A mídia oligárquica brasileira vem apoiando o golpe branco no Paraguai desde seus primeiros momentos. Procura de todas as formas justificar a deposição de Fernando Lugo. Já mostramos AQUI como alguns colunistas dessa mídia tem se referido à questão, comparando com a forma como costumam tratar da política venezuelana. Fizemos, agora, uma reunião de editoriais dos jornais Folha de S. Paulo, Estadão, O Globo e Zero Hora, com comentários nossos logo abaixo de trechos retirados desses editoriais.
O que vem à tona é uma enorme má vontade com Lugo e a tentativa de legitimar uma medida ilegítima e autoritária do Legislativo paraguaio. O editorial de Zero Hora, costumeiramente o mais mal escrito entre os jornalões, pouco diz e, quando constrói alguma sentença com significado e sem enrolação, é para defender uma postura egoísta do Estado brasileiro. O jornal O Globo é agressivo e, como acontece sempre que fala de América Latina, aproveita para atacar o governo soberano da Venezuela e seus aliados imediatos, sempre de forma absolutamente despolitizada e desconectada da realidade.
O Estadão ignora as manifestações populares em defesa de Lugo e tenta criar um clima de serenidade e estabilidade – seguindo o discurso oficial do governo golpista. Além disso, ataca os chamados “governos bolivarianos”, o Mercosul e a Unasul. A Folha, por fim, chama à “soberania” do Paraguai, reduz a importância do direito de defesa negado a Lugo e o ataca pessoalmente em detrimento de fazer uma crítica política convincente.
A seguir, os trechos comentados. Os comentários estão em negrito. Os grifos são todos nossos.
Folha de S. Paulo: Paraguai soberano
Apesar de cercear direito de defesa, impeachment do presidente foi constitucional; é abuso dos países vizinhos pretender impor sanções
Não pode ser legal – nem constitucional – um julgamento que cerceia o direito de defesa. Esse não é um fato menor, um apesar de.
Eleito numa plataforma esquerdizante, o ex-bispo católico Fernando Lugo conduzia um governo populista e errático, prejudicado pela conduta pessoal do mandatário, compelido a reconhecer filhos em escandalosos processos de paternidade.
As críticas do editorial da Folha a Lugo são, então, à sua plataforma esquerdizante, a um governo populista e errático, e à sua conduta pessoal? Não há qualquer crítica política objetiva.
A popularidade presidencial se desfez depressa, tornando possível a formação da esmagadora maioria congressual que o afastou do cargo.
Popularidade e maioria congressual são coisas diferentes. Como a Folha mediu a popularidade de Lugo após o golpe branco? A maioria congressual da oposição não foi construída neste momento – ainda que tenha sido acrescida do Partido Liberal –, mas na eleição legislativa.
Por afinidade ideológica – maior no caso da Argentina, menor no de Brasil e Uruguai-, os demais governos do Mercosul decidiram suspender a presença do vizinho na reunião do organismo (…)
Como ficou claro em todas as falas de repúdio ao golpe branco, não foi por afinidade ideológica, mas por compromisso com a democracia na América Latina e no Paraguai.
(…) o melhor que o Itamaraty tem a fazer é calar-se e respeitar a soberania do vizinho.
Não é o que a Folha diz, por exemplo, a respeito de Cuba, Venezuela…
Estadão: O afastamento de Lugo
Não tinha fundamento o temor de que as ruas de Assunção e, em particular, a praça diante do Congresso fossem ocupadas por manifestantes exigindo a manutenção de Lugo no cargo (…).
Na verdade, diversas manifestações populares ocorreram imediatamente ao golpe branco e seguem ocorrendo.
(…) Durante o exercício do mandato, porém, suas atitudes contraditórias e equivocadas afastaram a maioria de seus aliados. Sua principal base de apoio político-parlamentar, o Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), o abandonou há cerca de dez dias, depois da desastrada operação de forças policiais incumbidas de cumprir uma ordem de reintegração de posse no Departamento de Canindeyú, que resultou na morte de 17 pessoas.
O Estadão sequer levanta a possibilidade de o PLRA ter abandonado o governo pela possibilidade de herdar a presidência.
Além do compromisso dos membros das duas associações regionais (MERCOSUL e Unasul) com a democracia – que nunca foi observado nas muitas vezes em que os governos bolivarianos da região violentaram direitos e instituições (…).
