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Dois anos de Jornalismo B Impresso

18 mai

O Jornalismo B Impresso chega, nesta edição, ao seu segundo aniversário. São 37 edições em dois anos de vida, e dezenas de assinantes espalhados por todas as partes do Brasil. Vamos crescendo, fortalecendo o jornal que fortalece o blog que fortalece o jornal. E, desse circuito virtuoso, a mídia independente também sai mais forte.

Temos consciência de que continua existindo o abismo que existia há dois anos entre o modelo de comunicação que temos no Brasil e o modelo que precisamos para caminhar em direção ao aprofundamento da democracia. Mas a mídia independente tem podido avançar. Os blogs, especialmente, e as plataformas de redes sociais, como o Facebook e o Twiter, ganham cada vez mais importância enquanto espaços de informação, debate e militância política – inclusive pela democratização da mídia.

O avanço desses espaços deve, porém, ser entendido sempre como um meio, não como o fim. O fim, que só pode ser alcançado se avançarmos muito mais na luta pela democracia comunicacional, é uma sociedade igualitária e horizontal em todos os seus aspectos. O crescimento da mídia independente, para efetivar-se enquanto caminho a este fim, precisa ser acompanhado da batalha pela horizontalização de toda a comunicação do país, com a conquista, pelas forças populares, de todo o espectro da mídia nacional, incluindo as concessões de TV e rádio.

O Jornalismo B se mantém vivo, cresce, e o oxigênio que mantém essa vida é feito da mesma matéria prima do alimento que garante o crescimento: a convicção na luta como única forma de construir uma sociedade com valores humanistas, igualitários e justos, uma sociedade na qual o povo esteja no lugar que lhe é devido. É com essa convicção que seguiremos caminhando. Quem entender essa necessidade, poste-se ao nosso lado. E lute.

O texto acima é o editorial da 37ª edição do Jornalismo B Impresso. A edição será distribuída em Porto Alegre na próxima semana, e o jornal pode ser assinado em qualquer lugar do Brasil. Os locais de distribuição continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B.

Nessa edição, temos textos sobre as estatizações dos recursos naturais na América Latina, a ocupação Eliana Silva, em Belo Horizonte, a punição dos assassinos de Eldorado dos Carajás, e, claro, as relações entre a revista Veja e o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

É importante que todos os amigos do Jornalismo B se mobilizem para assinar e divulgar as assinaturas do Impresso. A assinatura pode ser feita em qualquer lugar do Brasil.

São três as possibilidades de assinatura: 6 edições – R$ 40; 12 edições – R$ 60; 20 edições – R$ 100. As edições são quinzenais. Para assinar, basta entrar em contato pelo email bjornalismob@gmail.com.

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Zero Hora 17 mil edições: uma retrospectiva B

23 abr

Nesta segunda-feira o jornal gaúcho Zero Hora comemorou 17 mil edições. Para marcar a data, o jornal publicou em suas páginas impressas e em seu site as capas de algumas edições que, para eles, marcaram essa trajetória.

Fizemos nossa própria seleção de capas que compõem um bom quadro do tipo de jornalismo feito por esse jornal e pelo conglomerado de comunicação do qual faz parte:

Em 1964, em uma de suas primeiras edições, a bênção do Gen. Mário Poppe de Figueiredo, comandante do III Exército após o Golpe, com direito a bilhete escrito de próprio punho:
“Recebi com muita simpatia o aparecimento de Zero Hora. Com a orientação de propugnar pelos ideais cristãos e democráticos do povo brasileiro, será mais uma voz a conduzir a opinião pública no Rio Grande do Sul nos rumos tradicionais de nossa formação histórica. Auguro a Zero Hora uma longa e próspera existência”.

Em 1968, a afirmação do AI5.

Em 2006, apoio à empresa de celulose Aracruz, amiga do Grupo.

Em 2008, ataque ao novo piso dos professores.

Também em 2008, a criminalização do MST.

Em 2010, empenho em defender privatização do sistema prisional como solução à superlotação dos presídios.

Em 2011, crítica à medida que tentava evitar injustiças e reduzir superlotação das prisões.

