Um capitalismo menos selvagem é, em todos os setores da vida em sociedade, uma farsa e uma tragédia. Aumentar um pouco o salário dos trabalhadores, permitir a inclusão das mulheres no mercado de trabalho, aumentar a possibilidade de consumo das classes trabalhadoras, tudo isso são apenas formas de maquiar a realidade de opressão e exploração características do modelo capitalista, intrínsecas a ele. O mesmo acontece com a falácia do discurso ecocapitalista, em defesa do capitalismo sustentável. Não há sustentação ambiental real a um sistema que vê no consumo obsessivo sua divindade maior e sua possibilidade única de sobrevivência.
A mudança estrutural é a única forma de emancipar as mulheres, empoderar devidamente os trabalhadores, caminhar para a verdadeira justiça social e construir um modelo social e econômico que permita a mudança de relação da humanidade com o restante do planeta. É com essa meta e com essa consciência de totalidade que devemos trilhar os caminhos das conquistas sociais mais específicas.
Em um momento em que temos a Rio +20 e a Cúpula dos Povos como conferências para discutir a situação ambiental do planeta, esse debate precisa ser feito. O combate ao capitalismo precisa ser a consequência última de qualquer mobilização séria a que trate dessa questão.
O sistema se apropriou da luta ambiental e encontrou no conceito de “sustentabilidade” uma nova forma de lucro e de encobrimento dos malefícios inerentes ao modelo. “A economia verde é um cavalo de Troia. Tenho dificuldade de ver um capitalismo verde para além das notas de dólar”, bem disse o sociólogo Boaventura de Sousa Santos em um dos primeiros debates da Rio +20. Apenas um incansável trabalho de conscientização e mobilização sobre esta e as outras doenças do capitalismo pode mudar o rumo assustador para o qual seguimos.
O texto acima é o editorial da 39ª edição do Jornalismo B Impresso. A edição será distribuída em Porto Alegre na próxima semana, e o jornal pode ser assinado em qualquer lugar do Brasil. Os locais de distribuição continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B.
Nessa edição, temos textos sobre a Rio + 20 (Cíntia Barenho), a situação do bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre (Tonho Crocco), e a greve nas Universidades Federais (Rodolfo Mohr), além de uma entrevista exclusiva com o ativista italiano Cesare Battisti.
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Bom, com certeza todos concordamos que a premissa básica do capitalismo é o lucro e o consumo desenfreado, e esses são os principais motivos de as conferências pró-meio-ambiente como a Rio+20 serem cada vez mais necessárias. Porém, as tentativas de instauração de qualquer modelo diferente capitalismo já se mostraram falhas por inúmeros fatores, e é impossível considerarmos uma solução imediata para os problemas sociais e ambientais que não tenham um âmbito econômico. É muito bonito, e até louvável culpar o sistema econômico de todos os problemas, contudo, devemos ter os pés no chão para considerar que, para mudarmos alguma coisa, precisamos nos colocar no presente e realizar ações convergentes com a nossa situação cotidiana.Quando me refiro ao cotidiano, falo que nossa mentalidade consumista tem que mudar. E posso garantir que a “economia verde” de Pavan Sukdev põe isso em primeiro lugar, pois entrevistei o próprio há alguns dias atrás na Conferência Ethos, onde ele foi o principal palestrante para uma platéia que reuniu o alto empresariado brasileiro.
Para ele, a mudança está nas nossas mãos. Uma mudança nas mentalidades corporativas aliadas ao consumo sustentável, redução das pegadas ecológicas e a criação de novos índices de crescimento (abolir o PIB) são as palavra-chave para o sucesso da Rio+20. É claro que nenhum governo vê isso com bons olhos, pois muitos céticos do mercado ainda tem uma visão bem antiquada em relação a isso, fato que precisa ser mudado rápido. Pavan ressaltou que os governos de hoje, devido a globalização, são quase que obsoletos se comparados ao poder de ação das empresas. Como ele disse, os governo não farão nada que as corporações não queiram. E quem dá dinheiro e trabalho às corporações? Nós. Cabe a nós saber o que acontece, por que acontece, e como acontece para mudar algo. E é nessa hora que os jornalistas tem papel fundamental de educação da sociedade, papel reforçado pela presença de blogs como esse e as redes sociais.