Mobilização nasce na internet e tira garoto Paulo Sérgio da inexistência social

A mobilização que nasceu nos últimos dias em torno de um garoto preso desde o fim de março e violentado psicologicamente por uma “repórter” do programa Brasil Urgente Bahia, começa a dar resultado. A Defensoria Pública da Bahia se mobilizou para apurar a situação de Paulo Sérgio Silva Sousa, de 18 anos. Ao mesmo tempo, o Ministério Público Federal entrou com uma representação contra Mirella Cunha, a repórter-torturadora.

“Eu me senti humilhado, porque ela ficou rindo de mim o tempo todo. Eu chorei porque sabia que ali, eu iria pagar por algo que não fiz, e que minha mãe, meus parentes e amigos iriam me ver na TV como estuprador, e eu sou inocente”, foi o que disse o garoto à Defensoria Pública da Bahia.

Não fosse a internet e Paulo Sérgio seria “só mais um Silva que a estrela não brilha”, como diz a música. Seria mais um dos que mofam nas prisões brasileiras sem julgamento formal, na situação de condenados sociais. Mas, no início da semana, o vídeo em que a enviada da Band humilha o garoto – vídeo que já estava no YouTube desde o dia dez de maio – ganhou destaque com a divulgação da história em alguns blogs – o Jornalismo B esteve entre os primeiros a atacar a conduta da “repórter” e da Band.

A partir daí, o caso ganhou grande espaço nas plataformas de redes sociais e nos blogs. Jornalistas baianos se mobilizaram e produziram uma bela Carta Aberta “sobre abusos de programas policialescos na Bahia”. A Carta questiona a “conivência do Estado com repórteres antiéticos, que têm livre acesso a delegacias para violentar os direitos individuais dos presos, quando não transmitem (com truculência e sensacionalismo) as ações policiais em bairros populares da região metropolitana de Salvador”.

Diz ainda, em um bem construído e preciso texto: “Sob a custódia do Estado, acusados de crimes são jogados à sanha de jornalistas ou pseudojornalistas de microfone à mão, em escandalosa parceria com agentes policiais, que permitem interrogatórios ilegais e autoritários, como o de que foi vítima o acusado de estupro Paulo Sérgio, escarnecido por não saber o que é um exame de próstata, o que deveria envergonhar mais profundamente o Estado e a própria mídia, as peças essenciais para a educação do povo brasileiro”.

As repercussões chegaram, por fim, às instituições do Estado. Segundo matéria do iG Bahia, “o delegado-geral da Polícia Civil baiana, Hélio Jorge Paixão (…) vai apurar se houve descumprimento pela 12ª Delegacia Territorial (Itapuã) de portaria que regula a divulgação de ações policiais. (…) Tal portaria assegura o direito à inviolabilidade e a presunção de inocência, e que informações à imprensa devem ser fornecidas pela assessoria de comunicação, pelo diretor do órgão ou por quem esta à frente do inquérito”.

A Defensoria Pública da Bahia também se manifestou. Enviou representantes para conversarem com Paulo Sérgio. E, em matéria publicada no site da Defensoria, explica: “Paulo Sérgio é réu primário, vive nas ruas desde criança, apesar de ter residência em Cajazeiras 11. Tem seis irmãos, é analfabeto e já vendeu doces e balas dentro de ônibus”. O defensor público Rodrigo Assis, foi além: “não é possível conceber a devida justiça neste caso sem uma ação por danos morais. As imagens confirmam o abuso no exercício da informação e da manifestação do pensamento da repórter”, disse. E a matéria completa, referindo-se ao trabalho da “repórter” da Band: de acordo com a defensora pública, a reportagem utilizou a imagem do acusado para humilhá-lo, achincalhá-lo, expô-lo ao ridículo, apenas com o intuito de utilizá-lo em uma tentativa de angariar audiência, de forma sensacionalista, às custas da violação da sua dignidade”.

