Texto publicado originalmente no Canal VMTV
O espetáculo é a constante mais óbvia no jornalismo da sociedade pós-moderna. A novelização da realidade, a transformação dos dramas sociais em circo contemporâneo, o sensacionalismo sutil – ou nem tanto – estão em todos os grandes veículos de mídia, travestidos de jornalismo sério. “O jornalismo deve defender o interesse público” é frase muito conhecida e pouco aplicada. Quando o que importa é o lucro, o interesse do público, ou seja, a audiência, é buscada a qualquer preço. É a venda pela venda, não importa se o produto é ruim, o que importa é que engane o comprador.
É nesse caminho que não pode caminhar a cobertura da Copa do Mundo de 2014, cobertura essa que já começou desde o anúncio do Brasil como sede, em 2007. O que temos visto é a divisão esquizofrênica, às vezes dentro do mesmo veículo, entre o show e o caos. A Copa vista puramente como espetáculo está ao lado de tentativas de uso político dos problemas que sua organização vem enfrentando (ou causando).
Deve ser exaltada, sim, a possibilidade de realização no Brasil de um grande evento como a Copa do Mundo. Ignorar isso é não se importar com a cultura popular, com o simbolismo e a carga tradicional que tem o futebol para o povo brasileiro. Tratar o futebol como pura alienação é subestimar a inteligência do povo. E a Copa do Mundo aqui é a grande coroação do que o brasileiro tem de melhor, e está, muitas vezes, exposto gloriosamente no futebol: a criatividade, a inteligência instintiva, a habilidade artística. É claro que, na sociedade espetacularizada pelo jornalismo e pela publicidade, o futebol profissional está longe de ser apenas isso – pelo contrário, restou muito pouco dessa magia popular. Porém, a essência do esporte mais adorado do mundo não é a marca da chuteira, o patrocinador na camisa nem a política suja dos dirigentes e das emissoras de TV. Desmerecer o futebol como arte e cultura popular é uma visão elitista e preconceituosa.
Por outro lado, tudo isso no que o esporte profissional se transformou há de ser considerado nas coberturas jornalísticas do pré-Copa. O grande negócio que é hoje a Copa do Mundo precisa estar em debate, e a vinda desse evento ao Brasil é uma boa oportunidade para que a imprensa nacional levante e aprofunde esse tipo de discussão, de fundamental interesse público, já que distorce e apaga o brilho de uma arte em parte adotada, em parte criada pelo povo. O capitalismo apropriou-se do futebol, mas isso não é exclusividade desse esporte, e essa discussão não é feita na grande mídia por razões óbvias.
O ramo da construção civil é uma grande máquina de fazer dinheiro, e muito cimento vai ter que rolar para que a Copa seja minimamente viabilizada por aqui. Reformas nas vias urbanas, nos aeroportos, novos estádios, centros de treinamento, etc etc etc. No caminho obscuro dessas construções cada vez mais apressadas – e, assim, menos fiscalizadas – muita gente sai ganhando. É dinheiro público indo parar nas mãos de particulares através de muitas obras que servirão apenas durante um mês – o exemplo do que aconteceu com boa parte das instalações do Pan Americano do Rio de Janeiro é gritante.
Dentre as funções da mídia no pré-Copa estão, portanto, fazer o debate sobre os rumos da profissionalização do esporte e fiscalizar atentamente para onde vai todo o dinheiro público que circula em um evento como esse. O primeiro item, porém, não é cumprido. E o segundo tem sido muitas vezes – e será tantas outras – distorcido para uso político. O ataque ao Estado é uma constante no discurso neoliberal do qual a velha mídia brasileira é a transmissora. Há que se ter atenção nesse sentido.
Mas, em meio a todas essas questões, não podemos nos separar de um ponto fundamental: Estado e sociedade são indissociáveis, e aquele é apenas um instrumento desta para organizar-se. Portanto, é a sociedade quem deve definir os rumos do Estado, e não ser engolida por ele, como acontece constantemente graças à tomada do Estado por elites inescrupulosas e opressoras. A Copa do Mundo deve servir à sociedade brasileira, e os rumos de sua organização devem ser definidos por ela. Essa é a principal função da mídia no que se refere à Copa no Brasil: defender os interesses sociais, observar e denunciar a forma como o povo tem sido apartado sorrateiramente de todo o processo.
Muito interessada em praticar o melhor showrnalismo e em denunciar a corrupção do Estado, a mídia dominante pouco ou nada fala sobre a opressão sofrida pelas camadas sociais historicamente marginalizadas. A limpeza social já caminha pelo Brasil, em um novo boom do velho processo de expulsão da pobreza das regiões centrais para a periferia. Criar um mundo de fantasia nas proximidades dos estádios é o interesse de algumas prefeituras – muitas vezes com a colaboração dos governos estaduais e federal. As UPPs no Rio de Janeiro e as remoções forçadas de comunidades inteiras em São Paulo e em Porto Alegre são exemplos denunciados por setores da blogosfera, mas mesmo esta ainda não percebeu o tamanho do que está acontecendo pelo Brasil, e a cobertura da Copa segue escassa.





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Não gostaria que o governo tenha o interesse pela copa.Nem todos do Brasil gostam de esportes. Isso deveria fica somente para os interessados .Além de tudo o Brasil não vai cobrar impostos da FIFA,vai eliminar muita gente de suas moradias e vai deixar o país endividado. A grécia entrou bem quando fez a copa.Se endividou mais ainda .
E quem sempre paga a conta ? Eike Batista?!
O futebol profissional não deveria chegar ao ponto de ser um meganegócio. Ele é uma simples competição e não deveria ter todo esse formalismo,dinheiro e influencia que tem hoje . E todo o modelo de negocio do futebol,inclusive as propagandas são errados. Até mesmo o povo que não assiste futebol paga pelo futebol quando compra produtos dos anunciantes.
Imagine que eu invento um campeonato de bolinha de gude .Ai eu quero montar um estádio para isso e ganhar milhões.Não tem sentido isso .É (deveria ser )só uma diversão sem muitos formalismo ,mas virou uma doença financeira.
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