Em 2011, incentivo à despolitização e encobrimento da realidade do Estado.

Em novembro de 2011, ataque à greve dos professores.

Ainda em novembro de 2011, nova defesa da privatização do sistema prisional, aprofundando marginalização de adolescentes infratores.

Em 19 de abril de 2012, nova tentativa de criminalização do MST. As especulações sobre prejuízos às pesquisas sobre a vacina contra febre aftosa, levantadas pela matéria, foram descartadas no mesmo dia.

Em 20 de abril de 2012, tentativa de criar clima contrário à presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, como estratégia de deslegitimação dos governos progressistas da América Latina.

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Cristina devolve petroleira ao povo argentino, mídia privatista esperneia

17 abr

As privatizações costumam contar com grande apoio da mídia hegemônica, aconteçam em que país acontecerem. A grande mídia internacional também se refestela com esse tipo de política e busca criar situações de pânico quando países próximos buscam formas de aumentar o poder do Estado – e da sociedade civil – sobre as riquezas de cada país. Afinal de contas, se as riquezas estiverem nas mãos do povo, com que dinheiro os grandes empresários irão sustentar a mídia que tanto os defende?

A decisão da presidenta argentina Cristina Kirchner de nacionalizar a empresa petrolífera YPF e devolvê-la às mãos do povo argentino foi recebida com revolta por esses setores da mídia. A espanhola Repsol detinha a YPF desde 1999, quatro anos depois de a empresa ser privatizada pelo governo de Carlos Menem em meio à onda neoliberal que varreu a América Latina e entregou as poucas riquezas dos países do continente para exploradores estrangeiros.

A YPF, fundada no início do século passado e cujo modelo estatal inspirou a criação da Yacimientos Petrolíferos Fiscales de Bolívia (YPFB), da Petróleos Mexicanos e da Petrobrás, foi privatizada por um presidente que, em 2001, esteve preso por corrupção, e que durante seu governo perdoou criminosos condenados por suas atuações durante a Ditadura Militar argentina.

A velha mídia da Espanha esperneou. Atacou Cristina de cima de um altar colonialista, como costuma atacar os latino-americanos comprometidos com a própria soberania. O mesmo aconteceu com a mídia (ainda) dominante na Argentina, como o jornal Clarín, opositor de Cristina e entreguista costumaz.

No Brasil, como escreveu Martín Granovsky, do Página 12, a resolução de Cristina “mereceu um tom informativo e neutro, por exemplo, em dois portais ligados ao mundo dos negócios do Brasil, o do jornal Estado de São Paulo e o do Valor Econômico”. A Folha de S. Paulo também deu tom informativo à sua matéria principal sobre o assunto, mas, nas retrancas, grande espaço para as críticas espanholas e até um artigo de Jorge Castro, que, como a própria Folha tem a cara de pau de admitir, é colunista do Clarín e foi secretário de Planejamento de Carlos Menem, o presidente que privatizou a YPF.

O jornal gaúcho Zero Hora mergulhou novamente em sua ânsia de atacar os governos progressistas da América Latina. Distorceu, ao usar como “cartola” a frase “O petróleo é dela”, dando a entender que a presidenta havia tomado para si a petroleira, quando, na verdade, tomou-a para o Estado e o povo argentino. No título, tenta conduzir ao leitor à conclusão de que Cristina “tem gosto” por brigar e arrumar polêmicas, novamente personalizando-a: “Cristina agora briga com a Espanha”. O primeiro parágrafo dá o tom que Zero Hora busca impor a todas as notícias sobre a presidenta argentina, enfileirando críticas que voltam a cada nova matéria, como um recalque intransponível: “Em uma lista de atitudes controversas, que inclui perseguição a jornais, guerra de importações e a busca pela soberania das Ilhas Malvinas, a Argentina anunciou ontem a maior expropriação individual de uma petroleira na América Latina”.