O Estadão não apresenta nenhum exemplo para embasar essa acusação contra os governo bolivarianos. Na verdade, todas as ações destes governos foram embasadas nas Constituições de seus países, inclusive em Constituições amplamente debatidas com a população e aprovadas em plebiscitos pela grande maioria do povo.
É preciso assegurar condições para o trabalho de dezenas de milhares de brasileiros e seus descendentes que desenvolvem intensa atividade agrícola e pecuária na região próxima à fronteira com o Brasil e são conhecidos como “brasiguaios”.
Mais uma vez, uma omissão. O Estadão esquece de esclarecer que boa parte dos brasiguaios ganhou suas terras do Estado paraguaio durante a ditadura daquele país, e desenvolvem um trabalho que em pouco ou nada colabora para o crescimento do Paraguai.
O Globo: Crise paraguaia requer sensatez
(…) a melhor postura a assumir é de serenidade, longe de escaladas verbais e rompantes de bolivarianos e chavistas.
Tudo é usado para atacar Chávez e os governos progressistas da América Latina.
Além de a teoria do “golpe parlamentar” ser discutível, o Brasil, ao contrário de outros vizinhos, tem enormes interesses objetivos no Paraguai, como a energia de Itaipu, o comércio propriamente dito, além de uma grande comunidade de “brasiguaios”, responsáveis pelo crescimento agrícola do país e alvo de grupos radicais de sem-terra, fortalecidos com o pouco caso de Lugo diante do agravamento do conflito agrário, um dos argumentos a favor do seu impeachment.
Dizer que os brasiguaios são responsáveis pelo crescimento agrícola do país é uma farsa e uma agressão à História. A verdade é que a ditadura paraguaia é a responsável pelo crescimento de boa parte dos brasiguaios, não o contrário.
O suposto “golpe parlamentar” paraguaio equivale a um outro, idêntico, desfechado pelo Congresso e Justiça de Honduras, em 2009, quando o então presidente hondurenho, Manuel Zelaya, com apoio de Hugo Chávez, tentou aplicar o conhecido “kit bolivariano” de convocar um plebiscito e aprovar mudanças constitucionais para se reeleger.
Então um plebiscito legítimo, onde a população define os rumos do país, é parte de um “kit bolivariano”? O Globo desrespeita a soberania do povo venezuelano ao debochar de um mecanismo de aprofundamento da democracia utilizado naquele país.
(…) não deixem passar sem análise manipulações que Venezuela, Equador e Bolívia — para citar os notórios — fazem do Congresso e Poder Judiciário a fim de destroçar o que resta de democracia em seus regimes, por meio de instrumentos apenas formalmente democráticos.
Para O Globo o golpe branco no Paraguai é legítimo, mas as ações dos governos de Venezuela, Equador e Bolívia são “apenas formalmente democráticos”?
Zero Hora: A crise do Paraguai
O Brasil, particularmente, tem razões fortes para torcer pela estabilidade de seu parceiro comercial, que vão desde a hidrelétrica binacional Itaipu até os interesses de cerca de 400 mil “brasiguaios” e dos que costumam transitar rotineiramente com mercadorias pela Ponte da Amizade.
Defensor do neoliberalismo e do individualismo exacerbado, Zero Hora não poderia deixar de preocupar-se, sobretudo, com os interesses econômicos do Brasil no Paraguai. O que importa se a democracia foi violada, se o presidente eleito pelo povo foi derrubado pelo Congresso sem debate ou direito de defesa? Para a Zero Hora, o Brasil deve “torcer pela estabilidade” do Paraguai não em solidariedade ao povo paraguaio, mas por ser um “parceiro comercial”.
O impasse paraguaio serve de alerta para o subcontinente latino-americano sobre o que pode ocorrer numa democracia na qual predomina o desequilíbrio entre os poderes e em que o chefe do Executivo governa sem se preocupar com respaldo político.
Zero Hora está reclamando de um excessivo poder do Executivo quando, na verdade, o que ocorreu no Paraguai foi um abuso de força do Poder Legislativo. Inverte a realidade para aliená-la.





Reblogged this on Mamapress and commented:
Um relato conciso e esclarecedor sobre os interesses da da direita brasileira na sua “Colônia Brasiguaia”. São 400 mil brasileiros que ganharam terras na época da ditadura paraguaia!
Amigo,
Seus argumentos são simplesmente patéticos… tá loko!
Mais uma ótima visão do que está por trás da mídia brasileira.