Sobre novas e velhas mídias

Seguindo a ideia de definir quem somos, levanto aqui no Jornalismo B mais uma questão a ser debatida: o conceito de velha e de nova mídia. Nesse caso, mais do que colocar-nos em uma dessas definições, o importante é diferenciar duas formas de encarar essa questão. Uma delas é tecnológica, a outra é política.

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A definição tecnológica trata como velha mídia os chamadas meios tradicionais, especialmente os impressos, mas também televisão e rádio. E chama de nova mídia a internet, especificamente blogs e redes sociais. Esse tipo de definição carrega problemas políticos que constroem a perspectiva de limitação da apropriação da mídia pelo povo. Isso porque o adjetivo velha, especialmente quando confrontado diretamente com a ideia de nova, carrega forte carga negativa, como algo superado, que já não serve mais. Essa noção é um erro.

Abrir mão dos velhos espaços de comunicação enfraquece a mídia popular, esvazia a luta pela democratização dos meios de comunicação e nos mantém em uma situação marginal em relação aos conglomerados de mídia, já que o poder da tecnologia de jogar para a margem os grandes grupos de comunicação é relativamente menor em comparação com o poder político e econômico de que esses grupos dispõem para manter-nos marginalizados.

Se a nova mídia é a internet e podemos descartar ou superar a velha mídia, então nossa função política é apenas a de ocupar os espaços de web. Essa sentença é contraproducente. É preciso criar a consciência de que ocupar a internet não é suficiente. As ruas, os muros e o papel continuam sendo fundamentais para a propagação de informações, assim como a televisão e o rádio. A importância e o potencial da internet não anulam nem reduzem a necessidade de democratizar a comunicação em todos os seus espaços. A internet pode, sim, ser mais um caminho para que possamos retomar os espaços públicos de difusão – espectro de TV e rádio, por exemplo – para quem tem direito sobre eles – o povo.

Por tudo isso, a distinção política entre os conceitos de velha / nova mídia está mais adequada às necessidades da mídia contra-hegemônica e das lutas populares. A partir dessa perspectiva, velha diz-se também daquela mídia que está aí há tempos e que precisa ser descartada, mas não no sentido tecnológico e sim no sentido político: a mídia das velhas oligarquias, que precisa ser substituída por uma nova mídia em ascensão, do povo.

Essa velha mídia, com um velho discurso elitista e excludente, é sustentáculo também de uma velha sociedade, que também deve ser superada e substituída por uma nova. Essa velha mídia, porém, não está apenas em velhas plataformas, está também – e com muita força – na internet, e ali permanecerá e construirá a manutenção de sua hegemonia se o problema estrutural do abuso econômico e político dos conglomerados de comunicação não for enfrentado.

Não é a internet quem vai construir a transformação. São as pessoas, apropriando-se de todas as ferramentas disponíveis para isso – inclusive a internet. São as pessoas que precisam mudar, é o homem novo que precisa ser construído, e, a partir dele e com ele, uma nova mídia. Agindo sobre essas bases conceituais teremos mais capacidade de entender quem somos e o papel que podemos cumprir enquanto construtores dessa nova mídia e, com ela, de uma nova sociedade.

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Sobre a mídia que somos e a mídia que podemos ser

Varia muito a forma como os setores da mídia não alinhados com os conglomerados de comunicação costumam definir-se. As três principais formas são mídia independente, mídia alternativa, e mídia contra-hegemônica. O debate em torno do uso desses termos não é secundário. É fundamental definir quem somos para que nós mesmos possamos potencializar nosso trabalho, aumentar as possibilidades de disputa e de consequente avanço. Precisamos saber quem somos, onde queremos chegar, que caminhos podemos e devemos seguir, quem são nossos aliados e quem são nossos oponentes. Este artigo é um esforço de diferenciação e comparação entre as três formas de referência citadas anteriormente.

