Comissão da Verdade: enfim começamos

A história brasileira é marcada por avanços bem medidos, por modernizações conservadoras, por uma dinâmica de mudanças negociadas e “seguras”, em que, nos processos de transição, muito do antigo permanece no novo modelo. Foi assim na Independência e na proclamação da República, por exemplo. Assim, com mudança moderada e hegemonia das elites nos trâmites do processo, deu-se também a passagem da Ditadura Militar à chamada “nova República”, na segunda metade dos anos 1980.

 A começar pela eleição indireta de Tancredo Neves e prosseguindo com a Lei da Anistia, os militares e civis que comandaram a Ditadura brasileira deixaram os postos, reduziram seu poder, mas não foram expurgados da política nacional. Seus crimes contra cidadãos em específico – torturas, assassinatos – e contra o país – censura, eliminação dos partidos e organizações, desrespeito às regras democráticas – jamais foram punidos. Usaram o Estado para cometer terrorismo, e foram absolvidos por uma lei construída por elites.

Com a chegada à presidência, neste ano, de Dilma Rousseff, uma ex guerrilheira que lutou contra a Ditadura, esperava-se que a pauta da mudança de postura do Estado com relação àqueles tempos avançasse. A revisão da Lei da Anistia e a criação de uma Comissão da Verdade que investigasse os crimes de Estado cometidos naquelas duas décadas seriam o caminho óbvio.

O que aconteceu foi que, com forte pressão de todos os grupos político-econômicos que sustentaram a Ditadura e se sustentaram dela, a Lei da Anistia prossegue intocável e acaba de ser aprovada a criação de uma Comissão da Verdade manca, remendada inclusive por partidos como o DEM, um dos herdeiros do partido da Ditadura, a Arena. Com os diversos entraves colocados à atuação da futura Comissão, os avanços serão, novamente, lentos, graduais e controlados, mantendo muito do passado de silêncio sobre o assunto. Um avanço, sem dúvida. O maior passo que já se deu nesse caminho. Mas precisamos de passos maiores e mais ágeis.

O texto acima é o editorial da 28ª edição do Jornalismo B Impresso, que começa a ser distribuída em Porto Alegre na próxima semana. Os locais de distribuição continuam os mesmos, e estão sendo divulgados pelo Twitter do Jornalismo B.

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Sobre Alexandre Haubrich

Jornalista, estudante de Ciências Sociais na UFRGS
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Uma resposta para Comissão da Verdade: enfim começamos

  1. anolipi disse:

    O mais esperado é que tal comissão da verdade revele ao mundo um dos dramas mais terríveis que milhares de pessoas tiveram que passar. Esses tinham carreiras promissoras, como de engenheiro, mas foram obrigados sob mira de metralhadora, já que um bando de medrosos abandonaram os alunos sem aulas, assumir cargo de docente em universidade pública ganhando um salário de fome e até sendo obrigado fazer relatório delatando amigos e estudantes.

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