Roberto Civita, dono do Grupo Abril, responsável direto pela linha editorial da revista Veja, morreu no último domingo. Civita recebeu de seu pai um império de comunicação e o fortaleceu, ao mesmo tempo em que o tornou cada vez mais conservador e o afastou cada vez mais, especialmente através da Veja, de qualquer coisa parecida com jornalismo. Apesar disso – ou justamente por isso – os conglomerados midiáticos utilizaram todos os seus veículos para lamentar a morte de Civita e defender seu legado.
A Veja é o que há de mais conservador, reacionário, preconceituoso e agressivo no jornalismo brasileiro. Ataca de forma violenta movimentos sociais, artistas, intelectuais e quaisquer políticos que não estejam na ponta mais extrema à direita do espectro ideológico brasileiro.
A Veja apoiou a Ditadura Militar, criminalizou taxando como terroristas os militantes que lutavam por liberdade e democracia, e hoje tem até mesmo 30% de seu capital vinculado a um grupo sul-africano que financiou o apartheid naquele país. A cada texto faz questão de agredir de ícones da esquerda, como Che Guevara e Hugo Chávez, até líderes nem tão à esquerda assim, como Lula e Dilma Rousseff. Tudo o que não for ultraconservador não serve, não presta, e por isso deve ser ridicularizado, atacado, violentado. A Veja semeia preconceitos contra pobres. A Veja ataca defensores de direitos indígenas, de direitos LGBT, de direitos dos negros, de direitos das mulheres, enfim, de direitos. Esse é o real legado de Roberto Civita.
Jornal Nacional, Zero Hora, Folha de S. Paulo, Estadão e, de modo geral, o conjunto da mídia dominante, produziram obituários que destacam Civita como “defensor da liberdade de imprensa”, “defensor da liberdade de expressão”, “defensor da democracia” e defensor de diversas outras pautas pelas quais o chefão da Abril nunca demonstrou grande apreço. Não por acaso o velório esteve recheado de lideranças do PSDB. A presidenta Dilma divulgou uma nota lamentando a morte de Civita, mas isso não representa um flerte final do chefão com a esquerda, e sim o constante flerte do governo federal com a mídia da direita.
Esse posicionamento não é nenhuma surpresa. Em um nível certamente menor, alguns tons abaixo, com maior preocupação em manter um público mais amplo, todos esses grupos de mídia defendem o que Civita sempre defendeu. Possuem a mesma visão ideológica e, mesmo com diferentes níveis de agressividade e refinamento, apresentam o mesmo discurso e representam interesses semelhantes. Constituem, no fim das contas, a representação do monopólio da mídia pelas elites. São todos um só, e, mesmo que a Veja siga viva, com Civita morto cada um deles também morre um pouquinho. Civita, que sempre odiou a foice comunista, encontra-se com outra foice, bem mais a seu gosto.





28 mai 2013