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Mídia independente – Independência financeira ou editorial? Independência financeira não há, e, nesse sentido, falar em independência é reforçar a falta de percepção de que é necessário aos lutadores populares – organizados ou não – financiar sua própria mídia, a mídia que defende seus interesses e propaga um discurso semelhante ao seu, que dialoga com suas lutas. Chamar a si de independente, no caso da mídia dominante, é estratégia para esconder de quem ela depende e a quem serve – às elites. No caso da mídia alternativa, dizer-se independente enfraquece o debate sobre a necessidade de financiamento de si própria. Quando se fala em mídia independente no sentido editorial algo semelhante acontece: para a mídia dominante o discurso de independência editorial é estratégico para esconder seu caráter de classe; para a “outra mídia”, falar em independência editorial anula também seu caráter de classe e, negando essa característica em si própria, nega-a em sua oposta, já que uma classe só existe em sua relação com outra – e da mesma forma os respectivos aparelhos midiáticos. E esvaziar essa disputa só interessa a quem está dominante.

Mídia alternativa – O uso desse conceito admite o caráter dominante do opositor, do outro setor midiático, mas limita-se a propor-se como alternativa, mantendo-se, de certa forma, à margem. Há ainda, na ideia de mídia alternativa, a ausência da ideia de confronto discursivo como elemento da luta de classes. A expressão acaba por encerrar na margem o papel dessa mídia, e admite a convivência tranquila com uma mídia central. Ao contrário da ideia de mídia independente, mídia alternativa possui um importante caráter político de diferenciação, mas limita-se a diferenciar-se sem apontar a motivação dessa diferenciação e sem definir-se como um instrumento da luta de classes, sem escolher um lado ou ao menos anunciar a existência de lados em contradição – e a mídia como participante inseparável dessa dinâmica.

Mídia contra-hegemônica – O conceito carrega teor político e, partindo da diferenciação já existente em alternativa, vai além, incluindo o caráter de classe e a confrontação. Reconhece a disputa de classes inerente à sociedade capitalista e, ao mesmo tempo em que se apresenta como um instrumento dessa luta, denuncia a mídia dominante como instrumento das elites. Une, portanto, o des-cobrimento da luta de classes – e, dessa forma, da dominação, da exploração e da opressão – com o posicionamento de si mesma ao lado dos setores oprimidos. Coloca-se, por fim, na disputa pela hegemonia discursiva como parte da disputa popular pela hegemonia social, política e econômica.

Em uma sociedade capitalista, o conceito de mídia independente é uma falsa definição, o conceito de mídia alternativa é uma definição incompleta, e apenas mídia contra-hegemônica pode contemplar o caráter político intrínseco a uma mídia comprometida com uma transformação estrutural da sociedade.

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Charge: A maioridade penal e os crimes cotidianos

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Sobre neutralidade midiática e manipulação discursiva

Um dos artifícios mais importantes para a manutenção da hegemonia de uma classe sobre outra é a ideia de neutralidade. Daí a importância de construir esse debate em todas as esferas, e deixar sempre claro: não há ser humano neutro, não há atitude neutra. O homem é um ser político, vive em sociedade e essa sociedade se organiza a partir de determinados parâmetros determinados pelo conjunto de seres que a compõem. Alguns influenciam mais, outros menos, mas todas as atitudes tomadas ou não tomadas são componentes dessa construção. Por isso, de forma consciente ou não, estamos a todo instante, a cada escolha, contribuindo para a transformação ou para a conservação. Com a mídia não é diferente.

A escolha de uma manchete ou mesmo de um ângulo para uma fotografia – e esse é o exemplo mais comum – já são escolhas e, portanto, não-neutras. Como influenciam a sociedade e sua forma de ver a si própria, e, portanto, influenciam sua organização, são também escolhas políticas.

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No caso dos veículos de comunicação, a afirmação de neutralidade traz vantagens políticas e econômicas diretas. Políticas porque a mídia dominante atua pela manutenção da situação social atual, e defender a ideia de neutralidade é necessariamente defender essa manutenção. O não-posicionamento é, por definição, deixar as coisas como estão. Econômicas porque, afirmando-se como verdadeiramente é – suporte das elites, inclusive sendo financiada por elas – afirmaria seu caráter de classe e sua defesa de 1% da população: os outros 99% a abandonariam.

