Varella que além de manterem o bom humor, passaram o dia juntos conosco na hashtag respondendo a verdadeiros absurdos e argumentando sem rebaixar o debate ao nível das acusações que nos foram feitas.

*Niara de Oliveira é jornalista – www.pimentacomlimao.wordpress.com

Cruzamento de dados demonstra: blogs começam a superar jornais

23 ago

Na última semana uma pesquisa da CNT/Sensus sobre a popularidade da presidenta Dilma Rousseff apurou também a força da blogosfera e das redes sociais. Segundo relatou o Blog do Miro, “dos entrevistados, 16% disseram recorrer “sempre” aos blogs de notícias – cerca de 21 milhões de brasileiros; e 12% disseram recorrer “às vezes” – cerca de 16 milhões”.

Os resultados são positivos e expressivos. Mesmo sem o Plano Nacional de Banda Larga posto em prática, a internet avança pelo país e os blogs começam a firmar-se como fonte de informação. Os 21 milhões de brasileiros recorrendo “sempre” aos blogs de notícias são ainda mais relevantes se lembrarmos que a Associação Nacional de Jornais comemorou recentemente o recorde de circulação de jornais no Brasil, com uma média, no primeiro semestre, de pouco menos de 4,5 milhões circulando diariamente. Costuma-se estimar que cada exemplar seja lido por quatro pessoas. Ou seja, são 18 milhões de leitores de jornais diários contra 21 milhões de brasileiros que recorrem sempre aos blogs para se informar. Esse cruzamento de pesquisas não permite inferir que há mais leitores de blogs do que de jornais, o que não o torna menos significativo.

Certamente não há um blog que possa concorrer com os leitores da Folha de S. Paulo, o jornal de maior circulação, e nem é bom que haja. A lógica da blogosfera não é nem deve ser a concorrência entre os espaços, mas sua complementaridade e mútua alimentação. É justamente nas linkagens, nas referências e nas indicações de lado a lado que todos os blogs noticiosos / políticos crescem juntos. É no crescimento de um que crescem todos, e no crescimento de todos que cresce cada um.

Infelizmente a televisão ainda é totalmente dominante. O entretenimento – sempre alienante, na programação das emissoras de televisão com sinal aberto no Brasil – puxa a audiência dos telejornais. A alienação aberta salva a audiência da manipulação disfarçada de informação. Mas, aos poucos, com o aumento do acesso a computadores particulares, há também a tendência à destinar-se menos atenção à televisão, mesmo que ela esteja ligada. A concentração primária pode passar à tela do computador, aos blogs e às redes sociais.

A tarefa, nesse contexto, é aprimorar as formas de integração entre os blogueiros comprometidos com uma nova comunicação, uma comunicação popular e independente. Também é tarefa fundamental desvincularmo-nos das práticas da mídia tradicional. Para construirmos a transição do velho ao novo modelo de comunicação precisamos primar pela horizontalidade, pluralidade e comprometimento com as causas populares e com a absoluta transparência. Há ainda outras dificuldades e outras tarefas, muitas delas já comentadas em outros posts aqui mesmo do Jornalismo B. Estamos avançando. É hora de aprofundar e radicalizar esses avanços.

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Jornalismo cidadão, jornalismo profissional e a questão do diploma

28 jun

A longa discussão sobre o papel do jornalismo digital não pode ser pensada de forma desvinculada de outra discussão ainda mais longa: a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Antes de qualquer coisa, aliás, é preciso se perguntar: o que é um jornalista? E qual sua função geral? É por esses caminhos que seguiu uma excelente entrevista com o diretor do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Joel Simon, publicada originalmente na Deutsche Welle e traduzida para o português pelo Outras Palavras.

A primeira pergunta da entrevista foi “qual é a sua definição de jornalista”. Trechos da resposta: “Os jornalistas existem para colher e disseminar informação de relevância para a população. Há jornalistas profissionais que fazem isso, e há pessoas que fazem isso como cidadãos. (…) As novas tecnologias garantiram que nos dias de hoje existam um número nunca visto de jornalistas cidadãos. Na Alemanha, o jornalismo não é profissão para a qual se precise de um diploma. Qualquer um pode ser um jornalista”.

Joel Simon fala também sobre blogs e jornalismo (“Blogueiros podem ser jornalistas. Nem todos os blogs fazem jornalismo. Mas existem vários que são absolutamente jornalísticos, que condizem com o que nós entendemos por jornalismo e cujos autores têm direito de serem defendidos pelo Comitê”), e afirma que hoje as redes sociais já superaram os blogs como forma de jornalismo cidadão. Além disso, conta que em 2010 o Comitê registrou 145 casos de jornalistas presos, sendo 69 deles de mídias online, a maioria blogueiros.