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A “canalla mediática” internacional torce pela morte de Chávez

12 abr

O jornalista e blogueiro Rodrigo Vianna advertiu na última quarta-feira que a mídia dominante brasileira tem se transformado em um espaço de reforço à direita venezuelana em sua luta contra o presidente daquele país, Hugo Chávez. Como demonstrou Rodrigo, a fonte prioritária dos últimos lances midiáticos tem sido o jornalista venezuelano Nelson Bocanera. E o primeiro a repercutir, por exemplo, a “informação” de que Chávez viria tratar-se no Brasil foi Merval Pereira.

É importante, antes de mais nada, refletirmos sobre quem são esses dois personagens.

Nelson Bocanera, citado pelo Wall Street Journal como “leitura obrigatória pra quem vai “investir” na Venezuela”, trabalhou para a RCTV e a Venevizion, duas das maiores televisões privadas da Venezuela, ambas construtoras do Golpe de Estado que, em 2002, roubou a presidência de Chávez por algumas horas. Agora, Bocanera trabalha para o El Universal, um dos maiores jornais antichavista do país. Tuiteiro e blogueiro, o jornalista costuma republicar afirmações de políticos da oposição, como Maria Corina Machado, uma das pessoas que esteve à frente do Golpe de 2002.

Merval Pereira trabalhou a vida inteira na Rede Globo, e notabilizou-se nos últimos anos como uma das principais expressões da direita midiática antilulista. Tanto que virou colunista, entrevistado e orador de encontros do Instituto Millenium.

O Instituto Millenium é uma entidade criada em 2005 com o objetivo de trazer para sua órbita a nata da direita brasileira. Possui como apoiadores instituições como o Instituto Liberal e o Movimento Endireita Brasil. Entre seus conselheiros, estão João Roberto Marinho, Roberto Civita, Jorge Gerdau, Luiz Eduardo Vasconcelos, Gustavo Franco e Pedro Bial. Seus princípios, segundo o site da organização, são “liberdade individual, propriedade privada, meritocracia, estado de direito, economia de mercado, democracia representativa, responsabilidade individual, eficiência e transparência”.

Em uma estranha escolha, Merval tornou-se também membro da Academia Brasileira de Letras, tendo publicado apenas dois livros (um escrito a quatro mãos, há décadas, e outro com uma seleção de artigos contra Lula). Em uma rápida busca, é possível encontrar artigos do “escritor” ou matérias sobre ele com trechos do tipo: “Merval acredita na necessidade em aperfeiçoar o sistema e aprofundar as discussões baseadas no lucro e em questões sociais: “O capitalismo não vai acabar e o socialismo não é uma alternativa. (…)”, ou “O Lulismo é resultado do mensalão e das políticas assistencialistas”.

Merval sempre criticou Chávez, afirmando que a Venezuela, assim como o Equador e outros países governados pela esquerda latino-americana, “se aproxima de um ditadura”. Nos últimos meses, “virou um setorista da doença de Chávez, só que com base em informações distorcidas”, segundo um texto publicado no blog Ficha Corrida.

Pois, obviamente, as intrigas da dupla Bocanera – Merval chegaram ao Rio Grande do Sul, a princípio através de Políbio Braga, uma espécie de Merval Pereira sem grife, e em seguida na editoria de Mundo do jornal Zero Hora, sempre preparada para atacar os governos progressistas que vêm ganhando força na América Latina desde o fim da década de 1990. Zero Hora também entrevistou Bocanera e usou o jornalista como fonte única em uma matéria de sete parágrafos sobre as “revelações” de Bocanera e Merval. Segundo a matéria, o venezuelano agora revela como o Chávez “mudou de ideia” sobre a possibilidade de tratar-se no Brasil. Ao invés de admitir o erro e a precipitação da informação repercutida por Merval, contorna-se a barriga.

