Zero Hora e Fortunati: projetos afinados de higienização e privatização de Porto Alegre

“Em tempos de obras que ninguém sabe ao certo quando começam e tampouco quando terminam, um dos projetos mais aguardados pelos porto-alegrenses já tem até data para inauguração.

– O Araújo Vianna será entregue ao público no dia 26 de março de 2012. Um presente de aniversário para a cidade, podem me cobrar – prometeu o prefeito José Fortunati na última quarta-feira, durante o Café ZH Especial, no Chalé da Praça XV.”

Foto: Wladymir Ungaretti

Essa é a abertura de uma matéria publicada na capa do caderno de Cultura do jornal Zero Hora, em novembro de 2011. Como se vê com a inauguração do Araújo Vianna apenas no último 20 de setembro, Fortunati não falou a verdade. Como se vê com a cobertura que a mesma Zero Hora fez da reabertura da tradicional casa de shows encravada no mais importante parque da cidade, a Redenção, a tal cobrança não aconteceu.

O rapper Emicida, ao receber o prêmio de melhor música no VMB, programa da MTV, disse que aquele não era um momento de festa, já que “nesse momento a Polícia Militar, não satisfeita com os 36 incêndios criminosos em favelas de São Paulo, está sitiando a Favela do Moinho e impedindo os moradores de voltarem para os seus barracos”. Com outra proporção mas sob o signo de projetos de cidade que dialogam, em Porto Alegre um símbolo da cultura local é reaberto semi-privatizado e o clima na velha mídia é de oba-oba.

Mas esse não é um caso isolado. Nesta terça-feira a capa de Zero Hora estampa uma enorme foto do “Gigante Inflável”, expressão pela qual se referiu ao mascote da Copa do Mundo colocado pela Coca Cola no Largo Glênio Peres, no Centro da capital gaúcha. O foco da matéria das páginas internas é todo no personagem-mascote e em seus possíveis nomes. Mais um caso de oba-oba. Na verdade, como escreveu em seu perfil no Facebook a vereadora Sofia Cavedon (PT), “Largo Glênio Peres está ocupado com este boneco que promove refrigerante que faz mal à saúde! Área pública promovendo empresa privada. A economia solidária e o artesanato foram retiradas dali!”. O Largo, em frente ao Mercado Público, um dos lugares onde a cidade antes respirava, foi transformado em estacionamento e, como outros espaços públicos de Porto Alegre, foi, nos últimos anos, legado a empresas privadas. Novamente Sofia: “Esta Coca que está no peito do boneco já está há horas no totem de entrada do Largo Glênio Peres: pobre Largo!”.

Esse é o projeto de cidade que vem sendo levado a cabo pelo atual prefeito e estimulado por palmas ou silêncios do maior jornal do Estado. Um projeto que expulsa a pobreza do Centro, como vemos no caso da remoção da Vila Chocolatão, que ataca a cultura boêmia do bairro Cidade Baixa e que passa espaços públicos para as mãos de empresas privadas – é o caso de largos e parques e deverá ser o caso, logo logo, da orla do Guaíba.

Não é por acaso o financiamento de uma grande parte da campanha do atual prefeito por empreiteiras, como também não é por acaso o financiamento de grande parte das páginas daquele jornal por esse mesmo setor econômico. Vale lembrar, com esse contexto em mente, que Fortunati tem sido o candidato com mais espaço em Zero Hora desde o início da campanha.

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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3 respostas para Zero Hora e Fortunati: projetos afinados de higienização e privatização de Porto Alegre

  1. O princípio mais importante da Constituição brasileira é o da dignidade da pessoa humana. Ninguém tem uma vida digna vivendo em favelas. Estão certíssimos os governos que retiram as favelas e assentam as famílias em lugares com mais dignidade, como fizeram com a vila do Chocolatão. Isso não é higienização, sob hipótese alguma, isso é o que tem de ser feito, porque esse tipo de política é, na verdade, de inclusão social. Uma favela instalada em local insalubre e público é também uma forma de privatização de espaço público.

  2. Giulia disse:

    Assentaram as famílias q viviam a muitos anos na vila do Chocolatão em lugares distantes dos seus trabalhos, em terrenos piores de onde estavam, com a promessa de que teriam toda uma estrutura capacitada. Infelizmente, ficou só na promessa. Sendo assim, essa remoção do centro para regiões mais distantes e sem preparo, está bem longe de ‘inclusão social’.

  3. Seimar Moraes de Souza disse:

    Estamos morrendo pouco a pouco,não há vida digna,não há espaço para a cultura e não teremos o direito à liberdade de expressão(depois da “privatização” do Largo Glênio Perez,afinal os protestos se concentravam por lá).Parabéns,estão conseguindo destruir Porto Alegre,uma cidade que já foi sinônimo de cultura,liberdade e respeito.

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