Velha mídia: caduquices ou falta de conhecimento público?

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Bibiano Girard*

Sabemos que as empresas de televisão são, perante a lei brasileira, concessões, através de processos de licitação, do sinal aberto de televisão pertencente ao Estado brasileiro. Após estudos do Ministério e de órgãos ligados ao tema dentro do governo, o Estado garante a exploração de um determinado canal por um tempo estabelecido. Ao final, há uma nova análise. É o que diz a lei, mas ligar a televisão ultimamente tem sido um mote para questões eminentes: quem analisa e o que é analisado para que a televisão brasileira, e seus atores sociais, sejam tão ruins?

No imaginário popular a imprensa é uma amiga do povo. A imprensa conta o que acontece no julgamento do mensalão e mostra, com suposta neutralidade, marchas de grevistas, acontecimentos mundiais e os nacionais para que nós, filhos da pátria, saibamos o que “de fato” ocorre ao nosso lado. Quando se quer fazer temer, liga-se o botão de alerta que muitos canais de televisão, suas rádios, seus periódicos e todo o monopólio comandado por ela têm. O alerta da censura. A população se sente atingida sempre que o fantasma da censura aparece. A imprensa, mesmo que não esteja nem perto de um possível ato de censura, já entendeu que, para se defender, não há melhor remédio do que propagandear a censura. Seria calar a voz do povo.

Qual voz? A imprensa então é um espaço que nós, populares, conseguimos tomar como bem e usufruí-lo para o bem geral? Parece que não. E a cada dia, com a ascensão de protestos, marchas, revoltas, atos, a imprensa tem se mostrado fidedigna aos seus interesses. Num país, ou num sistema, em que a população seja a verdadeira propulsora da mídia, não há como manter um acentuado grau de lucro sobre alguém e sobre mercados. E não é isso o que buscam os jornalões e/ou os canais de televisão das empresas?

Vide greves, foram incontáveis as manifestações públicas dos barões da mídia que davam margem a análises simples feitas por nós. Numa situação com a ponte do Guaíba trancada por manifestantes, um destes barões atacou: “vocês, grevistas manifestantes, estão infringindo a lei e o direito de ir e vir”. Direito de quem? Direito que custa R$3,00?

Meses depois, quando um grupo de estudantes revoltou-se contra um símbolo da privatização calada de nossos espaços públicos, o famigerado Tatu-bola da Coca-Cola, que veio a falecer por insuficiência respiratória, os mesmos barões atingiram: “em ato de vandalismo, derrubou-se um símbolo de uma festa popular, a Copa”. Só um grande idiota reconhece a Copa como uma festa popular, de cunho social e de finalidades que vão além do lucro. A Copa é um espetáculo de compra e venda de jogadores por valores que pequenos países custam a encontrar em seu PIB, que custou trilhões, que terá ingressos no valor de um salário mínimo brasileiro e que, silenciosamente, transformou o Largo Glênio Peres, famoso espaço de manifestação gaúcha, num espaço “ligado” ao patrimônio privado de uma multinacional. Sobre o ato de vandalismo, não vemos nenhum destes barões alardear a venda incessante de nossas paredes, de nossas ruas, do nosso pôr-do-sol à publicidade de mau-gosto, suja, de finalidades bestiais. Sobre ato de vandalismo, nenhum destes senhores fala acerca da naturalização das desigualdades.

O que a mídia hegemônica não quer é um verdadeiro debate, pois sabem, os chefões, que num debate popular, sua grade de programação e o que é apresentado atualmente em canais concedidos pelo governo é quase um crime. Quando se quer demonizar, a imprensa lucrativa fala em números, em vândalos nas praças, grevistas que não permitiram a passagem de nós, cidadãos de bem que não merecemos ser afetados pelas paralisações. Mas só um minuto: entre os manifestantes estão conhecidos meus que merecem, sim, melhores condições de trabalho, melhores salários. Eu também sou contra a privatização do Glênio Peres. E por que a mídia culpa a mim por todas injustiças? Infelizmente, no Brasil, a única certeza que ainda podemos ter é que o que é mostrado pelos canais de televisão, e o que é comentado por suas figuras manipulativas, não representa nem a ponta do iceberg de todo um debate por trás. A mídia não pode debater. Não pode.

* Redator da Revista O Viés

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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Uma resposta para Velha mídia: caduquices ou falta de conhecimento público?

  1. Preciso e claro. As mídias conservadoras, detentoras dos canais oficiais de comunicação, estão a serviço da manutenção dos interesses econômicos minoritários.

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