A propaganda política em forma de guerrilha midiática, travestida sempre de jornalismo isento, é tática comum do imperialismo estadunidense em todos os locais onde tem interesse em atuar. O Departamento de Estado conta sempre com a colaboração da grande mídia internacional, que trabalha alimentando redes de boatos e de ataques de lado a lado. É similar ao que acontece em Cuba com a blogueira Yoani Sánchez. A “notícia” é dada na Venezuela, mas o povo venezuelano acredita cada vez menos na mídia privada do país. Também desconfia das agências e dos grandes jornais estadunidenses. Então a “informação” é enviada ao Brasil, onde é repercutida ao máximo, em todos os veículos aliados do capital internacional – alguns funcionários desses veículos já foram pegos pelo Wikileaks colaborando diretamente com o governo dos EUA, por exemplo. E fecha-se o círculo fazendo-se com que a matéria publicada por aqui seja devolvida à Venezuela, tornando o veículo brasileiro a nova fonte – aparentemente confiável para o venezuelano médio, que, como escreveu Rodrigo Vianna, não conhece o histórico ou a conjuntura atual da mídia brasileira.

*Em fevereiro já mostrávamos AQUI o posicionamento da velha mídia brasileira em defesa de Henrique Capriles, adversário de Chávez nas eleições que se avizinham.

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Charge: Desde 2002 chamando golpe de Estado de liberdade de imprensa

11 abr

Equador fecha cerco aos desmandos midiáticos

17 fev

Para a velha mídia brasileira, Cesare Battisti é um criminoso condenado em seu país, e abrigá-lo é uma afronta à soberania da Itália. Para a mesma mídia, os mesmos veículos dos mesmos conglomerados de comunicação, Carlos, César e Nicolas Pérez, donos do jornal El Universo, são heróis esmagados por um governo autoritário. Battisti tem como seu opositor um governo que boa parte do planeta reconhece como neofascista, cuja marca maior é a corrupção e o autoritarismo. O opositor dos empresários do El Universo é um presidente que tenta reverter um quadro de exploração e desmandos de uma elite nacional – submissa às elites internacionais – que comandou o Equador por boa parte de sua história.

Desde que assumiu a presidência de um dos países mais pobres da América Latina, Rafael Correa passou a combater uma prática que assola todos os países latino-americanos e fere de morte a democracia, sempre tão frágil: os desmandos de uma mídia automaticamente alinhada aos interesses das elites político-econômicas.

Há cerca de um ano, Correa processou pessoalmente os donos de um dos maiores jornais do Equador, o El Universo, por injúria. Em um artigo publicado no jornal, o presidente foi chamado de “ditador” e acusado de ter ordenado um ataque a um hospital durante uma revolta de policiais em setembro de 2010, durante a qual Correa denunciou uma tentativa de golpe de Estado. Na última quinta-feira a Justiça equatoriana manteve sua decisão anterior de condenar os irmãos Pérez e o colunista Emilio Palacio a três anos de prisão e ao pagamento de U$$ 40 milhões. Os empresários, criminosos condenados, fugiram do país, dois deles para os Estados Unidos, o outro para o Panamá.

Nesta sexta-feira a cobertura do jornal gaúcho Zero Hora foi exemplar da conduta levada adiante por todos os jornalões brasileiros quando se trata de fatos relacionados aos governos progressistas que vão se espalhando pela América Latina. O título da matéria, não assinada, é “Equador fecha cerco à liberdade de imprensa”, com a linha de apoio “Justiça legitima perseguições à mídia ao reafirmar condenação de diretores do jornal El Universo”. Além de uma matéria cheia de juízos de valor e vazia de informação e aprofundamento, Zero Hora publicou um quadro chamado “mais agressões”, onde cita números de “agressões a jornalistas e veículos”, sem sequer explicar de que tipo de “agressões” está falando. Há ainda uma entrevista com Ricardo Trotti, diretor de liberdade de imprensa da Sociedade Interamericana de Imprensa. A SIP é fonte fiel de Zero Hora, e já foi tratada em outro post aqui mesmo do Jornalismo B, onde também explicamos que Trotti, “assim como muitos dos integrantes do Conselho Consultivo, vive e trabalha em Miami. Também a maior parte da diretoria executiva da SIP é formada por executivos da mídia norte-americana”. Nada está ali por acaso. A defesa da imunidade da velha mídia às leis é uma causa internacional dos donos do poder e da palavra.

