A crítica à crítica (e aos críticos) da mídia

10 jan

Durante os meses de janeiro e fevereiro, as terças e quintas-feiras estarão reservadas para artigos inéditos de colaboradores e parceiros do Jornalismo B. O artigo a seguir é uma colaboração especial de Raphael Tsavkko*.

Recentemente o professor Gilberto Maringoni, em artigo amplamente divulgado pela blogosfera, que compõe a chamada “mídia alternativa”, lembrou aos maiores críticos da “grande mídia” que esta era em grande parte financiada pelo governo federal, através de cotas de patrocínio que, apenas para a Veja, rendia perto de 1.5 milhão de reais por semana.

Sua intenção era a de criticar os contumazes críticos da mídia que, mais ou menos alinhados com o governo federal e com o PT, gastavam horas de seus dias a enxovalhar com a mídia, seja chamando-a de PIG (Partido da Imprensa Golpista) ou, agora, de PUM (Partido Único da Mídia – com direito a trocadilho proposital).

O primeiro termo, popularizado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, soa ainda mais irônico se contarmos que este trabalha para um notório membro do… PIG! A Rede Record, do Bispo Edir Macedo.

O segundo termo vem sendo usado pelo insuspeito professor Laurindo Lalo Leal Filho e, ao menos de sua parte, há consistência no uso do termo.

Não se trata de debater a validade dos termos ou mesmo o caráter da grande mídia, mas talvez de se entender quais interesses estão por trás da crítica.

Não posso colocar em dúvida a idoneidade e honestidade do professor Lalo, mas começo a suspeitar de jornalistas alinhados à grande mídia e mesmo que recebem – por um meio ou por outro – financiamento estatal (caso, por exemplo, do sempre presente e atuante Luis Nassif, funcionário da TV Brasil) e que gastam boa parte de seu tempo e de seu espaço em seus respectivos blogs/portais para criticar veículos “inimigos” e políticos não-alinhados com o atual governo.

É sintomático o desaparecimento de certas críticas a políticos que passam para o lado governista, e é notável o tom brando empregado contra o governo quando de atuação semelhante ou mesmo mais acintosa que a do governo anterior ou mesmo totalmente diversas daquelas prometidas em campanha.

Há, por parte de um crescente contigente daqueles defensores da “mídia livre”, um alinhamento automático com o governo federal que mascara erros, que abranda problemas e que realiza uma defesa intransigente e inconsciente de todas ou da maior parte das atitudes governamentais, sem matizes ou ponderações.

Há, dentre muitos governistas que continuam a reclamar da necessidade de uma democratização das comunicações, profundo silêncio sobre o emprego de nossos impostos em revistas do Grupo Abril, mas ao mesmo tempo estes mesmos indivíduos que silenciam neste assunto, reclamam e bradam contra as compras e contratos feitos entre o governo de São Paulo (do PSDB) e a mesma editora.

Está claro que, em ambos os casos, há o que se investigar e reclamar, mesmo repudiar, mas apenas um dos casos, ou um dos lados, acaba veementemente criticado.

Fala-se muito que as redes de TV, concessões públicas, tem um lado. Alguns afirmam claramente que Globo, Band e outras apoiaram claramente o candidato derrotado tucano José Serra nas eleições passadas, mas quando são perguntados sobre o porque o governo federal não se mover para rever as regras para concessões públicas, calam-se, dão desculpas pouco críveis ou simplesmente apelam para o velho chavão da “governabilidade”.

Temo este, aliás, que é usado para explicar toda derrapada ou desastre patrocinado pelo governo federal. Se faz algo, merece aplausos, se errou, faz-se silêncio ou tira-se da cartola a palavrinha mágica que a tudo explica.

Há, dentre os vários críticos da mídia, uma falta patológica de autocrítica e um excesso de subserviência e mesmo de umbiguismo. Eu chego até a considerar um certo duplipensar.

Para mudar a mídia, é preciso constante pressão, mas o que vemos é uma timidez patológica quando o assunto vira um problema para seu próprio lado. Podemos avançar apenas até o ponto em que os interesses de um ou outro grupo – e são cada vez mais grupos – passa a ser “vítima”. Sempre, claro, que o grupo se coloca ao lado do governo.

Enquanto os críticos da mídia forem apenas isto – críticos daquilo que não gostam, do outro lado – e não críticos de todo um conjunto de instituições, indivíduos, partidos e indústria, não haverá qualquer mudança significativa no caminho da democratização das comunicações no país.

*Raphael Tsavkko Garcia é militante dos Direitos Humanos e da Rede Livre, membro do Grupo Tortura Nunca Mais, de São Paulo. Blogueiro, jornalista, formado em Relações Internacionais (PUCSP) e Mestrando em Comunicação (Cásper Líbero). Mantém oBlog do Tsavkko – The Angry Brazilian, escreve e traduz para o Global Voices Online e tem uma coluna semanal no Diário Liberdade chamada Defenderei a casa de meu pai.

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3 Respostas para “A crítica à crítica (e aos críticos) da mídia”

  1. Rodrigo 10 janeiro 2012 às 7:31 pm #

    Qual é a sua opinião sobre a Istoé e a Veja e por que?

  2. Tiago Cardoso 19 janeiro 2012 às 11:40 am #

    (1) Acho pouco consistente a afirmação de que se algum jornalista está ligado – como PHA ou Luiz Nassif – e grandes empresas de comunicação, devem ficar suspeitos e alijados do ambiente crítico a respeito da mídia (em geral).
    (2) Da mesma forma, temos que verificar que a verba da publicidade pública (ações dos órgãos do Estado, seja a Administração Direta ou por entidades como o Banco do Brasil, Petrobrás e outros) deve estar distribuída da maneira o mais equilibrada possível entre todos os órgãos que integram o espaço público de comunicação. Ou seja, levando em contao que este dinheiro não pertence a um Governo (o da situação), a um Partido, tratando-se portanto de uma verba do Estado Brasileiro, composto por grupos e opiniões (inclusive políticas) bastante heterogêneas, deve ser distribuído a todos os meios importantes que integram esse espaço, entre estes a Veja, a Folha de SP, etc.
    (3) Por fim, acho que o filtro para a avaliação dos críticos e das críticas às pautas e aos atores do espaço de comunicação social deve estar ligada, principalmente, ao conteúdo do que está sendo comunicado. Saudações.

    • Raphael Tsavkko Garcia 21 janeiro 2012 às 5:39 pm #

      1) Não é uma relação automática, mas sejamos honestos, você passa a vida batendo no “PIG”, mas não só trabalha pra ele como jamais critica seu empregador? PHA é um caso assim. Mete pau na Globo, mas quando pode elogia a Record. Se quer brigar com o “PIG” que ao menos tenha independência para fazê-lo sem achar que o seu grupo é melhor. Não é.

      2) Concordo. Lula não fez nada nessa área e nem, Dilma.Na verdade, ampliaram o número de recebedores, é fato, mas ainda estmaos anos luz do ideal ou mesmo do aceitável. Temos meia e volta periódicos alternativos passando por dificuldades enquanto a Veja continua cometendo crimes e ganhando milhões do governo – e com a militância fanática pró-governo a atacando.

      3) Também é uam forma válida.

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