A mídia independente tem por função cumprir o papel que a outra mídia, aquela com o rabo preso com os donos da política e da economia, não pode cumprir. Quer dizer, fazer bom jornalismo, de cara para a realidade e inserido nela, ouvindo e fazendo ouvir a voz de quem é calado pelos donos do poder. Deve também, para que mantenha a necessidade de sua existência, pensar e agir sobre a totalidade. Em outras palavras, evitar a todo custo a fragmentação do noticiário e das análises, estratégia de alienação e de esvaziamento das lutas populares típica da atuação da velha mídia, para, mesmo que trabalhando em pautas específicas, percebê-las e fazer com que sejam percebidas em sua inserção na totalidade do real.
A mídia contra-hegemônica precisa pensar para além de suas pautas específicas e precisa pensar para além de seu próprio veículo. Os midialivristas precisam pensar para além de seus próprios movimentos, sob pena de tornarem-se desnecessários ao midialivrismo em si, este entendido como uma proposta alternativa de disputa do espaço discursivo. Com “pensar para além de”, o que quero dizer é que a práxis deve estar linkada com as demandas de outros movimentos sociais (ligados diretamente ou não à comunicação em si), e que a luta precisa dar-se em defesa dos veículos e espaços existentes e pela criação da possibilidade de nascimento e fortalecimento de novos espaços de crítica e embate.
A sobrevivência da mídia independente enquanto alternativa real de hegemonia discursiva depende dessa visão total e solidária, e depende de uma atitude reflexiva, e ativista. A organização é fundamental, mas a busca por sobrevivência financeira – necessária, obviamente – não pode fazer com que se extinga a sobrevivência ética e crítica.
Um veículo ou uma organização contra-hegemônica, no momento em que pensa apenas em como suprir suas demandas, no momento em que pensa apenas em sua sobrevivência financeira, ou no momento em que abandona a noção de totalidade do real, torna-se supérflua ao midialivrismo e um novo elemento a somar-se ao aparelho da velha mídia que atua pela manutenção do status quo, ainda que conceda a possibilidade de pequenas mudanças pontuais, meramente cooptantes.
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O desafio é o equilíbrio entre a sustentabilidade e a livre atividade.
Abraços do Norte