Digo que mídia possui caráter de classe e isso não acontece por acaso. Os conglomerados de comunicação que controlam a informação no Brasil são financiados pelo alto empresariado nacional e internacional – o poder econômico. Além disso, alguns são filhos da Ditadura Militar, outros engordaram com ela e com os governos neoliberais que a sucederam – o poder político. Não por acaso, portanto, seu discurso é pela manutenção, e não por acaso por trás da máscara da imparcialidade um olhar atento e consciente da função política de cada olhar pode identificar em boa parte dos textos, das manchetes, dos títulos e das fotos a defesa dos interesses das elites.

Já explicava Perseu Abramo, em seu célebre artigo Padrões de manipulação na grande imprensa, que a manipulação não pode ser feita a todo instante, de vez em quando é preciso deixar o discurso respirar ares de realidade. Essa conduta impede que se perca a credibilidade e, assim, o consumidor e o poder político. Mas isso não quer dizer neutralidade, imparcialidade, ou sequer honestidade discursiva. Quer dizer apenas que há ali uma visão mercadológica e política estratégica. Essas “migalhas” são distribuídas pelo capitalismo, enquanto sistema, como forma de evitar o acirramento de contradições. O mesmo acontece com a mídia. Uma ponte precisa balançar um pouco para manter-se em pé. Se estiver rígida demais, cai. Não pode, porém, deixar de manter sua solidez. Balança, mas isso não faz dela algo menos sólido. O balançar é estratégico, apenas isso.

A mídia contra-hegemônica, por sua vez, deve reconhecer seu caráter de classe e lutar para desconstruir o discurso da neutralidade, instrumento ideológico fundamental das elites determinadas a anestesiar o povo, esconder dele a situação de confronto que se impõe a todo momento. Ora, contra-hegemonia é a possibilidade de uma nova hegemonia, e no caso da sociedade atual o que temos como possibilidade de nova hegemonia é apenas a hegemonia popular ascendendo para substituir a hegemonia do capital e de seus representantes. Por isso uma mídia contra-hegemônica deve estar necessariamente ao lado das lutas populares e empenhada na desconstrução da alienação – ou seja, do afastamento da realidade. Dentro dos enfrentamentos que se estabelecem em uma sociedade de classes, o papel da mídia contra-hegemônica é justamente o enfrentamento discursivo, e, nesse sentido, anular a falsa neutralidade do adversário é um primeiro passo fundamental.

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Sobre pontes necessárias para transformações urgentes

No último fim de semana participamos de um debate promovido pela Associação Nacional dos Estudantes Livre (ANEL) do Rio Grande do Sul, a respeito do transporte público em Porto Alegre. Obviamente nossa fala foi a respeito da cobertura da velha mídia e das ações da mídia alternativa nos protestos que ocorreram em Porto Alegre contra o aumento das passagens e que culminaram na redução dos preços. Para além disso, relacionamos essa situação específica com a questão conjuntural e com as possibilidades e necessidades que temos de agir para construir juntos movimentos sociais e mídia contra-hegemônica. Neste artigo falamos um pouco sobre os apontamentos feitos no debate.

ponteO ponto fundamental da conversa foi a necessidade de construir pontes de diálogo entre movimentos sociais e mídia contra-hegemônica. Essas pontes só poderão ser construídas a partir de uma atitude militante e de uma linha política clara por parte desse setor da mídia, por um lado, e a percepção, pelos movimentos sociais novos ou tradicionais, da importância da pauta das comunicações e da construção de uma mídia popular forte para que suas próprias demandas ganhem força, espaço e poder discursivo.

É flagrante o caráter de classe da mídia dominante. Vivemos em uma sociedade capitalista, e os setores hegemônicos da mídia são financiados e controlados pelos grandes empresários, reproduzindo de forma automática e acrítica os discursos que interessam a eles. Daí a criminalização dos estudantes, dos trabalhadores, dos movimentos sociais, enfim, de todos os que buscam a transformação da sociedade e, por consequência, o fim dos privilégios oligárquicos.

