Em diversas postagens aqui no Jornalismo B temos denunciado a cobertura absolutamente parcial e desonesta que a mídia dominante está fazendo no julgamento da Ação Penal 470, conhecida como “julgamento do mensalão”. Procurando assumir a função de herói que faz justiça com as próprias mãos e, ao mesmo tempo, pressionar o Supremo Tribunal Federal colocando contra ele a opinião pública manipulada, dentro do possível, através da opinião publicada, esse setor da mídia tem se utilizado de algumas reportagens e de muitos editoriais, colunas e charges. É destas últimas, mais especificamente das publicadas no jornal gaúcho Zero Hora, que trata este post.
Apenas em agosto foram, segundo nossa contagem, 15 charges publicadas em Zero Hora em que o tema do mensalão foi diretamente abordado. Sete delas foram feitas por Marco Aurélio, desenhista principal daquele jornal, e oito por Iotti, seu segundo chargista. Além disso, outras charges tangenciaram o assunto, falando de forma genérica sobre corrupção ou impunidade em um momento em que a mídia tem trabalhado arduamente para vincular essas palavras ao PT e aos réus da Ação Penal 470.
Todas as 15 charges que, durante o mês de agosto, trataram do “julgamento do mensalão”, atuaram pela condenação dos réus, em um sistema que misturava torcida com tentativa de pressão, no que colaboram na tentativa de politizar e partidarizar um julgamento que deveria aproximar-se o máximo possível de uma decisão técnica. Podemos incluir praticamente todas as charges referidas em apenas três categorias, de acordo com a orientação de seus conteúdos: ridicularização da defesa e/ou dos réus; apoio ao voto condenatório do relator, ministro Joaquim Barbosa; ataque ao voto do revisor, ministro Ricardo Lewandowski.
Não temos aí, portanto, qualquer aproximação com a pluralidade ou com o debate real sobre a técnica envolvida no processo, apenas um julgamento estigmatizado e estigmatizante de réus que o STF ainda não definiu se são culpados ou não – com exceções que apareceram apenas durante o mês de agosto, ou seja, após a publicação de boa parte das charges.
A torcida, como se o julgamento em questão fosse um jogo de futebol, onde o torcedor passionalmente grita por seu time – ganhando ou perdendo, jogando bem ou errando todos os passes – e xinga o juiz quando este define um lance contra sua equipe, aparece com clareza em uma das charges de Marco Aurélio, em que Joaquim Barbosa tira a capa de ministro e aparece com a camisa 10 da Seleção Brasileira de futebol. A mesma visão dualista da realidade e a mesma forma dupla de perceber e interpretar as decisões do juiz – seja o do STF, seja o do futebol – está em duas charges de Iotti. Na primeira, olhando para um lobo escondido sob a “pele” de uma ovelha, Joaquim Barbosa grita, cheio de razão: “Culpado!”. Na segunda, falando em direção ao mesmo personagem canino, Lewandowski diz, “cego”: “É uma ovelha!”.
Como em todas as demais postagens que estamos fazendo sobre esse caso, cabe ressaltar, para evitar que o leitor incorra em erro em um tema que tem despertado tantas paixões e tão poucas análises equilibradas, que não há, aqui, qualquer defesa dos réus, como também não há ataques a eles. Há, sim, o entendimento de que o julgamento cabe ao STF, de que deve ser um julgamento técnico, e de que a velha mídia brasileira deve ser derrubada de sua arrogância com a qual se arvora o direito de julgar pelo Supremo ao mesmo tempo em que grita sua pretensa imparcialidade.
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