 Dos dois parágrafos acima muita coisa pode ser dita. Os desdobramentos são gigantescos. Mas foquemos em dois pontos: primeiro, a constatação numérica do que já temos visto na prática: o cerco contra os blogs vem aumentando pelo mundo inteiro. A entrevista fala em China e Irã, mas essa prática já chegou ao também ao Brasil (mesmo que, por enquanto, sem prisões), através da judicialização da censura, uma forma de prisão intelectual.

Mas o fundamental da fala de Joel Simon é seu conceito de jornalismo cidadão, e o entendimento de que essa forma de jornalismo – não profissionalizada – está em expansão. Pode-se pensar ainda um pouco além. Por que não a profissionalização do jornalismo cidadão? O crescimento da distribuição de publicidade governamental em blogs é um dos caminhos que podem levar a essa aproximação. A melhora da qualidade desses espaços e o ganho de credibilidade de alguns deles como espaços jornalísticos, também. Aos poucos a sociedade vai entendendo que um novo jornalismo vai se formando na internet, um jornalismo em que cada cidadão pode e deve produzir conteúdo, pode informar e ser informado com qualidade e de forma horizontal.

Nesse contexto, a exigência de diploma para ser admitido como jornalista é retrógrada e fora da realidade, servindo apenas como reserva de mercado nas grandes empresas de comunicação e como forma de exclusão que logo será atropelada pelo grande campo de inclusão que é a internet. A profissionalização do jornalismo cidadão e a cidadanização do jornalismo profissional são práticas fundamentais para que a mídia torne-se verdadeiramente democrática e plural.

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A possível morte de Osama Bin Laden na mídia brasileira

2 mai

O anúncio da morte de Osama Bin Laden, líder da organização Al Qaeda, pode ter sido a notícia de 2011 com maior repercussão mundial – talvez maior até do que o terremoto seguido de tsunami no Japão. A segunda-feira 2 de maio foi de notícias (algumas barrigadas), reportagens e entrevistas infindáveis sobre a trajetória de Bin Laden, as circunstâncias que cercaram o anúncio de sua morte e os desdobramentos que essa situação pode trazer.

Em meio à enxurrada de conteúdo, optei por inverter a lógica tradicional, e usar as velhas mídias apenas como complemento às informações e análises partidas dos blogs e das redes sociais. Foi uma boa escolha. Empapuçados pela “vitória norte-americana”, pela “vitória da democracia”, os principais veículos da velha mídia focaram suas coberturas na boa e velha espetacularização sem questionamento.

Pouco se falou sobre as íntimas ligações de Bin Laden com importantes políticos norte-americanos, sobre seu surgimento como figura internacional a partir do apoio financeiro-militar dos EUA. Quase nada se questionou a noção de justiça defendida por Barack Obama, a execução de Bin Laden, o argumento de “respeito ao islã” para jogar seu corpo ao mar, os fortes interesses implicados em anunciar nesse momento a morte de Osama, a barbárie expressada na comemoração caseira – em frente a Casa Branca – e mundial – através dos líderes nacionais – de um assassinato político.

Todos esses e muitos outros questionamentos foram feitos e aprofundados em diversos blogs. A melhor cobertura que encontrei entre todos os veículos brasileiros foi do Blog do Miro. Em um caso típico no qual a mídia dominante evita discutir os fundamentos da “verdade” divulgada oficialmente, os comunicadores das novas mídias extrapolaram seu já comum papel opinativo e partiram também para a divulgação intensa de informações que não apareceram nos veículos tradicionais. A parte opinativa, independente, desvinculada dos interesses que prendem os rabos da grande mídia, permitiu opiniões mais contundentes e plurais.

Algumas sugestões de bons conteúdos publicados na mídia alternativa na segunda-feira:

Altamiro Borges (Blog do Miro): Bin Laden, Obama e a música pela paz“Foto de Bin Laden morto é falsa” / Como os EUA criaram Bin Laden / As ligações dos Bush com os Bin Laden / Bin Laden e o espetáculo da mesmice / Osama Bin Laden: uma história sinistra

Brizola Neto (Tijolaço): Enterro de Osama no mar foi “desova”, não islâmico / O videogame da morte / Tevês dos EUA e até BBC matam “Obama Bin Laden”

Rodrigo Vianna (Escrevinhador): Bin Laden já estava morto há dez anos?

Antonio Luiz M. C. Costa (colunista da Carta Capital): Bin Laden está morto. Missão cumprida?