O interessante é que jornalistas do próprio Grupo RBS processam outros jornalistas, e aí não se fala em “cerco à liberdade de imprensa”. Quando a Folha de S. Paulo faz o mesmo e processa um blogueiro, também não há, segundo esse setor da mídia, “perseguições à mídia”. O temor dos grandes empresários de comunicação brasileira é que a moda pegue. Se cada político atacado de forma injuriosa por colunistas da grande imprensa resolver processar os jornais, se cada lei – e até artigo da Constituição – contornada por esses grupos começar a ser aplicada com rigor, a má fé da mídia das elites será exposta, e seu império ganhará mais algumas rachaduras para se somarem às tantas que já ameaçam seu domínio.

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A pátria grande

9 set

Há muito tempo o Jornalismo B fala da importância da integração do continente latino-americano enquanto arma de enfrentamento ao imperialismo dos EUA e como estímulo aos avanços progressistas em marcha no continente. Em medidas diferentes, as ações governamentais em alguns países e as atividades de movimentos sociais em outros se apoiam mutuamente, e caminham juntas em um processo que pode levar à verdadeira independência latino-americana.

O papel da mídia alternativa nesse processo é fazer circular entre os países informações e análises críticas sobre os avanços e retrocessos nos vizinhos. É preciso fazer isso de forma a integrarmos nossos caminhos e aprendermos com as vitórias e derrotas alheias, que são também nossas vitórias e nossas derrotas.

Ao mesmo tempo em que ascendem governos de esquerda e centro-esquerda, a América Latina se confronta com governantes como a dupla Uribe-Santos na Colômbia ou o chileno Sebastian Piñera, representantes da velha direita neoliberal que apenas representa os interesses das elites locais e do imperialismo nortista. Também enfrentamos retrocessos em alguns dos países com governos mais progressistas do continente, e esses problemas devem ser observados de perto e enfrentados por todos nós.

É a partir dessa percepção que o Jornalismo B Impresso coloca nas ruas esta edição, especial sobre América Latina, tratando de situações específicas de alguns dos nossos países, mas que devem ser pensadas no conjunto de nações que aqui se integram. Nesta edição temos textos sobre Venezuela, Bolívia, Argentina, Chile, Peru e sobre a inserção do Brasil nesse processo, com a esperança de que nos sintamos cada vez mais pertencentes à pátria grande latino-americana.

O texto acima é o editorial da 27ª edição do Jornalismo B Impresso, edição Especial América Latina, que começa a ser distribuída em Porto Alegre na próxima semana. Os locais de distribuição continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B.

É importante que todos os amigos do Jornalismo B se mobilizem para assinar e divulgar as assinaturas do Impresso. A assinatura pode ser feita em qualquer lugar do Brasil.

São três as possibilidades de assinatura: 3 meses – R$ 30; 6 meses – R$ 50; 12 meses – R$ 100. Para assinar, basta entrar em contato pelo email bjornalismob@gmail.com.

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As contradições da mídia estatal venezuelana

17 ago

Partindo da percepção de que há uma guerra ideológica sendo travada na Venezuela através de três setores distintos da mídia local, três posts desta semana no Jornalismo B vêm tratando de cada um dos lados dessa história. O último post tratou dos meios de comunicação privados venezuelanos. Na quinta-feira serão os meios alternativos, comunitários e independentes. Nesta quarta, a mídia estatal.

Criados ou fortalecidos durante o governo Hugo Chávez, canais como a VTV, a Vive TV e a ANTV ganharam, nos últimos anos, o reforço da TeleSur e da Rádio del Sur (multi-estatais) e do jornal Ciudad Caracas (ligado à prefeitura de Caracas, chavista), entre outros. Esse último é o jornal de maior circulação na capital do país, com 120 mil exemplares diários distribuídos gratuitamente.

Esses veículos formam uma tropa de choque da contra-informação, com foco nas notícias sobre o governo venezuelano e os outros governos progressistas da América Latina. Movimentos e organizações também têm bom espaço, além de algum noticiário sobre a África, muito mais do que estamos acostumados no Brasil. Mas o fundamental é o papel ideológico geral desempenhado pelo conjunto desses meios.

