Partindo da percepção de que há uma guerra ideológica sendo travada na Venezuela através de três setores distintos da mídia local, três posts desta semana no Jornalismo B vêm tratando de cada um dos lados dessa história. O último post tratou dos meios de comunicação privados venezuelanos. Na quinta-feira serão os meios alternativos, comunitários e independentes. Nesta quarta, a mídia estatal.
Criados ou fortalecidos durante o governo Hugo Chávez, canais como a VTV, a Vive TV e a ANTV ganharam, nos últimos anos, o reforço da TeleSur e da Rádio del Sur (multi-estatais) e do jornal Ciudad Caracas (ligado à prefeitura de Caracas, chavista), entre outros. Esse último é o jornal de maior circulação na capital do país, com 120 mil exemplares diários distribuídos gratuitamente.
Esses veículos formam uma tropa de choque da contra-informação, com foco nas notícias sobre o governo venezuelano e os outros governos progressistas da América Latina. Movimentos e organizações também têm bom espaço, além de algum noticiário sobre a África, muito mais do que estamos acostumados no Brasil. Mas o fundamental é o papel ideológico geral desempenhado pelo conjunto desses meios.

- Parte da redação da TeleSur, em Caracas
Não há neutralidade em ação nenhuma, incluídas aí quaisquer coberturas midiáticas. Desde a escolha da pauta já estão presentes opções, irremediavelmente ideologizadas, permeadas, no mínimo, por um entendimento do que deve ser notícia construído culturalmente, nas relações do repórter ou do editor com o meio, com a sociedade, com o veículo no qual trabalha, e em todas as relações que se dão ao redor disso. A mídia venezuelana tem lado, e deixa isso claro. Os meios estatais estão com o processo revolucionário, com o governo e com Chávez. Abertamente, da mesma forma que os meios privados estão contra o processo, o governo e Chávez.
Os veículos ligados ao Estado venezuelano são basicamente jornalísticos, e abordam as pautas ignoradas pela mídia privada. Ou isso ou invertem a lógica das mesmas pautas, priorizando o lado dos trabalhadores, do povo e/ou do governo. Se os meios privados se pautam por interesses econômicos – que irremediavelmente acabam desaguando em interesses políticos – é em cima de interesses políticos que trabalham VTV, ANTV, Vive TV, TeleSur, Rádio del Sur e Ciudad Caracas. É de extrema relevância o trabalho de contra-informação realizado por esses veículos, através deles chegam à Venezuela informações que não chegariam por outros caminhos, ao mesmo tempo que, via TeleSur, chegam a outros países da América Latina informações sobre o processo venezuelano que são omitidas pelos grandes conglomerados de mídia. Porém, como parte de um processo revolucionário permeado por contradições, o avanço dos meios estatais não poderia fugir de seus retrocessos – graves.
São dois problemas centrais, permeados por um maior – o domínio de burocratas sobre o conteúdo e a dinâmica dos veículos: a repressão às justas reivindicações trabalhistas e a falta de liberdade jornalística em alguns casos específicos. Sobre o primeiro ponto, alguns casos de reclamações com relação aos baixos salários e aos poucos benefícios têm sido resolvidos com ameaças ou demissões. Enquanto o governo estimula o controle operário em algumas fábricas privadas, seus meios de comunicação são administrados como empresas capitalistas, explorando os trabalhadores e não admitindo questionamentos trabalhistas.

- Entrada da sede do jornal Ciudad Caracas
Sobre o segundo ponto, há grande dificuldade em se criticar ações do governo, e não se abrir espaço relevante para as questões mais polêmicas. Há relatos de que, quando da extradição do jornalista Joaquim Bezerra para a Colômbia, um dos temas mais controversos dos últimos anos de governo Chávez, uma reunião do Ministério das Comunicações com diretores dos veículos vetou menções ao assunto. Alguns não aceitaram a restrição, e o resultado, na Rádio del Sur, por exemplo, foi a demissão da diretora e de alguns jornalistas que ousaram falar sobre o caso.
Mas como transformar veículos estatais em independentes? É um passo necessário, se entendemos que o Estado deve estar nas mãos do povo. Como eliminar essa velha burocracia que coordena esses espaços afastando-os do controle popular, e priorizando, quando há conflito, o governo em detrimento do processo? Os limites são tênues, e as dificuldades enfrentadas nos meios de comunicação estatais não são diferentes das enfrentadas em todos os setores do processo revolucionário bolivariano na Venezuela. De qualquer forma, ainda que haja algumas limitações trabalhistas e políticas, a produção jornalística desses espaços é de grande qualidade, com verdadeiro compromisso social e político na construção de uma nova sociedade, sob uma ótica muito diferente da percepção dominante.
Todos os veículos de mídia possuem linhas editoriais definidas, mais ou menos amplas. A defesa de valores liberais, conservadores, progressistas, democráticos, totalitários, elitistas, populares, e aí podemos colocar outros inúmeros adjetivos. Os grandes meios de comunicação privados, na Venezuela como no Brasil, costumam defender valores anti-democráticos, elitistas, excludentes e alinhados aos interesses do capital internacional. Da mesma forma, os meios alternativos defendem os interesses das comunidades onde estão localizados, de ramos específicos da sociedade ou, em casos mais raros, defendem ideários sociais complexos e, geralmente, contestadores. A mídia estatal defende os interesses do governo, e são comprometidos com as lutas do povo na medida em que o próprio governo compromete-se com as demandas populares.
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