Maria Frô: Pepe Escobar em 2001: Peguem Osama já! Se não pegarem… / Morto ou não Osama Bin Laden é antes um ícone que um comandante de guerra

Rodrigo Cardia (Cão Uivador): A morte (?) de Bin Laden não deixa o mundo mais seguro

Carlos Latuff (via Twitter): AQUI

Cantando no Toró: Licença para matar

Mundorama: O papel das Forças de Operações Especiais na morte de Osama Bin Laden

Opera Mundi: Local em que Bin Laden foi morto já pode ser localizado no Google Maps

Amálgama: Sobre a morte de Bin Laden e os árabes

Laerte Braga (Brasil Mobilizado): Nobel da Paz é o mandante do assassinato de Bin Laden

Celso Lungaretti (Náufrago da Utopia): Bin Laden: o fim de um mito oco

Revista Fórum: Morte de Osama Bin Laden é irrelevante, diz Robert Fisk

Diário Liberdade: Obama confirma que ordenou à CIA o assassinato ou captura de Osama Bin Laden

Postado por Alexandre Haubrich

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Entrevista exclusiva com Antonio Luiz M. C. Costa

30 mar

Antonio Luiz M. C. Costa é conhecido por seu trabalho na revista Carta Capital, mas seu trabalho de militância política começou há bastante tempo, nas marchas estudantis a partir da morte de Herzog e nos movimentos das Diretas Já e do Fora Collor. Filiou-se ao PT nos seus inícios, participou durante algum tempo de núcleos e diretórios e esteve no governo de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo, como assessor da Secretaria da Educação – inicialmente com Paulo Freire, depois com Mário Sérgio Cortella. Afastou-se do PT e da militância com o fim dessa administração, porque percebeu “que o sistema de núcleos estava praticamente morto e não havia mais, na prática, como influenciar o partido de baixo para cima. Nem era eu, como quadro técnico secundário, capaz de ter qualquer influência relevante nas políticas do partido – era visto como um mero funcionário, que devia executar o que fosse ordenado. Como não me interessa estar na política sem que possa ouvir minha voz, fui gradualmente para a área de comunicação”.

Sua formação é em engenharia, economia e filosofia e não tinha experiência com jornalismo além de escrever para jornais estudantis, mas “publicava um artigo aqui e ali e tive minha oportunidade quando a empresa de consultoria econômica na qual eu trabalhava depois de sair da prefeitura fez um convênio com a revista CartaCapital (na época, quinzenal), escrevendo artigos sobre conjuntura econômica setorial, nacional e internacional. Meus artigos chamaram a atenção de jornalistas da revista, Carlos Drummond e Mino Carta e acabei saindo da consultoria para trabalhar com jornalismo”. Depois de uma breve passagem de um ano pela IstoÉ – “para a qual fui inicialmente convidado, mas que se mostrou uma péssima experiência” – foi para a CartaCapital, onde estou desde 2001.

Na entrevista a seguir, exclusiva ao Jornalismo B, Antonio defende a intervenção do Estado para a quebra dos monopólios da mídia e critica o momento dos blogs e das redes sociais.

Jornalismo B – Qual a tua avaliação do momento atual da mídia alternativa brasileira? E o papel das novas mídias nesse contexto?

Antonio Luiz Costa – Eu ainda pertenço muito mais à mídia tradicional do que à mídia alternativa. Minha participação no Twitter e em artigos online no site da CartaCapital ainda são complementos do meu trabalho na revista impressa e não um fim em si mesmo, de modo que minha opinião pode ser condicionada por essa visão, mas para mim a mídia alternativa no Brasil ainda está muito no começo, é essencialmente experimental e amadora. É importante para testar e abrir caminhos novos, mas não é realmente uma “alternativa” à mídia tradicional. A esmagadora maioria dos blogueiros limita-se a repercutir ou criticar o que é publicado na grande mídia tradicional – a Folha, o Jornal Nacional, o Estadão, a Veja. Sequer dão atenção ao que sai em órgãos “tradicionais” de menor porte e com posições diferenciadas, como a CartaCapital, o Brasil de Fato, a Caros Amigos, para não falar de blogs “concorrentes” que não sejam da mesma panelinha. Mesmo que se trata de “criticar o PIG”, é uma maneira de se deixar pautar, de deixar aos interesses mais tradicionais decidir que assuntos são importantes e merecem ser discutidos. E depois se queixam de que a presidenta da República vá à grande mídia para se comunicar com o público… Eles mesmos repercutem mais facilmente uma entrevista da Dilma à Ana Maria Braga do que um furo importante dado por um blog.

