A análise comparativa, associada à memória, desmascara a falsa imparcialidade do setor midiático dominante. A eleição da chanceler alemã Angela Merkel para o terceiro mandato consecutivo, no último domingo, leva diretamente à lembrança de outros chefes de governo que alcançaram ou flertaram com uma segunda reeleição seguida. A formulação do discurso desse setor da mídia foi absolutamente distinto em um e em outro caso, ainda que sejam situações de grande semelhança real. Essa comparação demonstra, assim, o afastamento que a mídia hegemônica mantém com a realidade objetiva, distorcendo as narrativas de acordo com interesses bastante específicos.
Mesmo sem nunca ser dito – ao menos abertamente – por ele, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva foi colocado pelos conglomerados midiáticos como postulante a um terceiro mandato logo na sequência dos dois que exerceu. A ideia acabou não se consumando, Dilma Rousseff foi a candidata da situação e a eleita, mas a lição ficou clara: os donos da mídia não aceitariam que um presidente petista, naquele momento, se lançasse a uma nova reeleição. A possibilidade, jamais levantada publicamente por Lula mas mesmo assim tocada pelos meios de comunicação, foi sempre fortemente atacada. Lula foi chamado de candidato a ditador, se disse que ele pretendia “perpetuar-se no poder”, que a democracia brasileira estava “em risco”, que poderia ser um “novo Hugo Chávez”.
Com o ex-presidente venezuelano, aliás, não foi diferente. Chávez sempre foi tachado – em vida e já morto – de “ditador” por uma parte importante da imprensa brasileira. Uma das razões alegadas para classifica-lo assim era – e é – a “perpetuação no poder”, a “vontade de seguir no poder até morrer”, enfim, os mandatos consecutivos (foram três os mandatos que Chávez acabou exercendo).
Com Merkel, tudo diferente. O tom geral é de exaltação de sua popularidade, o destaque sobre como os alemães veem nela uma “mãe”, a importância de sua liderança. Nada sobre um possível caráter “ditatorial” ou “antidemocrático” em sua terceira eleição consecutiva. Talvez por ser ela uma representante típica da direita, por estar levando à frente políticas de arrocho que esmagam os países e os povos vizinhos, sendo inclusive constantemente comparada com Hitler. Ou a amistosidade pode ser ainda por Merkel ser eleita em um país central do capitalismo, típica nação na qual a ideologia dominante em um país periférico como Brasil manda observar e admirar, enquanto a Venezuela, a América Latina em geral – incluindo o próprio Brasil – são lugares dos quais se deve como norma falar mal, os quais devem ser sempre apresentados como “repúblicas das bananas”, dominadas por “ditadores populistas e corruptos”, muito ao contrário da grande e democrática Alemanha, dos Estados Unidos, etc.
O fundo das críticas, como se vê, não se direciona à forma – dois, três ou dez mandatos – mas ao conteúdo. Governantes progressistas não têm sua legitimidade respeitada nem em seus primeiros mandatos. Quando os eleitos agradam ao ideário dos conglomerados de comunicação, são exaltados e brindados, durem quanto durarem. O mesmo se dá em relação a qualquer setor social e a qualquer fato levado à cobertura jornalística. A superficialidade formal pouco importa aos donos da mídia e ao imaginário das organizações que comandam, desde que o conteúdo os faça mais poderosos econômica, ideológica e politicamente.





23 set 2013





10 Comentários
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olha amigo, para mim é ditadura sim, o povo alemão tem no sangue a herança da era Hitler, não quero que isso aconteça no Brasil. Discordo do seu comentario
Republicou isso em Luizmuller's Blog.
