“A velha mídia treme com a popularização da internet”

Reproduzo a seguir uma entrevista que concedi ao estudante de jornalismo Thiago Nascimento, sobre o tema da convergência de mídias. Costumo reproduzir, neste espaço, algumas entrevistas que concedo, com o objetivo de organizar e transmitir aos leitores do Jornalismo B algumas ideias que norteiam essa trabalho ou que foram construídas a partir dele.

Thiago Nascimento – Qual a sua opinião sobre o jornalista multimídia?
Alexandre Haubrich – O jornalista é um universalista por definição. Deve saber pensar o mundo em sua totalidade, relacionando os diversos temas em busca de uma verdade comum a eles. Da mesma forma, o jornalista não pode se limitar à experenciação do uso de um tipo de mídia. Todas as mídias possuem vantagens e desvantagens, e devemos aprender a utilizar as potencialidades de cada uma. O objetivo, porém, precisa sempre ser direcionado à desnaturalização do que foi reificado e ao descobrimento da realidade alienada.

Com todas essas convergências de mídias, elas acabam ajudando ou atrapalhando o seu trabalho no dia a dia? Por quê?
Ajudam, pois se abrem novos espaços e novas possibilidades de construção discursiva da luta pela transformação social.

Trabalhando com mídia independente, quais as convergências de mídia que você mais faz no seu dia a dia?
No blog utilizamos diretamente vídeos, áudios, textos e fotos. Mas, considerando o trabalho jornalístico como um aprendizado social constante e como a tradução dessa realidade apreendida e aprendida, todas as ações midiáticas – do muro à internet – precisam ser constantemente absorvidas, criticas e levadas em conta na construção discursiva final.

Com tantos meios de comunicação, qual a importância de passar uma informação repetida de uma forma diferente em outras mídias?
Não há informação repetida. Todos os fatos são vistos por infinitos ângulos, e cada novo ângulo traz uma nova informação. A mudança na mídia utilizada amplifica essa transformação da informação, e, quanto “mais diferente” for a informação que passarmos, em comparação com o tipo de informação veiculado na velha mídia (pensando o termo “velha” em termos políticos, não apenas em termos tecnológicos) mais relevante socialmente será essa informação.

Você prefere hoje, com todas as facilidades que essas mídias novas proporcionam, ou antigamente quando não tínhamos tantas convergências?
Quanto mais mídias, mais atores podem participar da construção comunicativa. Mas é importante destacar que, mesmo com a ampliação dos tipos de mídia, continua absolutamente impreterível a redistribuição das velhas mídias (agora sim no sentido puramente tecnológico) em direção à uma propriedade social / coletiva.

Estamos vivendo em uma era onde aparecem mais e mais mídias, e a tendência é somente aumentar. Até onde há o interesse em utilizar as novas tecnologias a serviço da sociedades?
O crescimento dos formatos de mídia não muda os interesses envolvidos na produção comunicativa. Ao lado das elites econômicas seguirão trabalhando os que antes já trabalhavam ao seu lado. Ao lado do povo, idem. O que muda é que, com a tendência à popularização da internet – e das novas tecnologias, de modo geral – se ampliam as vozes, e precisamos disputá-las para que atuem conosco ao lado das lutas populares. É preciso ter cuidado com o uso da expressão “a serviço da sociedade”. A serviço de que sociedade? Não é possível estar a serviço, ao mesmo tempo, da totalidade da população. Ou se está ao lado do povo ou se está contra ele.

Hoje eu não sou somente receptor, mas também emissor, e tenho essa capacidade de buscar informações muito além do que um jornal ou a televisão, além de que, muitas vezes, eu posso chegar a informação muito antes das grandes mídias. Há um controle sobre esse assunto ou uma preocupação sobre isso nos jornais?
Claro que sim. A velha mídia treme com a popularização da internet e com a melhoria das informações que partem dali. Seu monopólio da voz e da realidade tende a ruir, mas, pra que essa possibilidade se consume, precisamos atuar com inteligência nesses meios. As condições estão aí, expostas e claras, mas é a ação conjunta entre diversos atores sociais interessados nessa mudança que vai ser decisiva para essa transformação.