Jornalismo B – Quais as principais dificuldades ainda enfrentadas pelos blogs e pelas redes sociais como espaço forte de comunicação? E quais os principais avanços que já foram feitos?

Antonio Luiz Costa – A principal dificuldade é o amadorismo, tanto no sentido financeiro – os blogs não proporcionam renda suficiente para que alguém possa se dedicar inteiramente a eles – quanto no de capacitação, mesmo: a maioria dos seus autores são jovens com pouca experiência política e perspectiva histórica, falta prática ou formação em jornalismo ou comunicação popular, falta a supervisão que mesmo um jornalista iniciante teria, e que ajudaria a evitar erros graves. Os mais comuns incluem o subjetivismo extremado, a adesão acrítica a uma causa em função de redes de simpatias e antipatias (“se fulano é a favor, também sou; se beltrano é a favor, eu sou contra”), fazer alegações e deduções sem base nenhuma, tratar como traidores quem discorde até mesmo em questões secundárias (em particular, questões de terminologia!), aderir a teorias conspiratórias, até mesmo jogar fora o bom-senso e a credibilidade em função de uma causa qualquer que momentaneamente os empolgue. Quanto a avanços, vi poucos desde que comecei a frequentar o Twitter, por volta de 2009: algumas tentativas de organização que não me parecem muito bem-sucedidas e de resto os mesmos problemas. Das redes sociais além do Twitter, pouco sei: tenho alguns anos no Orkut, mas é uma rede em franca decadência, da qual pessoas interessantes e com capacidade de discutir em alto nível já desistiram de participar. Quanto ao Facebook, experimentei poucos meses e detestei.

Jornalismo B – Qual a avaliação do momento atual da mídia dominante?

Antonio Luiz Costa – É um momento de crise e fragilidade econômica para a mídia impressa. Os jornais e revistas tradicionais estão perdendo leitores e anunciantes e não descobriram como migrar para a internet de maneira lucrativa. No Brasil, estão ainda politicamente enfraquecidos, depois de apostar seu futuro e seu prestígio em colocar o tucanato de volta ao poder e fracassarem: só lhes resta, agora, conciliarem-se com o governo e implorar por recursos financeiros. Já a mídia televisiva é outra questão: a Globo, em particular, está enfraquecida pelo esgotamento de suas fórmulas tradicionais e pelo crescimento da concorrência, mas a TV como um todo não está em crise – e como se vê no Oriente Médio, com a Al-Jazeera, ainda tem um enorme potencial para influenciar a política, se souber criar credibilidade.

Jornalismo B – De que forma o governo e a sociedade organizada podem atuar na defesa de uma comunicação mais democrática?

Antonio Luiz Costa – O mais importante é quebrar os monopólios, principalmente na mídia eletrônica. Há centenas de canais disponíveis e centenas de questões e pontos de vista diferentes a se expressar e não se justifica que uns poucos grupos açambarquem todos os meios disponíveis. É preciso abrir canais para grupos como o movimento negro, MST, movimentos sindicais etc. e as verbas de incentivo à cultura e publicidade governamental devem favorecer a diversidade de abordagens e pontos de vista. Pode-se exigir, também, que os pacotes de TV a cabo incluam um mínimo de produção nacional e que a estrangeira seja razoavelmente diversificada – não apenas algumas grandes redes dos EUA.

Jornalismo B – Qual é o papel fundamental da mídia hoje?

Antonio Luiz Costa – É o que sempre foi. Por um lado, informar o público dos acontecimentos reais e integrá-los em narrativas que façam sentido, permitindo que se posicionem como cidadãos. Por outro, proporcionar as experiências da arte e da ficção, estimulando o questionamento e o desenvolvimento intelectual.

Jornalismo B – Quais as perspectivas para o futuro da mídia brasileira?

Antonio Luiz Costa – Vejo o enfraquecimento progressivo dos grandes jornais e revistas impressos, possivelmente o desaparecimento de mais alguns deles, como já se deu com o velho Jornal do Brasil. Parece que há um novo espaço para tabloides criado pela classe C ascendente, que ao menos em São Paulo ainda foi pouco aproveitado, mas não é uma vertente que me interesse. Na mídia televisiva, vê-se um aumento da concorrência e o enfraquecimento progressivo do monopólio da Globo, mas há que se recear o papel crescente e agressivo de grandes redes transnacionais que lutam por um monopólio global da informação, tais como a Fox, a CNN e seus satélites. O Estado vai precisar intervir para evitar que monopolizem o acesso à opinião pública, exigindo que os distribuidores de TV a cabo ofereçam alternativas nacionais e outras como a Al-Jazeera, a TeleSur, a BBC etc.

