Charge: a greve da PM da Bahia e a volta do discurso de 1964

9 fev

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4 Respostas para “Charge: a greve da PM da Bahia e a volta do discurso de 1964”

  1. Osmar ADM 11 fevereiro 2012 às 12:13 am #

    Com todo respeito, a comparação é ridicula: ja sabe-se que a revolta da marujada foi insuflada pela extrema direita (vide Cabo Anselmo) e na Bahia é contra uma corporação que serviu e servia-se do Carlismo ACM e é das mais violentas e impopulares do Pais.
    O que elas tem em comum? Ambas as situações são contra governos de Esquerda legitimamente eleitos.
    Todo apoio ao Wagner e contra o protofascismo carlista que não morre!

    • André de Paiva Toledo 13 fevereiro 2012 às 9:28 am #

      Concordo com você, Osmar ADM. Escrevi um texto sobre isso no meu blogue e, aqui em Minas Gerais, foi rotulado de lunático e irreal. Acho que o seu ponto de vista combina com o meu. Se tiver curiosidade, dê uma lida: http://arespublica.wordpress.com/2012/02/07/oligarquia-baiana-desafia-pacto-federativo/
      Abraços a todos que acompanham este excelente espaço.

      • Rafael Balbueno 2 março 2012 às 1:06 am #

        Caros leitores do Jornalismo B, preciso sinceramente dizer que ambos estão absurdamente equivocados. Irei por pontos, para que fique claro.

        O primeiro e grande equívoco de vocês é um equívoco histórico, e isso se dá ao afirmar que a greve dos marujos de 1964 foi uma greve promovida pela extrema direita brasileira. Apesar de sabermos hoje todo o processo desencadeado pelo Cabo Anselmo alguns anos após a greve, atuando como agente duplo do Dops e entregando, inclusive, sua companheira grávida, resisto em acreditar que Carlos Marighela tenha sido tão facilmente ludibriado pela extrema direita brasileira. Sim, ele mesmo, Carlos Marighela, um homem que não queria fazer pouca oposição ao regime, um homem que, mesmo quando as perseguições obrigaram-no a viver escondido, manteve-se na vanguarda de um dos maiores movimentos de resistência daquele obscuro período. Carlos Marighela, que escreveu junto com Cabo Anselmo, na tarde do dia 25 de março de 1964, o discurso que mais tarde Anselmo apresentaria aos marujos na sede do sindicato dos metalúrgicos do Rio de Janeiro e que exigia a liberdade para todos os marinheiros presos nos dias anteriores, acusados de insubordinação, além da liberdade para se organizarem na Associação dos Marinheiros, entidade considerada ilegal pelo alto comando da Marinha. Também me nego a acreditar que Jango, sim, um dos maiores políticos que esse país já teve, se não o maior, seria também ludibriado pela extrema direita que justamente queria derrubá-lo. O fato é que na ocasião, a Marinha mandou bombardear a sede dos metalúrgicos onde os grevistas resistiam. Jango ordenou que a Marinha recuasse e o pedido não foi acatado. Assim, Jango ordenou que o exército fosse até o local, com blindados, e, se necessário, bombardeasse a própria Marinha para proteger os Marujos e sua manifestação. Para entender melhor essa história, recomendo a reportagem “Nós, os marujos” de Marina Amaral, publicada na edição especial da Caros Amigos (2008) sobre o Golpe de 64. Na reportagem, Marina entrevista alguns marujos que estiveram presentes na data, que dirigiam o movimento e que reclamam até hoje, além da anistia (pois foram expulsos da Marinha e ainda não foram reparados por isso), a verdade sobre o que aconteceu. Segundo eles, a direita conseguiu sujar o movimento com maestria, centralizando na imagem de Cabo Anselmo a liderança da revolta. Eles reivindicam que tudo que foi dito por Anselmo em seu discurso já havia sido dito em outros discursos na mesma noite e que resistir era uma posição do movimento de maneira geral. Mais tarde, o traidor Anselmo se tornaria um dos maiores mitos daquele período, sendo apontado como agente da CIA com o covarde intuito de desmerecer esses bravos homens. É interessante ler algo além do que chega às massas para que não venhamos a reproduzir a história da ditadura conforme a direita quer.

