Os velhos preconceitos na cobertura dos Jogos Olímpicos de Londres

Chegamos à metade da primeira semana dos Jogos Olímpicos de Londres, e a cobertura que vem sendo feita na mídia brasileira tem sido dentro do que era esperado. Tecnicamente boa, politicamente com graves problemas. Se, ao menos no canal Sportv, a cobertura da crise institucional causada pela troca da bandeira da Coréia do Norte pela da Coréia do Sul foi impecável, espalham-se pelo próprio Sportv, pela Record e pelos portais de notícias velhos preconceitos.

Os times de quaisquer países africanos continuam sendo tratados como pouco mais do que “africanos”, sem qualquer preocupação em lembrar que a África é um continente, e não um país, e um continente composto por mais de 50 países absolutamente diversos entre si, especialmente quando tratamos das regiões específicas do continente. Além da generalização que reforça o total desconhecimento dos brasileiros sobre o continente africano, segue sendo reforçada a cada transmissão de esportes coletivos a ideia do negro como ser infantilizado. A repetição da história de que são todos times “inocentes” só acontece quando se fala de times daquele continente. É o mesmo mantra do europeu como forte fisicamente e inteligente taticamente, do asiático como veloz…pura reprodução de sentenças que muitas vezes têm pouco apego à realidade.

Na transmissão da abertura da Olimpíada, Galvão Bueno não cansou de criticar a escolha de Daniel Craig para viver o personagem James Bond quando este se encontrou com a rainha da Inglaterra em um filme exibido no estádio. Mas nem ele, nem ninguém, questionou, em qualquer momento, a existência de uma rainha, chefe de Estado da Grã-Bretanha e de países que não fazem parte daquele reino, que jamais foi eleita por qualquer desses países e que exerce seu cargo há 60 anos por tê-lo herdado, simplesmente, como uma indicação divina, e vive em meio à opulência absoluta mesmo nos momentos de forte crise econômica.

No site de O Globo, uma matéria com chamada na capa do site ridiculariza uma levantadora de peso australiana que não depilou as axilas para competir. A matéria diz que a atleta “foi flagrada competindo com as axilas bem peludas”. Outro assunto que ganhou destaque nos portais nesta terça-feira foi o fato da goleira da seleção brasileira de handball, Mayssa, ter assumido sua bissexualidade. Como mostra matéria da Globo.com, a questão transformou-se em prioridade nas perguntas dos repórteres brasileiros, à frente da grande atuação da goleira e da sequência dos Jogos.

A pressão que têm sofrido alguns atletas brasileiros por conta de suas derrotas, por sua vez, é o resultado óbvio de uma total falta de informação do público brasileiro a respeito da dinâmica das competições, da preparação desses atletas e das dificuldades que enfrentam. Casos como o do ginasta Diego Hipólito e da judoca Rafaela Silva são exemplares. A mídia de massa, no Brasil, não acompanha os esportes olímpicos, o que leva à ignorância da população sobre o desenvolvimento das modalidades e a vida dos atletas. Afasta os atletas de seu povo e cria um clima de cobrança desmedida e responsabilização desviada por derrotas possíveis, quando não esperadas.

Em outros sentidos a cobertura tem sido magnífica, é verdade. A participação de comentaristas especialistas nas modalidades é, sem dúvida, um grande acréscimo, tanto no Sportv quanto na Record. Também as imagens são espetaculares, com cada vez mais câmeras, velocidades e ângulos, ainda que isso seja mérito da transmissão oficial, não das emissoras brasileiras. Mesmo assim, mesmo com esses avanços flagrantes e interessantes, com o cuidado com os detalhes da cobertura, discursivamente seguimos com muitos problemas. Nas hard news, tudo certo, e cada vez melhor, assim como nas curiosidades e nas reportagens sobre o que cerca o evento. Avança a organização, avança a tecnologia, mas o aprofundamento segue raro e o discurso segue atrasado e, em alguns casos, racista, machista, homofóbico…

A Globo, aliás, tem passado maus bocados. Tem provado de seu próprio veneno. Sobraram poucas credenciais para seu canal de TV fechada que tem direito de transmissão, o Sportv, o que tem deixado fora de muitos eventos os narradores, comentaristas e repórteres. Também Galvão Bueno, contratado da emissora aberta, teve que comentar a abertura de fora do estádio.

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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10 respostas para Os velhos preconceitos na cobertura dos Jogos Olímpicos de Londres

  1. ONG Cea disse:

    Pra quem não entendeu eu vou desenhar: meu corpo, minhas regras..minha beleza não tem padrão. E mais, sugiro outra reportagem, que infelizmente tem título machista e encobre material relevante que é ouvir a fala da atleta paraguaia: ela está competindo não necessariamente para ela ganhar medalha, mas para que outros/as atletas do paraguai também possam competir num futuro não distante…http://goo.gl/4N1a9

  2. Pingback: Jogos Olímpicos: O espírito olímpico (ou a falta dele) e o brasileiro | Entrando no Jogo

  3. mamapress disse:

    O texto não faz jus ao título. Esperava mais, falar racismo escancarado de nossos teleespectadores, e da incitação à ignorância, nem um pouco compensada pelos lups e slow montions da câmeras. Não só a Globo é daltônica quanto ao racismo, e não somente preconceito, como o autor alivia. Vem a copa e as olimpíadas aí e o bich vai pegar. Já estou escutando o mito das tres raças e nossos bloguistas dissimlando racismo global,

  4. Weimar disse:

    Belas reflexões, mas…
    Nada de novo no quartel de Abrantes. Cada vez mais salta aos nossos olhos a intenção clara e declarada de manipular a realidade. De tentar vender a perfeição, o máximo, o insuperável. Não somos nada disto. Somos um país com enormes, quase intransponíveis carências, limitações. Nossa realidade é a de um país em formação, em crescimento. Não somos o máximo em nada. Nunca fomos. Tentar vender esta ilusão é ludibriar os incautos.

  5. Concordo com Weimar. E acrescento: as coberturas, principalmente da Globo, fedem a um ufanismo infantil e consumista, misturando o “verde e amarelo” das olimpíadas com o “canarinho” e uniformes
    do futebol profissional. As derrotas são necessárias, às vezes, para sacudir as consciências alienadas.

  6. Lima Júnior disse:

    É foda. Até no facebook rolou uma divulgação sobre uma matéria puramente machista que falava das “beldades” das Olimpíadas, ignorando o atletismo das mulheres e valorizando apenas seu corpo.

  7. Pingback: Brazil: Sexist Reporting Taints Olympic Coverage · Global Voices

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