Postado por Alexandre Haubrich

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Novos atentados: aumenta cerco à mídia independente

29 mar

Na última segunda-feira (28/3) foi amplamente divulgado na internet mais um caso de censura a um blogueiro. Agora foi no Paraná, onde o governador Beto Richa (PSDB) tem uma relação um tanto conflituosa com a liberdade de opinião – já desde a época em que foi prefeito da capital do Estado, Curitiba. Depois de, através da Justiça, impedir a publicação das pesquisas que indicavam crescimento de seu oponente na disputa pelo governo, Richa também atacou o blogueiro Esmael Morais.

Acostumado a atacar verbalmente blogs críticos a suas gestões, o governador do Paraná resolveu levar à Justiça seu ideal de silêncio. Esta, leal ao governo estadual e não muito afeita às liberdades, condenou Esmael a retirar do seu blog todas as postagens consideradas ofensivas ao governador. Das cerca de 20 mil postagens, mais de mil citavam Beto Richa. Após solicitação do blogueiro para que o juiz determinasse quais eram ofensivas, por volta de 500 posts foram tirados do ar.

Ressalte-se que ofensas pessoais devem ser coibidas, a internet também não pode ser uma terra sem lei, mas críticas e denúncias políticas tiradas do ar pela Justiça constitui censura por parte desta e atentado à liberdade de expressão por parte do reclamante, principalmente sendo ele o ocupante de um cargo público, que deve satisfações à sociedade sobre todos os seus atos políticos.

Na mesma semana em que as informações acima foram publicadas pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, um blogueiro carioca Ricardo Gama, que costuma publicar posts críticos à prefeitura e à polícia do Rio de Janeiro, recebeu três tiros na capital fluminense. Segundo o delegado do caso, ”nós temos ali várias pessoas que poderiam ter se sentido ofendidas ou mesmo que poderiam ter como objetivo silenciar o que ele vinha escrevendo”. Ou seja, chances de ataque ao direito de se expressar de Ricardo.

Não esqueçamos que as agressões à liberdade de blogueiros passam também pela mídia dominante. O jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, desde o ano passado tenta calar (e, de certa forma, consegue) os conteúdos produzidos pelo blog Falha de S. Paulo. No Rio Grande do Sul, o fotógrafo Ronaldo Bernardi, do Grupo RBS, processou o jornalista e blogueiro Wladymir Ungaretti e a Justiça determinou que Ungaretti retirasse de seu blog as referências a Bernardi e ao jornal Zero Hora.

A velha mídia, de modo geral, cala ou estimula as constantes tentativas de censura a blogueiros por todo o país. Enquanto isso, seguem se proliferando propostas para a constituição de um marco regulatório para a internet. É fundamental que aconteça, sem dúvida, mas em termos democráticos, de forma a ser construído também pelos blogueiros e que resguarde os direitos de informação, crítica e expressão de opiniões diversas. De grão em grão, a Justiça e diversos atores sociais vêm tentando enfraquecer o enorme poder mobilizador e disseminador da internet. Não se pode permitir que o novo marco feche a tampa desse caixão.

Postado por Alexandre Haubrich

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Nós, blogueiras!

23 fev

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Claudia Cardoso*

Antes que você pergunte, antecipo que, neste artigo, sentirá a ausência de importantes nomes de blogueiras. Por isso, inicio essa escrita convidando tod@s leitor@s do JornalismoB a completarem as lacunas que virão. Por mais que tente estabelecer um panorama de mulheres blogueiras que escrevem sobre política, entre outros temas, apesar de conhecer muitas, não tenho como dar conta de tudo o que acontece neste país. Fica o convite, para que você me ajude a ampliar esse conhecimento! Também peço desculpas antecipadas por algum provável esquecimento. Cometer alguma injustiça é um risco de quem se atreve a escrever, a partir de um recorte.

De comum, a arte de desenvolver mais uma tarefa – a de blogueira – além da profissional, mãe, companheira, filha, irmã, amiga, mulher. Não conheço uma mulher blogueira que faça desta atividade a sua principal fonte de renda, seu trabalho, seu sustento. Porém a vontade de dizer sua palavra, expressar sua opinião, manifestar seu pensamento, ou garimpar temas afins para publicação, são as forças necessárias para seguir adiante com o projeto de blogar, superando as dificuldades. Então, vamos lá!

