Yoani Sánchez: personagem e arma da guerra midiática contra Cuba

27 jan

Com a viagem da presidenta Dilma Rousseff a Cuba, programada para a próxima semana, a trupe dos jornalões brasileiros não quis perder a oportunidade de pressioná-la. Uma das mais recorrentes críticas da mídia dominante ao governo de Lula se referiu à política externa. Ao contrário de todos os governantes anteriores, o petista manteve, de modo geral, um posicionamento independente, desagradando os setores da sociedade brasileira que sempre lucraram com um país subordinado aos interesses imperialistas (nas últimas décadas isso pode ser lido como EUA, mas não apenas isso) e que buscava estrangular os mais fracos.

A guinada da América Latina como um todo em direção a políticas externas de colaboração em detrimento da competição canibal entre os países historicamente explorados incomodou as elites e, é claro, seus representantes midiáticos. A pressão – e a sutil porém real mudança ideológica – já fizeram com que Dilma assumisse postura muito mais ofensiva do que Lula em relação ao Irã. Agora, estratégia de mídia semelhante é usada para afastar a presidenta do governo cubano. E uma peça vem sendo – e continuará a ser – fundamental nesse jogo: Yoani Sánchez.

A blogueira cubana é, há anos, estrela internacional da luta imperialista contra a Revolução Cubana. Multivencedora de premiações promovidas por jornais e organizações internacionais afinadas com o neoliberalismo, Yoani costuma reclamar muito do que chama de “falta de liberdade de expressão” em Cuba, mas mantém seu blog no ar sem problemas, assim como sua conta na rede social Twitter. Da mesma forma, costuma dar muitas entrevistas, por telefone, email, ou mesmo pessoalmente. Mesmo assim, se diz perseguida. O Generacion Y, blog mantido pela cubana, é traduzido em 18 idiomas, e não se conhece outro site no mundo com esse número de traduções. As fontes dessa força não são conhecidas, assim como não são conhecidas muitas questões em torno de Yoani. As premiações, por exemplo, ajudam a sustentar sua tranquila vida em Havana. Quais interesses representam, é uma questão que a grande mídia internacional não costuma colocar nas centenas de vezes em que cita ou entrevista a blogueira.

Apenas em 2012, do qual não completamos nem o primeiro mês, os três maiores jornais brasileiros – Estadão, Folha de S. Paulo e O Globo – já fizeram cada um uma entrevista exclusiva com Yoani, além da publicação de incontáveis matérias e notas de agências. É claro que nenhuma delas questionou o financiamento do Generacion Y, a “censura” que a entrevistada alega sofrer, ou qualquer questão mais profunda ou contundente sobre a situação em Cuba. O tema dos cinco cubanos presos nos EUA, trazido novamente à tona pelo recente livro de Fernando Morais, também não foi colocado. Sobre o cerco do governo norte-americano a Cuba, novo silêncio.

Há, sim, nas três entrevistas, pressão combinada entre a entrevistada e os entrevistadores para que, em sua visita a Cuba, Dilma se encontre opositores do governo cubano, mas, curiosamente, quando um presidente brasileiro vai aos EUA não se faz pressão para que reserve espaço para audiências com a oposição do momento. Ao mesmo tempo, há gritos pelo direito de Yoani de vir ao Brasil, mas a legislação cubana para imigração não é explicada com clareza em momento algum.

Apenas o jornal Zero Hora conseguiu superar Estadão, Folha e O Globo. Em menos de um mês, duas entrevistas com Yoani, ambas por telefone. Parece que o acesso da imprensa internacional à blogueira não é tão difícil. Onde está a censura, então? Uma entrevista concedida por Yoani a um jornalista francês, em 2010, dá boas indicações sobre a resposta mais adequada. Mas é claro que essa reportagem, absolutamente crítica e que derruba por terra a credibilidade da blogueira, não foi reproduzida ou comentada na velha mídia brasileira. Não é aquela a face de Yoani que interessa aos grandes grupos midiáticos. Ao francês Salim Lamnarium, ela afirma que seu blog não pode ser acessado em Cuba, ao que ele responde que acabara de acessá-lo. Então ela se enrola um pouco, e reclama que não tem espaço nos maiores veículos de mídia do país. Quantas pessoas têm espaço nos maiores veículos de mídia do Brasil?

Yoani é uma peça interessante no tabuleiro que sedia a luta entre a Revolução Cubana e o imperialismo capitalista. Ela usa a mídia internacional para se promover e ganhar dinheiro – muito dinheiro, como indicam ao menos as premiações que recebe – ao mesmo tempo em que é usada como fonte principal de tudo o que se fala sobre Cuba, sempre com o direcionamento de ataques frontais ao governo cubano. As entrevistas a que a blogueira responde são pouco questionadoras e muito elogiosas à “sua luta por liberdade”, e, nessa dinâmica, é construída uma imagem de Cuba filtrada apenas pelos olhos suspeitos de Yoani Sánchez e por sua conta bancária recheada de dólares e euros.