Parte da redação da TeleSur, em Caracas

Não há neutralidade em ação nenhuma, incluídas aí quaisquer coberturas midiáticas. Desde a escolha da pauta já estão presentes opções, irremediavelmente ideologizadas, permeadas, no mínimo, por um entendimento do que deve ser notícia construído culturalmente, nas relações do repórter ou do editor com o meio, com a sociedade, com o veículo no qual trabalha, e em todas as relações que se dão ao redor disso. A mídia venezuelana tem lado, e deixa isso claro. Os meios estatais estão com o processo revolucionário, com o governo e com Chávez. Abertamente, da mesma forma que os meios privados estão contra o processo, o governo e Chávez.

Os veículos ligados ao Estado venezuelano são basicamente jornalísticos, e abordam as pautas ignoradas pela mídia privada. Ou isso ou invertem a lógica das mesmas pautas, priorizando o lado dos trabalhadores, do povo e/ou do governo. Se os meios privados se pautam por interesses econômicos – que irremediavelmente acabam desaguando em interesses políticos – é em cima de interesses políticos que trabalham VTV, ANTV, Vive TV, TeleSur, Rádio del Sur e Ciudad Caracas. É de extrema relevância o trabalho de contra-informação realizado por esses veículos, através deles chegam à Venezuela informações que não chegariam por outros caminhos, ao mesmo tempo que, via TeleSur, chegam a outros países da América Latina informações sobre o processo venezuelano que são omitidas pelos grandes conglomerados de mídia. Porém, como parte de um processo revolucionário permeado por contradições, o avanço dos meios estatais não poderia fugir de seus retrocessos – graves.

São dois problemas centrais, permeados por um maior – o domínio de burocratas sobre o conteúdo e a dinâmica dos veículos: a repressão às justas reivindicações trabalhistas e a falta de liberdade jornalística em alguns casos específicos. Sobre o primeiro ponto, alguns casos de reclamações com relação aos baixos salários e aos poucos benefícios têm sido resolvidos com ameaças ou demissões. Enquanto o governo estimula o controle operário em algumas fábricas privadas, seus meios de comunicação são administrados como empresas capitalistas, explorando os trabalhadores e não admitindo questionamentos trabalhistas.

Entrada da sede do jornal Ciudad Caracas

Sobre o segundo ponto, há grande dificuldade em se criticar ações do governo, e não se abrir espaço relevante para as questões mais polêmicas. Há relatos de que, quando da extradição do jornalista Joaquim Bezerra para a Colômbia, um dos temas mais controversos dos últimos anos de governo Chávez, uma reunião do Ministério das Comunicações com diretores dos veículos vetou menções ao assunto. Alguns não aceitaram a restrição, e o resultado, na Rádio del Sur, por exemplo, foi a demissão da diretora e de alguns jornalistas que ousaram falar sobre o caso.

Mas como transformar veículos estatais em independentes? É um passo necessário, se entendemos que o Estado deve estar nas mãos do povo. Como eliminar essa velha burocracia que coordena esses espaços afastando-os do controle popular, e priorizando, quando há conflito, o governo em detrimento do processo? Os limites são tênues, e as dificuldades enfrentadas nos meios de comunicação estatais não são diferentes das enfrentadas em todos os setores do processo revolucionário bolivariano na Venezuela. De qualquer forma, ainda que haja algumas limitações trabalhistas e políticas, a produção jornalística desses espaços é de grande qualidade, com verdadeiro compromisso social e político na construção de uma nova sociedade, sob uma ótica muito diferente da percepção dominante.

Todos os veículos de mídia possuem linhas editoriais definidas, mais ou menos amplas. A defesa de valores liberais, conservadores, progressistas, democráticos, totalitários, elitistas, populares, e aí podemos colocar outros inúmeros adjetivos. Os grandes meios de comunicação privados, na Venezuela como no Brasil, costumam defender valores anti-democráticos, elitistas, excludentes e alinhados aos interesses do capital internacional. Da mesma forma, os meios alternativos defendem os interesses das comunidades onde estão localizados, de ramos específicos da sociedade ou, em casos mais raros, defendem ideários sociais complexos e, geralmente, contestadores. A mídia estatal defende os interesses do governo, e são comprometidos com as lutas do povo na medida em que o próprio governo compromete-se com as demandas populares.