Iniciemos pelo rumoroso caso que envolveu as irmãs Alcinéa e Alcilene Cavalcante, amapaenses, que tiveram seus blogues retirados do ar, devido às ações judiciais movidas contra elas pelos advogados do Senador José Sarney (PMDB/PA) no ano de 2006. Na época, reproduziram arte criada por um cartunista e foi o que bastou, para que a censura se impusesse na rede.

A blogueira paulista Namaria News prefere o pseudômino para fugir do anonimato e evitar desgastes pessoais, apesar de seu blog tratar de assuntos fartamente documentados sobre a política do PSDB em seu estado.

Denise Arcoverde reside no exterior e há anos escreve (em português) sobre política em seu blog, sempre antenada no que acontece no Brasil.

Conceição Oliveira – Maria Frô – foi incansável durante a campanha que levou Dilma Rousseff à presidência, com sacrifícios familiares e no trabalho, conforme relato em seu blog. Durante o I Encontro de Blogueiros Progressistas em SP, foi enfática em conclamar o público feminino, para que escrevesse mais e fizesse uso de ferramentas, como o Twitter.

Conceição Lemes é jornalista e é colaboradora no blog Viomundo, onde escreve sobre políticas públicas para a saúde.

Sulamita Esteliam, jornalista mineira, mas que reside em Recife há muitos anos, começou a escrever, a partir de sua participação no encontro de blogueiros em São Paulo, cuja organização também esteve aos cuidados das duas Conceição acima citadas.

Lola Aranovich também participou do encontro de blogueiros e exerce importante influência na blogosfera.

Outra iniciativa, um desdobramento da campanha presidencial de 2010, foi a criação da lista de discussão Blogueiras Feministas que, por sua vez, gerou o blog coletivo de mesmo nome.

No Rio Grande do Sul, as blogueiras Cris Rodrigues, Cíntia Barenho e Garota Coca-Cola acumulam reconhecimento e audiência. O blog ONG CEA, que tem a Cíntia como uma das blogueiras daquele coletivo, recebeu prêmio do Ministério da Cultura em 2010. Cabe assinalar o trabalho de outro coletivo feminino, o blog da Maria Mulher, mantido pela Organização de Mulheres Negras. E, na área da Educação e Internet, destaque para Suzana Gutierrez, que defendeu tese de doutoramento em 2010. Grande defensora da escrita em blogues, provocadora desta que escreve, para que mantivesse um, mas péssima “aluna”: o Dialógico está desatualizadíssimo!

Só o JornalismoB para me motivar a retornar a escrever em blog! Mas este já é tema para outra postagem…

*Claudia Cardoso é editora do blog Dialógico, em parceria com Eugenio Neves.

O Egito de Mubarak, o Egito pós-Mubarak e a mídia brasileira

11 fev

Depois de 18 dias de manifestações por todo o Egito, Hosni Mubarak, ditador no poder há 30 anos, renunciou nesta sexta-feira. Pelo tamanho da rebelião, pela relevância histórica do país e pela sequência de revoltas populares no Norte da África, a mídia mundial foi dominada nesses dias pela cobertura da crise egípcia. A brasileira não ficou de fora. Encerrada a primeira parte da crise, encerra-se também a primeira parte da cobertura, e cabem alguns comentários gerais sobre o que foi feito.

As condições de cobertura no Egito foram terríveis. Ameaças, agressões, sequestros. A imprensa, que mesmo nas guerras costuma ter seu espaço respeitado, ficou acuada, tida pelos governistas como uma das vozes responsáveis pelos protestos. Ainda assim, auxiliada pelas pautas das agências internacionais e, em especial, pela comemorada cobertura da TV Al-Jazeera, a mídia brasileira se virou para mostrar com a maior proximidade possível o que acontecia especialmente no Cairo, capital do país.

Tanto as televisões quanto os jornais estiveram próximos dos acontecimentos populares, constantemente cobrindo os protestos na Praça Tahir, que concentrou os manifestantes – que chegaram a dois milhões. As imagens de televisão e as fotografias retrataram de forma honesta e extremamente competente as movimentações nas ruas. O dia a dia do país, alterado pela rebelião, foi muito bem e corajosamente abordado, de modo geral.

As dificuldades e falhas da cobertura ficaram na parte da política institucional. Poucas explicações sobre as origens da revolta e sobre como as altas esferas da política local e internacional trabalharam para sua continuidade e seu desenvolvimento. Uma “revolta popular” apoiada e comemorada pelos EUA e pelos setores mais fortes do capitalismo internacional não soou estranho a ninguém? Os investimentos dos norte-americanos no Egito foram comentados de passagem, e sua continuidade e aprofundamento também, mas de que forma isso vai refletir na formação do novo governo, de que forma os bilhões de financiamento estado-unidense ao exército egípcio pautaram a atitude da instituição, entre outras questões, passaram despercebidas.

