As mudanças que vem sofrendo o espaço midiático brasileiro não se limitam ao uso das novas tecnologias e à apropriação política das possibilidades abertas a partir disso. É um modelo de jornalismo que se retrai para que outro avance. Sem saber como reagir ao alvoroço de informação que antes conseguiam controlar, os conglomerados de comunicação tendem a tentar confrontar os meios alternativos e acrescentar força à pressão sobre governos das mais diversas esferas para evitar medidas democratizantes no setor, o que determinaria sua bancarrota.
As diferenças entre as duas mídias que se confrontam são ideológicas, jornalísticas e organizacionais. Ideológicas porque a concepção de mundo é claramente diferente. De um lado, anticapitalistas ou, ao menos, críticos da situação social atual. De outro, exemplos prontos dos vícios capitalistas, empresas que se constituíram, se fortaleceram e se mantêm sobre esses vícios.
Essa grande diferença ideológica não se mantém isolada dos outros dois tipos de distinções, jornalísticas e organizacionais. Pelo contrário, as determina.
Em relação à questão organizacional, a ideologia capitalista diz que qualquer empresa deve visar o lucro, e que este é seu objetivo fundamental. A atividade jornalística, que possui como essência uma função social, vem sendo, dessa forma, corrompida pela vocação empresarial dos grupos que a controlam. Mais ainda: a vocação monopolista desses grupos, respaldada pelo aparato estatal que historicamente os favorece, impede qualquer espaço de contraditório, algo que com o uso cada vez mais aprimorado dos espaços de web, pode começar aos poucos a mudar – ainda que seu limite provavelmente esteja logo ali.
Os veículos alternativos, por sua vez, sem abrir mão de sua sustentabilidade financeira, possuem outros objetivos. Se sua ideologia é a da coletivização, da solidariedade e da diversidade, compreendem a função social do jornalismo e, por isso, atuam de forma mais jornalística e menos empresarial. Viciados pela prática acomodada e sem reflexão, os barões da mídia e seus lacaios não entendem como isso pode ser possível e são atropelados pelas circunstâncias.
Essa díade prioridade social x prioridade empresarial é expressão também do contexto onde são forjados cada um dos espaços de mídia, e está inserida no tipo de jornalismo que praticam. Conectados com os movimentos sociais, com as lutas e com as ruas, cobrindo manifestações de dentro, os veículos alternativos têm na aproximação com a realidade sua prática cotidiana, sua razão de existir. Fechados em gabinetes e redações, escondidos atrás da polícia, em constante diálogo com o alto empresariado e com os políticos “oficiais”, os conglomerados de comunicação afastam-se da dinâmica social, afastam-se da maioria da população e de suas realidades – tentam, na verdade, construir uma realidade imaginária e vende-la diariamente – e, dessa forma, sustentam-se fundamentalmente através de seu poderio econômico e político.
Em um contexto social geral de mais participação, mais interesse político e mais envolvimento nas disputas reais, a balança pode pender a favor da mídia que está originalmente mais orgânica a essa realidade. Quem participa ativamente da realidade de disputa social, sem fechar-se em seu mundo individual, começa a desconfiar de quem lhe apresenta narrativas tão diferentes das que já pode enxergar.





14 ago 2013







1 Comentário
Os comentários ficarão visíveis após passarem por moderação. O Jornalismo B se reserva o direito de aceitar apenas comentários ligados ao tema dos textos e que sejam construtivos para os debates propostos, não contendo qualquer discurso ofensivo.
Parabéns pelo artigo. Além dessas estratégias anacrônicas para perpetuar poder, noto um componente de má-fé, disputa suja mesmo. Será merecida sua derrota, e que fiquem marcadas na história a conduta desses grupos e os nomes dos responsáveis que tentaram impediram a evolução da sociedade.