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“La canalla midiática” contra Hugo Chávez e o povo venezuelano

16 ago

O Brasil tem muito o que aprender com o restante da América Latina. Temos o maior território, as mais diversas riquezas naturais, o país mais industrializado, o maior desenvolvimento econômico, a maior inserção nos mercados e na política internacional. Mas temos uma história carente de revoluções e dos heróis que elas produzem. Temos uma história carente de grandes mobilizações populares. Nosso governo é, dentre os recentes governos “progressistas” latinoamericanos, o que mais incrementou o consumo das classes baixas. Mas também o que menos trabalhou ao lado do povo, empoderando as bases. E esse empoderamento passa, necessariamente, pela democratização da comunicação, pela horizontalização da mídia, conquistas sociais que só podem ser alcançadas através de trabalho conjunto entre governo e sociedade civil organizada.

Enquanto aqui remamos – nós, militantes de esquerda em defesa de uma nova mídia – contra a maré governamental, temos em duas de nossas fronteiras exemplos que poderiam ser seguidos se houvesse vontade política para a realização dessas mudanças: a Argentina e a Venezuela. Vou me ater ao segundo.

A Venezuela tem três grandes setores de mídia que, com o processo de consolidação de dois deles, entraram em confronto total, diário e irreconciliável. O primeiro é o grande grupo dos meios privados. O segundo, os meios estatais. Por fim, mas não menos importante, os meios alternativos, comunitários e independentes. Este post pretende falar um pouco da situação dos meios privados na Venezuela. Meios estatais e alternativos serão abordados nos próximos dois posts aqui no Jornalismo B.

No aniversário de Chávez, painel na Plaza Bolívar mostrou torcida da mídia privada pela morte do presidente

Em 2007 venceu a concessão da principal emissora de televisão da Venezuela, a RCTV. O governo optou por não renová-la – um direito seu, já que todas as concessões são públicas, pertencentes ao Estado. A renovação não foi aceita por causa da participação direta do canal na tentativa de golpe de Estado ocorrida em 2002, na qual o presidente venezuelano Hugo Chávez chegou a ser preso pelos golpistas. O golpe começou a ser preparado com uma manifestação organizada pela direita do país no mesmo dia de uma manifestação dos chavistas. Um falso confronto foi veiculado pela RCTV com o objetivo de acirrar os ânimos e demonstrar que Chávez não poderia mais ter condições de governar.

Com o fim das transmissões em TV aberta da RCTV, Globovisón e Venevisón se tornaram as principais emissoras de televisão da Venezuela. A primeira é focada em noticiário, sempre de ataque ao governo e à pessoa de Hugo Chávez. A segunda, cujo dono é Gustavo Cisneros, o Murdoch latino-americano, pouco transmite noticiários. Sua programação é quase totalmente formada por novelas e programas de entretenimento os mais alienantes e idiotizantes possíveis. Além da RCTV, da Globovisión e da Venevisión, a Televen também teve participação ativa na tentativa de golpe de 2002. O quarteto foi chamado por Chávez de “os quatro cavaleiros do apocalipse”. As últimas três seguem no ar.

Na Venezuela não se fala em “neutralidade” dos veículos. O antichavismo é raivoso e é aberto. O enfrentamento é total. Pouco se fala, também, em jornais privados. A força da comunicação da oposição de direita está mesmo nas emissoras de televisão. Parafraseando uma jornalista da TeleSur, Bruna Menezes, a audiência dessas emissoras continua alta – sobretudo nos programas de entretenimento – mas o povo já as assiste com outros olhos. Ao mesmo tempo, o fortalecimento dos meios estatais e dos espaços de comunicação alternativa, comunitária e independente podem começar, aos poucos, a esvaziar a importância dos grupos que dominam historicamente a mídia venezuelana. É nesse caminho que o Brasil também pode caminhar, com o enfrentamento às mentiras dos meios privados combinado com a criação e fortalecimento de meios públicos de comunicação e estímulo aos veículos alternativos, comunitários e independentes.