É importante destacar, em meio a todo o debate que esse caso gerou, que não é uma situação isolada. Em nenhum sentido. Brasileiros pobres, ignorantes e desdentados, abandonados durante toda a vida pelo Estado, são diariamente tratados por este como causa – e não consequência – da exclusão. São tratados como inapropriados e indesejados, quando, na verdade, quem é inapropriado a eles é o Estado, que age violentamente em parceria com a mídia dominante. Mídia essa afirmada por um modelo de comunicação que o Estado brasileiro em pouco ou nada tem agido para modificar. Nesse círculo vicioso, quem acaba destruído é Paulo Sérgio, enquanto quem deveria ter esse destino é o modelo da exclusão. Não é a culpa ou inocência de Paulo Sérgio que está aqui em questão, mas o simbolismo da atitude da “repórter” como exposição caricata do tipo de jornalismo gerado pelo modelo midiático aristocrático que o Estado brasileiro segue aceitando como natural.

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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18 respostas para Mobilização nasce na internet e tira garoto Paulo Sérgio da inexistência social

  1. cleovaneselbach disse:

    Isso lembra o discurso da velha mídia de liberdade de expressão, defesa da sociedade, responsabilidade social. E então, porque a mídia, as emissoras de TV, não ajudam essas pessoas? Não são elas que exultam a responsabilidade social? Seria isso a liberdade de expressão? A defesa da sociedade? A função social da imprensa?
    Não é essa imprensa que ao atacar os governantes utiliza o discurso de atender ao interesse social? Que critica o executivo, legislativo e judiciário?
    Porque agora não tem reportagens especiais mostrando a história deste jornalismo? Os infográficos? As simulações? Entrevistas? Enquetes? Comentaristas? Colunistas? Porque a grande mídia não está focada neste fato? Corporativismo? Não foi justamente assim que falaram do judiciário? Que havia corporativismo? E agora, que uma jornalista é o centro das atenções na mídia independente, e simplesmente não aparece na velha mídia? A grande mídia não dizia que era democrática? Porque o jovem não está sendo entrevistado na bancada dos grandes telejornais?Esse é o projeto de democracia da televisão brasileira?
    Parabéns ao blog. Parabéns aos jornalistas independentes.

    • que bom pra mim que que recebi esse ” post” .. uma especie de esperança baila por dentro de mim..Esperança esta p/aquém e alem do mero desejo e da rude realidade e ha tanto tempo ausente.do meu entorno…acho que estou feliz e cumprimento a todos que se envolveram no caso trazendo-o a publico demonstrando que,sim,ainda ha cidadaos cujos v alores basicos nao se perderam

    • Alan Pires Ferreira disse:

      Nojo desses jornalistas que se auto-proclamam policiais, pregadores, juizes e carrascos com a complacência de delegados corruptos sedentos por um minuto de fama! Jornalismo sempre foi uma palavra mais branda para prostituição, mas de uns tempos para cá virou também de canalhice.

  2. Ney disse:

    Infelizmente, parece, SOMENTE a reporter vai pagar pelo erro da Empresa de Comunicação que mantém um programa que explora com sensacionalismo a miséria humana e a violência. Sem dúvida, ela deve ser responsabilizada, porém, os DIRETORES e PRODUTORES do programa auto-intitulado “jornalístico” e os PROPRIETÁRIOS DA EMPRESA sairão livres e impunes? Ela não estava cumprindo o roteiro de humilhação que interessa à Emissora que, por isso, mantém o programa?

  3. Rafael Orsi disse:

    Mas ele é ou não é inocente?

    • igor disse:

      Isso só o fim do processo penal com direito à ampla defesa, contraditório e defesa técnica realizada por advogado poderá te responder.

      • Leonardo disse:

        Inocente ele não é, visto que admitiu que estava roubando um relógio e uma corrente. Chega de ter pena de bandido.

    • Professora Nina disse:

      Ele é ladrão… e com certeza HUMILHOU as vítimas dos seus crimes. Não faz o menor sentido colocar ele agora como heroi. Acho correto condenar a mulher pelo seu mau jornalismo mas dai a enaltecer um LADRÃO tem uma distancia abismal. As pessoas evidentemente perderam o senso crítico, mesmo as que acreditam ser “progressistas”. Agem em bando e poucas param para refletir.

