Telejornais criam espetáculo e querem condenar réus do “mensalão” a qualquer custo

Começou nesta quinta-feira o julgamento, no Supremo Tribunal Federal, da Ação Penal 470, que, como parte de sua atitude de espetacularização da disputa política, a mídia dominante vem chamando de “mensalão”, ecoando o ex deputado Roberto Jefferson (PTB). Desde o início da semana os telejornais, em especial o Jornal Nacional, têm criado um clima de disputa futebolística em torno do caso, construindo uma dualidade que serve apenas à partidarização de um processo judicial, afetando sua condução.

Nas edições desta quinta, os três principais telejornais da TV brasileira adotaram posturas diferentes em relação ao julgamento. Enquanto o Jornal da Record dedicou enorme espaço à cobertura dos Jogos Olímpicos e limitou-se ao factual no caso do “mensalão”. Como bem disse o presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT), há pouco interesse real nestes primeiros movimentos do STF. Ainda que seja fundamental que seja feita a cobertura, a sobriedade dos dois minutos dedicados pela Record foi suficiente para informar tudo o que era necessário.

Jornal da Band e Jornal Nacional esticaram o assunto o que puderam, mas sem aprofundá-lo realmente – o que seria uma opção melhor do que o simples factual da Record. Os vários minutos em cada uma das duas emissoras serviram apenas para fortalecer a percepção que vem sendo criada há tempos, do julgamento como uma Fla-Flu ou um Grenal, e dos réus como condenados antecipados.

O Jornal Nacional abriu com um enorme trecho da fala de Joaquim Barbosa, que leu o resumo do processo. O trecho selecionado era, obviamente, a acusação. Depois, a reportagem falou em “maior julgamento da história do STF” e em “um dos maiores escândalos de corrupção”. A longa matéria foca na negativa do pedido de desmembrar o processo, o que, na verdade, foi o único fato do dia. Alternando a fala de vários ministros e mostrando a discussão entre dois deles, a cobertura foi fechada com trechos da leitura feita por Joaquim Barbosa, novamente. E os trechos escolhidos foram, quase sempre, os relatos da procuradoria. Foram 20 segundos lendo a acusação, mais 25 segundos falando sobre alguns réus em especial, depois 10 sobre a não convocação de Lula. Por fim, uma frase sobre a alegação de inocência dos réus. Em seguida à matéria, foi lida uma nota de 30 segundos resumindo o que disseram os advogados, sem sequer imagens cobrindo a leitura pelo apresentador do jornal.

No Jornal da Band, fugiu-se de dentro do tribunal, entrevistando um dos poucos manifestantes que estavam ao redor e mostrando a oposição (PPS, DEM e PSDB) reunidos para torcer “para que o julgamento influencie o resultado das urnas”. A Band também apresentou uma lista de deputados que, em outros momentos, foram condenados pelo STF. Entrevistou ainda Ronaldo Caiado (DEM) e Roberto Freire (PPS), além de Marco Maia, este mais rapidamente. O espaço para a oposição foi enorme, com cobertura por todos os lados daqueles que “torcem” por uma condenação, mais do que dos réus, do PT.

Não se coloca, aqui, uma questão de fazer defesa dos réus. Como também não pode tratar-se de fazer sua acusação. Os culpados devem ser punidos, e os inocentes inocentados, e essa aparente obviedade independe dos julgamentos antecipados feitos por um setor da mídia que quer apenas destruir o PT ao mesmo tempo em que tenta roubar para si o papel de julgadora e influenciar a decisão do Supremo através da criação de uma pressão pública (real ou imaginária) pela condenação sumária.

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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2 respostas para Telejornais criam espetáculo e querem condenar réus do “mensalão” a qualquer custo

  1. antonio disse:

    amigo. com tantos casos de políticos flagrados em video e mesmo assim sendo inocentados, fico surpreso com o seu “Os culpados devem ser punidos, e os inocentes inocentados” isso raramente acontece.
    Quanto a cobertura jornalística… a record tem o direito das transmissões, se o povo que quer saber sobre as olimpíadas, tem que assistir lá, os outros canais tem direito a apenas 3 minutos. Você como editor de um grande jornal como preencheria esse espaço das olimpíadas?
    Por que não fazer uma crítica no quanto a gente paga a todos eles, no quanto tempo se perde para achar os culpados por corrupção quando se tem tanto a fazer para o Brasil.

  2. leonardo disse:

    nao é de hoje que a rede globo tem raiva do pt, quem nao lembra das eleiçoes de um passado mei que proximo onde a rede globo usava de sua força para manipular resultados tentando impedir que lula entrasse na presidencia, por isso meu amigo apesar da força e repercursao que tem a rede globo, jornalismo confiavel e bem informativo é da record. mude assim como eu e muitos ja.

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