Zero Hora manda “presente” às Universidades do Rio Grande do Sul

O artigo a seguir é uma colaboração especial de Bibiano Girard*

A visita para fins de uma palestra a ser dada aos acadêmicos do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Santa Maria causou certo impacto. A Zero Hora, o jornal regional mais criticado e debatido em sala de aula por alunos e docentes do curso de Jornalismo (pelo menos enquanto estive, e permaneço, em sala de aula), em comemoração aos seus 48 anos dará de presente ao curso uma palestra de ninguém menos que Humberto Trezzi.

Ao entrar em contato com a notícia, alguns acadêmicos, entre eles me incluo, ficaram (ficamos) assustados com o tamanho do presente. Em tamanho, ideologicamente o mimo da ZH é proporcional ao presente dos gregos aos troianos. Humberto Trezzi é jornalista e trabalha com obstinação ao defender o interesse de seus comparsas de ideologia: alistar-se contra os mais pobres e tentar ridicularizar os movimentos sociais com unhas e dentes. A Farsul, as empresas de celulose, os latifundiários e os monopólios empresariais que procuram em Zero Hora seus serviços de disseminação de mentiras, verdades distorcidas para privilegiarem entes da burguesia gaúcha e nacional, e repúdio aos movimentos populares, principalmente o MST, têm em Trezzi seu principal aliado.

Por isso o susto. Depois do susto, foi a vez de ouvirmos e lermos o discurso de alguns presenteados, mesmo que sem intenções visíveis favoráveis ao Cavalo de Troia. A onda do cidadão democrático e o discurso de que é necessário ouvir os dois lados da moeda. Mas a questão que fica é: se convidarmos o Diabo para uma conversa podemos esperar palavras doces a favor de Jesus?

Não comparo o repórter a nenhuma figura religiosa, longe disso, apenas uso da metáfora para deixar claro que o lado de Trezzi e seu discurso já estão há muito tempo muito bem escolhidos e mostrados. É infeliz acreditar na frase “vamos ouvir os dois lados”, como se ainda não soubéssemos a que e a quem ele serve. O lado dele é o lado da burguesia, e não do estudante universitário ou da população em geral. Trezzi é o medalhão de xingamentos contra reportagens de ZH. Ele não se cansa de trabalhar pela difusão do preconceito e do medo através de manchetes vulgares e textos tendenciosos que caem no cesto do burlesco e do dispensável ao povo.

O jornal Zero Hora tem sido apontado nos últimos anos, através da campanha popular e jovem pela abertura dos documentos da ditadura, como um dos periódicos dos quais os governos militares recebiam apoio. Aqui mesmo no Jornalismo B podemos encontrar textos que trazem à tona o posicionamento da ZH à favor da ditadura brasileira. Não apenas enquanto ela esteve viva (matando), mas também através de manchetes atuais difundidas, como “A escola dos presidentes faz cem anos de história”. A escola em festa era nada menos que o Colégio Militar de Porto Alegre, passagem de Castelo Branco, Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo. Bom, acho desnecessário apontar o jornalista responsável pela matéria comemorativa. Mas continuemos a ouvir seu lado.

Na bicicletada que ocorreu no final do ano passado na capital gaúcha em protesto que pedia respeito aos usuários de bicicleta e por mais espaço às pedaladas nas ruas da cidade, Zero Hora enviou Trezzi “ao campo de batalha”, como o texto do repórter parece querer desenhar. O início do texto chama a marcha de “caótica, anárquica e de rebelde manifestação”. Trezzi ainda deixa claro: “os ciclistas bloquearam a rua indiferentes aos buzinaços dos carros e ônibus”. Trezzi acredita no pedido cordial do oprimido para que o opressor pare de bater. O repórter ironiza durante todo o percurso seus participantes, e ainda escreve: “nem para entrarem em acordo com a polícia”. Um jornalista do futuro, contrário à rebeldia e ao lado da polícia.

Mas o caso mais exemplar de nosso presente da semana que vem fica pelo seu aferro a revirar latas de lixo atrás daquilo que chamou de “grande reportagem investigativa”. Sua caça era nada mais nada menos que os cadernos do MST jogados em latas de lixo que Trezzi depois estampou no jornal. A motivação do repórter investigativo era achar dados que chamou “de extrema importância sigilosa” (dados sigilosos jogados em latas de lixo de estacionamentos?) contra os 51 dissidentes do MST que deixaram o movimento por serem contrários à aproximação do movimento ao PT. Trezzi ficou com medo e achou melhor avisar o leitor do jornal antecipadamente escrevendo uma chamada um pouco absurda: “Racha do MST ameaça criar grupo radical”. E mais: “uma nova organização que pode se tornar o embrião de uma célula voltada para ações extremas”. A Zero e sua altivez.

Com três rápidos exemplos do que já foi feito pelo nosso futuro palestrante, resta agora receber o presente, acreditar na solidariedade da Zero Hora em enviar um mimo tão bom para dentro do nosso espaço público, deixar o tempo passar e ver o que acontece. A universidade não pode se afastar da realidade, não é mesmo?

Irônico.

* Bibiano é estudante de jornalismo da UFSM e redator da Revista O Viés.

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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2 respostas para Zero Hora manda “presente” às Universidades do Rio Grande do Sul

  1. Muito bom texto, meu amigo! Que bom se os nossos jornalistas tivessem meio por cento da lucidez que tu tens.

    Um abraço
    Demetrio

  2. Mariney disse:

    Nossa, nunca li tanta bobagem num só texto. O cara acha que é o dono da verdade, e ainda há quem acha que é lúcido… Joker!

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