No último fim de semana participamos de um debate promovido pela Associação Nacional dos Estudantes Livre (ANEL) do Rio Grande do Sul, a respeito do transporte público em Porto Alegre. Obviamente nossa fala foi a respeito da cobertura da velha mídia e das ações da mídia alternativa nos protestos que ocorreram em Porto Alegre contra o aumento das passagens e que culminaram na redução dos preços. Para além disso, relacionamos essa situação específica com a questão conjuntural e com as possibilidades e necessidades que temos de agir para construir juntos movimentos sociais e mídia contra-hegemônica. Neste artigo falamos um pouco sobre os apontamentos feitos no debate.
O ponto fundamental da conversa foi a necessidade de construir pontes de diálogo entre movimentos sociais e mídia contra-hegemônica. Essas pontes só poderão ser construídas a partir de uma atitude militante e de uma linha política clara por parte desse setor da mídia, por um lado, e a percepção, pelos movimentos sociais novos ou tradicionais, da importância da pauta das comunicações e da construção de uma mídia popular forte para que suas próprias demandas ganhem força, espaço e poder discursivo.
É flagrante o caráter de classe da mídia dominante. Vivemos em uma sociedade capitalista, e os setores hegemônicos da mídia são financiados e controlados pelos grandes empresários, reproduzindo de forma automática e acrítica os discursos que interessam a eles. Daí a criminalização dos estudantes, dos trabalhadores, dos movimentos sociais, enfim, de todos os que buscam a transformação da sociedade e, por consequência, o fim dos privilégios oligárquicos.
A partir do momento em que percebemos a grande mídia como parte do aparelho ideológico das elites, como seu braço discursivo mais direto, e conectamos esse fato com a necessidade de transformação social, torna-se óbvia a necessidade de disputar o espaço discursivo para disputar o aparelho ideológico, ou seja, a capacidade de comunicar-se com as massas a ponto de que estas se transformem – com suas próprias forças e com nossa atuação direta – em povo. Isso quer dizer criar consciência de classe através da grande vantagem que a mídia popular pode ter em sua disputa com a mídia das elites: sua aproximação com a realidade.
Para fazer com que essa aproximação do discurso construído com a realidade se converta em potencial transformador, é absolutamente impreterível o aporte e o estímulo constante e multifacetado dos setores sociais contestadores já organizados. Essas organizações precisam conscientizar-se da importância de apoiar a mídia alternativa como uma forma de alçar, assim, sua própria voz. Ao mesmo tempo a mídia alternativa precisa perceber que, para tornar-se contra-hegemônica – ou seja, para disputar hegemonia discursiva – deve aproximar-se dos movimentos sociais e construir-se em comunhão com eles.
As elites financiam sua própria mídia, precisamos financiar a nossa. Da mesma forma, o diálogo entre as elites e sua mídia está consolidado, e precisamos construir o diálogo entre os lutadores populares para fazer esse enfrentamento em todas as frentes.
Também uma mídia alternativa realmente política, com um rumo definido, com consciência de classe e identificação com a classe trabalhadora e, por consequência, com consciência de seu papel enquanto instrumento transformador, pode atuar como espaço de debate entre organizações comprometidas com a esquerda mas com divergências conjunturais entre si. Por isso a necessidade de manter independência em relação a essas organizações mas, ao mesmo tempo, estar em contato próximo com elas. É um instrumento de luta direta e também de debate indireto, ou seja, de construção e formação político-ideológica e de troca entre diferentes com objetivos comuns.
Os movimentos sociais podem ganhar força e capacidade de falar com a população se tiverem ao seu lado uma mídia forte, atuante e politizada. Da mesma forma, a mídia contra-hegemônica só pode existir – e só tem razão de existir – se estiver disposta a, junto com as forças populares, construir a necessária transformação. Essa aliança é urgente e central, e precisa ser assim entendida para que tenhamos a possibilidade de aventar passos maiores.





06 mai 2013






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