A partir do momento em que percebemos a grande mídia como parte do aparelho ideológico das elites, como seu braço discursivo mais direto, e conectamos esse fato com a necessidade de transformação social, torna-se óbvia a necessidade de disputar o espaço discursivo para disputar o aparelho ideológico, ou seja, a capacidade de comunicar-se com as massas a ponto de que estas se transformem – com suas próprias forças e com nossa atuação direta – em povo. Isso quer dizer criar consciência de classe através da grande vantagem que a mídia popular pode ter em sua disputa com a mídia das elites: sua aproximação com a realidade.

Para fazer com que essa aproximação do discurso construído com a realidade se converta em potencial transformador, é absolutamente impreterível o aporte e o estímulo constante e multifacetado dos setores sociais contestadores já organizados. Essas organizações precisam conscientizar-se da importância de apoiar a mídia alternativa como uma forma de alçar, assim, sua própria voz. Ao mesmo tempo a mídia alternativa precisa perceber que, para tornar-se contra-hegemônica – ou seja, para disputar hegemonia discursiva – deve aproximar-se dos movimentos sociais e construir-se em comunhão com eles.

As elites financiam sua própria mídia, precisamos financiar a nossa. Da mesma forma, o diálogo entre as elites e sua mídia está consolidado, e precisamos construir o diálogo entre os lutadores populares para fazer esse enfrentamento em todas as frentes.

Também uma mídia alternativa realmente política, com um rumo definido, com consciência de classe e identificação com a classe trabalhadora e, por consequência, com consciência de seu papel enquanto instrumento transformador, pode atuar como espaço de debate entre organizações comprometidas com a esquerda mas com divergências conjunturais entre si. Por isso a necessidade de manter independência em relação a essas organizações mas, ao mesmo tempo, estar em contato próximo com elas. É um instrumento de luta direta e também de debate indireto, ou seja, de construção e formação político-ideológica e de troca entre diferentes com objetivos comuns.

Os movimentos sociais podem ganhar força e capacidade de falar com a população se tiverem ao seu lado uma mídia forte, atuante e politizada. Da mesma forma, a mídia contra-hegemônica só pode existir – e só tem razão de existir – se estiver disposta a, junto com as forças populares, construir a necessária transformação. Essa aliança é urgente e central, e precisa ser assim entendida para que tenhamos a possibilidade de aventar passos maiores.

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Violência urbana e falsas soluções

A tentativa, vinda de alguns grupos da velha direita, de reduzir a maioridade penal para 16 anos é um absoluto contrassenso. Vivemos no Brasil um constante aumento da população carcerária, e isso nunca serviu para reduzir a violência urbana. O que vem acontecendo, na verdade, é justamente o contrário: a violência aumenta em proporção semelhante ao aumento da quantidade de pessoas encarceradas.

A privação da liberdade tem como função a punição, sim, mas fundamentalmente a recuperação. Não é o que acontece no Brasil. Nenhuma parte do sistema atua para recuperar pessoas, e sim para descarta-las, e não seria diferente no trato com os setores mais marginalizados da sociedade. Por isso essa linha, de descarte, de exclusão e de coisificação de pessoas, é ainda mais forte e mais naturalizada nas ações policiais e no sistema carcerário. Já é batido, mas é real, dizer que a cadeia não recupera ninguém. A experiência e o cálculo do parágrafo anterior mostram que também o uso de penas mais duras como “exemplo” não funciona.

Sabemos que, na prisão, toma-se contato com criminosos mais experientes e, ao mesmo tempo, é potencializada a perda de identidade social, a perda de noção de pertencimento – noção essa que, efetivamente, pode reduzir a agressividade que muitas vezes reverbera em crimes.

Então por que reduzir a maioridade penal? Qual o objetivo? É a criação de uma sensação – falsa – de segurança. A mídia dominante cria medos para vender jornais, manipula ao transformar casos raros e específicos em situações majoritárias – latrocínios e homicídios são responsáveis por uma parte ínfima, quase irrelevante, das detenções de menores. Cria os medos para vende-los e depois vende falsas soluções, que colocadas em prática seguirão alimentando o ciclo de violência, mas poderão criar uma sensação momentânea de paz, que mesmo falsa traz certo conforto às elites excludentes, conservadoras e desinformadas.