  4. Pingback: Mobilização nasce na internet e tira garoto Paulo … – Jornalismo B « jornalmovel

  5. Parabéns pelo blogue, Alexandre. Excelente tua cobertura do caso.

  6. Raquel disse:

    E a produção? E os editores? A emissora? Esses não vão pagar também? Ela não sozinha, não quero defendê-la mas dentro da emissora ela é sim a parte mais fraca nesse circo todo. Não peguemos somento ela pra cristo. E o Datena? Wagner Montes? Apresentadores super famosos que fazem o mesmo tipo de jornalismo esatológico, sensacionalista e desumano. Por favor, pensemos com mais clareza.

  7. Franco Adailton disse:

    Todos envolvidos na cadeia de produção do programa devem pagar. Se Paulo Sérgio é inocente ou não, o inquérito policial, embora muitas vezes não confiável, irá dizer. Apesar da capacidade que o ser humano tem de mentir, o choro do rapaz, temeroso por ser mandando ao presídio com a pecha de estuprador, é carregado de significados. Nesse pouco tempo de profissão, percebo que estupradores, os poucos que tive o desprazer de entrar em contato, demonstram frieza em suas declarações. Posso estar engando, mas Paulo Sérgio implorou pela sua integridade.

  8. Chico Souza disse:

    A velha história do pão e circo.

  9. Jamile Menezes disse:

    Para discutir o real sentido da liberdade de imprensa frente aos excessos cometidos por certos veículos de comunicação, profissionais e entidades de defesa dos direitos humanos realizam nesta quarta-feira, dia 30 de maio, às 9h, o debate “Liberdade de imprensa, sim. Violação de Direitos Humanos, não”. A atividade será realizada na sede da Associação Baiana de Imprensa, na Rua Guedes de Brito, n. 01, Edf. Ranulfo Oliveira, Praça da Sé – Centro.
    #SensacionalismoForadoAr- Recentemente, uma mobilização ganhou as redes sociais, recebendo a adesão de jornalistas e entidades nacionais: o caso Mirella Cunha. Em uma matéria para o Programa Bahia Urgente, da Band Bahia, a repórter comete inúmeros atentados aos direitos de um jovem preso, acusado de roubo e estupro. Em sua abordagem ao suposto criminoso, Mirella Cunha revela preconceitos, julgamento prévia, incitação à violência e deboche diante de um fato grave.

  10. cleovaneselbach disse:

    A emissora tem responsabilidade nisso. É quem mais se beneficia com a audiência desses programas. Isso lembra o episódio do Rafinha Bastos, quando a Band puniu o humorista, mas esqueceu o quanto o utilizou e o proveito que tirou do mesmo.
    Isso também serve de lição para os jornalistas, para não se deixarem seduzir pelos patrões. Eles prometem mundos e fundos para que o profissional se desvirtue e esqueça a ética. Depois o abandonam a própria sorte.

  11. Cellene disse:

    Esse tipo de programa sensacionalista reina aqui na Bahia no horario de 12 as 14:30 em praticamente todas as emissoras, não aguentamos mais, todo dia invento coisas em casa pra não deixar minha avó ver assistir isso. E eles ainda tem o apoio da policia, outro dia por pura pressao do apresentador um preso por porte de maconha, chegou na delegacia e deram tantos crimes que ate o acusado protestou, fora que o “reporter” nessa avacalhação deixou o acusado nervoso, e ao responder com grosseria ainda levou um tapa do policial, tudo isso ao vivo depois com a maior cara de pau ainda disse que ninguem tinha batido no acusado! não to aqui defendendo os criminosos mas axo que tudo tem limite, ainda tem o sensacionalismo no momento em que mães encontram os corpos de seus filhos sem vida no chao vitimas da violencia aqui instalada, sempre condenei e condeno mesmo esses propgramas e digo mais, se fosse com um familiar meu, mesmo ele estando errado processaria a emissora afinal ninguem iria querer ver a morte de seu filho como motivo de audiencia num programa que nao traz nao de bom e cultural para a população quero so ver se o MP não va dar um jeito nisso!

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