Jornalões usam manchetes para condenar réus do “mensalão”

O julgamento da Ação Penal 470, midiatizada como “mensalão”, não completou sequer uma semana, os advogados dos réus recém começaram a pronunciar-se, e uma sentença já foi cravada: condenação à morte política. Sentença essa que não foi proferida por magistrado algum, mas por um personagem esquizofrênico que se crê, ao mesmo tempo, opinião pública, polícia, juiz e profeta: a mídia hegemônica.

Condenados de 1980 a 2002 por defender os trabalhadores e uma plataforma política de esquerda, condenados de 2002 a 2005 por construírem um governo com diversos traços progressistas, condenados a partir de 2005 por um esquema de compra de votos parlamentares que ainda não se sabe com certeza sequer se existiu – e sabemos menos ainda sobre a participação real e efetiva de cada um dos acusados. O ator colocado no banco dos réus por determinado setor da mídia é o PT, desmembrado em alguns de seus militantes. E não acusado por possíveis omissões ou escolhas de seu governo, mas acusado – e julgado às pressas – por algo que, se realmente ocorreu, não deve ser usado simplesmente como uma arma político-partidária.

Nos últimos dias – o julgamento dos 38 réus no Supremo Tribunal Federal começou na quinta-feira, 2 – os maiores jornais do país têm trabalhado de forma veemente pela condenação do PT frente à população, e a decisão que virá do STF só tem, para os conglomerados de comunicação, o valor simbólico de mais um mecanismo de pressão sobre o partido.

Nas imagens a seguir, trazemos alguns exemplos de manchetes que trazem interpretações atravessadas ou condenações antecipadas dos réus que estão sendo julgados pelo STF:

Manchete do Correio do Povo não usa aspas nem referência para citar denúncia de promotor como se fosse fato consumado

Título de matéria de Zero Hora dá punições a réus como questão concretizada

Mesmo com título sobre a defesa, entrevista no quadro é com um procurador que afirma que “a culpa está muito bem demonstrada”

A preocupação de Zero Hora é com o adiamento das punições, mesmo o julgamento ainda não tendo acontecido

Mesmo admitindo, no quadro, que o fluxo é “segundo a acusação”, a chamada dá como certa a existência da operação

Folha noticia que Lula ligou para “advogado do mensalão”, como se alguém estivesse defendendo o – ainda não comprovado – “mensalão”, e não os réus

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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