Morei muitos anos na Venezuela, e infelizmente ainda tenho alguns familiares que não tiveram a sorte de fugir de lá. Goste ou não, uma boa Democracia é composta por um povo educado, por uma economia sólida, e na robustez e independência dos 3 poderes do Estado (legislativo, judiciário e executivo)… e não na quantidade de eleições de um(a) líder. Na Venezuela, na era Chaves e pós-Chaves, pouco importa a quantidade de eleições, o que importa é que todas as 3 esferas de poder giram em torno da perpetuação do poder quase absoluto do “Presidente”, a economia é um fracasso, e o povo minimamente educado para ler o que o Estado acha conveniente… democracia sólida?. Não vou me aprofundar na comparação entre Alemanha e Venezuela, mas independente de a Angela se reeleger 100 vezes (e para quem conhece os dois países) sabe que existe uma distância hoje de no mínimo 1 século, entre o desenvolvimento de um e outro. Você escreve bem, mais o conteúdo do seu texto não distoa do discurso raso e panfletário da atual esquerda Brasileira, e com certeza não colabora para o crescimento da mesma.
Cara, não tiro uma vírgula do que você disse.
E vc foi imparcial nesse comentário? Consumir informação é isso. Consumir parcialidade, visões enviezadas. E cada um escolhe qual visão prefere.
Errado é se auto-proclamar imparcial e se achar o dono da verdade absoluta, como vc faz mais uma vez se colocando como vítima da “direita”.
Paralelo a isso, a perseguição que a blogueira Yoani Sanchez sofre, e sofreu inclusive aqui no Brasil por pessoas como vc, que se proclamam como defensores da democracia, mas só pras pessoas que pensam como você, é o que?
Vá a Alemanha e vá a Venezuela e compare as duas populações. Ai você tira suas conclusões a respeito dos respectivos governantes.
“Vá a Alemanha e vá a Venezuela e compare as duas populações. Ai você tira suas conclusões a respeito dos respectivos governantes.”
Analfabetismo histórico, a gente vê por ai…
Eu já ouvi a frase “comunista de escritório” que são aquelas pessoas que exaltam porcarias como Cuba, Venezuela e Bolívia, como se fossem o centro de democracias ou países desenvolvidos, mas que sempre andam com iphones, ipads, roupas de grife e tudo o mais que é proporcionado pelo capitalismo. Ou seja, a prática é totalmente diversa do discurso. Queria convidar um desses para ir passar uma temporada em Cuba ou na Venezuela como cidadãos comuns. É claro que se fossem como puxa-sacos do regime, certamente seriam tratados de forma diversa. Longe de ser direita, esquerda, ou comunismo, o que encontramos nas nações mais civilizadas é uma combinação de educação, liberdade e respeito ao direito; bem longe do que acontece nessas republiquetas; aliás, esqueci que a Argentina, outrora orgulhosa e mais civilizada, vai indo no mesmo caminho ridículo, copiando o péssimo exemplo da Venezuela. Se a Europa olha para a américa latina com um misto de pena e desprezo, talvez seja porque a população, minimamente informada e altamente dependente de heróis, ainda acredita e vota neste tipo de lixo, como a quadrilha Castro que escraviza Cuba há mais de 50 anos, Chávez que realmente queria ser perpétuo no poder, Morales, Correa, Kirshner e várias outras porcarias. Deus livre o Brasil dessa influência. Amén!
Republica parlamentarista não é república bolivariana caro. Há diferenças monumentais entre eleger um gabinete para um mandato parlamentar e um presidente centralizador que se perpetua no poder, Estude os fundamentos do parlamentarismo e o seu funcionamento. Merkel é primeira ministra, se ela perder a maioria de representantes de sua base governista, o gabinete é dissolvido e novas eleições são convocadas. Na Venezuela há outra realidade….
Considero a comparação muito infeliz. Primeiro há que se ver o funcionamento eleitoral da Alemanha, provavelmente naquele país o 3º mandato é permitido pela constituição. Na Venezuela a constituição foi revista de última hora para favorecer a perpetuação de Chávez no poder, então são dois casos completamente diferentes. E considero o 3º mandato golpista, pois dois estão de muito bom tamanho. No Brasil, do jeito que a coisa vai, com uma oposição inexpressiva e ineficiente, não duvido que o governo consiga reprisar o que aconteceu na Venezuela com o objetivo de perpetuar o PT no poder.
[…] Por Alexandre Haubrich, no blog Jornalismo B: […]