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13 Respostas para “Yoani Sánchez: personagem e arma da guerra midiática contra Cuba”

  1. Polenta News 28 janeiro 2012 às 5:23 pm #

    Também produzimos um post sobre esse assunto no nosso blog:

    http://polentanews.blogspot.com/2012/01/yoani-sanchez-e-falsa-moral-da-globo.html

  2. Aloísio 28 janeiro 2012 às 5:59 pm #

    Enquanto isso, muitos cubanos vive com dificuldade, seja pelas conseguências do bloqueio, seja pela falta de recursos materiais – causados por condições históricas e geograficas, que a ilha tem.

    Ao mesmo tempo, eu queria saber como que vive, se é remunerado os blogueiros que defende Cuba, que criticam a extrema direita de Miami, que escrece em seus blogs de forma indepedente aos meios oficiais da mídia cubana. Tenho certeza que eles vivem com mais dificuldade que a oposição protegida pelo imperialismo em Cuba.

    Mas eles resolveram ficar em Cuba, a se emigrar para os EUA! Eles resolveram ficar ao lado da revolução e recusar os espaços e os doláres das organizações extrangeiras que agem como subversivas em Cuba!

    São esses que eu admiro!

    Alias, a esquerda tem que solidarizar com o povo cubano, e apesar das críticas e do erros, não tem como: quem representa o povo cubano é governo. Ou como explicar que mais da metade do orçamento do estado de 2012 vai ser destinado ao social?

    Alias a tal blogueira tem destinado parte de suas arrecadações com a oposição à esquerda do governo?

    Não, nem discurso bonitinho, vive o homem!

    Belo texto camarada!

    ABS

    Aloísio Silva

  3. luiz hamilton da silva moreira 28 janeiro 2012 às 10:33 pm #

    e claro que se os estados unidos não tivesse imposto este embargo a cuba, esta estaria prospera os seus cidadães vivendo bem, muitas montadoras de automoveis,industrias alimentícias e de roupas, de bens duráveis estariam la sem medo de embargo e o mundo todo aderindo ao socialismo. isso o imperialismo estadunidense não quer por isso o embargo tem que ser mantido.

    • Renato 30 janeiro 2012 às 6:56 pm #

      Cuba produziria tudo isso como? Que matérias primas utilizaria, o que ofereceria para o mundo, que demandas saciariam, se atualmente não consegue suprir suas próprias necessidades?

      Você pode argumentar “Hong Kong não tem matéria prima alguma, era uma ilha rochosa sem nada além do porto, e hoje em dia é próspera”, é verdade, mas como Cuba fará isso sem ser capitalista? Ou fará um mix, a lá China?

      • luiz hamilton da silva moreira 30 janeiro 2012 às 10:21 pm #

        um pais vive de vender e de comprar so que o pais que vc diz que e tao democratico não permite que outros paises façam negocios com cuba sob pena de sofrerem sançoes,e que aqui pra nois são duras.pra vc ter uma ideia cuba comprou os equipamentos de tomografia e os mesmos nao puderam entrar em cuba pois possuiam peças que eram produzidas nos eua e o mesmo nao permite que nada que eles produzem entrem em cuba.e possivel um mundo sem esse sistema maldito!

    • Josnel 30 janeiro 2012 às 7:08 pm #

      Faltou o “só que não” no final de seu comentário, especialmente após “o mundo todo aderindo ao socialismo”. Nem todos entendem ironia.

  4. Renato 30 janeiro 2012 às 6:53 pm #

    “Mas mantem seu blog no ar sem problemas”??
    Ela não pode acessar a internet de sua casa.
    O blog dela não pode ser acessado por cubanos.

    O que você diz sobre isso? Ela pratica algo que não é assegurado pelo governo: oposição.

    Quanto a ela receber dinheiro dos EUA (ou quem quer que seja), há alguma evidência? Onde? Dizer que o dinheiro de financiamento se dá através de seus prêmios é implicar que ela não é premiada porque merece, e sim porque agrada a gente poderosa. Essa é uma acusação bem grave, como pode sustentá-la sem alguma evidência pesada?

    E finalmente, a comparação com “deveriam cobrar que Dilma se encontre com a oposição dos EUA” é absurda. Os EUA, por piores que sejam, desfrutam de uma democracia madura e estabelecida, mas o mesmo não pode ser dito de Cuba. Nos EUA a posição tem voz, e ironicamente é um dos únicos países onde Democratas e Republicanos são equivalentes em poder.

    Como é a oposição de Cuba mesmo?

    A idéia de Dilma visitar a oposição de Cuba é de dar voz a quem não tem voz. Se a voz da oposição cubana está focada na Yoani, então já se está admitindo que existe um gigantesco funil, onde ela é a única gota que tem permissão de escapar e discordar.

    • luiz hamilton da silva moreira 30 janeiro 2012 às 10:07 pm #

      se os estados unidos e na verdade uma grande democracia diga- me porque o grupo wal-mart não quer que os seus funcionários se sindicalize-se e porque os estados unidos continua com esse embargo,outra coisa os estados unidos tem um acordo com cuba de anualmente conceder vinte mil novos vistos de entrada de cubanos naqule pais porque não concede?

  5. Renato 30 janeiro 2012 às 6:58 pm #

    DETALHE
    Yoani posta no blog da seguinte forma: ela envia emails com o conteúdo para amigos fora de Cuba, que então publicam para ela.

    Que país! Que democracia! Que espírito de liberdade!

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