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O texto acima é o editorial da 54ª edição do Jornalismo B Impresso, que será distribuída em Porto Alegre na próxima semana. O jornal pode ser assinado em qualquer lugar do Brasil.

Nesta edição trazemos textos sobre as prisões relacionadas à corrupção no setor de meio ambiente no Rio Grande do Sul,  as lutas pela libertação feminina, a privatização do Maracanã, os avanços políticos da América Latina e a defesa da liberdade na comunicação, além de uma entrevista exclusiva com Arturo Hernández González, presidente do Colégio de Advogados de Porto Rico e uma importante expoente da luta pela independência daquele país.

São três as possibilidades de assinatura: 6 edições – R$ 40; 12 edições – R$ 60; 20 edições – R$ 100. As edições são quinzenais. Para assinar, basta entrar em contato pelo email bjornalismob@gmail.com.

Assine o Jornalismo B Impresso e contribua para o crescimento e fortalecimento da imprensa independente.

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No Dia do Trabalhador, Zero Hora apresenta tese por aumento do desemprego

Parece inacreditável, mas no Dia do Trabalhador o jornal Zero Hora pediu mais desemprego. A única matéria sobre a data apresentou uma tese de economistas que defendem a redução do emprego como solução para a inflação. A reportagem, com chamada na capa, é um tapa na cara dos trabalhadores, procurando botar na conta dos de sempre um aumento dos preços que, como mostra gráfico publicado na própria matéria, não passa de um discurso construído.

Reprodução Zero Hora

Reprodução Zero Hora

Na capa, a pergunta da chamada já contém uma proposta sendo apresentada pelo jornal: “Demitir é solução contra a inflação?”. A cartola (“No 1º de Maio”) mostra que não há constrangimento algum, a matéria apresentando tese que defende o desemprego é mesmo toda a cobertura a respeito do Dia do Trabalhador, chamado por ZH de “Dia do Trabalho”.

Na página 18, na editoria de Economia, o título é “Saída para inflação é desemprego?”. No corpo da matéria, espaço muito maior dedicado aos que defendem a ideia do que aos que a contrariam, demonstrando que há realmente a apresentação de uma tese e, por outro lado, apenas um contraponto necessário para manter a aparência de neutralidade. São quatro parágrafos para a defesa, e apenas os dois últimos para o contraponto. Enquanto na defesa do desemprego ZH fala em “economistas” e até entrevista um sociólogo, para o contraponto o jornal apresenta apenas uma fala da presidenta Dilma Rousseff no dia 12 de abril.

Vale notar ainda que a matéria apresenta um gráfico comparativo entre inflação e desemprego que mostra justamente o contrário, que ambos vem caindo juntos desde 2003, com pequenas oscilações. O mesmo gráfico mostra também que a inflação fechou 2012 em 5,84%, em queda em relação ao ano anterior (6,5%) e em grande queda em relação a 2003 (9,3%). Então por que o desespero com a inflação, a ponto de pedir a provocação do aumento de desemprego?

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Reprodução Zero Hora

No mesmo dia 1º, o editorial de Zero Hora afirma que não há mais grandes temas para as lutas dos trabalhadores e ataca os sindicatos que tomaram como pauta a regulação da mídia. Completa-se assim a cobertura da edição do dia 1º a respeito do Dia do Trabalhador, sempre chamado Dia do Trabalho por ZH.

No dia 2 completa-se a invertida cobertura de ZH, com uma discussão muito técnica e pouco política, sem qualquer debate aprofundado, sobre um ato em São Paulo. De forma estranha para um jornal que valoriza tanto o quesito “proximidade”, houve ainda um silêncio sepulcral a respeito dos atos que aconteceram em Porto Alegre, promovidos pelas mais diversas correntes políticas em lembrança ao Dia do Trabalhador e em defesa de pautas caras aos trabalhadores – desfazendo a tese de ZH de que essas pautas já não existem mais. Não é o fim da História, como desde os anos 1990 prega o neoliberalismo e até hoje insistem os veículos de comunicação das elites que querem conservar seu status.

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