        O segundo equívoco de vocês é quanto a greve “insuflada pela extrema direita”. Sim, o governo de Wagner foi legitimamente eleito (apesar de eu ter minhas críticas à falaciosa representação que nosso atual sistema eleitoral diz representar). Contudo tenho que discordar da liberdade de um governo, mesmo que eleito e de esquerda, de reprimir com violência uma manifestação grevista. Quando um governador de esquerda ordena que o exército reprima grevistas com violência, peço que, por favor, me localizem nesse novo cenário e definam o que é esquerda. O argumento de que ambos os processos grevistas foram apresentados contra governos de esquerda legitimamente eleitos, da maneira que está colocado, me parece ter a intenção de depreciar o movimento, como se em governo de esquerda não se pudesse fazer greve, como se em governo de esquerda não existissem trabalhadores com reivindicações, como se nesse governo de esquerda o diálogo existisse e fosse fascinante. Tais argumentos, que para mim são apresentados a partir de uma ótica deturpadamente partidarizada, são os mesmo que foram usados pela direita durante as greves do ABC. Segundo eles, não existiam reivindicações ali e, tampouco, o direito de reivindicar, visto que as paralisações tinham o único objetivo de desgastar politicamente os poderosos do momento. E eu pergunto, porque em um caso serve e no outro não?

        O último grande equívoco é quanto a própria charge. Aqui peço que, se por acaso vocês acompanharam uma cobertura sobre as greves que, sinceramente, eu não tive acesso, então retiro meu argumento. Mas o que está posto na charge é o que absolutamente todas as pessoas que conheço também viram: a criminalização (literal, visto que muitos foram presos) do direito de greve que todo trabalhador deve ter. Reitero aqui, mais uma vez, acreditar que a deturpação partidarizada impediu que o real sentido da charge fosse visto. Ali não estão colocadas questões sobre o objetivo das greves (se é realmente algo pontual, micro e econômico, ou algo político, que para mim se coloca na esfera macro). O que está posto ali é reincidente criminalização da greve de trabalhadores da segurança/defesa nacional. O que está posto ali é a repetição de um discurso de 47 anos atrás. Para perceber isso, basta a boa vontade de acessar os arquivos da Folha, por exemplo, e ver o que foi dito sobre a revolta dos marujos. Na sequência, é só procurar no Google qualquer reportagem sobre as greves dos bombeiros do Rio e dos PM’s da Bahia. O discurso é o mesmo, o da criminalização dos grevistas, de jogar eles contra os trabalhadores, de conceituar eles como baderneiros, responsáveis por todos os problemas que uma greve pode gerar (e deve, na minha opinião). É isso, exclusivamente isso, que está na charge.

        Para finalizar, gostaria de dizer que todos esses argumentos não se caracterizam como uma dificuldade de receber críticas, pelo contrário, já recebi muitas e absorvi da melhor maneira. Contudo as críticas aqui colocadas, para mim, careciam de um contra argumento. Meu trabalho com charges ainda é muito incipiente, estou começando, mas já sei que meu desejo é trabalhar com isso. Por isso mesmo, me esforço e levo com muita seriedade tudo que faço. Por isso mesmo visualizo toda a responsabilidade de desenhar uma charge, toda a responsabilidade de não “escrever bobagens” nela. A cada charge, faço uma grande pesquisa sobre o assunto, e só desenho quando tenho certeza de que não estou cometendo algum crime. Com essa charge o processo foi exatamente assim e, por isso, precisei vir e escrever o que se encerra aqui.

        Saudações fraternas, eu juro.

        Abraços

        Rafael

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