A mídia independente, fortemente articulada com os blogs e as redes sociais – que, especialmente no início da revolta, foram a principal fonte de informações sobre a crise e, principalmente, de mobilização – também não tem dado conta da demanda de cobertura da política internacional ligada aos desdobramentos egípcios. Por limitações óbvias – estruturais – ou nem tão óbvias – grande distância física e cultural, desconhecimento sobre a história recente do Egito, etc – a imprensa alternativa viu-se limitada a conjecturas e análises pouco aprofundadas, com algumas exceções.

É preciso que a mídia internacional – incluindo, obviamente, a brasileira – fique atenta aos desdobramentos da política egípcia. Os fatos servem sempre como exemplos para outras iniciativas, e os erros que podem ter sido cometidos pelo caminho da revolta egípcia só ficaram claros com o início do novo governo. Por isso, por esse direito do povo à informação completa, a situação do Egito precisa continuar sendo acompanhada de perto.

Ao mesmo tempo, a relevância inegável dos blogs e das redes socias na derrubada do governo de Hosni Mubarak contraria a opinião dos mais céticos quanto à força da internet. A capacidade de mobilização política via web está empiricamente demonstrada. Se este lastro vai se espalhar dependerá dos rumos que dermos à rede. Mas o caso do Egito provou o potencial mobilizador, que precisa ser ativado para que a pressão “física” transforme a latente sede de mudança em realização popular.

Postado por Alexandre Haubrich

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Jornalismo, blogs e redes sociais: entre a civilização e a barbárie

18 jan

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Icaro Bittencourt*

A recusa de considerar-se visões de mundo diferentes da nossa separa-nos da universalidade humana e mantém-nos mais perto do pólo da barbárie (Tzvetan Todorov)

Em seu livro O medo dos bárbaros, o pensador búlgaro Tzvetan Todorov atualiza os já tão desgastados conceitos de civilização e barbárie, trazendo uma definição muito útil destes termos para pensarmos o mundo contemporâneo.

O autor distancia-se das noções de civilização e barbárie que ficaram conhecidas principalmente com a experiência do neocolonialismo ou com a vertente da antropologia relacionada ao multiculturalismo. Tentando estabelecer critérios transculturais na definição dos dois conceitos, Todorov defende que a barbárie acontece quando negamos a plena humanidade do outro e a civilização, em um movimento contrário, aprimora-se quando reconhecemos a plena humanidade em pessoas diferentes de nós. No entanto, nenhuma cultura (ou indivíduo) seria absolutamente bárbara ou definitivamente civilizada, já que estes dois pólos seriam possíveis em qualquer ação humana, constitutivos de nossa humanidade.

Pensando então que barbárie pode ser entendida como a desumanização do outro, podemos concluir que boa parte das atitudes jornalísticas da grande mídia sempre foi pautada pela característica central da barbárie: deslegitimação de adversários políticos, criminalização de movimentos sociais, desumanização da pobreza e dos “criminosos”, eis alguns dos vários exemplos da incapacidade de muitos meios de comunicação de respeitar as diferenças e as visões de mundo contrárias aos seus interesses.

Porém, o que quero problematizar aqui (apesar das limitações de um texto desta natureza) é a potencialidade que as mudanças provocadas pelos blogs e redes sociais na prática do jornalismo têm para amenizar essa “desumanização do outro” que impregna a mídia tradicional.

Muitos devem concordar que a expansão da internet e de suas ferramentas possibilitou certa “democratização” na produção, na circulação e no acesso às informações, causando diversas fissuras no monopólio informacional construído pela grande mídia. Debates que há poucos anos atrás raramente aconteceriam proliferam-se no Twitter; textos críticos e denúncias que antes poderiam ser censurados ou terem sua circulação muito limitada espalharam-se pelos blogs e espaços virtuais alternativos. Assim, as novas tecnologias de comunicação seriam responsáveis por redimensionar o papel da informação no mundo contemporâneo, sendo esta considerada por alguns intelectuais, como Manuel Castells, o elemento central de uma nova era da humanidade.

Contudo, para outros especialistas, como Andrew Keen, estas novas tecnologias poderiam fomentar um “fim da cultura”, já que a disseminação da informação poderia ser controlada em boa parte por amadores e não por especialistas em determinados assuntos. Nesse caso, os jornalistas poderiam ser prejudicados pelos diletantes e amadores que povoam o meio virtual.

