O artigo a seguir é uma colaboração especial de Rachel Duarte*
Desde o início da manhã até o começo da noite desta quinta-feira (18), centenas de cidadãos gaúchos foram às ruas gritar por moradia, reforma agrária, melhores condições de trabalho e contra o corte de árvores nativas. Porém, em nenhum dos atos a presença da imprensa foi tão massiva como na solenidade de homenagem ao novo embaixador da Copa do Mundo de Porto Alegre. O ator mexicano Carlos Villagrán, o personagem ‘Quico’ do seriado Chaves foi a principal pauta do dia. No mesmo palco onde pela manhã cerca de 100 moradores da zona norte ameaçados de despejo cobraram uma audiência com o prefeito, José Fortunati bateu fotos e assistiu o ídolo da infância de várias gerações brincar com uma bola de plástico, fazer caretas e abraçar fãs funcionários públicos .
O encontro entre Fortunati e Quico ocorreu no começo da tarde. Horas antes, mais de 400 famílias do Loteamento São Luis e Terra Nostra foram representadas em um forte protesto contra pedidos de reintegração de posse acionados pela justiça. Por três horas estiveram em frente ao Paço Municipal trabalhadores, aposentados, donas de casa e seus filhos e alguns deficientes físicos. Todos gritavam por uma audiência com o chefe do executivo, que não os recebeu. Em nome da Prefeitura, o adjunto da Governança, Carlo Sierle foi o designado a receber os líderes da comunidade indignada que fazia barulho com apitos, gritos e buzinaço em frente ao Paço Municipal.
Já na solenidade com o comediante mexicano, o prefeito José Fortunati fez questão de posar para fotos, entregar camisetas do Grêmio e Internacional e assistir a todas as brincadeiras feitas pelo ‘Quico’ com a platéia de funcionários e jornalistas que o assistiam. Na cerimônia, o ator Carlos Villagrán não se furtou a repetir algumas frases e expressões clássicas de seu mais famoso personagem. “Cale-se, que me deixa louco!”, brincou, durante uma fala do prefeito Fortunati, e atendeu também muitos fãs do lado de fora da cerimônia. “Vou trocar o ‘Quico, Quico, rá, rá, rá’ por ‘Porto Alegre, Porto Alegre, rá, rá, rá’”, disse Villagrán, reforçando que a seleção brasileira é a segunda em seu coração, depois da mexicana.
No protesto dos moradores ameaçados pela falta de política habitacional do poder público, as expressões que não faltaram foram “Queremos moradia”, “Me recebe Fortunati” e “Moradia, Moradia!”. O ato foi organizado algumas semanas atrás, pelo Facebook da comunidade do Loteamento São Luis. A área de 12 hectares, localizada entre a Avenida Baltazar de Oliveira Garcia e a Rua Dr. Paulo Smania, no limite de Porto Alegre com Alvorada, foi ocupada por 300 famílias em julho de 2012. Em dez meses que vivem no local, os moradores organizaram o novo bairro e ergueram casas de alvenaria ou madeira. Agora, um posseiro que se diz proprietário do local e venceu na justiça o uso do terreno, ameaça os ocupantes da área que na verdade consta como área verde no mapa de Porto Alegre.
O drama das famílias não foi registrado por mais do que dois veículos de imprensa do estado. Uma reportagem feita de forma mais detalhada no Sul 21 narrou a realidade que não é exclusiva dos moradores que foram até a Prefeitura de Porto Alegre. Estima-se que em Porto Alegre faltem 35 mil habitações para a população de baixa renda, o que os leva cada vez mais ocuparem áreas e prédios ociosos da cidade. Uma rádio entrou com um boletim ao vivo e nada mais foi comunicado em relação ao fato.
Não passou despercebida, ao contrário, a polêmica da semana. O Quico embaixador de Porto Alegre obteve todas as atenções e olhares mais atentos. Creio que estar diante de um ídolo desta magnitude de fato possa causar certo impacto. O problema não é, jamais, este personagem. Mas acredito que duas coisas são um pouco indigestas ao olhar o contexto desta quinta-feira, o descaso com um tema tão importante que são os conflitos por falta de moradia e o filho da Dona Florinda ter sido escolhido para representar uma cidade da qual ele pouco conhece como uma mera peça de marketing. “É um ator fantástico e que todos admiram. Não está recebendo nem um centavo. Em suas viagens pelos países da América, vai ajudar a divulgar nossa cidade”, justificou José Fortunati. Se o ‘Tesouro’ veio mesmo de graça eu não tenho certeza. Agora, triste ter a convicção que o jornalismo do estado às vezes está tão distante das suas funções sociais em nome do ibope da notícia ‘divertida’.
*Rachel Duarte é jornalista, repórter do Sul 21.





18 abr 2013









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Os funcionários públicos da cidade de Porto Alegre, em assembléia massiva, que não recebeu cobertura de qualquer veículo da imprensa da capital fizeram caminhada do Parque da Harmonia após a reunião até a mesma porta no Paço Municipal para entregar a pauta de reivindicações da categoria, para início da campanha salarial 2013.
Imagina que massa se todas essas verdades fossem levadas ao Embaixador da Cidade. Quem sabe de um total desconhecedor de Porto Alegre, ele possa se tornar um verdadeiro campeão das causas que realmente importam, ou assim parecem. Quem sabe o personagem que ele viveu, por anos, e que morava em um conjunto habitacional, não possa se tornar a imagem da falta de habitação na Capital. Quem sabe não falamos também das centenas de famílias que recebem moradia adequada e vendem o seu direito para voltarem a morar em barracos. Quem sabe ao invés de ser só oposição, esse blog não possa ser solução.
O contraste entre as duas fotos é chocante e diz muito sobre a sociedade em que vivemos. Enquanto aqueles para os quais a cidade simplesmente virou as costas, negando-lhes os direitos mais essenciais, tentam desesperadamente se fazer ouvidos, a classe média alienada e boboca se diverte e tira fotos do comediante mexicano. É o mesmo tipo de gente que lê e concorda com as opiniões de Zero Hora e está sempre se lixando para os mais pobres. Vivem num mundo paralelo e são capazes até de acreditar que há uma grande quantidade de famílias que recebem moradias mas preferem vendê-las e voltarem a morar em péssimas condições. Ah, mas então o problema está explicado, né? Lamentável… Aliás, é o mesmo argumento que usam em relação aos sem-terra. Para eles, o Brasil não deve ter nenhum problema social grave, é tudo uma grande farsa dos movimentos sociais que só querem tirar proveito político e econômico. Seria mesmo ótimo se a pobreza e a desigualdade deste país fossem apenas algo inventado.