Entrevista por Gabi Paula*
Jornalista por excelência e morador do Asilo Padre Cacique desde 2005, Hermínio D’Andréia se dedica a registrar os acontecimentos da instituição no informativo “O Cacique”. Aos 87 anos, Hermínio é incansável na busca pelas notícias. Em seu quarto, há uma redação improvisada e quem lhe faz companhia é a velha máquina de escrever. O Jornalismo B foi conhecer um pouco de sua história.

Jornalismo B – Como foi a tua vinda para o asilo? Por que escolheste o Padre Cacique para morar?
Hermínio D’Andréia – Eu sempre tive uma vida mais ou menos boa, era casado, não tinha filhos. A minha mulher acabou adoecendo, então comecei a procurar um lugar que ela pudesse ficar, que tivesse cuidados. O Padre Cacique é uma instituição muito boa, organizada, difícil de conseguir vaga. Eu tinha uns amigos que eram vereadores, eles estavam tentando a vaga. Um deles, inclusive, era conselheiro daqui. Mas certo dia ela morreu. Eu fiquei muito mal e eles começaram a me convencer a vir para cá. Me lembro que um dia, quando foram me procurar para dizer que eu poderia ficar com a vaga dela, eu estava tomando uma dose de uísque, estava triste, não queria vir. Mas como tinha que fazer exames antes de entrar, aquele dia não tinha como mesmo, eu estava cheio de trago na cabeça! Porém, eles me convenceram né, e eu acabei vindo.
E como surgiu a ideia de fazer o jornal “O Cacique”?
Assim que eu cheguei ao asilo me chamaram na diretoria. Até me assustei já achei que tinha feito alguma coisa. Aí eles falaram que ficaram sabendo que eu era jornalista e que gostariam de ter um jornal no asilo. Eu adorei a ideia, fiquei mais animado, porque eu estava muito triste.
E a receptividade das pessoas foi positiva?
Ah, claro! Foi fantástica. Todo mundo achou bonito, achou importante. E o fato de as pessoas se verem é sempre positivo, acontece uma identificação com aquilo que se lê.
De que forma o senhor consegue manter o jornal? Está satisfeito com o atual formato?
No início, como era novidade, ele saía mais rápido. A direção do asilo busca alguns apoiadores, tínhamos uma concessionária de veículos que patrocinava, até foi quando ele ficou mais bonito, ganhou um papel mais chique (risos). Hoje, eles não estão mais patrocinando e temos uma agência de comunicação que diagrama o jornal, monta as notícias. Nem sempre eu fico satisfeito. E o meu maior objetivo também não foi alcançado, que era fazer com que o jornal tivesse uma vida externa, porque achar bonito não basta, hoje, há pouco interesse interno, afinal poucas pessoas aqui são alfabetizadas. Era importante ele ter essa vida externa, pois o asilo precisa de amparo social, de doações, e esse era meu grande objetivo. Além de apoiadores financeiros, eu tenho a colaboração do Maicom Bock, do jornal Metro, e de uma estudante de jornalismo da UFRGS. Mas mesmo assim, ele tem demorado muito a sair, eu me irrito, reclamo da presidência, até já fui chamado a atenção, mas não adianta, jornal não é assim.
E quando surgiu essa paixão pelo jornalismo?
Com 6 anos eu já sabia ler, sempre gostei de ler e escrever. Aos 13 anos fui trabalhar ao redor de casa como entregador de vianda, entregador de carne do açougue. Mais tarde, trabalhei no Café Colombo como limpador de salão. E sempre escrevendo minhas coisas. Depois que o seu Rosito vendeu o Café para o senhor Mario, eu fui convidado a ser o primeiro assador de frango de Porto Alegre (risos). E o que eu costumava fazer, mesmo trabalhando em outros ramos, era mandar textos meus para os jornais, falando dos problemas do meu bairro, má iluminação, problemas de segurança, essas coisas. Teve a época que eu trabalhava numa fábrica de tintas e mandava meus textos com minhas preocupações para o Correio do Povo.
Então o senhor não frequentou faculdade? Chegou a trabalhar em algum jornal?
Não (frequentei faculdade). Tudo que eu sei, aprendi fazendo durante a vida. Chegou um momento que eu arrumei um namoro em Esteio e me mudei para lá. Aí como o pessoal do jornal gostava dos meus textos, acabei virando um correspondente de lá. Cheguei a ser correspondente do Correio do Povo e da Folha da Tarde. Esteio era um distrito do município de São Leopoldo, e vivendo lá, comecei a observar os problemas, a condição de exploração e miséria que as pessoas viviam. Eles tinham somente um ônibus que vivia abarrotado de gente, só um motorista trabalhava!
As matérias que o senhor escreveu sobre Esteio tiveram repercussão?
Sim. Aí a Caldas Jr se interessou mais por mim, eles pegavam minhas matérias, eu não parava de mandar notícias sobre a situação em Esteio. Através do serviço de autofalante eu usava a Rádio Nacional de São Paulo e também passava as notícias. Mexi com prefeitura, empresa de iluminação, empresa de ônibus, até com a Igreja! Muitos mandaram eu me calar, até os padres bateram na minha porta. Eu fiz dois artigos muito bons o “Curvas e Desvios” (sobre os buracos e o abandono) e o “Julio Cordova” (nome do único motorista do ônibus). E assim surgiu o movimento emancipacionista, que eu participei ativamente. Depois da emancipação, eu fundei a “Gazeta de Esteio”, juntamente com o Luis Alecio Frainer, que foi o primeiro prefeito da cidade. Mais tarde, quando retornei para Porto Alegre eu fundei a Associação de Moradores do bairro Floresta e é claro, o jornal da associação em 1971, o ASSETUR. Também tinha características de denunciar problemas no bairro. Em 1973, a Folha da Tarde publicou uma nota a meu respeito com a seguinte manchete: “Ele é o líder comunitário da capital”. Foi um momento especial na minha vida de jornalista.
Como o senhor vê o jornalismo hoje? Quais os jornais que costuma ler?
A imprensa tem o grande privilégio de ser livre, coisa que no meu tempo era complicado. A tecnologia a que os mais jovens tiveram acesso facilita muito. Mas o pessoal anda muito preguiçoso, o jornalista dificilmente vai até as pessoas. A imprensa deve ser lida, a gente tem que conhecer os vários textos, mesmo sabendo que tem muita coisa ruim de ler! E eu recebo aqui a Folha de São Paulo e a Zero Hora, as pessoas me mandam de presente, tem até uma professora que manda a revista Istoé, porém eu gosto mesmo é de escutar rádio, escuto todas notícias pela manhã na CBN, o rádio acaba sendo um companheiro.
E qual a tua opinião sobre a mídia independente?
Ah, fundamental que se apoie essas iniciativas. Esses jornais são os melhores de escrever! Tu viste só a importância que meu jornal de bairro alcançou. A mídia independente é importante porque ela toca fundo nos interesses da coletividade.
*Estudante de jornalismo na UFRGS, estagiária Jornalismo B.








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Uma boa matéria para incentiva os novos jornalistas interessados em estatem engajados com a pessoas e os fatos sobre o que escreve.
Bom… muito bom!
Um jornalista de verdade. Dedicação, pesquisa, suor, sola de sapatos e interesse social. Interesse nas pessoas, nas suas dramáticas situações de vida. Hoje em dia quase ninguém quer se dedicar a isso. Querem o repasse de informações. A bolsa. A CPI. A vida dos colunáveis, dos notáveis. Das tragédias, das mortes, dos acidentes. Jornalismo autofágico que acabará se auto-devorando pelo cansaço e pela mesmice.