Para mídia oligárquica, camelôs são criminosos e “vagabundos”

Gabrielle de Paula

O Centro de Porto Alegre voltou a ser palco de agitações na última terça-feira. Fiscais da Receita Federal foram ao Camelódromo da cidade para uma operação de fiscalização, acompanhados por policiais militares.

Com a proximidade do Dia das Crianças, os fiscais alegam a importância de vistoria em brinquedos e eletrônicos contrabandeados do Paraguai. Por outro lado, os camelôs dizem serem vítimas de repressão da Prefeitura e da Verdi (empresa privada que administra o Camelódromo, um shopping popular criado em 2009), que insistem em transformar camelôs em empresários. Após o fechamento das lojas pelos fiscais e pela Brigada Militar, os trabalhadores marcharam em protesto pelas ruas do Centro até a Prefeitura. Ao contrário da quinta-feira anterior, quando houve forte repressão aos manifestantes da “Defesa Pública da Alegria”, dessa vez não houve confronto – provavelmente porque havia grande presença das equipes de televisão. Alguns camelôs mais exaltados viraram containers de lixo, e isso bastou para que o apresentador do “1° Jornal” da Band os classificasse como “vagabundos e vagabundas”.

Foto retirada do perfil de Juliano Fripp no Facebook

O debate acerca da remoção do comércio de rua do centro para um “shopping popular de compras” é antigo. Desde a mudança para o prédio, os comerciantes reclamam da diminuição no movimento de clientes e da dificuldade de pagar o aluguel das lojas. Agora, eles afirmam que há interesses de transformar o local em estacionamento. Mas os grandes veículos de comunicação não seguiram o clássico discurso de que o bom jornalismo deve explorar os dois lados, e nada a respeito dessa discussão foi lembrado. O “Jornal do Almoço”, da RBSTV, referiu-se à manifestação como uma “confusão que atrapalhou o trânsito da cidade” e ao final, o comentarista Lasier Martins disse que esse tipo de “distúrbio” poderia ser evitado se houvesse “fiscalização eficiente nas fronteiras do país”. No site de Zero Hora, referências ao trânsito lento e à quantidade de policiais que participaram da operação. Ao menos no Correio do Povo, um dos comerciantes teve espaço para falar da truculência com que os policiais do BOE fazem suas operações.

Dois dias após a eleição para Prefeitura de Porto Alegre, em que o atual prefeito José Fortunati (PDT) reelegeu-se, o Centro abriga mais uma vez protestos contra a higienização da cidade. Porém, a imprensa não questiona as possíveis repressões e não as relaciona com a grande especulação imobiliária que vem ocorrendo em Porto Alegre, fortalecida pelas perspectivas da Copa de 2014.

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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