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Argentina e Venezuela: exemplos para a democratização da mídia no Brasil

15 ago

O Jornalismo B volta ao ar depois de duas semanas conhecendo as experiências de mídia na Venezuela. Lá, como em outros países da América Latina, a democratização da comunicação avança em um pacto entre governos progressistas e a instituições da sociedade organizada. O exemplo mais citado por todos os lados é a Argentina, onde uma Ley de Medios, já em vigor, é passo importante na derrubada do monopólio do Grupo Clarín.

Para que no Brasil possamos pressionar o governo e avançar, é importante conhecer as experiências de nossos vizinhos. O problema dos monopólios de mídia é mundial, e um dos mais importantes limites impostos à realização de verdadeiras democracias políticas, econômicas e sociais.

Slogan da Cátia TV, da Venezuela: “Não veja televisão. Faça”

No Brasil, o aumento de consumo da população – baseado fortemente em crédito – não se reflete com profundidade em avanço dos direitos sociais, em empoderamento popular. Um desses direitos é o direito à comunicação. Se tudo indica que a popularização da banda larga pode ser estimulada pelo governo federal nos próximos anos, temos poucas perspectivas de outras mudanças significativas no quadro de forças da mídia brasileira.

Da mesma forma com que o governo federal não tem qualquer interesse em contrariar latifundiários e grandes empresários de qualquer setor, também busca manter um clima amistoso com a mídia dominante, que tanto o ataca. Sabe que os ataques poderiam ser ainda mais pesados, e que fatalmente ocorreria caso houvesse qualquer tentativa de democratizar a comunicação, coisa que a grande mídia prefere chamar sempre de censura, cerceamento ou outros termos que invertem a realidade, o sentido e a ordem das ações.

Da mesma forma com que tenta conciliar agricultores sem-terra e latifundiários, sem-teto e especuladores imobiliários, o governo brasileira tenta conciliar a mídia hegemônica com a alternativa, os jornalões e as grandes redes de televisão com os blogueiros. E, de certa forma, tem razão: a expansão da banda larga, caso se confirme, acalmará os ânimos de uma boa parte da militância comunicacional petista, embora setores relevantes dessa militância – e toda a militância midiática de esquerda – não vá se conformar com essa conciliação que só atende verdadeiramente aos interesses dominantes.

Na Venezuela, o que há é um enfraquecimento dos meios privados de comunicação – se não tanto na audiência, ao menos na forma com que essa audiência percebe o conteúdo transmitido. Esse enfraquecimento se dá através de uma forte e progressiva politização do povo, e do estímulo real à alternativas reais. Não complementos midiáticos, mas alternativas. Emissoras comunitárias de televisão, rádios comunitárias (que saíram de zero, há dez anos, para cerca de quatrocentas atualmente), e veículos estatais fortes, comprometidos com um jornalismo político não neutro, mas que faz um contraponto radical às mentiras e ataques dos meios privados, ligados ao capital internacional e às elites nacionais.

Tanto na Venezuela quanto na Argentina existem situações específicas, mas o que há de comum entre elas é que, apesar da multiplicação dos ataques da grande mídia contra os governos de Cristina Kirchner e Hugo Chávez, o povo passou a ter acesso à produção e divulgação de conteúdo, a mídia vai se democratizando, e esse empoderamento dá, também, sustentação à outras medidas populares e progressistas de governos interessados nesse processo. São opções: aliar-se às elites ou ao povo? Aos grandes empresários da comunicação ou aos comunicadores populares, alternativos e independentes?

O caso específico da Venezuela será tratado com mais profundidade em próximos textos neste mesmo espaço, mas é válido encerrar este post com uma declaração de Wilfredo Vásquez, um dos fundadores da Cátia TV, principal emissora comunitária da Venezuela, parceira da Revolução Bolivariana mas extremamente crítica ao chavismo: Não quero falar de Lula, mas ele deveria tomar o que está acontecendo aqui como exemplo, e abrir espaço para os meios comunitários. O Brasil avançou, mas os meios alternativos e comunitários não têm apoio. Acredito que é um momento em que os movimentos sociais devem lutar por isso.

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