Siga www.twitter.com/jornalismob e www.twitter.com/alexhaubrich

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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8 respostas para “A velha mídia treme com a popularização da internet”

  1. ad disse:

    http://www.blogdadilma.blog.br/tecnologia/115-redes-sociais/1429-twitaco-marca-1-ano-do-assassinato-do-blogueiro-edinaldofilgueira.html

    Nesta sexta-feira, 15, diversas atividades marcam um ano do assassinato do 3º blogueiro e ativista social em todo o mundo (antes de #EdinaldoFilgueira foram mortos por seu ativismo o iraniano Omid Reza Mir Sayafi e o Bahraini Zakariya Rashid Hassan al-Ashiri).

    A Deputada Federal Fátima Bezerra (PT-RN) apresentará projeto de lei idealizado no III Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, haverá passeata e missa em sua cidade Natal, além de um twitaço com a hashtag #EdinaldoFilgueira. Edinaldo Filgueira foi um lutador social, filho de agricultores que nem sobrenome possuíam. Foi militante no movimento estudantil, cultural, adquiriu formação superior, jornalista, blogueiro, presidente do PT em sua cidade, e é um mártir na luta pela democratização das comunicações.

    “Despite legislative progressive and some success in combating impunity, Brazil can still be dangerous for journalists, especially in the north and northeast. As in other countries, organized crime continues to be the main direct source of threats. Handicapped by conflicts of interest, Brazil’s media are also increasingly exposed to political and judicial harassment, while Internet journalists are often subject to preventive censorship.[1]

    Em tradução livre, o texto acima transcrito, contido no sitio da organização internacional Reporters Without Borders, diz o seguinte: “A despeito do progresso legislativo e algum sucesso no combate à impunidade, o Brasil pode, ainda, ser perigoso para jornalistas, especialmente no norte e nordeste. Tal qual em outros países, o crime organizado continua a ser a principal fonte direta de ameaças. Aleijados por conflitos de interesses, a mídia brasileira está também, cada vez mais, exposta a assédio político e judicial, enquanto jornalistas na Internet são frequentemente submetidos à censura preventiva”.

    [1] http://en.rsf.org/report-brazil,169.html

  2. ocarancho disse:

    Lúcidas e abrangentes respostas ao entrevistador. Há vida inteligente sob as nuvens. Parabéns.

  3. Paula Drummond disse:

    É importante aprendermos a lidar com a cibercultura, ela significa a relação de trocas entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias. Concordo com o que você respondeu na seguinte pergunta: “Com tantos meios de comunicação, qual a importância de passar uma informação repetida de uma forma diferente em outras mídias?”. Pois realmente não há informação repetida. O jornalismo, mesmo o informativo, nunca é imparcial, e dessa maneira torna-se impossível uma notícia ser veiculada da mesma maneira por duas pessoas. De acordo com Pierre Lévy, a cibercultura é universal porque promove a interconexão generalizada, mas comporta a diversidade de sentidos, dissolvendo a totalidade, que se relaciona com o que você respondeu, uma vez que todos estão conectados ao mesmo tempo, tendo acesso à mesma informação, porém a informação nunca é passada da mesma forma.

  4. stephanie farese disse:

    Concordando com o jornalista Alexandre Haubrich, as diferentes mídias nos ajudam a novas possibilidades de comunicação, assim como na semiótica os signos nos trazem uma forma diferente de transmitir a mensagem, afinal é através da linguagem que permitimos a comunicação entre os homens. O que deve-se levar em conta também é que nas estruturas midiaticas estão presentes assuntos e fatos que nada acrescentam ao nosso dia a dia, os chamados “fait divers.

  5. Ariel Nativio disse:

    A grande ameaça a grande mídia é justamente a cybercultura, que é o sitema “todos para todos”. Além disso, tudo se pode e tudo se tem na internet. A conectividade esta generalizada com a cybercultura, todos tem acesso a informação a qualquer hora, e é esse o grande medo da grande mídia

  6. Clésio Oliveira disse:

    Belas colocações! Pra mim tudo se dá pelo modo arcaico que a televisão trata a comunicação, na maioria das vezes. Algo quase que como na época que se considerava a teoria funcionalista capaz de mensurar a cabeça do telespectador. Eles simplesmente não se importam que quem está do outro lado assistindo fornece um feedback (que mais tarde foi comprovado pelas teorias da comunicação) e que está opinião pode influenciar em todo o processo.
    Por isso, o acessível ambiente virtual vem crescendo. A cybercultura está cada vez mais difundida na sociedade atual, porque ela abre espaço para o internauta mostrar sua satisfação ou insatisfação, em forma de resposta, comentário, exclusão, etc. E não como na televisão que ele está passivo a tudo que lhe for oferecido.

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