Distanciando-me das duas interpretações anteriores (uma otimista e outra pessimista) sobre as novas tecnologias de informação, proponho que devemos analisá-las como apenas um meio de tornar a comunicação mais democrática e de respeitar as diversas culturas e visões de mundo e não um fim em si mesmo, ou seja, só a utilização da tecnologia não garante a humanização do debate e o fortalecimento de um jornalismo democrático.

Esse argumento vai ao encontro da distinção feita por Tzvetan Todorov entre avanço tecnológico e civilização, pois uma técnica e/ou uma ferramenta podem ser utilizadas para uma ação vinculada tanto à boa convivência entre os seres humanos quanto à barbárie.

Deste modo, essa pequena reflexão esboçada neste texto pode servir para pensarmos se os jornalistas e demais indivíduos, grupos sociais, partidos políticos, entre outros, não estão (em boa parte) apenas reproduzindo nas novas ferramentas de comunicação os mesmos preconceitos, intolerâncias e práticas de desumanização da diferença que sempre marcaram a maioria dos meios de comunicação não virtuais. Será que os blogs e as redes sociais contribuem para o fortalecimento da civilização, entendida como o reconhecimento da plena humanidade no outro (e na sua cultura e visão de mundo diferente)? Penso que o debate sobre essa questão não deve ser adiado, pois a confusão entre tecnologia e “progresso” (seja no jornalismo em particular ou na sociedade como um todo) ainda reúne um grande contingente de iludidos.

*Icaro é graduado em História pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Mestrando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

E 2010 chega ao fim

25 dez

2010 foi um ano movimentado na mídia brasileira, em seus mais diversos setores. A velha mídia perdeu uma eleição, com a vitória de Dilma. As redes sociais e os blogs se fortaleceram e, de forma ainda muito inicial, os comunicadores independentes da web começaram a se organizar.

No Jornalismo B, continuamos com o bom ritmo de crescimento contínuo dos dois primeiros anos de blog. Acessos, comentários e colaborações cresceram muito, o espaço ganhou corpo como importante local de debate da mídia brasileira e de ativismo diário por um novo pensamento em relação à imprensa.

Em maio, nasceu o Jornalismo B Impresso, e esteve aí o principal diferencial positivo de 2010 para o Jornalismo B. Contando com diversos parceiros, o Impresso circulou fortemente nos bairros centrais de Porto Alegre e chegou a alguns outros Estados através das assinaturas. Levou, assim, o debate sobre mídia também ao papel, além de tratar, sempre à esquerda, sempre de forma crítica e contestadora, de política, cultura, meio ambiente, etc.

2011 chega trazendo a esperança de expansão da versão impressa do Jornalismo B. Precisamos que os assinantes se multipliquem, assim como os patrocinadores. Só assim, com a colaboração de todos, podemos fazer um jornal cada vez mais forte para, junto com outras iniciativas já existentes e com outras que precisam surgir, desenvolver a pluralidade da mídia gaúcha e brasileira. Por isso, neste editorial de encerramento de ano, não custa lembrar: assine o Jornalismo B Impresso. Apenas com a ajuda de todos podemos fazer esse espaço crescer.

O blog também seguirá firme, mantendo os princípios que o nortearam desde seu primeiro post, e trazendo também algumas novidades, é claro. Janeiro e fevereiro, por exemplo, serão meses nos quais contaremos com um grande número de colaboradores especiais no blog, em todas as terças e quintas, e em algumas quartas-feiras. É só o começo. O objetivo é encerrar 2011 com o dobro da força que temos hoje, e pra isso também precisamos de todos os nossos leitores e amigos. Precisamos que sigam lendo o Jornalismo B, divulgando-o, comentando nos nossos posts, enviando sugestões, críticas ou o que quiserem. Enfim, fazendo o blog junto conosco. Não esqueça também de seguir e divulgar o twitter do Jornalismo B -www.twitter.com/jornalismob

A esperança no crescimento do Jornalismo B também é a esperança no crescimento da mídia independente, e de novas lutas na direção de uma comunicação brasileira mais democrática. A Confecom e alguns encontros de blogueiros foram passos importantes, e em 2011 deve aumentar a pressão da sociedade organizada sobre o governo no sentido de criar novos marcos regulatórios para a mídia nacional. Tudo indica que podemos avançar.

Com tudo isso, o Jornalismo B deseja a todos os leitores um ótimo fim de ano e um grande 2011, cheio de esperanças, lutas e vitórias, construídas através do trabalho coletivo, da solidariedade e da defesa de uma democracia verdadeira. Fazemos um breve recesso, e em 10 de janeiro estaremos novamente postados na trincheira de batalha por uma mídia plural, democrática e popular.

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